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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Toni, o americano!

Quando acompanhou os pais para os Estados Unidos, Antonino teria por volta dos 5 anos de idade.

A vida na aldeia sabia a pouco para a ideia de Gabriel e da Alberta. Queriam algo mais para ambos e essencialmente para o filho único.

Uma carta convincente do compadre Asdrúbal convencera-os a emigrarem. Vendido o azeite de duas temporadas, mais o milho e o feijão da colheita do ano, ao que se juntou uns patacos postos de lado pela esposa com a venda dos ovos, houve dinheiro para as passagens.

Durante mais de quatro décadas esta família manteve-se assim em terras do tio Sam trabalhando e conseguindo o sucesso desejado.

Com a grave doença de Gabriel, entretanto aparecida este, ciente do seu estado, pediu para morrer na aldeia que o vira nascer, pedido que foi rapidamente cumprido pela mulher e filho. 

Adivinhava o aldeão, já que poucas semanas após a chegada, morreu devagar, qual círio sem pavio, na velha casa e cama onde nascera e vivera antes de emigrar.

Ficou a viúva e o orfão Antonino que nunca casara, pois sempre preferira a vida de pinga-amor a ser um homem de uma só mulher. 

A mãe carregava consigo em silêncio a tristeza de nunca ser avó, mas deixara ao filho a liberdade de opção da sua própria vida.

Toni não obstante o seu longínquo afastamento da terra mãe continuava a falar a língua lusa se bem que com acentuado sotaque norte-americano. Empresário de sucesso, havia deixado a gestão dos negócios a um seu sócio, também ele português.

Enquanto o pai Gabriel foi vivo e capaz de andar Antonino aproveitou a sua companhia para conhecer melhor a aldeia, as fazendas e as alfaias, algumas delas tomadas pelo caruncho e imprestáveis. O povoado era muito pequeno quase ínfimo. Habituado à grandeza de um continente, o filho considerava tudo demasiado apertado. As casas, ruas, carros. No entanto sentia que todos eram genuínos e bons amigos.

Certo dia o "americano" nome com que os aldeões o baptizaram entrou na taberna, local que nunca visitara desde que chegara dos Estados Unidos.

- Boa tarde! - cumprimentou.

Os clientes assustaram-se com aquela entrada inesperada, mas foram respondendo:

- Boa tarde!

O ambiente na taberna era pesado. Uma nuvem de fumo dos cigarros pairava por cima das cabeças. As mesas todas cobertas de um plástico aos quadrados azuis e brancos, exibiam manchas redondas dos fundos dos copos. Alguns homens de cotovelos encostados ao balcão ouviam as conversas, puxando de vez em quando de uma fumaça do cigarro, enquanto beberricavam cerveja da garrafa.

Outros num alarido quase infernal discutiam o resultado de mais um jogo de sueca. Havia também quem dormitasse no fundo da sala.

- Uma Coca-cola se fizer favor - pediu Antonino - com gelo e uma rodela de limão também.

Após um breve interregno, acrescentou:

- Se puder ser...

Álvaro o taberneiro foi a uma porta por detrás do balcão e passado brevíssimo tempo trouxe uma tigela com diversas rodelas de limão. Depois foi ao congelador, retirou gelo de um saco e colocou-o finalmente num copo alto. Empurrou-o para a frente do americano conjuntamente com a garrafa do refrigerante.

Antonino agradeceu, escolheu uma das rodelas e colocou-a no copo. Finalmente despejou o líquido castanho. Este espumou mas não vazou do recipidente. Bebeu devagar.

Depois virou-se para a restante sala e dirigiu-se aos jogadores de cartas, de copo na mão. Enquanto um tentava embaralhar as ditas para nova rodada, os outros olharam para a visita.

- O que estão a jogar?

- Sueca - respondeu um dos jogadores - conhece?

- Não... Como se joga?

- Sente-se aí, dou-lhe umas indicações e o resto é ver...

Duas horas mais tarde era Antonino que estava sentado na mesa enquanto um dos jogadores saíra para ir ver uma vaca que estava para parir. E parecia estar a sair-se bem...

Enquanto jogava o aldeão e emigrante revia a sua vida num país completamente diferente. E tomava consciência que os dias vividos no outro lado do Atlântico haviam sido um ror de... nada.

Chegou tarde a casa. Tão tarde que a mãe domia já! Olhou o relógio, calculou a diferença horária, pegou no telemóvel e ligou.

- Hi Toni! - atendeu uma voz masculina.

- Hi Max. Precisamos falar!

- Ok, go on...

- Quero vender o negócio aí!

- What? You're fucking crazy...

- Não regresso aí tão depressa quanto pensava.

- Why?

- Porquê? - seguiu-se um silêncio - Porque com a morte do meu pai tenho que resolver aqui umas coisas.

A mentira surgira-lhe assim de repente e parecia ser credível. Continuou:

- Tudo aqui demora muito tempo a resolver e ainda por cima aí neva... vou então aproveitar as férias...

