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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #30

A desafiarem-me

Eu coloquei-me a jeito, ah pois coloquei. Então não é que convidei a Maria João dona de diversos blogues donde destaco poetapokedeusker para também me desafiar? Resultado atirou-me para as mãos este verso: Foi num dia de Verão.

Agora teria de escrever uma quadra com este verso. Bom... o resultado segue abaixo. Quase de certeza que estarei muuuuuuuuuuuuuuuito longe do que esperava esta poetisa, mas quem dá o que tem...

 

A aldeia acordou sobressaltada com tamanho foguetório. Naquela sexta feira, quatro anos depois do último arraial, iniciavam-se as festas em honra de Nossa Senhora da Carreira e de Santo António.

Desde 2020 que a aldeia ansiava por estas festividades. Primeiro fora o covid que durante dois anos proibira a sua realização, para em 2022 a Comissão não conseguir arregimentar gente suficiente para ajudar a erguer a festa.

Foi o pároco Germano que num fim de missa perguntou à assembleia presente quem estaria disponível para ajudar. Poucos ou nenhuns responderam, mas certo é que a partir desse dia muitos deram o seu contributo para erguerem a festa.

Para além da normal cerimónia religiosa agendada para o Domingo com missa e procissão pelas ruas da aldeia, estavam previstos diversos eventos, entre eles os normais bailaricos sempre animados com artistas muito populares.

Dentro dos acontecimentos planeados saudava-se o regresso de um campeonato de chinquilho, havia muito tempo desaparecido das festas, um jogo de futebol entre solteiros e casados, para acabar na tarde de Domingo com um concurso de quadras.

Foi no final da missa dominical e antes da procissão que o Padre avisou que a inscrição para as quadras estaria aberta até perto das 15 horas.

O concurso teria um júri constituído pelo Doutor Frutuoso de Almeida, ilustre escritor, poeta, ensaísta e filho da terra, pela antiga professora primária Dona Palmira da Assunção, pelo presidente da Comissão de Festas o senhor Galvão e finalmente a menina Filomena Ferreira que era estudante finalista de Direito em Coimbra.

À hora aprazada deu-se início ao certame. Enquanto uns passavam para a fase seguinte outros eram excluídos para, no final, se encontrarem apenas dois opositores. Um deles era o Presidente da Junta de Freguesia, Dr. Martins Calado e Plínio Gonçalves um aldeão jovem e que na escola primária até fora colega de Filomena.

A final parecia interessante até porque ninguém imaginaria que o jovem conseguisse chegar tão longe. Estaria tudo em aberto. Começaria Plínio com a quadra à qual o adversário responderia e assim sucessivamente até o júri considerar que havia um vencedor evidente.

O jovem sobe ao palco e olhando sorrateiramente para Filomena inicia:

Foi num dia de Verão

Como verão um dia.

Assim bateu o coração.

Um coração que doía

 

Palmas entusiásticas do público! Resposta veio a seguir de Calado:

 

Não me fale em coração,
 
O meu coração nem fala,
 
Rola a lágrima na mão
 
Porque a dor, essa não cala

Plínio continua:

Dizem que o amor não dói

Mas dói mesmo o amor.

Sei o que ele me corrói,

Que o diga a minha dor!

 

Visivelmente atrapalhado Calado dá uso ao seu apelido… O silêncio na plateia é enorme… aguarda-se que o senhor Presidente diga qualquer coisa.

De súbito levanta-se Filomena e olhando para o antigo colega declama:

Temos já um vencedor

Agora mesmo por fim

Falaste muito em amor

Eu digo Plínio que sim!

Hoje convido eu! #29

A desafiarem-me!

Conhecemo-nos nestas andanças da blogosfera há muito pouco tempo. A Mafalda Carmona (tadita!) foi logo arregimentada para este desafio. Tem no Cotovia e Companhia o seu blogue de grande qualidade e do qual fiquei fiel leitor. Apresentou-me o seguinte tema: Museu a voar!

Tudo isto para dizer que este exercício foi aquele que mais me deixou a cabeça "em água"! Nem recordo quantas versões escrevi. Para de súbito quase num momento de inspiração escrever o texto infra. 

