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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Contos Tontos - 41

Acordou sobressaltado. O Sol parecia querer despontar repleto de luz e cor. Copntudo um velho cortinado tapava quanto podia a luz solar. A seu lado a companheira daquela noite dormia ainda. Mexeu-se devagar de forma a evitar acordá-la, puxando os braços nus para fora dos lençóis e converteu as mãos numa improvisada almofada.

O tecto branco reflectia alguma luz oriunda da rua e ficou a observá-la pacientemente e a perguntar a si mesmo como chegara ali, ao ponto de estar na cama com a sua ex-mulher enquanto a amante o aguardaria no apartamento.

A vida dava cada volta…

Ouviu a voz feminina chamá-lo de mansinho:

- Jorge… estás acordado?

- Estou, mas acordei há pouco. Porquê?

- Porque tens de te vestir e ir embora rápido.

- Ups…

- O meu namorado é muito ciumento e não gostarias de o encontrar, nem ele a ti!

- A ver se eu percebo… tu dormiste comigo quando tens um namorado? E não me dizes nada?

- Tu também tens uma amante…

- Amiga colorida, se fizeres favor!

- Ou isso…

Jorge levantou-se num ápice, dirigiu-se à casa de banho onde se aliviou e buscou a roupa que vestiu apressadamente. Depois deu a volta à cama, baixou-se até ficar ao nível da antiga esposa que não se havia movido, deu-lhe um beijo na testa e declarou:

- Isto não é amor, nem traição…

- Então é o quê?

- Sacanice! E da grossa que nem eu, nem o teu pujante namorado merecemos.

Saiu então rápido batendo com a porta!

Contos tontos - 40

Havia semanas que a seguia. À distância, não fosse ela desconfiar.

Aquele amor nascera assim... de repente como um corte de faca afiada. Não fora na epiderme, mas na alma.

Idolatrava-a em silêncio e no escuro do quarto, pela madrugada de insónia, imaginava a passear com ela de mãos dadas à beira-mar. Ou então em sonhos maravilhosos...

Todas as manhãs saía cedo correndo até a ver sair de casa. Seguia-a e protegia-a. Pensava ele.

Até que naquele dia, já na rua ela aproximou-se de um homem mais velho que parecia esperá-la, osculou-o com paixão e dando a mão seguiram o caminho.

Estacou miseravelmente triste, ficando a reviver o que sonhara e imaginara com ela nas últimas noites.

E agora... como apagaria para sempre os sonhos?

"Several circles" de Wassily Kandinsky

Resposta ao desafio da Fátima

Pegou no portátil para esgalhar o seu costumado texto sobre um quadro.

O dia amanhecera luminoso, mas frio resultado de um Inverno demasiado seco. Procurou imagens do quadro do artista russo Wassily Kandinsky denominado “Einige Kreize”* e ficou serenamente a olhar para aquele conjunto de círculos que lhe surgiram na frente.

O quadro era curioso, engraçado, quiçá diferente. Todavia entender o que o fantástico artista pretendera mostrar é que se tornaria mais difícil. Na verdade nunca tivera jeitinho nenhum para ser critico de arte ou, no mínimo, perceber o que o pintor pretendera dizer através do seu pincel.

- Onde estão as metáforas? - questionou-se.

Enquanto ia rabiscando algumas ideias, à sua volta volteava qual borboleta a sua neta Maria. Uma menina traquina, como são todas as crianças, mas esperta e vivaça.

A menina brincou com os bonecos, passou em seguida para os livros de colorir e foi aí que o avô olhando a cachopa teve uma ideia.

Colocou o quadro em causa a preencher todo o monitor do seu portátil e virando este para a neta, perguntou:

- Olha Maria… o que vês aqui?

A criança desviou os olhos dos livros e mirando o desenho que o avô lhe mostrava, respondeu:

- Bolas, bolas, tantas bolas…

O escritor virou então para si o computador e riu-se com gosto. Nada como a inocência de uma criança para ver o mais simples da arte.

* Título original do quadro

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em Flor,  Cristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas