Nunca me passou pela cabeça algum dia escrever um soneto. Todavia sempre gostei desse género de poesia que Camões, Bocage e muitos outros poetas lusos dominaram com mestria. Mas enfim há sempre uma primeira vez para tudo. E assim aventurei-me a rabiscar umas palavras, criando um soneto. Não é perfeito, mas foi o primeiro! Entretanto um agradecimento devido à Maria João pelas (boas) dicas!
Foram todos à bola naquela tarde: Felícia, Felício, Maria Felícia e Mário Felício.
Todos de telemóvel em punho. Só podiam!
Passaram os primeiros seguranças mostrando os écrans! Entraram seguidamente no edifício, mas aqui foi necessário mostrar outra vez o equipamento onde estavam os bilhetes de entrada.
Após diversas tentativas lá conseguiram todos passar as cancelas e principiaram a subir a extensa escada.
Muitos adeptos aos gritos e a cantar enquanto escalavam andares. A família subia calmamente com os olhos pregados nos monitores do telemóvel. Finalmente no cimo respiraram fundo e penetraram na larga porta que daria acesso às bancadas.
Mário Felício escreve entretanto no uotessape : vou à cb!
Maria Felícia, a irmã: fazer?
Mário: regar as flores, estúpida!
Maria: imbecil!
Felício entra na conversa: calem-se os dois faxavor e tu menino vai à cb!
Felícia mais comedida escreve: ó homem deixa lá os miúdos!
Procuram os lugares, sobem mais escadas, atravessam metade da bancada e finalmente sentam-se.
O estádio ainda tem poucos espectadores… Felício redige: isto hoje não enche!
Mário já sentado devolve: quero lá saber! E fixa-se num jogo que tem no telemóvel!
Principia o desafio no relvado! As vozes dos adeptos soam pelo estádio numa algazarra fantástica. Agitam-se cachecóis, ecoam cânticos de incentivo à equipa, assobia-se o adversário, maltrata-se a família do árbitro até à décima geração!
Felícia via telemóvel: isto é sempre assim?
Felício: claro!
Mário grita sozinho: Gooooooolo!
Maria: onde?
Mário devolve: aqui no meu jogo.
Maria: não estás a ver a bola no relvado?
Mário: não consigo ver neste ecran tão pequeno!
A multidão entretanto berra em uníssono:
- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO!
Há quem dê saltos e abraços. E festeje alegremente o golo conseguido. Felício nem percebe o que está a acontecer pois tem os olhos pregados no ecran do telemóvel. Assim como os restantes elementos da família!
O jogo desenvolve-se de forma emotiva no relvado. De súbito Felício salta do lugar e por fim grita:
- GOOOOOOLO!
Ao redor daquela estranha família ninguém percebe o porquê daquele grito. Quiçá o vizinho da fila de trás, que acabou de rever o golo no telemóvel de Felício, consiga perceber!
A Olga Cardoso Pinto do blogue A cor da escrita é uma escritora, pintora, ilustradora de mão cheia! Tudo o que sai daquelas mãos sai... perfeito. Nem imagino onde um dia irá parar esta minha amiga que em boa-hora conheci neste universo.
Até o desafio que me propôs parece talhado por ela:começar de novo!
Reconheço que não foi fácil esgalhar este texto. Mas imagino que muita gente se reveja neste naco de pobre prosa!
Sentado num enorme e confortável cadeirão Constantino aguardava pacientemente que o recebessem. No enorme corredor via pessoas de papéis na mão a deambular como se estivessem perdidos. Alguns entravam em gabinetes para logo os abandonarem. Muita gente, muitas velocidades, pouca eficácia.
Entretanto a porta à sua frente abriu-se e Constantino percebeu que havia um acordo tal era o forte aperto de mão entre dois homens. De aparente bons fatos, camisas brancas e gravatas discretas iam agitando as mãos, sorrindo e dizendo:
- Aguardo ansiosamente a sua resposta, Dr. Seixas!
- Com certeza Doutor Gomes. Amanhã terá o dinheiro na sua conta.
- Obrigado Doutor, muito obrigado.
Quando o cliente se virou, Constantino percebeu o Vitor um antigo colega de escola, mas nada disse e fez de conta que o não conhecia, deixando-o ir embora como se fosse um estranho. Entretanto a porta do gabinete do tal doutor Seixas voltou a fechar-se reabrindo passados longos cinco minutos. Por fim:
- Senhor Constantino Leote!