 

A amizade entre Guilherme e Joicelindo, mais conhecido por Jóy, era daquelas cinematográficas portanto… improváveis.

Naquela manhã de Setembro aquando de um intervalo entre aulas Guilherme foi repentinamente cercado por um grupo de rapazes, mais ou menos da idade dele, donde se destacava Jóy. As armas brancas surgiram nas mãos de alguns dos jovens, mas ao invés do que seria de esperar Guilherme manteve a calma e conseguiu ajustar um cerrado diálogo.

- Dá-me o teu casaco? Já!

- Este? Mas é velho… Se quiseres mesmo um destes trago-te um amanhã para o teu número…

Desarmados com a reacção calma de Gui, ficaram a olhar uns para os outros, sem saberem bem o que fazer. O jovem corajoso acabou por acrescentar:

- Está bem de ver que criei nas vossas cabeças uma dúvida. Isso é bom!

Mas houve alguém que tentou chegar-se a Guilherme, mas este com uma palmada rápida defendeu-se, ficando com a arma branca na mão. Depois virou o cabo para o agressor e devolveu-a.

- Vês, ficaste sem arma, não me tocaste e ainda passaste uma vergonha na frente de todos eles.

Foi naquele instante que Guilherme rompeu do grupo e colocou a mochila às costas sem dizer nem mais uma palavra. No dia seguinte mal entrou na escola e vendo Jóy ao longe rodeado da sua troupe aproximou-se dele e atirou-lhe com um saco dizendo:

- Tens aí dentro um casaco igual ao meu. Novo!

Foi a partir deste episódio que iniciou uma amizade entre Jóy e Guilherme.

Joicelindo nascera no seio de uma família cabo-verdiana com muitos irmãos e irmãs, primos e avós. Tudo num andar pequeno num dos bairros mais problemáticos da zona, onde a polícia só entrava com escolta especial!

Guilherme era o inverso. Filho de uma família estupidamente abastada pedira ao pai para entrar na escola pública em vez do colégio privado. Desejava sentir o ambiente de uma escola normal! Fizeram-lhe a vontade colocando-o numa escola conhecida por diversos problemas de disciplina.

Assim que pode sair da escola Jóy foi trabalhar, primeiro como entregador de refeições, mas após um acidente, mudou de ramo e entrou numa grande superfície como arrumador de produtos. Entretanto Gui seguira os estudos e no dia em que finalizou o curso foi comemorar.

Os colegas chamaram-no para uma série de eventos, mas Guilherme tinha outra coisa em mente. Ligou para o amigo:

- Comé’ meu? Qué feito?

- Viva Jóy estás a trabalhar?

- Não! Saí há “bué da tempo”!

- Já jantaste?

- Yep! “Puquê” meu?

- Queria saber se quererias ir comigo comer umas francesinhas?

- Ui, “mene”! Tou nessa!

- Então eu vou-te buscar em frente à loja da ti’Branca, sabes qual é?

- Oh se sei… as “jolas” que lá bebemos – riu-se.

- Ok! Espera lá por mim! E vê se vais arranjado?

- Queres que leve aquele casaco?

- Eheheheheeh! Brincalhão!

Meia hora depois Guilherme rodava devagar, quando o amigo lhe perguntou:

- Onde vamos “mene”?

- Vais comigo, vais bem!

Era noite cerrada, mas Jóy percebeu logo onde se encontrava!

- Onde vamos?

- Tu és chato, safa!

Entraram num edifício e após muitas portas e demasiados seguranças encontraram-se novamente na rua, mas por pouco tempo.

- Sobe – ordenou Guilherme.

Jóy subiu as escadas e entrou. Virou à direita e perante o espectáculo que via só assobiou. Guilherme seguia-o com um sorriso nos lábios. Sentaram-se ambos em dois sofás tão brancos como a neve e foi-lhes servido uma bebida fresca por uma jovem muito bonita. Jóy virou-se para Guilherme e perguntou:

- Esta é uma das francesinhas?

- Tás parvo Jóy! Esta menina é uma empregada!

O jacto particular fez-se à pista e elevou-se no ar com suavidade. Quando pode o cabo-verdiano levantou-se e começou a olhar ao seu redor. Nas pareces havia muitos quadros, a maioria velhos. Uns jarrões chineses seguravam-se dentro de vitrines e no topo um relógio Hermle.

