Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Consoada solidária!

Um conto de Natal encontrado entre papéis

O frio daquele fim de tarde cortava. Assemelhava-se a lâminas frias prontas a retalhar qualquer corpo indefeso. A brisa vespertina também ajudava a baixar a temperatura ou a sensação de frio.

Na rua o movimento era já diminuto, fosse pelas baixas temperaturas ou pela hora tardia em véspera de Natal. Alguns transeuntes apressavam o passo, alguns carregados de embrulhos e sacos de víveres.

Fernando fechara a farmácia á hora normal de expediente e após arrumar papéis e guardar o dinheiro no cofre, embrulhou-se na parka Steinbock que comprara em Viena havia uns anos e dirigiu-se para o carro. O interior estava gelado mas ainda assim bem melhor que na rua. Sentou-se ao volante e deitou a cabeça para trás até bater no encosto. Depois ligou o rádio e escutou uma música de… jazz pouco coincidente com a época.

Naquele ano decidira viver as horas seguintes sozinho. Havia seis meses que Jéssica o havia abandonado e nunca mais soubera dela. Do seu lado acabou por encerrar a sua conta em diversas redes sociais e remetera-se exclusivamente ao trabalho que adorava e o… entretinha!

Porém o passado mais ou menos recente atormentava-o. De tal forma que recusara o convite que pais e irmãos lhe haviam feito para passar apenas o serão juntos. Teria de alguma forma de habituar-se aos silêncios destes dias… diferentes!

Arrancou e conduziu sem destino aparente pela cidade quase deserta. As ruas enfeitadas e iluminadas não o convenciam a procurar companhia. Na sua mente efervescia um turbilhão de emoções: o namoro célere, o casamento desejado, o aborto espontâneo, a primeira zanga e finalmente o esfumar de um sonho… tão bem sonhado!

De súbito subiu-lhe ao peito um enorme cansaço. Temeu o pior e assim que pode parou o carro. Respirou fundo, suspendeu a respiração, mas o coração parecia bater de forma desconfigurada. Calculou que estivesse a ter um enfarte. Abriu a porta do carro pronto a pedir ajuda a quem passasse. Só que…

À sua frente elevava-se, naquele silêncio nocturno, uma igreja que ele bem conhecia. Fora ali que casara, que dera o sim ao “amar na saúde e na doença”, que aceitara aquela mulher que ainda amava profundamente. Porém a vida brindara-o com outras desventuras…

Num ápice o mau estar desaparecera. Encostou-se ao carro e ficou a olhar o monumento religioso. Ele que nunca fora crente e só casara pela igreja porque a noiva nisso fizera questão, espantou-se pela forma como parara precisamente ali.

A porta central estava aberta. Num impulso estranho subiu as escadas do átrio e penetrou no recinto. O templo parecia imutável desde aquela manhã, retirando naturalmente os convidados que quase encheram a igreja. Um silêncio abraçou-o e levou-o a sentar-se no primeiro banco corrido que encontrou. Pairava no ar um odor a vela queimada. Depois levantou o olhar para o altar e deparou-se com um enorme Cristo Cruxificado. Ao redor outras imagens que ele não soube identificar.

Porém o mais curioso plasmava-se na ideia de um homem que nunca sentira qualquer tendência religiosa e muito menos de fé, naquele instante sentir uma paz que jamais conhecera.

Um ruído manso acordou-o dos seus pensamentos pois percebeu que alguém se aproximava. Então no banco de frente sentou-se o padre que ele percebeu através do cabeção ao redor do pescoço. Este como se estivesse quase numa esplanada virou-se para trás.

- Boa noite irmão! Santo Natal…

- Boa noite… pa… pa… senhor padre

- Padre não é nome só chamamento… Chamo-me Olívio e sou um mero padre desta paróquia – estendeu a mão para um cumprimento.

- Desculpe – devolvendo a mão direita.

Um sorriso aflorou aos lábios do padre acrescentando:

- Quais desculpas… não há nada para pedir desculpa. Mas o que o trás por cá… neste dia tão especial para tanta gente?

- Ahhhh… - uma longa pausa – sinceramente? Também não sei… Parei aqui perto com o carro e a igreja chamou-me à atenção.

- Hum… sabe… - e após uma breve hesitação – qual o seu nome?

- Fernando…

- Sabe Fernando… nada acontece por acaso!

- Só o euromilhões…

- E mesmo esse o Fernando terá de jogar se quiser habilitar-se à sorte.

- É verdade… Tem toda a razão.

- Portanto algo o fez vir aqui…

Fernando não conseguiu evitar uma singela lágrima que tentou disfarçar com o braço, mas que não passou despercebida ao interlocutor. Este colocou a sua mão no ombro do leigo e perguntou-lhe:

- Que aconteceu aqui?

Silêncio. O padre respeitou. Por fim:

- Foi aqui que me casei… há alguns anos.

- Certo… não é do meu tempo. Mas e depois?

- Ela abandonou-me…

Novo silêncio.

- Nunca mais falou com ela?

- Não. Quando partiu disse que não me quereria ver nunca mais e eu respeitei o pedido…

- Portanto?

