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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Contos tontos - 39

Sentado no peal da porta da sua sala que dava para um pequeno pátio, Germano olhava a paisagem que se desenrolava na frente. Entre pedaços de terra verde de algum milho de regadio, havia muitos nacos amarelos, tisnados por um Estio inclemente.

Um bafo de calor pairava mesmo na sombra de uma araucária velha e quase interminável que crescia no quintal. O homem segurava a bengala puída e olhando os nacos ao longe lembrava-se da sua juventude… E sorria!

- Estás a rir de quê, avô?

A neta surgira de repente do nada trazida pelos passos pequenos e silenciosos. Germano endireitou-se e apontando com a ponta da bengala os terrenos defronte, respondeu:

- Lembrei-me de que há muitos anos, num dia quente como este alguém andava ali a malhar tremoços…

- Tremoços?

- Nem mais. Antigamente apanhavam-se alqueires deles…

A criança olhou o avô com os olhos doces, sentou-se ao lado e encostou-se a uma das pernas doentes e pediu:

- Avô… conta-me uma das tuas histórias… Tu sabes tantas!

Germano endireitou-se ainda mais, puxou a boina para a frente e pensou. Poderia buscar uma das suas aventuras de juventude ou simplesmente inventar um qualquer relato que metesse cães e gatos, como a menina gostava.

Achou que seria importante contar algo mais verdadeiro de forma a não encher a cabeça da criança de coisas impossíveis. Por fim preferiu inventar…

Iniciou então uma nova estória em tom pausado de forma a pensar no que estava a criar e não cair em contradição.

A neta escutava-o atenta, deliciada como se tudo aquilo que ouvia tivesse sido verdadeiro. Ela sabia que não, mas ainda assim preferia aquelas às outras dos livros que já lia.

Quando acabou Germano perguntou:

- Então gostaste?

- Sim avô! Muito!

- Tu já sabes ler, certo?

- Sim avô! Já tenho oito anos!

- E não gostas dos teus livros de histórias?

- Gosto, mas… - baixando os olhos para o chão.

- Mas o quê?

- Gosto mais das estórias que contas…

- Posso saber porquê?

- Porque as tuas histórias têm … a tua voz!