Jocelindo olhava aquilo espantado e perguntou:

- Isto é teu?

- É!

- Parece um museu a voar!

Guilherme riu-se do dito e beberricou a sua bebida. Jóy finalmente perguntou:

- Vamos para França?

- França?

- Às francesinhas?

- Não meu amigo… vamos ao Porto! É lá que se comem as melhores francesinhas!

- Ah! - respondeu Jocelindo desiludido mas sem tirar o olho da esbelta empregada, a quem sorrateiramente piscou o olho, recebendo de volta um brilhante sorriso!

Hoje convido eu! #28

A desafiarem-me!

Dona do blog Estou só a dizer coisas a Tri foi também convidada para me desafiar nesta aventura que já dura há quatro meses. Bom o curioso é que pela primeira vez foi apresentada uma ideia e assim sendo a palavra ou tema não aparece pespegado na prosa. Eis o que me foi lançado: Imagina que és um especialista em minas e armadilhas e tens que desmontar uma bomba-relógio dentro de 5 minutos.

Estão a imaginar não estão que este foi o exercício mais complicado! Ficou assim...

 

Sentiu o vibrar no bolso do seu telefone, mas não atendeu, para logo a seguir vibrar o do trabalho. E este não poderia nunca renunciar já que a sua profissão assim o obrigava.

Eram perto das onze e meia da noite e Justino andava mais a sua equipa de voluntários a distribuir alimentos e alguns agasalhos aos sem-abrigo que encontrava. Atendeu a chamada:

- Boa noite Ferreira que se passa?

- Viva, temos um caso super urgente para ti. Uma ameaça de bomba num centro comercial…

- A esta hora?

- Já enviámos uma equipa técnica para perceber se é verdade ou falso alarme, mas se for certo vamos necessitar de ti!

- OK! Já agora como souberam?

-Chamada anónima!

- Hummm. Reafirmo a minha dúvida: a esta hora?

- Imagino o que estarás a pensar...Mas fica atento!

Justino fez o trejeito com a cara em desacordo, mas respondeu:

- Estou sempre atento.

Meia hora depois recebeu nova chamada de um número que não conhecia:

- Fala Justino, quem fala?

- Boa noite, fala o agente Alcobia. Estamos no centro Comercial Casablanca e encontrámos um pacote estranho com um mostrador de um relógio em contagem decrescente e está envolto em fita de estanho, daquela que se usa nas condutas do ar condicionado.

- Quanto tempo falta?

- O relógio está a marcar 32 minutos…

- Ok. Dentro no máximo um quarto de hora estou aí!

Meteu-se no carro, tirou a sirene do banco de trás e arrancou a toda a velocidade. Porém apanhou uma estrada cortada durante a noite para obras e daí ter que dar uma volta muito maior do que seria devido.

Quando parou a viatura de forma brusca acorreu apressado à mala donde retirou o saco de ferramentas. Havia anos que se especializara em minas e armadilhas e se bem que tivesse pouco trabalho nesta área ainda assim aproveitava as férias para através dumas associações ir para África desmontar minas… Após anos de guerra civil!

Identificou-se e um agente jovem correu à sua frente abrindo o caminho. Chegado ao local já devidamente reservado Justino pediu:

- Saiam todos daqui, fazem favor. Gosto de estar sozinho e evacuem a zona pelo menos uns 100 metros em redor!

Um graduado chegou perto e devolveu:

- Já estamos a fazer isso. O pior é um lar aqui mesmo ao lado… Não sei se conseguiremos evacuar a tempo os idosos já que há muitos acamados.

- Correcto. Pronto… façam o melhor, mas por favor saia daqui!

Sentou-se defronte do pacote e ficou a olhar para ele com desdém! Depois espreitou-o ao seu redor e estranhou tudo aquilo…

O relógio continuava a contagem decrescente. Faltavam precisamente 5 minutos e assim de repente Justino não sabia que fazer! Tinha medo que ao movimentar tudo aquilo explodisse, depois não via qualquer fio ligado ao relógio digital.

Quatro minutos!

Uma porta de vidro separava-o dum corredor e alguém bateu nele. Ergueu-se e numa linguagem quase gestual percebeu que o lar estava já vazio.

- Pelo menos isso!

Abriu a caixa de ferramenta e retirou de lá um canivete que aplicou por debaixo de um pedaço de fita numa tentativa desesperada de chegar mais longe.

Três minutos e meio… O tempo fugia a uma velocidade impressionante. A fita foi saindo, mas houve um naco que ao sair abanou o pacote. Institivamente colocou as mãos por cima para que parasse.

Três minutos… A dúvida que tantas vezes o assaltara passava naquele instante a ser uma certeza. Não iria sair dali vivo. De súbito uma ideia. Pegou no telemóvel buscou um nome e ligou. Enquanto esperava que atendesse via os algarismos a descerem.

Dois minutos e meio! Finalmente:

- Espero que seja algo importante para me estares a ligar a esta hora…

- Cuca. Um pacote completamente envolvido em fita de estanho autocolante, um relógio digital em contagem decrescente… Dá-me uma dica ou vemo-nos no Inferno!

- Bolas Justino… Não há fios à mostra?

- Nada!

- Como está ligado o relógio ao detonador?

- Não sei, não consigo ver, nem sei se posso movimentá-lo…

- Isso NUNCA! Deixa-me pensar!

- Tens dois minutos!

Pior que as palavras trocadas foi o silêncio que se seguiu.

Justino encostou-se à parede de telemóvel em punho. Tinha minuto e meio para reviver toda a sua vida. Olhou para o tecto do edifício como se visse o céu exterior e deixou que uma lágrima fosse serpenteando pela barba de vários dias.

Um minuto…

- Justino… estás aí?

- Estou companheiro, estou!

- Não sei o que te dizer… - a voz era agora grave.

- Cuca vês porque precisávamos de um robô? Quantas vezes te disse?

- Nunca me coube decidir!

- Pois… não são eles que estão aqui!

Trinta segundos.

- A tua mulher e as tuas filhas como estão? – um pergunta para desanuviar.

- A dormir…

Contemplava a descida dos números no relógio enquanto crescia em si uma calma que não imaginava ser possível ter naquelas alturas.

Cá fora os agentes resguardam-se com temor do que pudesse acontecer. A madrugada estava fria e um vento soprava brando, mas suficiente para arrefecer a multidão. Mas naquele instante ninguém tinha frio. No interior um agente tentava a todo o custo desmantelar um eventual engenho explosivo… Pairava naquele espaço um profundo silêncio de morte!

Cinco, quatro, três, dois, um! Bummm!

A explosão ouviu-se na rua, mas nada do que imaginariam. Os polícias olharam uns para ou outros sem saberem bem o que fazer. Foi Ferreira, o chefe de Justino, que largando tudo correu para o interior do Centro Comercial.

Assim que entrou cheirou-lhe a pólvora e o ar estava fechado com uma nuvem branca quase “smog” londrino. Baixou-se e acercou-se do seu agente. Encontrou-o sentado e encostado à parede. A face estava desfigurada não de ferimentos, mas inundada de muitas cores e salpicada de confettis. A caixa havia mesmo rebentado. De lá saíra entre muitos papéis coloridos, saltara tinta e serpentinas. Mas o pior estava numa pequena bandeira branca com o símbolo do clube “Os Belenenses” do qual Justino era fervoroso adepto a um canto e no meio uma simples frase: “Parabéns!”.

Hoje convido eu! #27

A desafiarem-me!

Conhecemo-nos destas andanças da blogosfera há pouco tempo. Alien escreve no Alien's Home e tem sempre muita graça no que escreve. Convidei-a a desafiar-me e ela apresentou o seguinte desafio: ser alienígena!

E pronto eis infra o que escrevi!

 

Assim que Pedro e Ana tiveram a confirmação da gravidez, mergulharam num mar de livros sobre crianças.

Foram horas, dias, semanas a tentar perceber como seria uma criança nas suas vidas. Já bem perto do final da gravidez um velho amigo dir-lhes-ia: para quê procurarem respostas para perguntas que ainda não têm?

Depois explicar-lhes-ia que cada criança é um ser diferente dos demais e com reacções provavelmente muito diferentes daquelas que havia lido.

