Acordou sobressaltado. O Sol parecia querer despontar repleto de luz e cor. Copntudo um velho cortinado tapava quanto podia a luz solar. A seu lado a companheira daquela noite dormia ainda. Mexeu-se devagar de forma a evitar acordá-la, puxando os braços nus para fora dos lençóis e converteu as mãos numa improvisada almofada.
O tecto branco reflectia alguma luz oriunda da rua e ficou a observá-la pacientemente e a perguntar a si mesmo como chegara ali, ao ponto de estar na cama com a sua ex-mulher enquanto a amante o aguardaria no apartamento.
A vida dava cada volta…
Ouviu a voz feminina chamá-lo de mansinho:
- Jorge… estás acordado?
- Estou, mas acordei há pouco. Porquê?
- Porque tens de te vestir e ir embora rápido.
- Ups…
- O meu namorado é muito ciumento e não gostarias de o encontrar, nem ele a ti!
- A ver se eu percebo… tu dormiste comigo quando tens um namorado? E não me dizes nada?
- Tu também tens uma amante…
- Amiga colorida, se fizeres favor!
- Ou isso…
Jorge levantou-se num ápice, dirigiu-se à casa de banho onde se aliviou e buscou a roupa que vestiu apressadamente. Depois deu a volta à cama, baixou-se até ficar ao nível da antiga esposa que não se havia movido, deu-lhe um beijo na testa e declarou:
- Isto não é amor, nem traição…
- Então é o quê?
- Sacanice! E da grossa que nem eu, nem o teu pujante namorado merecemos.
Havia semanas que a seguia. À distância, não fosse ela desconfiar.
Aquele amor nascera assim... de repente como um corte de faca afiada. Não fora na epiderme, mas na alma.
Idolatrava-a em silêncio e no escuro do quarto, pela madrugada de insónia, imaginava a passear com ela de mãos dadas à beira-mar. Ou então em sonhos maravilhosos...
Todas as manhãs saía cedo correndo até a ver sair de casa. Seguia-a e protegia-a. Pensava ele.
Até que naquele dia, já na rua ela aproximou-se de um homem mais velho que parecia esperá-la, osculou-o com paixão e dando a mão seguiram o caminho.
Estacou miseravelmente triste, ficando a reviver o que sonhara e imaginara com ela nas últimas noites.
Pegou no portátil para esgalhar o seu costumado texto sobre um quadro.
O dia amanhecera luminoso, mas frio resultado de um Inverno demasiado seco. Procurou imagens do quadro do artista russo Wassily Kandinsky denominado “Einige Kreize”* e ficou serenamente a olhar para aquele conjunto de círculos que lhe surgiram na frente.
O quadro era curioso, engraçado, quiçá diferente. Todavia entender o que o fantástico artista pretendera mostrar é que se tornaria mais difícil. Na verdade nunca tivera jeitinho nenhum para ser critico de arte ou, no mínimo, perceber o que o pintor pretendera dizer através do seu pincel.
- Onde estão as metáforas? - questionou-se.
Enquanto ia rabiscando algumas ideias, à sua volta volteava qual borboleta a sua neta Maria. Uma menina traquina, como são todas as crianças, mas esperta e vivaça.
A menina brincou com os bonecos, passou em seguida para os livros de colorir e foi aí que o avô olhando a cachopa teve uma ideia.
Colocou o quadro em causa a preencher todo o monitor do seu portátil e virando este para a neta, perguntou:
- Olha Maria… o que vês aqui?
A criança desviou os olhos dos livros e mirando o desenho que o avô lhe mostrava, respondeu:
- Bolas, bolas, tantas bolas…
O escritor virou então para si o computador e riu-se com gosto. Nada como a inocência de uma criança para ver o mais simples da arte.