- Não sei nada dela…

Entrou um casal que cumprimentou primeiro o padre e depois Fernando como se conhecessem este havia muito tempo. Depois encaminharam-se para a frente do templo. Logo a seguir entrou uma idosa mais duas senhoras ambas apoiadas em bengalas.

O padre olhou então o relógio e comunicou:

- Daqui a meia-hora dou aqui missa. Fique por cá. Falaremos depois… De acordo?

Fernando encolheu os ombros. Ficou.

A igreja foi calmamente enchendo-se até ficar repleta. Vieram as músicas, as orações e Fernando foi sentando-se e levantando-se conforme via os outros. De repente o abraço da Paz, que recebeu de muita gente desconhecida sem que ninguém notasse que ele não sabia o que fazia.

Chegou o final da cerimónia. Os crentes foram saindo em passo lento enquanto alguém perto do altar ia apagando as velas. O frio voltara a entrar e o farmacêutico esfregou as mãos tentando aquecê-las.

O padre Olívio apareceu em silêncio e desta vez sentou-se ao lado de Fernando.

- Onde vai passar a Consoada?

- Sozinho… em minha casa.

- Não tem família?

- Tenho… mas prefiro ficar só!

O padre olhou o altar e preferiu uma espécie de sentença:

- Quem crê nunca estará só.

- E quem não acredita?

- Mais tarde ou mais cedo toda a gente acredita. Isso é certo… Até os ateus!

Fernando respirou fundo. O padre percebeu a dúvida e ensaiou:

- Quer vir comigo esta noite?

Não soube o que responder. Ficou naquela estranha indecisão de querer estar sozinho ou, ao invés, aceitar o desafio proposto pelo cura. Ainda tentou esquivar-se:

- É melhor não! Conheceu-me agora, não sabe quem eu sou e depois… não pretendo entrar na sua família assim sem mais nem menos.

- Mas já somos família, caramba! Lembra-se do que lhe chamei quando falei consigo a primeira vez?

Não se recordava e daí manter-se num silêncio envergonhado.

- Chamei-o de irmão.

- Ah pois!

- Então que me diz? Acrescento para seu sossego que não vou para minha casa.

- Como assim?

- Vou-me encontrar com uma equipa de voluntários aqui da paróquia que estão a preparar a ceia de Natal para distribuir àqueles que vivem na rua.

- Ah… gosto dessas iniciativas… também poderei ajudar?

- Diria mais… sinto que o Fernando é um dos necessitados.

- Eu? Não vivo na rua…

- Não vive é certo! Todavia para além do alimento nós damos mais alguma coisa – um silêncio – damos conforto a quem está só.

Fernando engoliu em seco. Levantou-se e devolveu:

- Haverá certamente na rua gente pior que eu… A minha solidão é por opção…

- Creia-me meu irmão que muitos que vivem e dormem na rua sentem-se menos sós que o Fernando agora.

Voltou a não ter resposta para o padre e acabou por segui-lo. A viagem foi curta e quando chegaram ao pavilhão havia uma enorme azáfama ao redor.

- E agora?

- Agora vá lá dentro e ajude a carregar as caixas que iremos usar para distribuir por aqueles que não querem vir aqui ou então pode ajudar a por a mesa para os que vierem aqui passar a Consoada.

Fernando entrou no pavilhão e ficou espantado com a quantidade de gente mobilizada para aquela noite. As mesas estavam distribuídas pelo recinto e havia muitos voluntários a colocarem pratos, copos e talheres nas mesas.

Parecia haver um polo de distribuição e foi aí que se dirigiu. Alguém estava de costas bem agasalhada a entregar talheres em pacotes de papel. Quase em surdina perguntou à pessoa:

- Boa noite, posso ajudar?

A outra virou-se e ambos exclamaram:

- Fernando, Jéssica!

Quadras a Santo António - 2022

Dia de António o bom Santo

É sempre fantástico feriado

Foi mestre alfacinha e tanto

Que viajou por tanto lado.

 

Viveu outros tempos é certo

Daqueles. Nem ousou olvidar.

Foram anos duros decerto

Que lhe deram força para andar.

 

Voltaram as sardinhas e o fumo

Daquelas a arder na brasa quente

Copos de tinto quiçá um sumo

Num arraial com tamanha gente.

 

É festa dizem os moinantes

Sempre a bem comer e a beber

Voltámos ao que era dantes

Toda a gente quer esquecer.

 

Mas lá longe na imensa guerra

Há quem lute corajosamente

Por uma livre e próspera terra

Que nem um Santo Valente.

 

Vai Santo António ajudar vai

Aqueles que choram a dor.

Sai desse alto púlpito sai

Vem parar este imenso horror.   

Dia da criança 2022

Hoje foi aquele dia

Um dia como os restantes.

Mesmo para ti foi igual…

 

Subiste ao escorrega,

Desceste pela rampa,

Uma e outra vez.

Até te cansares.

 

Baloiçaste lentamente.

Um sorriso largo, espontâneo.

Uma alegria imensa,

A felicidade naquele balancé.

 

Tantos sentimentos livres

Ao som de um pobre

Coração.

 

Hoje é um dia especial

Somente porque...

Uma criança será

Sempre especial!