Foi deste modo que o casal acabou por colocar os livros de lado e esperar serenamente o parto.

A criança nasceria numa tarde de forte canícula e que tudo abrasava!

- É um menino Doutor Pedro – comunicou a enfermeira baixa e roliça, todavia simpática.

- Um rapaz, é um rapaz!

Porém a alegria desse momento durou pouco já que um mês depois pai e mãe eram autênticos “zombies” devido essencialmente às noites mal dormidas. Nos livros falava-se muito dos sonos trocados e outras imbecilidades, mas estavam muito longe da realidade.

Os pais cedo perceberam da enorme traquinice da criança. Ao fim de correrem alguns médicos houve um que falou do síndrome da hiperatividade. Receitou ritalina, mas os comprimidos não fizeram qualquer efeito.

Desde que Gaspar nascera que buscavam um médico que os ajudassem a lidar com uma criança que nunca parava. Não era somente traquinice, mas ia muito para além disso. A hiperactividade poderia ser uma explicação, mas mesmo as crianças afectadas por este problema conseguiam de vez quando sossegar. Algo que não acontecia com o filho.

Houve quem sugerisse uma clínica especializada neste tipo de comportamentos, mas logo Ana e Pedro imaginaram que o estabelecimento seria uma espécie de hospício. Algo que não estava nos seus planos.

Viviam tristes, amargurados acima de tudo porque a criança tinha dificuldades em lidar com as outras crianças. Houve mesmo uma mãe que referindo-se a rapazito disse: até parece um atrasado mental. Algo que ofendeu sobremaneira os martirizados pais.

Mas uma noite enquanto tentavam descansar foram invadidos por uma luz tão forte que quase parecia o Sol. O casal acabou por desmaiar com a luz e acima de tudo com as vibrações que sentiram por todo o corpo.

Quando acordaram já era dia. Sem se lembrarem do que tinha acontecido durante a noite admiraram-se de estarem juntos a dormir, algo que raramente acontecia desde o nascimento do filho. Correram para o quarto e encontraram Gaspar a dormir sossegadamente. Olharam um para o outro e nem ousaram acordar a criança.

Iam a fechar a porta do quarto quando escutaram:

- Mãe, pai, estou curado!

Os pais assustaram-se com aquela conversa e aproximando-se foram conversando:

- Bom dia meu querido! – cumprimentou a mãe.

- Mãe… estou curado da minha doença de não estar quieto…

- Como sabes?

- Porque esta noite recebi uma visita de umas pessoas estranhas.

- Visita? Quem é que esteve aqui?

- Mãe, não tenhas medo… Foi um ser alienígena que aqui esteve e me tirou toda a energia que tinha a mais. Foi o que ele disse!

A mãe olhou o pai e abanou a cabeça pensando que estava mais doida do que supunha. Por fim deu as mãos ao filho e perguntou:

- Queres ir tomar o pequeno almoço?

- Sim mãe… Estou cheio de fome!

- E o que queres para hoje? Cereais ou pão torrado?

- Hummm. Talvez não! Prefiro uma caixa de parafusos que o pai tem na oficina, acompanhado com um copinho de óleo da máquina de costura! E umas porcas daquelas ferrugentas!

Os pais voltaram a desmaiar!

Os Felícios!

Resposta a este convite da Ana

Estão todos em casa. Estranhamente!

A mãe Felícia ultima o jantar na cozinha. Fritas umas marmotas já meio rançosas que encontrou no fundo da arca congeladora. Conseguiu ler somente o ano da validade: 2003! Entretanto o arroz de tomate e pimentos já está quase pronto. Falta chamar o pessoal para a mesa.

O pai Felício vê as últimas novidades na CMTV (Cubo Mágico Televisão) sobre o record mundial de um mongol que conseguiu resolver um dilema do cubo só com os pés. Como bom táxista que é repete as notícias comentando-as ao mesmo tempo. Só que ninguém o escuta!

Maria Felícia foi para o quarto estudar, disse ela! Na verdade está há uma hora nas redes sociais com algumas colegas da escola a desancar nos professores devido às más notas que teve em matemática. Estudasses disse-lhe a professora! Filha da mãe, escreveu no feicebuque.