- Mas não tens necessidade de vender o negócio... Eu tomo conta dele até chegares.

- Hummm... I don't know...

- Fica aí o tempo que quiseres e depois regressas... eu sei que não deve ter sido fácil perderes o teu pai.

- Ok... Depois digo alguma coisa. Toma bem conta da coisa...

- Ok Tony. Take care!

No dia seguinte Antonino levantou-se cedo e partiu para dar uma volta à aldeia. Chovia uma água baça, mole, triste. Mas nada o demoveu. Chapéu de chuva e botins partiu em busca nem sabia bem do quê.

Durante horas percorreu alguns dos locais que o pai havia referenciado quando chegara, mas que devido à doença jamais pudera mostrar. Todavia foi encontrando cada lugar: o penedo do milhafre, a pia funda, o algar escuro, a lagoa do ladrão...

A água continuava a cair e Tony mesmo de chapéu encontrava-se já completamente encharcado. Os carreiros escorregadios eram feitos devagar. Depois aquele cheiro a terra molhada que entrava pelas narinas e o deixavam encantado.

Rapidamente o aldeão se habituou à vida do campo. Olhava a charneca a perder de vista e via aquilo repleto de searas.

Mas era somente um sonho, uma ideia "sem trambelhos" como diria a mãe. Mas o curioso é que crescia em si um gosto diferente pelo chão, pela natureza. Finalmente aquele melro que todas as manhãs se habituara a vir comer as migalhas que Toni deixava na pedra da janela.

Entrou o Verão na aldeia. E logo no início da estação decorriam as festas no povoado. O povo era pouco e por isso todos ajudavam. O americano também.

No fim de semana da festa o povo das redondezas acorreu à aldeia numa frequência que Toni estranhou:

- É sempre assim?

- Sempre... As nossas festas são as melhores aqui das redondeza. É pena não haver mais cachopas... Isso é que era!

O americano ria... já que durante muitos anos habituara-se a outro tipo de festas e de danças. Mas estas tinham o condão de serem genuinamente alegres.

Na última noite Toni sentara-se à mesa no arraial festivo enquanto esperava as bifanas que encomendara.

- Posso?

Toni olhou para o interlocutor e não conhecendo da aldeia ainda assim aceitou a companhia.

- Boa noite... sei que não me conhece. mas eu sou ali do Vale da Lenha que é aqui mesmo ao lado.

De mão estendida Toni não deixou de cumprimentar o outro e apresentou-se:

- Antonino Gouveia... mas todos me conhecem por Toni.

- Herlander Calçada... muito prazer.

- Mas posso ajudá-lo?

- Talvez...

- Como?

- Tenho umas terras para vender e pensei que talvez estivesse interessado.

Chegou o frango, as batatas e a cerveja:

- Sirva-se senhor Calçada.

- Não muito obrigado. Acabei de jantar com a minha mulher e as minhas filhas que estão ali ao fundo. Mas não faça cerimónia, coma, coma.

- Mas estava a dizer...

- Que tenho uma fazenda pegada com a sua e pensei que a quisesse comprar...

E sem deixar que o interlocutor dissesse algo continou:

- Já viu o naco de terra com que ficaria?

Desconhecia o vendedor que Toni era dono de uma das maiores empresas de imobiliário do seu estado. Portanto comprar e vender não era coisa com segredos. Todavia fazia tempo que não entrava numa negociação. Era assim uma espécie de regresso ao passado.

Ora desse tempo guardava duas máximas: nunca se mostrar interessado e esperar que fosse o vendedor a pedir dinheiro. Tudo o resto seria um jogo... Por isso deixou o vendedor falar sem contudo mostrar muito interesse no negócio.

- Que me diz?

- Senhor Calçada... não digo nada, sabe? Primeiro porque não me interessa comprar aquilo que quer vender, segundo... mesmo que fosse um bom negócio eu nunca o saberia porque não imagino quanto valem as coisas aqui. Compreende?

O vendedor tirou uma caneta do bolso da camisa e escreveu um número na toalha de papel.

- Este é o valor que pretendo. Pergunte e depois diga-me alguma coisa...

- E se não disser?

- Bom - levantou-se e devolveu estendendo a mão numa despedida - se nada disser assumo que não quer a fazenda e venderei a outro.

- Com certeza, faz muito bem. Mas obrigado por se ter lembrado de mim.

Quando olhou os números percebeu que em absoluto o valor parecia baixo, mas não conhecia o negócio.

Por isso no dia seguinte logo pela manhã dirigiu-se à sorte em venda e percebeu que o terreno parecia melhor do que julgava... Então por aquele preço...

Três dias mais tarde ambos encontraram-se pore mero acaso numa feira. Calçada aproximou-se e dando-lhe uma pujante palmada nas costas, cumprimentou Toni:

- Bom dia vizinho... Como está?

