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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #13

A desafiarem-me!

A MJP tem dois fantásticos blogues: o "Liberdade aos 42" e "Na sombra da luz". Uma amizade que não sendo longa no tempo, é nas raízes. Convidada também a desafiar-me lançou a palavra liberdade!

Eis mais um tema forte e sobre o qual escrevi o texto infra. Uma nota final para a estória que não sendo tal qual como foi descrita tem por base factos verídicos!

 

Com passo lento foi atravessando as inúmeras portas de grades. Só se abria uma quando a anterior se fechava. Atrás de si um guarda armado acompanhava-o em silêncio pelos corredores escuros, húmidos e tristes.

Surgiu finalmente o enorme portão de ferro tendo a meio o recorte de uma pequena porta. Após a derradeira grade estar fechada um dos guardas do portão abriu o recorte mostrando a luminosidade daquela manhã.

Entretanto aproximou-se do último guarda e tal como lhe haviam dito entregou-lhe um papel. Este pegou na folha e após confirmação retirou as algemas e disse:

- Está conforme Ivo… Pode sair! É um homem livre.

Passou a porta e entrou na rua deserta. Um par de viaturas estavam estacionadas num dos lados. Olhou o céu azul, recebeu o sol na cara e colocando a trouxa ao ombro partiu a pé já que ninguém o esperava à porta do estabelecimento prisional onde vivera os últimos 10 anos.

Após um crime que ele próprio confessara e com uma sentença de muitos anos, ainda assim saíra mais cedo do que supusera. Muito devido ao seu comportamento sempre impecável e à forma sempre reservada como geria os seus conflitos com outros prisioneiros. Sem vícios ou gostos especiais nunca fora um alvo de alguns grupos.

Durante dias caminhou devagar em direcção a casa. Carregava no bolso uns trocos suficientes para comprar um pão. Dormia num qualquer buraco que encontrasse e nunca incomodou ninguém. Estava somente desejoso de chegar a casa.

Ao fim do quarto dia avistou a aldeia que não obstante uma dezena de anos passados encontrava-se na mesma. Abriu o portão e penetrou no quintal antes de entrar na habitação. O pasto seco e muito lixo amontoava-se pelo terreno que fora a sua horta.

Escancarou a porta que estava destrancada e entrou. Um cheiro a bafio entrou-lhe pela narina e estava escuro. Deixou a porta aberta até que a luminosidade do dia entrasse naquele antro. Olhou em redor e percebeu que havia muito tempo que ninguém ali vivia. Um rato fugiu para detrás de uma velha mala.

Parado no meio da sala ficou sem saber o que fazer. Aproximou-se de uma janela e abriu-a com dificuldade. Mais luz num local onde o lixo parecia ser rei.

- Bom tenho de limpar isto!

Despiu o casaco, abriu mais outra janela e começou a retirar todo o lixo para a rua, amontoando-o para queimar.

Estava neste trabalho quando ouviu o portão a ranger. Ergueu-se e tentou perceber quem seria a visita. Uma figura esguia e alta assomou à porta:

- Pai!

- Olá Carlos - reconheceu.

- Que fazes aqui?

- Tento dar um jeito nesta lixarada.

- Xiii… tanta bodega. Como terá isto vindo cá parar?

- Não sei… nem me interessa… Mas poderias dar um abraço, não?

O filho mais novo aproximou-se do pai e abraçou-o com ternura. Quando o filho o envolveu declarou ao ouvido:

- Desculpa Carlos… Não deveria ter feito o que fiz!

O filho desprendeu-se do pai e olhou-o nos olhos:

- Nunca te acusei de nada…

- Ficaste sem mãe.

- Aquela não era minha mãe. Unicamente a mulher que me pariu…

- Está bem, está bem!

Tentou mudar de assunto:

- Há quanto tempo não vives aqui?

- Não sei… talvez há uns dois, três anos!

- Como soubeste que eu tinha regressado?

- Foi um vizinho que te viu chegar e chamou-me. Vim a correr…

- E os teus irmãos?

- Oh esses…

- Mau… que se passa com eles?

- Nada de mal, pai. Apenas saíram daqui foram não sei para onde, nem me disseram!

- E…

- Formaram-se… São uns doutores… Mas não ligam a ninguém!

- Deixa lá… Se estão bem na vida, tanto melhor. E provavelmente não querem ser ligados a alguém que cometeu um crime…

- Pai o que fizeste foi errado. Mas já pagaste o preço. Agora vives em liberdade!

Fez um ruído com a boca para depois acrescentar:

- Vivo em liberdade… dizes tu! Mas por dentro continuo preso. Tão ou mais preso de quando estava na penitenciária…

- Preso a quê?

- À consciência! Pior que estar entre grades é sentirmo-nos presos dentro de nós mesmo!

- Oh pai… Não te martirizes…

- A liberdade Carlos não está fora de nós, mas dentro do nosso coração. E este continua preso… aos acontecimentos daquele fatídico dia…

Carlos deu meia volta, saiu da casa e respirou o ar exterior. Ivo seguiu-o e encostado à velha e carunchosa aduela concluiu:

- E tu Carlos que fazes na vida?

- Tu não vais querer saber…

- Um dia saberei…

- Talvez!

- Vá diz lá o que fazes da vida?

- Sou… teu filho!

Virando-se para o antecessor, concluiu:

- E fico bem contente com isso!