No outro quarto Mário Felício de consola nas unhas vai escrevendo apressadamente devido a um já inanarrável "Call of Duty". O problema é que o jogador do Burkina-Fasso não sabe inglês e faz tudo ao contrário. Depois de um dia a entregar comida de motorizada pela cidade só lhe faltava um tipo destes...

Finalmente o jantar está pronto. Felícia, a mãe, pega do telemóvel vai ao "uotessape" e envia para o grupo "calões" a seguinte mensagem: janta na mesa!

São oito da noite! Felício no intervalo antes do telejornal percebe movimentação na cozinha ao mesmo tempo que o telefone-mais-esperto-que-o-dono dá sinal.

Contrariado por não ver o início das notícias que são sempre mirabolantes, entra na cozinha enovoada dos vapores dos fritos e senta-se à mesa! A garrafa de vinho à sua frente está quase cheia e despeja para um enorme copo uma quantidade generosa de vinho tinto.

Chega Maria Felícia de olhos presos no rectângulo que poisa ao lado do prato, desdobra o guardanapo e enche o copo com uma bebida preta e borbulhosa, de tal maneira que extravasa o recipiente sujando a toalha. Tudo isto sem desviar o olhar.

Falta Mário Felício. Mas esse é costume chegar à mesa tarde e a más horas. Aparece desta vez a tempo com ar esbaforido. Senta-se e começa a servir-se do arroz... Todos sabem que ele odeia sopa! 

O pai vai ao aparelho telefónico e pede sal à mulher que está sentada a seu lado. O filho no outro lado da mesa de 78 centímetros de largura pergunta a todos quem fez o jantar porque o peixe não se pode comer: sabe a fénico!

A mãe lê a mensagem e responde: vou chorar! E levanta-se da mesa para ir a qualquer lado.

Maria Felícia continua a trocar mensagens com alguém. E não parece nada feliz!
De súbito Mário Felício ergue-se com estrondo da mesa e atira o telemóvel para o chão estilhaçando-se em mil pedaços.

Todos olham para ele aterrorizados! Como foi possível aquela atitude, questionam-se... E agora como irá ser? O que terá acontecido?

- ACABOU-SE A BATERIA! - grita o entregador da empresa "Toma e eats".

A mãe Felícia pergunta aos outros: - Ouviram isto?

A filha Maria Felícia responde: - Eu escutei. O que terá sido?

O pai Felício abana a cabeça negativamente e responde: - São os esgotos!

O filho Mário Felício já saiu. Certamente deve ter ido comprar um telemóvel novo!

Hoje convido eu! #26

A desafiarem-me!

Agora aproveito todos os que aqui aparecem para os convidar a desafiarem-me. Desta vez calhou à Genny ser a ilustre desafiadora. Dona dos blogues Genny e Retalhos de sonhos espaços que eu não conhecia, esta bloguer atirou para cima da minha mesa de trabalho a palavra: ressuscitar!

Bom o tema é bom, mas creio que com aquilo que escrevi estraguei tudo! Digam lá o que acham!

 

Efigénio andava há alguns dias a olhar para a horta. Esta era agora um tapete verde de ervas daninhas onde os cardos cresciam em profusão!

- Tenho de cavar aquilo sem falta!

Mas faltava-lhe coragem. Havia algumas semanas que sentia que o seu corpo não era mais o mesmo. Era certo que os setenta anos também contribuíam para o mal-estar geral, mas tinha consciência que havia algo… diferente. Não sabia o quê!

Desde que Alda falecera, havia oito meses, que Efigénio se tornara mais… preguiçoso. Todavia de vez em quando o espírito libertava-se da angústia da solidão e era ve-lo de enxada na mão a amanhar o pedaço de terra, atrás da casa.

Naquela manhã fresca decidiu dar conta da erva para plantar uns tomateiros. Pegou na “caneta de dois aparos” como costumava dizer e iniciou calmamente a ferir a terra negra. Quando se sentia mais fatigado, parava! Para regressar sempre com mais vigor. O Sol batia agora forte na lâmina da enxada e Efigénio parecia não querer parar.

