Este poema foi escrito em homenagem a um bom amigo vítima de Esclerose Múltipla, doença da qual viria a morrer. Trabalhámos juntos muitos anos e durante todo esse tempo sempre mostrou uma coragem e uma tenacidade de fazer inveja. Hoje recordei-o e a este breve poema.
Pairava sobre a urbe, naquele Verão inclemente, uma canícula que tudo tisnava. As pessoas fugiam da rua evitando o calor abafado, procurando naturalmente os locais mais frescos. Na precedente semana a chuva caíra a rodos tal qual as invernias. Agora aquele Estio… quase de um dia para o outro!
Felício estava sentado no táxi à sombra de uma vetusta árvore no Príncipe Real ouvindo um posto de rádio que só dava música do toni das “caminetes” e de outras cantores de qualidade duvidosa. Enquanto aguardava algum cliente mais imbecil por andar com aquele calor na rua, enviou mensagens à família via uotessape: sábado praia quem vai?
Durante três dias ninguém respondeu ao táxista. Também não insistiu. Admirou-se, todavia, com a mulher Felícia que andava sempre desejosa de enfiar o traseiro na água do mar. O fim de semana aproximava-se e nem uma mensagem. Até que na sexta feira à noite com todos sentados à mesa (uma raridade) Mário Felício comunica: amanhã folga. Bora ah praia?
O pai responde: imbecil perguntei isso na segunda e ninguém ligou patavina.
A mãe ajuda: eu sozinha também namapetece! Mas se formos todos até faço um arrozito de galinha…
Faltava a resposta de Maria Felícia altamente dedicada a enviar umas parvoíces no feicebuque. Finalmente percebeu a questão e respondeu: zanguei-me com a minha namorada. também posso ir.
Só Felício estava varado! Sem as devidas respostas a tempo combinara uma ida à pesca com uns amigos, para os lados de Peniche e não lhe apetecia estar a mudar a coisa. Respondeu: agora não contem comigo… vou pra fora! Desenvencilhem-se...
Não houve mais respostas de ninguém. Dava a ideia de que a praia… já era. Entretanto a canícula viera para ficar! As noites eram verdadeiros paraísos tropicais, originando que tanto Maria como Mário saíram logo após o jantar para beberem uns copos com os amigos. No entanto cada um seguira para seu lado, só regressando ambos altas horas da madrugada e quase ao mesmo tempo.
Daí terem-se admirado com o movimento inusitado em casa às seis da manhã! Quando entraram deram de caras com um pai hiper-super-maldisposto. A casa estava uma revolução e a mãe Felícia chorava na cozinha.
Mário pegou no telemóvel quase sem bateria e enviou uma mensagem ao pai:
“O que se passa?”
“Não tens nada com isso, desempecilha daqui e vai “masé” dormir! Que o teu mal é sono.”
“Isso é que não vou… quero saber porque a mãe está a chorar na cozinha”.
A filha Maria Felícia, entretanto, chegara-se perto da mãe e acariciava-a. Depois pegou no telemóvel e perguntou também ao pai: “que fizeste à mãe?”
“Não fiz nada! Ela que me desapareceu com a minha bóia talismã da pesca.”
“Qual… aquela que está no teu porta-chaves no carro?” – perguntou o Mário Felício.
Felício pára, senta-se no meio da tralha que desarrumou e acaba por dizer:
O vetusto elevador subiu lentamente com um ronco os três andares até que deu um solavanco antes de parar. Orlando fez correr as duas portas de lagarta e saiu para o patamar.
À sua frente a porta que sempre fora de acesso restrito. Unicamente os clientes do pai advogado entravam por ali evitando com isso o acesso à casa. À direita a entrada principal, duas meias portas que só se abriam, ambas, quando entrava algum móvel novo e da qual de aproximou devagar.
Defronte da entrada, de chave empunhada temia ou duvidava, nem sabia bem! Temia encontrar uma casa feita em fanicos e duvidava dos seus sentimentos perante o que iria provavelmente reviver. Vinte anos bem medidos o afastavam daquela, que fora durante muitos anos, a sua residência permanente.
Encheu os pulmões de um ar velho e soprou antes de abrir a porta. Finalmente muniu-se de coragem e introduziu a chave na fechadura, tentando rodar. Mas aquela quase nem se moveu. Recordou então aquele truque que o tio um dia lhe ensinara:
- Quando for assim rodas como se fosse para fechar e depois rodas para abrir!
Para a frente como se fosse trancar para logo rodar para abrir. A lingueta cedeu, deu duas voltas e mais o trinco. A porta abriu e um corredor escancarou-se na sua frente. Um odor pestilento entre humidade, bafio e provavelmente ratos derramou-se pelo patamar.
