Quando há uma dezena de anos me aventurei a dar luz ao que fui rabiscando durante muito tempo, parti do princípio que rapidamente fecharia esta loja de escrita.
É certo que também não tinha quaisquer responsabilidades (leia-se disciplina) em publicar aqui e assim fui deixando estar o espaço em aberto para acolher alguma ideia que eventualmente me surgisse.
Passado este todo tempo reconheço que fiz bem em manter este blogue. Um espaço reconhecidamente mais intimista e sereno, próprio de quem escreve por prazer e devoção.
Não posso, outrossim, deixar de referir os desafios de escrita que a partir de 2019 foram surgindo na blogosfera e que eu de uma maneira muito pessoal foi tentando responder com enorme prazer! Escrever tem sido, deste modo, uma espécie de terapia e com a qual vou desfiando algumas mágoas e muitas alegrias.
Contas feitas foram aqui publicados 320 postais dando origem a 2872 comentários e 349 favoritos. Números que serão efectivamente muito mais do que estaria à espera.
Por fim é tempo de agradecer encarecidamente a todos quantos contribuiram para que eu nunca deixasse de escrever.
Todas as manhãs subia a escadaria que o levava à rua de cima evitando ter de dar uma volta enorme com o carro. O empedrado da escada alternava entre o preto do basalto e o branco do calcário. Nos intervalos algum musgo alimentado pelas últimas chuvas. Aqui e ali umas beatas já debotadas.
À tarde descia as mesmas escadas num passo rápido. Nas paredes inscrições amorosas ou grafittis indecifráveis. Noutras alguns slogans políticos já em desuso e descoloridos.
Por vezes passava sem ligar outras lia e ria.
Naquela tarde, contudo, havia uma cercadura onde as pedras estavam levantadas mesmo no centro da escadaria obrigando-o a desviar-se do seu costumado trilho. Durante dias assim esteve aquele impedimento.
Na semana seguinte quando voltou a subir reparou que finalmente a vedação fora retirada notando-se ainda alguma areia no chão oriundo da reparação. Mas desta vez ao passar por cima reparou que uma das pedras tinha uma inscrição. Baixou-se e leu: “Queres casar comigo”
Assim mesmo sem ponto de interrogação. Esboçou um sorriso e quando se ergueu, pensou:
- Quem se terá dado ao trabalho de mandar colocar esta pedra com este pedido de casamento?
Continuou a subir as escadas enquanto imaginava o que diria a sua namorada quando lhe contasse. Havia tempos que ela se insinuava com o casamento, mas ele achava que ainda não seria a altura. Mas se ela tivesse tido uma iniciativa destas… não poderia recusar!
Chegado finalmente ao cimo da larga escadaria deu de caras com a namorada. Espantado com a presença da jovem esta foi directa:
Laura acordou. Um barulho incomum na casa havia-a despertado. De pijama com ursos estampados, ainda meio ensonada, abriu a porta do quarto. O barulho havia parado. Voltou então à cama quente e apetecível.
A menina tinha oito anos de inocência adequada à idade, mas dona de uma inteligência especial. Aprendera a ler sozinha… muito tempo antes do tempo escolar pois admirava-se muitas vezes com o pai, que de livro em riste, conseguia rir e até chorar apenas com a leitura. E quando o via demonstrar alguns sentimentos perguntava-lhe:
- Pai, porque ris?
Ao que ele geralmente respondia:
- Este livro é muito engraçado. Quando souberes ler dou-to para tu leres. Irás gostar.
Deste modo Laura, desde muito cedo, tentou iniciar-se na leitura. Abordou a aventura com livros simples que cresciam por toda a casa. Todavia com a chegada do primeiro ano escolar e mais tarde de um computador com normal acesso à rede deInternet, Laura facilmente teve acesso a outros géneros de leitura.
Regressou o barulho e desta vez Laura levantou-se pronta a desvendar o mistério para tanto ruído. Abriu a porta do quarto e pode observar a mãe muito atarefada a arrumar objectos dentro de caixas.
Devagar e em silêncio, Laura aproximou-se da mãe. Esta estava de costas para a menina e nem deu pela sua chegada. Só que antes da mãe havia a porta da sala de estar. Uma sala ampla repleta de livros, loiças velhas, um rádio muito antigo, uns sofás e…
O coração de Laura quase parou. Clamou em tom choroso:
- Mãe!
A antecessora assustou-se com a voz da filha atrás de si, mas respondeu com bonomia:
- Bom dia Laurinha. Dá um beijinho à mãe! – e estendendo os braços aguardou o ósculo que não veio.
- Mãe onde está a árvore de Natal?
Entendendo a tristeza da filha, respondeu:
- Sabes que os dias de festa já acabaram. Primeiro foi o Natal, depois veio o Ano Novo e hoje é tempo de arrumar tudo até ao próximo Natal.
- Mas porquê?
Laura adorava aquela árvore de um metro de altura repleta de bolas, sinos, singelas figuras e muitos, muitos chocolates que ela ia comendo, um em cada dia de Dezembro. Exibia também uma enorme estrela no cimo. Depois eram as luzes de muitas cores sempre a piscar. Foi com alguma frequência que os pais a encontraram na sala a olhar fixamente para a árvore.
- Ó filha então tu querias aqui a árvore de Natal o ano todo? Depois deixava de ter graça… - tentava explicar a mãe.
- Mas o Natal não é sempre?
- Não querida… O Natal é só em Dezembro. Comemora-se o nascimento do menino Jesus.
Laura parecia pensar. A mãe aproveitou:
- O teu dia de anos também é só um dia, não é?
O pensamento de Laura já não estava ali naquele corredor entre o seu quarto e a sala. Procurava algo dentro de si, mas parecia não saber bem o quê. A mãe temia quando a via com aquele olhar de vencida mas não convencida. Sabia por experiência que a filha não se dera por derrotada. Por isso foi com normalidade que ouviu a nova pergunta da filha:
- Então porque é que alguém escreveu e outro cantou “Que o Natal é quando o homem quiser”?