Uma dor surgiu repentinamente no peito quase não o deixando respirar. A cabeça parecia um carrocel e largando a alfaia caminhou devagar e sentou-se à sombra. Sentiu-se ligeiramente melhor, bebeu um pouco de água mole e por ali ficou sossegado.

Quando acordou uma luz forte incidia na sua face. Conseguiu escutar:

- Já o temos, já o temos!

Não percebeu e desligou uma vez mais!

Acordou rodeado de equipamentos, olhou em redor tanto quanto conseguia perceber! Passado um pedaço de tempo que ele não soube definir surgiu uma enfermeira.

- Boa tarde senhor Efigénio… Como se sente?

Tentou falar, mas não conseguiu. Finalmente:

- Onde estou?

- No hospital! Não se lembra?

Negou com a cabeça. Ergueu-se ligeiramente para melhor se posicionar na cama quando reparou que a jovem enfermeira descuidara-se ao vestir a bata alva e imaculada, deixando antever mais do que provavelmente desejaria. Não obstante a idade e o local, Efigénio ainda não era cego ficando em silêncio a contemplar a paisagem… feminina!

- Escapou de boa – continuou a enfermeira enquanto retirava uns dados dos monitores e apontava num equipamento electrónico.

O doente parecia sorrir. A enfermeira reparou naquele ar de matreira felicidade do enfermo e ainda sem perceber o porquê, acrescentou:

- Está contente de ter escapado à morte? Olhe que esteve mais para lá do que para cá! Teve muita sorte…

O idoso não tirava os olhos da jovem, até que disse:

- Obrigado por me fazerem ressuscitar…

A enfermeira sorriu, enternecida. Ele terminou:

- Agora posso morrer definitivamente, porque já vi… o Céu!

Hoje convido eu! #25

Batalhámos juntos nos desafios dos Pássaros (lembram-se?). Depois este desafio terminou e pouco mais soube dela. Um destes dias a Alexandra do Blog de Algo surgiu destacada. Fiquei tão contente por a reler que a convidei logo a desafiar-me. Pronto... aceitou com: primeiras impressões.

Provavelmente gostariam de ler outra coisa, mas sabem que aqui o certo é... ser sempre incerto!

 

Sempre que passava por ela lançava-lhe aquele olhar fortuito, tentando o mais possível que ninguém percebesse a gulodice no olhar.

Havia alguns dias que chegara à empresa, mas ainda não tivera nem oportunidade nem ensejo de se aproximar dela. Bem… para dizer a verdade ensejo tivera, mas ainda estava longe de se aproximar dela.

Achava-a bonita. Desconhecia, no entanto, o pensamento dos seus colegas. Havia coisas que ele evitava falar com o restante pessoal, se bem já tivesse escutado de alguns, elogiosas referências.

Andou dias naquele receio de ser descoberto. O receio era tal que se visse algum colega, com quem necessitava falar, no gabinete com ela afastava-se apressado não fosse alguém descobrir.

Certa noite em casa estendido no sofá lembrou-se de lhe escrever qualquer coisa. Levantou-se célere antes que a vontade passasse, pegou numa folha A4 que tinha ali à mão e foi escrevendo umas frases. Poderia tê-lo feito no seu portátil, mas preferiu esgalhar as primeiras palavras numa folha branca.

Escreveu um texto simples para logo a seguir riscar. Depois elaborou nova frase e releu. Gostou mais que da primeira, mas ainda assim pareceu-lhe pouco. Foi retocando a prosa acrescentando algumas coisas, apagando outras até considerar aquele naco de texto razoável.

Fez um trejeito com a boca imaginando o dia seguinte e passou a limpo para um processador de texto.

Acordou cedo, arranjou-se, comeu com calma e antes de sair de casa buscou nos bolsos a carteira, telemóvel, chaves do carro. Tudo conferido ei-lo a caminho do escritório.

Antes de mais… o café! Dois dedos de conversa com os outros colegas para então voltar à sua secretária e daí dar início àquela aventura.

De repente tocou o telefone e ele não pode deixar de atender. A conversa foi longa e assim que desligou levantou-se da secretária quando um colega perguntou:

- Alguém sabe de quem são estes documentos? Encontrei-os abandonados...

Corou instantaneamente para logo pegar nos papéis e responder:

- São meus! São as minhas primeiras impressões na nova impressora!