Orlando pegou num lenço e com ele tapou nariz, boca e finalmente deu os primeiros passos para dentro de um andar onde vivera perto de trinta anos.
Ainda sabia onde se encontrava o interruptor da luz, mas este não fez acender candeeiro nenhum.
- Pois… os mortos não pagam contas…
Devagar penetrou no andar. Era um daqueles apartamentos antigos e imensos com inúmeras divisões, algumas enormes outras mais pequenas, mas quase todas ligadas entre si. Ao meio um corredor para onde desembocavam também os quartos e salas. Assim que se entrava havia à direita um pequeno corredor que dava para a cozinha e a outro corredor que dava acesso à casa de banho e outras divisões.
Ligou a lanterna do telemóvel para ter alguma luz. A primeira coisa que viu foi uma enorme ratazana que calmamente ratava o que restava da passadeira que tapara em tempos o chão do corredor de madeira. Bateu com o pé e o roedor desapareceu do longo espaço. Este apresentava ainda as mesmas velhas mesas de encostar em meia lua e todas elas encimadas por espelhos. No tecto umas lanternas de vidro. Ao fundo uma velha credência onde ainda repousava um velho telefone de baquelite.
Lentamente penetrou mais no corredor e abriu a primeira porta à sua esquerda. Era uma pequena sala de estar atafulhada de mobília. Duas senhorinhas aos cantos, quadros velhos de imagens de pintores clássicos, uma mesa com um bonito tampo em pedra negra e um candeeiro de porcelana também com muitos anos.
Aproximou-se da janela e fez correr os cortinados com cuidado. A luz do dia entrou na pequena sala tornando-se mais acolhedora e dando a perceber a decadência do espaço. Por fim a vidraça… segurou no fecho e rodou-o. Este parecia perro, mas com um pequeno esforço acedeu.
O ar frio daquela manhã entrou na divisão e substituiu o odor pestilento da humidade. Rodou nos calcanhares e ficou na dúvida para que lado ir. Quase sem perceber esboçou um sorriso pelas recordações que aquele apartamento lhe trazia. Tanta correria, tanto grito das empregadas a quem atentava os dias... até que começou a atentar as noites!
Decidiu caminhar por entre móveis, abrindo janelas e reposteiros bafientos e velhos. A luz cinzenta foi invadindo o apartamento dando um pouco de cor a um lugar agora triste e abandonado.
Foi deambulando por entre salas e quartos, camas e sofás até chegar à enorme sala das refeições. Também aqui deixou que a luz plúmbea alegrasse minimamente o recinto. Na parede principal aquela cristaleira enorme recheada de loiça velha como a vida e que fora herança de um tio avô de origem inglesa, exposta por detrás de uns vidro baços.
No tecto o lustre imenso havia perdido o seu brilhantismo de outras noites tal era a quantidade de pó que carregava. No topo um piano vertical Erard em madeira e que a sua mãe adorava tocar. Na mesa no centro da sala destacava-se uma enorme terrina antiga em prata. A acompanhar dois valentes candelabros também de prata mas sem velas. As cadeiras de pau-santo rodeavam a mesa e davam um aspecto organizado. A sala tinha duas janelas altas pelas quais se acedia a um estreito varandim. Entre elas outro móvel onde eram guardados os talheres. Aproximou-se abriu uma das gavetas e logo apareceram facas, garfos, colheres e demais ferramentas todas enegrecidas pela patine.
Nas paredes algumas fotografias que sabiam ser de gente da família, que ele jamais conhecera. Noutro canto um velhíssimo gramofone muito semelhante ao que vira na casa de Gaudi em Barcelona… assim como alguns discos entalados entre o aparelho e a parede.
Abriu uma das gavetas da cristaleira e encontrou toalhas em linho e muitos guardanapos também do mesmo tecido. Pegou num e com perícia bateu com ele no acento de uma cadeira. Uma nuvem de pó envolveu o ar, mas ainda assim suficiente para se sentar. Olhou ao redor e parecia estar numa daquelas divisões de casas senhoriais do século XVIII e XIX.
Era tempo de pensar no que fazer a tudo aquilo. Lembrou-se de um velho amigo que provavelmente o ajudaria a desfazer-se da tralha. Procurou no telemóvel o número e quando o achou ligou-lhe:
- Viva Orlando, há quanto tempo!
- Bom dia Noé! Desculpa a hora quase madrugadora…
- Estás tonto… Pensas que é com o corpo na cama que ganho a vida?
- Imagino que não…
- Conta-me… estás ainda em Barcelona?
- Estou… mas hoje estou por cá!
