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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #19

A desafiarem-me!

Desta vez convidei o Vagueando do blogue Generalidades para me desafiar. Respondeu rapidamente ao meu convite apresentando a palavra: anemia.

Ui pensei eu... E agora? Agora... é só lerem o que segue. Não sei se corresponde ao solicitado, mas como aqui não há regras... Mas tive de puxar pelo bestunto!

 

Entrou na estrada de terra batida bem devagar e foi percorrendo o caminho até ao largo espaçoso que servia de estacionamento. Parou o veículo, desligou e saiu.

O vento soprava do lado do mar que ele podia ver na sua anilada plenitude. Avançou uns passos até à cerca de madeira para perceber como no fundo da falésia o mar sovava as rochas negras. A espuma branca desvanecia-se com outra onda, mas aquele vaivém tinha a sua beleza.

Aspirou o ar marítimo para depois retirar do bolso do casaco um envelope donde descobriu um papel. Desdobrou-o, foi lendo para de vez em quando olhar o horizonte.

Dobrou a carta e enfiou-a no bolso do casaco. Depois virou-se e reparou que bem encostado ao seu carro encontrava-se alguém. Todos os pensamentos foram desviados para a visita e de forma decidida aproximou-se.

Era um homem e teria mais ou menos a sua idade, vestindo uma roupa ligeira. Tinha o cabelo claro e sorria para ele.

- Bom dia, necessita de alguma coisa?

- Bom dia… Eu não preciso de nada. Talvez o cavalheiro…

- Eu? Que eu me lembre… não nos conhecemos.

- Verdade! Mas independentemente de não nos conhecermos até este momento eu sei tudo sobre si… Rigorosamente tudo.

Olhou em redor à espera de perceber alguém conhecido e vendo-se sozinho com aquele personagem, desconfiou.

- Há aqui algo que não entendo. Como pode saber algo sobre mim se nunca nos cruzámos.

- Oiça... vou direito ao assunto. Esse papel que carrega no bolso é uma choruda dívida que tem para uma Já lhe entidade financeira e que o estará a ameaçar!

- Mas… mas… como sabe?

- Já lhe disse... sei tudo! Sei também que está na dúvida entre assumir o problema definitivamente ou acabar de vez com ele atirando-se da falésia…

O outro olhou para a paisagem marítima e devolveu:

- Não sabe nada de mim. Está somente a especular… Ainda gostaria de saber qual o seu intuito nesta farsa.

A visita encostou-se ainda mais ao carro e olhando para o dono acrescentou sem dar qualquer resposta, continuou:

- Não interessa saber como chegou a este ponto da sua vida. O seu passado, se quiser, escreva-o num caderno para que um dia recorde como foi… Agora oiça-me como deve ser.

O outro esbracejou, mas nada disse.

- A sua vida começou como começam tantas doenças, por exemplo, de sangue: uma ligeira anemia! É como esta sua! Encontra-se anémico e economicamente debilitado.

O outro abanava a cabeço num consentimento.

- No fundo você estudou na universidade, teve fantásticos professores, mas não aprendeu nada, sabe? É o mal das nossas escolas superiores. Bom… mas este é outro problema. Entretanto há que pensar em resolver a situação…

- Mas quem é você para me dizer estas coisas? Que mais sabe da minha vida? Quem lhe pagou para isto?

- Calma, calma, calma… Antes de si muitos vieram aqui despedir-se da vida… mas eu que ando sempre por perto acabo por os dissuadir de tal decisão.

- Como é que sabe que estou falido, que devo dinheiro? Explique-me…

- Posso explicar! Porém deixe-me acabar o meu raciocínio… Como disse usei a expressão anemia para classificar a sua situação financeira. Porque é disso que se trata. O caríssimo gasta mais que recebe, paga as dívidas mais antigas criando outras mais recentes… e maiores!

O jovem atormentado baixou-se e tapou a cabeça com ambos os braços num assumido acto de desespero.

- Até parece um antigo primeiro ministro que disse publicamente que as dívidas do país não se pagavam… Mas você vai resolver isso. E já! Por que não posso admitir que um jovem se perca só porque não teve cabeça…

- Desculpe, mas explique-me de uma vez por todas quem é o senhor?

O outro sorriu mostrando uns dentes bem tratados e apontou para uma tabuleta à entrada do parque de estacionamento. O condutor quase correu até chegar ao local.

- Vá, leia em voz alta para eu saber que você percebeu…

- Largo da consciência!

- Ora viu… Tomara eu que muitos dos nossos políticos por aqui parassem. Infelizmente nunca aqui nenhum parou!