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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O Pastor #3

(... Continuação daqui)

O regresso do pastor à aldeia foi saudado com enorme alegria pela mãe e pelos irmãos mais novos,  que viam no guardador um viajante do mundo, mal imaginando que o jovem apenas se afastava da aldeia algumas léguas.

Mas coração de mãe é único e depressa percebeu que o seu infante mais velho viera diferente. Ele que sempre conseguia ver alegria em tudo o que fazia, regressara soturno, tristonho, como se aquela não fosse a sua casa.

Após a ceia deitou-se sem fazer a sua costumada visita ao largo onde alguns o aguardavam e às suas novas estórias. No quarto pequeno já dormiam os irmãos, mas o jovem ficou desperto noite fora.

Na madrugada seguinte levantou-se muito cedo como era seu hábito, roubou um bolo seco da arca, chamou o seu amigo Sapatos, que dormira na ombreira da porta e foi até ao curral buscar o gado e partindo de seguida para as terras de casa.

Atravessou a ribeira que já levava algum caudal após uns dias de água forte e procurou um lameiro perto. Aí chegado largou o gado e foi sentar-se numa pedra gasta que ficava virada para o ribeiro. A seu lado deitou-se Sapatos, o inseparável cão branco de patas pretas. Depois foi descaindo pela pedra, descalçou-se e enfiou os pés sujos na água límpida e fria.

Por ali ficou longo tempo, com o pensamento longe, muito longe dali. A tempos olhava o gado sempre irrequieto e deva instruções ao canito que cumpria cm rigor e saber.

- Não as deixes ir para o rio… vai… vai… tira-as daí!

Voltou então aos pensamentos até que:

- Bom dia, alegria!

O jovem ergueu o olhar para a maviosa voz feminina e deparou com a menina dos outros dias. Admirado, confuso, estranhou a sua presença ali, respirou fundo e acabou por responder:

- Bom dia… menina!

A cachopa, desempoeirada, levantou um pouco e vestido e atravessou a vau o regato, molhando também ela os pés e a franja da saia. Do outro lado o pastor tremia de… nem sabia bem… se de medo, vergonha… não sabia. A jovem ajeitou-se então e sentando ao lado do rapaz, introduzindo os pés na água, disse:

- Pareces triste por me veres…

Após um mui breve silêncio masculino:

- Nem triste nem contente…

Depois:

- Como me descobriste aqui?

- Falei com a tua mãe… Calculou que viesses para aqui com o gado…

As faces do pastor ficaram rubras, mas manteve o silêncio e a compostura. Ela continuou:

- Gostei muito da tua mãe e dos teus irmãos… Não conheci foi o teu pai!

Não acusando a ousadia dela, o jovem guardador acabou por perguntar:

- Não estás muito longe de casa?

- Estou, mas o Sebas leva-me para casa depressa.

Encolheu os ombros pois não sabia quem seria o Sebas… Provavelmente algum criado, pensou.

Sapatos ladrou repentinamente. Duas cabras haviam saltado o muro e pastavam no terreno vizinho. O pastor deu um salto e mesmo descalço correu para as cabras conseguindo ao fim de um pedaço colocá-las novamente no seu terreno. Voltou à ribeira e aí lavou os pés negros de terra. Respirou fundo.

Perguntou ela, afoita:

- Não tens nenhuma namorada?

Respondeu ele misterioso:

- Tenho, mas não vive cá…

Pela primeira vez o jovem pastor viu tristeza no olhar dela!

(Continua...)