- Ena, boa… temos de ir almoçar…
- Proponho-te algo melhor… Tu ainda andas no negócio das velharias e antiguidades?
. Ando porquê? Tens algo em mente para comprar.
- Não… Tenho para vender.
- Para vender? Mas o que tens?
- O recheio duma casa!
- Ui… isso pode ser interessante. De quem é a casa?
- Bom… - suspendeu o diálogo – agora é minha! Mas foi dos meus pais!
- Qual? Aquele apartamento enorme…
Nem o deixou terminar:
- Esse mesmo. Está cheio que nem um ovo…
- Ok. Espera aí que tenho de ver umas coisas… mas posso adiar para mais tarde. Olha vou já para aí. Ainda é no terceiro andar?
- É mesmo… tens boa memória. Mas não toques à campainha porque eu vou deixar a porta encostada…
- Fixe meu, vou já para aí!
Ainda não havia decorrido meia hora quando Orlando começou a ouvir passos no corredor. Deixou-se ficar naquele que fora o seu quarto durante tantos anos.
- Oi Orlando, onde estás?
- Do lado contrário à entrada. No meu antigo quarto!
Noé entrou e olhou em redor e foi dizendo:
- Xiiii, já não me lembrava como isto era…
Aproximaram-se ambos e deram um forte abraço. Orlando convidou:
- Eh pá senta-te que temos de falar sobre tudo o que aqui está - e fez um gesto largo a indicar toda a casa.
- Então vamos lá ver o que há de interessante…
Ergueram-se ambos e Orlando levou-o logo à sala de jantar onde sabia que encontraria as melhores coisas. Aí entrado Noé assobiou:
- Eh pá! Tens aqui coisas muito valiosas…
Orlando continuou no mesmo sentido de tudo vender:
- Como costumas fazer? Peça a peça ou tudo por atacado?
O amigo entretinha-se a abrir a cristeleira para ver as loiças. Depois foi ao móvel dos talheres para logo a seguir abrir a tampa do piano e premiu algumas teclas. Logo saiu um som límpido que fez com que o antiquário fizesse um jeito de aprovação. Só depois de muito pesquisar é que respondeu ao amigo.
- Desculpa não te ter respondido mas estava vidrado nestas coisas… Há aqui muita coisa boa…
- Tens interesse nas coisas?
- Se tenho companheiro. Mas contigo não faço o que costumo…
- Então?
- Queres libertar-te de tudo?
- Claro Noé! Repara… vivo em Barcelona onde sou professor numa Universidade e não estou para levar esta tralha para lá!
- Normalmente quando me contactam ofereço um valor apetitoso, mas muito abaixo da realidade e levo tudo. Na maioria das vezes em duas ou três peças faço o dinheiro investido… Depois tudo o que vender é lucro.
- Não quero saber… Levas tudo isto e pagas-me o que achares justo?
- Mas tu não queres nada daqui?
- Nada!
- Nem o piano? Este vale uma pipa de massa. Ainda por cima a tocar…
- Escuta Noé… Não preciso de nada disto… Leva, vendes e depois dás-me o dinheiro!
- Deixa-me ver o resto da casa.
- Está à vontade…
Noé percorreu todas as divisões, chegando a abrir mais janelas. Orlando ficou na sala a ver o movimento na rua de braços cruzados enquanto de vez em quando escutava um assobio. Finalmente Noé voltou à sala e perante o que vira insistiu:
- Caneco… há aqui muita coisa fantástica.
- Calculo, mas percebo pouco disso!
- Já agora só um pormenor… tu és o único herdeiro, certo?
- O único… ainda não fiz a habilitação de herdeiros, mas como sabes não tenho irmãos e os meus tios nunca tiveram filhos.
- Ok… mas trata disso… Se ficar com isto não quero ter problemas com o fisco ou a justiça.
- Claro… farei tudo como deve ser!
- Quem foi o último a morrer?
- O meu tio Domingos!
- E tudo isto era de quem antes?
- Ora… dos meus avós e depois do meu pai e do meu tio que sempre aqui viveram.
- Ok! Posso comprar tudo isto, mas só depois das coisas legalmente tratadas!
- Muito bem! Esta tarde vou tentar tratar disso. Queres ver mais alguma coisa?
- Não, não… já vi tudo. Vamos embora?
- Vamos!
Percorreram devagar todas as divisões tendo o cuidado de fecharem todas as janelas e encaminharam-se para a saída. Estava Orlando a fechar a porta quando o elevador parou no andar. Admirados ambos aguardaram quem estava a chegar.
Do elevador saiu uma mulher mais arranjada que bonita e que perante os dois cavalheiros perguntou num sotaque bem brasileiro:
- Oi, bom djia!