- Sou eu!
. Olá muito bom dia - e estendendo a mão - faça o obséquio de entrar.
A sala era ampla, arejada, com uma enorme secretária atapetada de papéis e pastas. Da janela surgia a bela luz da manhã.
- Sente-se!
- Obrigado.
- Então diga-me o que o trouxe cá!
- Bom – tossiu um pouco de forma a aclarar a voz – fui informado pelo Ministério da Agricultura que deveria vir aqui apresentar a minha candidatura…
- A quê? A funcionário do Banco?
- Não senhor, nem pensar. Quero apresentar a minha candidatura ao subsídio de incêndio...
O outro fez-se de novas e respondeu:
- Mas isto é um Banco não é o IFAP…
- Também sei disso, mas necessito de dinheiro para a minha vida! E segundo ouvi, bastará ir ao Banco.
O outro parecia pouco interessado na conversa pois vasculhava uns dossiers. Constantino continuou como se não tivesse percebido:
- Há dois meses perdi tudo num incêndio. Casa, carro, os meus pais que morreram queimados quando tentavam defender os seus bens, muitas cabeças de gado, todas as alfaias, culturas já feitas…
A voz embargou-se, porém concluiu:
- Uma mancha enorme de pinhal…
- Lamento sabê-lo… mas não sei se o poderei ajudar senhor… - procurou o nome no monte de papéis…
- Leote, Constantino Leote!
- Senhor Leote!
- Não pode ou não quer?
- Creia-me que se eu pudesse de bom grado a ajudaria!
- Sabe mentir muito mal…
- Como diz?
- Foi o que escutou…
O jovem levantou-se da cadeira e iniciou a passear pela enorme sala, em passos lentos, mas decididos. Depois:
- Tenho consciência que neste mundo cão onde vivemos os meios justificam os fins… Ou melhor, no meio da miséria em que fiquei alguém há-de ganhar… O Banco por exemplo poderá a ser um deles!
Seixas levantou-se da cadeira pouco satisfeito com o rumo da conversa e colocou-se ao lado de Constantino que parara defronte da larga janela. O cliente continuou:
- Agora reparo que daqui vê-se a serra cinzenta… e no meio dela estava o meu Mundo, a minha vida!
- Mas que quer que eu faça?
Constantino deu um profundo suspiro e desabafou:
- Saí de casa naquela quarta-feira para ir com a minha mulher Mariana a uma consulta de rotina devido à gravidez. Pedi um táxi pois o meu carro avariara e como não tinha dinheiro para o arranjar ficou em casa.
Virou as costas à janela.
- Sou o mais novo de seis irmãos. Todos eles estudaram, formaram-se e trabalham cada um para seu lado. Nem imagino onde porque a maioria nunca mais deu sinal de vida… Provavelmente têm vergonha do seu passado. É normal… Mas eu fiquei, sem medo nem vergonha. Desde sempre acordei de madrugada com o meu pai para o seguir e ajudar na ordenha das ovelhas, no corte do feno, na lavra da terra, enfim no que fosse preciso!
O doutor Seixas voltou a sentar-se agora vivamente interessado na estória.
- Tenho quase 40 anos e nunca soube o que foi férias, fins-de-semana. Porque o gado tem de comer todos os dias. Todos! Mas naquele dia perdi muito mais que família e bens. Perdi muito mais que gado e culturas, floresta ou casa. Perdi essencialmente o direito… ao meu longo passado! Que jamais recuperarei!
- Desculpe interrompe-lo, mas deixe-me perguntar: o que este Banco poderia modificar isso? Não temos esse poder… Nem Deus! De reverter os acontecimentos!
Constantino esboçou um sorriso:
- Eu sei caro Doutor, eu sei. O que realmente necessito é de dinheiro para que possa erguer a minha casa destruída, comprar novas alfaias, mais sementes, gado. Porque nesta altura vivo… da caridade de alguns bons amigos. Mas como diz o povo “a visita ao terceiro dia, enfada!”
De súbito virou-se para o doutor Seixas e continuou:
- Sabe o que me faz lembrar esta minha situação?
- O quê?
- Aqueles que após a descolonização regressaram à Metrópole. Não é do meu tempo nem do seu, mas recordo a minha falecida mãe falar dessa valorosa gente e perguntar como seria começar de novo!
- Mas repito… não depende tudo de mim… Há acima quem decida!
- Eu sei e compreendo! Mas se eu viesse aqui de fato e gravata provavelmente teria mais sorte.
- Nem pensar…
- Então diga-me: foi isso que acordou com o vigarista do Vitor Gomes que saiu daqui antes de mim?
Tenho a este propósito de fazer uma introdução ligeiramente maior do habitual pois a Isabel (ela que me perdoe!) tornou-se numa amiga tão especial que quase a considero uma irmã. Conheci-a através deste caminho de escrita. Primeiro virtualmente, depois... olhos nos olhos. É uma mulher de coração enorme e repleto de beleza. Talvez por isso este texto faça sentido porque tem como base uma estória verdadeira e que se passou com o meu avô paterno.
A frase que me foi lançada neste desafio foi:A beleza está lá dentro...
Longo este texto, ainda assim espero que apreciem!
Arribou ao cume da serra visivelmente extenuado. Após três pesadas léguas preenchidas por trilhos tortos, escuros e irregulares a requererem cuidado equilíbrio percebeu a sua aldeia num cacharolete de casas cinzentas e brancas. Um nevoeiro denso vindo do lado do longe mar aproximava-se lento, húmido e frio, enublando a paisagem.
Penetrou num caminho estreito onde as pedras eram mais traiçoeiras que a névoa daquela madrugada. Trazia consigo um bordão que alguém lhe havia presenteado pelo caminho e cujo apoio parecia fundamental na próxima descida.
Três longos e injustos anos de prisão por um crime que jamais cometera afastaram-no de casa e dos afazeres, da família. Naquele julgamento nem um dos seus amigos se levantou para o inocentar, nem um! E podiam! Uma mágoa que gravara a ferro e fogo para sempre no coração. A aldeia aproximava-se onde ninguém o aguardava. Nem mulher, nem filhos…
Era Outono. O frio viera mais cedo nesse ano e enquanto descia ia percebendo como estaria a azeitona. Verde, muito verde!
Entrou na aldeia vindo de Norte. Não encontrou vivalma até chegar ao barracão onde fora detido naquela estranha manhã de Verão. A dúvida residia em saber quem o teria denunciado! Escapara para aquele povoado havia meia dúzia de anos, mas alguém o denunciara às autoridades. Agora quem?
Lucília acordou repentinamente ao som de um martelo a pregar pregos. Assustada porque não pedira a ninguém tal trabalho, acorreu sorrateira para ver quem se dignava fazer barulho assim tão cedo.
Conheceu o marido pelas costas naquele corpo muito alto e magro. Correu e juntaram-se num longo amplexo que a ausência jamais olvidara.
À mesa houve leite de cabra e café acabado de fazer na velha e viúva cafeteira. Pão negro de centeio e um pedaço de queijo quase rançoso. Muito para dizer entre ambos, mas as palavras pareciam não sair. Uma lágrima esgueirou-se pela face da esposa. Não a escondeu do marido.
Adriano recomeçou a sua vida. Livre da justiça era tempo de dar caminho às suas terras. Meia dúzia de cabeças de gado cresceriam e multiplicar-se-iam. O chão lavrado, as sementeiras feitas, a azeitona finalmente a pintar.
No dia de Todos-os-Santos Adriano foi à missa acompanhado da mulher Lucília. Na igreja repleta toda a aldeia o cumprimentou sem qualquer observação sobre o seu passado. À saída um homem aproximou-se de braços abertos:
- Bom regresso meu sobrinho.
- Viva tio Patrício. Obrigado.
Depois o tio puxou-o para longe dos demais e foi dizendo:
- Adriano, gostes ou não do que vou dizer… fui eu…
- Foi você, o quê?
- Disse às autoridades onde estavas!
Um murro forte no estômago não teria o mesmo efeito que aquelas cruéis palavras. Elogiava a coragem daquele irmão do pai na confissão, mas…
- Porquê meu tio?
Patrício virou as costas ao sobrinho e olhou a paisagem à sua frente. Depois confessou:
- Para de uma vez por todas pudesses ficar livre.
- Livre? Como assim se fui condenado?
- Sim, é verdade! Mas agora já estás livre para poderes sair de casa. Lembras-te como era antes? Nunca saías daqui e agora cumprida, justa ou injustamente, a pena estás livre de tudo e todos.
Não gostou do que ouviu, mas percebera a ideia. Separou-se do tio e procurou a mulher. Nesse mesmo instante alguém lhe tocou novamente braço e virando-se deu de caras com o velho Ataíde, o primeiro patrão que tivera.
- Ora não querem lá ver… o bom do patrão Ataíde!
O idoso sacudiu-lhe a mão num cumprimento fraterno e devolveu:
- Olha o regressado Adriano… o melhor empregado com quem trabalhei!
- Simpatia sua!
- Sabes bem que nunca fui de simpatias. Entretanto tenho algo para te propor…
- Que se passa?
- Conheces bem o Chão da Ribeira, não conheces?
- Muito bem mesmo… trabalhei lá muito!
- Sabes que está à venda?
- Mas aquilo não é seu?
- É! E depois não posso vender?
- Sim, sim… mas admira-me que queira desfazer-se daquilo.
O velho começou a caminhar fugindo das pessoas e Adriano seguiu-o como quem segue o filósofo. Ataíde parecia estranho, já que era sobejamente conhecida a sua imensa energia. O aldeão não ousara questioná-lo. Todavia foi o próprio que desfez o mistério.
- Há semanas que descobri um nascido! Fui a Coimbra ao médico que não me deu grandes esperanças de vida.
O dia era de choques. Primeiro a confissão do tio e agora a doença de Ataíde. Aspirou o ar puro e fresco da manhã outonal e acabou por dizer:
- Vai ser operado?
- Não quero! Não vale a pena… para quê… terei de morrer à mesma.
Sem deixar que Adriano falasse continuou:
- Falei daquela fazenda porque sei que gostas daquele pedaço de terra. Portanto se quiseres comprar… vendo-ta.
De surpresa em surpresa aquela manhã. Regressara a casa havia apenas dois meses e já estava com um negócio entre mãos… O problema é que não teria dinheiro para avançar. Por isso devolveu:
- Não pense que fico com aquilo. Tire daí o sentido. Neste momento mal ganho para a casa. Não fossem uns cabritos que vou vendendo…
- Quanto julgas que quero por aquilo? Para ti serão 40 notas*… Para outros será certamente o dobro!
Num ápice Adriano percebeu que o negócio era muito bom, mas a ausência de dinheiro seria o maior obstáculo. Pedir emprestado poderia ser a solução, mas a quem? Tudo lhe passou pela mente num breve segundo para depois:
- Até quando terei de dar uma resposta?
O outro rodou nos calcanhares e com o dedo indicador espetado no peito de Adriano respondeu:
- Até ao Natal quero uma resposta.
Passou pelo eventual comprador e foi confessando:
- Se estiver vivo nessa altura.
II
A campanha da azeitona já principiara. Parecia que o ano fora a modos que bom já que as frondosas oliveiras estavam bem carregadas. Algo que aprendera na prisão fora a podar convenientemente as árvores. Cada uma tinha uma técnica e altura própria. Dissera-lhe um colega de cela oriundo de Trás-os-Montes que as oliveiras queriam-se baixas. Olhou as suas e percebeu no cimo de uma escada de castanho com 20 degraus havia quem não chegasse ao cimo.
- Pelo Entrudo vêm para baixo – pensou.
Certa noite foi buscar o azeite ao lagar e sem contar encontrou Melchior um velho conhecido e companheiro de labutas e de outros cometimentos.
- Então não querem lá ver que é o bom do Adriano?
Um abraço envolveu-os num gesto para ambos genuíno.
- Adriano sou, bom é que duvido. Não se esqueça que ainda há pouco saí da prisão!
- Quero lá saber disso… Pelo que sei foste o menos culpado e o único condenado!
- Azares da vida. Mas agora estou livre daquilo e faço pela vida.
- Sempre fizeste… - dando-lhe um palmada no ombro.
No momento seguinte Adriano, sabendo dos conhecimentos do amigo, teve uma ideia e perguntou:
- Diga-me lá se souber: onde posso arranjar algum dinheiro?
- Dinheiro?
- Sim para comprar uma fazenda…
- Eh homem… agora assim de repente… - levantou a boina, coçou a calva com o dedo mindinho e a sua enorme e suja unha, para depois dizer – há sempre os Sampaio. Esses têm dinheiro e emprestam a juros. Não sei a como…
- Você conhece-os bem?
- Muito bem!
- Poderemos lá ir um destes dias?
- Claro… com todo o gosto. Mas só depois da azeitona!
