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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O espírito de Natal!

Esta é a minha resposta à Isabel.

Era uma daquelas tardes frias de Outono e uma brisa cortante enregelava os corpos. Desceu a rua devagar encolhido num casaco quente. A neta estaria prestes a sair da escola e era tempo de a trazer para casa.

Com sete anos a menina era vivaça, esperta e tinha todos os dias uma pergunta engatilhada para fazer ao avô. Sorria só de imaginar que questão iria ser aberta naquela tarde.

Junto à porta da escola pais e outros avós aguardavam pacientemente que as crianças saíssem. Uma algazarra infantil despertou-os e já na rua cada um pegou na sua criança.

- Olá avô!

- Olá minha senhora…

Era sempre assim que o antecessor tratava a neta, que a menina adorava. Sentia-se grande, crescida… quase adulta. Iniciaram a subir a rua até a casa quando a menina avançou:

- Sabes avô… a professora hoje disse que o Natal é quando a gente quiser. É verdade?

Estava lançado o mote para aquela tarde… O velho sorriu e respondeu:

- Um grande poeta português escreveu isso, sim!

- Poeta? O que é um poeta, avô?

A coisa parecia complicar-se agora. Finalmente respondeu:

- Um poeta é alguém que escreve com a alma…

Seria suficiente ou seria que vinha nova questão?

- Ah! – devolveu a menina. Para logo acrescentar:

- Mas se o Natal pode ser quando quisermos…

O avô percebeu o alcance da frase e por isso tentou explicar.

- Querida… o Natal não deveria ser um momento determinado no ano, mas o ano inteiro. E que o poeta quis dizer é que o espírito de Natal deve viver sempre nos nossos corações.

- Espírito de Natal?

- Sim… deixa-me exemplificar… O que fizeste quando a tua colega Mónica se esqueceu do almoço em casa?

- Ó avô… tu sabes… dei-lhe metade do meu…

- Esse é o espírito de Natal…

- Ah…

- O que fizeste ao canito abandonado na rua?

- O Tremoço?

- Sim…

- Levei-o para casa.

- Esse é o espírito de Natal…

- Ah…

- Saber dar, saber receber, estar disponível para quem necessita de nós esse é o verdadeiro espírito de Natal.

A menina manteve-se em silêncio como estivesse a digerir os últimos exemplos.

Entretanto o avô acrescentou:

- Queres escutar uma história sobre o Natal?

- Claro avô… tu sabes sempre contar uma boa história.

- Então lá vai: há muitos, muitos anos não havia Pai Natal e somente a figura do Menino Jesus. Naquele tempo cabia ao Menino entregar as prendas que geralmente desciam num cesto por uma chaminé. Não havia árvores de Natal, mas fazia-se sempre um enorme presépio. Na noite de consoada, chegada a meia-noite as crianças aproximaram-se da chaminé e ainda viram o cesto descer.

A excitação era enorme, mas um menino olhou para o cesto e viu algo que detestava: uma colher de pau. Que não era mais que o símbolo da disciplina que lhe era muitas vezes imposta. Perante aquela horrível visão o rapazito fugiu daquele lugar e recusou-se a lá entrar. Não queria admitir que o tal de Menino Jesus lhe trouxera aquele símbolo.

Foi a mãe que tentou apaziguar o coração do rapaz, dizendo que não havia colher nenhuma, que fora só imaginação infantil. O miúdo não acreditava na mãe porque soubera o que tinha visto. Mas a partir desse noite o menino, depois jovem e mais tarde crescido, deixou de acreditar no Natal.

Anos mais tarde, já homem casado e com 2 rapazes, recebeu um pedido do filho mais novo. Este desejava ver, nesse ano, o Pai Natal. Não querendo decepcionar o petiz, o pai comprou uma fatiota que trazia uma barba e na noite de Natal vestiu-a, colocou uma almofada na barriga para o tornar mais gordo e prestou-se ao pequeno teatro para alegrar o filho.

De costas lá foi colocando as prendas, comeu as bolachas e até simulou uma breve tosse. O filho viu-o e até referiu que estava constipado. A alegria daquela criança ao ver um suposto Pai Natal era transbordante.

A partir dessa consoada aquele pai percebeu, finalmente, que o Espírito de Natal não era feito só de prendas, laços e embrulhos, mas sim de partilhar amor, alegria e felicidade.

O avô calou-se por fim e a menina olhou-o.

- Ó avô… tu estás a chorar?

Apanhado, só respondeu:

- Estou… são as lágrimas boas do espírito de Natal! E enxugou-as com as costas das mãos!