- Bom dia – devolveram ambos quase em uníssono.
- Chamo-me Cleide e sou a viúva do Domingos! Esta é a casa dele?
Há um comentador - o S.O.S. - que de vez em quando surge a botar comentário no que eu escrevo. Desta vez apanhei-o na curva e convidei-o também a desafiar-me.
Propôs então o seguinte tema: a criança, as outras crianças e o mundo!
Ora todos sabemos que as crianças são o melhor que o Mundo tem. E assim dedico este texto. neste dia especial dedicado à criança, a todas as meninas e meninos que por qualquer razão não conheceram os seus antecessores!
Naquela manhã acordou as filhas de forma original!
Principiou pela mais velha, dando-lhe um beijo na face quente. Mia acordou devagar e admirou-se com a presença do pai. Espreguiçou-se para depois…
- Olá pai… Bom dia… Que se passa?
- Bom dia Mia. Eis o meu presente do dia da criança.
Entregou-lhe um embrulho que a menina de nove anos depressa percebeu ser um livro.
- Olha mais uma aventura do Milo! Obrigada… paizinho!
Um abraço apertado envolveu-os. David deixou que as lágrimas caíssem e a menina percebendo o pai a chorar perguntou:
- Tens saudades da mãe?
- Tenho querida Mia… Tenho muitas!
Mas a menina era uma criança resiliente e corajosa. Sem mais, levantou-se da cama, foi para a casa de banhou onde se vestiu. Finalmente pegou na mão do pai e levou-o dali para fora.
- Vamos acordar as minhas irmãs.
O jovem pai ergueu-se e seguiu a filha para a porta ao lado onde as irmãs mais novas dormiam ainda. Abriram devagar os estores, deixando que o sol matinal fosse penetrando no quarto. A primeira a acordar foi a Lia, a mais nova com quase cinco anos.
Ainda muito ensonada não percebeu porque estaria a ser acordada pelo pai e irmã mais velha. O pai aproximou-me e pegando nela ao colo sentou-a nas suas pernas e beijando-a disse:
- Hoje é dia da criança, das crianças e do Mundo! Porque nem imagino o que seria desta Universo sem as crianças. Assim tens aqui uma prenda deste dia!
A menina recebeu o embrulho e depois de perceber que era um livro atirou-o para o lado para ir meter-se com a irmã mais velha.
Entretanto Noa iniciava a acordar e vendo ali o pai alegrou-se com a sua presença!
- Papá!
- Olá Noa! Bom dia minha querida!
Mostrando-lhe algo embrulhado foi anunciando:
- Um dia da Criança feliz é o que te desejo – e entregou um pequeno embrulho donde se destacava o enorme laçarote.
Num ápice a filha do meio rasgou o embrulho dando um grito de alegria:
- Um puzzle papá! Como sabias?
David riu-se e respondeu:
- Um pai tem de saber estas coisas…
Enquanto Lia procurou o livro da irmã mais velha para ver as gravuras, provavelmente mais interessantes que as do seu livro, Noa ia tentando abrir a caixa com o quebra-cabeças.
Devagarinho David afastou-se do quarto das mais novas e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço das filhas.
Depois chamou-as! Apareceram vestidas, mas Lia vinha ainda descalça.
Mais uns minutos e estavam todos à mesa a comer os cereais que cada uma gostava. Foi Mia quem abriu as conversações:
- Também temos de ir à escola, hoje?
- Sem dúvida!
- Ohhhhh!
- E a mamã não vem ter connosco? - perguntou Noa.
Neste momento David sentiu uma tristeza profunda a invadir-lhe o coração. Havia ano e meio que Helena morrera num estúpido acidente de viação e os deixara aos quatro entregues a um destino… sem mãe! Respirou fundo e respondeu à filha de sete anos:
- O papá já te contou que a mamã foi fazer uma viagem muuuuuuuuuuuuuuuuuuuito longa. Não sabemos quando chega ou se alguma vez chegará! Temos de viver por agora os quatro assim… à espera dela!
A mais nova ainda nada dissera, mas conhecendo-a bem David sabia que a pergunta estaria prestes a surgir!
- Papá, a mãe lá onde está consegue ver-me?
David engoliu em seco para depois responder:
- A mãe é agora um anjo a proteger-nos!
- Do quê?
- Da tristeza… Portanto hoje mais do que nunca devemos estar felizes e contentes… Para a mamã ficar também feliz!
Mia que acabara de comer, pegou na taça, passou por detrás do pai e disse-lhe em surdina:
- Paizinho… tens de aprender a mentir melhor. São crianças, mas não são idiotas!