- Obviamente. Quando isto acabar – e apontou com o queixo para o sarilho que apertava as ceiras no lagar – passo pela sua casa.
- Fico à espera.
Finda a campanha Adriano montou uma velha mula e partiu para a terra de Melchior. Daqui seguiram ambos para o solar dos Sampaio, gente distinta e acima de tudo com muito dinheiro. Porém o negócio acabou por não se fazer.
No regresso após muito silêncio, Melchior puxou pela conversa:
- Eram muito caros os juros não eram?
- Uns agiotas… Não admira que tenham tanto dinheiro!
- Mas escuta lá, quanto dinheiro precisas, ao certo?
- Quarenta notas!
Melchior assobiou para logo se calar continuando o caminho. Adriano percebeu īque o outro não tinha tanto dinheiro. Depois sossegou o companheiro:
- Deixe não se rale… Se não comprar também não morro!
- Quem é o vendedor?
- O Ataíde.
- Esse? – fazendo uma cara de espanto. – Nunca vi esse tipo vender nada! Hummm! Cheira-me que há burra nas couves.
- Não sei nada… ele só me perguntou se queria comprar o Cão da Ribeira.
- Oh esse pedaço? Isso é muito bom… Tem um conjunto de oliveiras… ui… ui… do melhor.
- Eu sei, eu sei… Trabalhei lá muito quando era mais novo… Muito antes de fugir para aqui definitivamente.
- Então vamos passar por minha casa que tenho lá algo que te pode safar!
- Como assim?
- Aguarda. Deixa-nos chegar e depois te direi.
- Mas preciso de chegar a casa… Tenho ovelhas para ordenhar e as camas das vacas para fazer. E sem luz é impossível - olhou para o poente onde o Sol iniciava a esconder-se por detrás de umas nuvens plúmbeas.
- É rápido Adriano! Estamos quase, quase, como vês!
A estrada descia agora para um conjunto de casas bem arrumadas. Ao redor grandes tapetes de erva viçosa de agrado do gado. Mais afastado um olival de linhas direitas com espaços perfeitos.
Aproximaram-se em passo lento até ficarem defronte de uma grande casa de dois pisos. Mas Melchior continuou contornando a habitação para encontrar da parte de trás um outro edifício que Adriano percebeu ser o estábulo e palheiro. Desmontaram ambos dos seus animais e Melchior dirigiu-se a uma porta fechada. Adriano olhava em redor e gostou da perfeição que via.
- Que beleza…
Melchior deu uma sonora gargalhada e devolveu:
- Qual beleza? Entra.
Penetraram no armazém repleto de pias e talhas de barro. Melchior apontou para elas e comunicou:
- Estão cheias de azeite. Vou vendê-lo e empresto-te o dinheiro! Creio que consigo o suficiente…
O coração de Adriano quase explodiu de emoção. Ainda tentou:
- Nem pense nisso… Está tonto?
- O azeite com muito tempo acaba por rançar. Para que quero eu tanto azeite, diz-me? Vá vai-te embora e compra a fazenda que logo, logo o dinheiro aparece-te em casa!
Adriano aproximou-se do amigo e visivelmente comovido deu-lhe um forte abraço. Depois recuou dois passos e encostando o dedo indicador ao coração do Melchior:
- A beleza está lá dentro está… no seu coração!
Já era noite cerrada quando Adriano entrou em casa assobiando uma música qualquer!
* Antigamente os negócios tinham como base notas de 100 escudos.
A Luísa Faria é uma das minhas assíduas leitoras. E comentadora também. Razões amplamente suficientes para lhe endereçar um convite para me desafiar.
Respondeu-me apresentando uma frase que gosta do diário mais célebre do Mundo: o de Anne Frank. Que diz simplesmente o seguinte:Apesar de tudo eu ainda acredito na bondade humana!
Sarilhos, pensei. E tinha razão. Este mote foi deveras difícil de esgalhar. Gostaria que tivesse ficado bem melhor porque a Luísa merece!
Sentada na paragem do autocarro Raquel aguardava a chegada do transporte para casa enquanto esgalhava frenética umas respostas no telemóvel.
- Olá Raquel!
Assustou-se, tão embrenhava estava no equipamento, para logo a seguir levantar-se e dar um abraço sincero na amiga:
- Oi Carla… que bom. Faz tempo que não nos víamos… Senta-te aí!
E afastou-se para que a jovem se sentasse.
- Está tudo bem contigo?
- Tudo fixolas - respondeu Raquel.
A conversa foi-se desenrolando enquanto esperavam o autocarro. Era uma daquelas manhãs frias de inverno. Para além de uma chuva miudinha, corria também um vento gelado. Raquel era uma jovem moderna com imensas tatuagens em tudo o que era pele, a que juntou uma série de “piercings” de todos os tamanhos e feitios. Não obstante toda esta modernidade era muito boa aluna e tinha como fim académico o curso de medicina. O seu único intuito, confessava secretamente, seria ganhar muito dinheiro. No caminho inverso corria Carla. Pouco dada a modernices optara por seguir uma área que lhe desse acesso a comunicação já que gostaria de ser jornalista. Adorava ler e lançara-se recentemente na escrita…
Surgiu o autocarro que ambas apanharam, mas como vinha quase cheio ficaram em bancos diferentes. Carla pegou na mochila e de dentro retirou um livro que estava a ler. Todavia quando o lugar a seu lado ficou vazio Raquel veio sentar-se.
- Que andas a ler?
- Um livro que andava há muito desejosa! “O Diário de Anne Frank”!
- É sobre quê?
- Sobre uma família judia que na Segunda Guerra teve de se esconder dos alemães!
- Ah já sei! Dizem que é “muita” fixe o livro…
- A estória é fantástica… é um diário permanente das suas peripécias. Acabaria por morrer num campo de concentração com apenas 15 anos.
E mostrou-lhe a foto da contracapa.
- Pouco mais nova que nós! – assumiu Raquel.
- Uma coisa pavorosa…
- Sabes nesse tempo… era assim! - acrescentou Raquel que não largava o telemóvel
- Ela tem frases fantásticas, daquelas que nos deixam sempre a pensar.
A amiga nada disse, entretida como estava.
- Mas aquela que eu prefiro é esta: Apesar de tudo eu ainda acredito na bondade humana”.
- Terá sido mesmo ela a escrever isso?
- Sei lá! Porque não?
- Acho muito rebuscado… e depois… bom… - Raquel calou-se!
O autocarro estava inserido no trânsito da cidade e passava longos minutos parados. Após espreitar pela janela Carla regressou à conversa:
- Muito rebuscado? Não percebo…
- Tu acreditas que ela escreveu isso convicta do que estava a dizer? Claro que não… Escreveu isso porque se sentiu enganada pela tal “bondade humana”.
- Não percebo, nem quero perceber, mas digas o que disseres gosto deste livro.
Num acto quase de fúria Raquel guardou o telemóvel no bolso e virando-se para a antiga colega perguntou:
- Não me venhas dizer que também acreditas nessa coisa da… “bondade?”
- Porquê, não posso?
- Podes, podes, mas assim ainda és mais idiota que eu pensava!
Carla não amuou, sabia que aquela sua amiga gostava de estar a favor quando os outros estavam contra e estar contra quando os outros eram sempre a favor! Por isso deixou-a sem resposta. Por fim sentiu que era chegado o momento de embaraçar a amiga.
- Sabes o que é a bondade, Raquel?
- Sei! É comprares-me uns jeans muita fixes!
- Então para ti bondade é o acto único de receber?
- Vês que me entendes…
- Ok! Mas lamento que uma futura médica diga isso…
- Olha! Porquê?
Ambas perceberam que tinham chegado à paragem e saíram! A chuva continuava a cair mansa e fria. A última questão ficou sem resposta, mas Carla não gostou da postura de Raquel e devolveu:
- Bondade é o acto ou actos, verdadeiramente genuínos, de tornarmos os outros e nós mais felizes.
- Isso é caridade!
- Enganas-te… Com a caridade só os que dão ficam felizes, porque para quem dá, será sempre muito, mas para quem recebe é sempre muito pouco! Com a bondade… não é assim, pois é, acima de tudo, uma benção!
Raquel chegou à porta do prédio e com um ar trocista:
- Tens a bondade de me deixares entrar no prédio?
- Faça favor. Vou andando e vê se te curas, sim? A gente vê-se por aí!
Raquel fechou a porta atrás de si e ficou a rir de Carla. Esta por sua vez pegou no célebre livro e recomeçou a ler enquanto caminhava.
Talvez por isso não percebeu o sinal vermelho dos peões e só ouviu uns travões chiarem!