- Já estive melhor - passando a mão pela omoplata.

- E a  Pia funda? Sim ou não?

O momento parecia ideal para compra já que havia testemunhas. Assim:

- Continua por aquele valor que me disse?

- Claro!

- Está comprado! Amanhã leve os pápeis a minha casa para fazermos a escritura.

O outro nem percebera que acabara de perder a fazenda:

- Temos negócio?

- Já lhe disse que sim. Amanhã terá metado do dinheiro...

Calçada estendeu a mão e mesmo ali selaram o compromisso. Ambos queriam seguir destinos diferentes, no entanto Toni insistiu:

- Os papéis amanhã lé em casa!

- Certíssimo.

No dia seguinte Toni levantou-se muito cedo e voltou ao terreno que comprara na manhã anterior. Depois regressou a casa para encontrar a filha do vendedor com os papéis do pai. 

Era uma jovem bonita, simples e educada. Longos cabelos de um castanho quase cor de mel e uma voz doce e serena.

- É o senhor Antonino?

- Toni é mais fácil - respondeu com sorriso.

Os olhares de ambos cruzaram-se algures e num ápice se prenderam.  A jovem após a resposta simples tentou sorrir, mas o melhor que conseguiu foi baixar o olhar até ao chão. Educadamente Toni convidou-a a entrar em casa.

Já era quase noite quando a jovem saiu.

À porta para as despedidas estavam a D. Alberta e o noivo.

Casariam meses depois e ao primogénito deram-lhe o nome de Gabriel.

Desafio de escrita dos pássaros # 2.extra

Elizário entrou em casa dos amigos de forma lenta. O enfarte tinha-o quase colocado no lado de lá. Todavia resistira com estoicismo e muita vontade de viver.

E depois aqueles meninos… tão bons, tão amigos… Não os queria perder por nada deste mundo.

- Para onde quer ir? Para o quarto ou prefere sentar-se aqui na sala?

O florentino endireitou-se e devolveu:

- Estive doente, mas já não estou… Portanto vou para o quintal.

- Nem pense… o Elizário não está ainda em condições de andar nessas vidas.

- Ai sim? E quem vai tratar da horta? Deve estar bonita e jeitosa, cheia de erva e mato.

A amiga grávida acrescentou:

- Deixe-se disso… ainda ganhamos o suficiente para comprar os legumes na frutaria… Agora repouse.

Vencido mas não convencido o ilhéu preferiu a sala onde a televisão foi ligada. As notícias só falavam do novo vírus que alastrava a uma velocidade alarmante.

Assim e farto de médicos e hospitais Elizário desligou a televisão, dirigiu-se ao seu quarto e de lá trouxe um livro. Aproveitou para abrir a janela e perceber, com alguma tristeza, que o quintal estava atapetado de mato verde e viçoso.

Foi à mesa que os três acabaram por falar mais:

- Que grande susto que nos pregou… Estava a ver que a Maria Pilar ficava sem o avô…

- Pilar? Quem é?

- Há-de ser ou melhor vai ser uma menina… - e afagou o ventre já redondo, sorrindo.

- Oh… como é que sabe isso?

- Agora há exames e testes desde o início da gravidez. E fica-se logo a saber se o sexo da criança.

Elizário não queria crer.

- Isso é verdade?

- Claro que é! Até conseguimos ver e escutar o coração a bater…

O açoriano regressou à comida. Mas algo atentava o seu espírito sempre tão curioso. No entanto temia fazer a pergunta.

- Que se passa? Está aí com uma cara de caso…

- Oh não é nada!

- Vá lá deixe-se disso. O Elizário é parte integrante desta família. Portanto pode dizer o que o aflige!

O velho combatente poisou os talheres, beberricou o sumo de laranja à sua frente e finalmente ganhou coragem:

- Explique a um burro como eu como os médicos conseguem ver uma criança na barriga da mãe e não conseguem cura para este vírus?

Os jovens olharam-se e sem saberem responder embrulharam os ombros.

Contos tontos - 37

Acordou ao sentir a chave na porta. Abriu um olho e viu marcado no relógio da mesa de cabeceira: 3:20.

- Cada vez chega mais tarde. E mais bêbado... - pensou.

Porém ao invés da sua previsão, o homem entrou quase em silêncio, não acendeu qualquer luz, o que contrariava os seus antigos gestos, descalçou-se, despiu-se e meteu-se na banheira.

Já no quarto com o pijama vestido aproximou-se da mulher que fingia dormir, deu-lhe um leve beijo na cara e sussurrou:

- Desculpa. Sempre te amei e continuarei a amar-te.

Ela estremeceu, mas continuou a fingir.

Não sentiu o costumado cheiro a alcool, nem a tabaco e muito menos a perfume barato de alguma meretriz. Estranhou-o...

Ele deitou-se finalmente, puxou a roupa para se tapar e fez por adormecer.

Eram sete da manhã quando o despertador tocou. Ela mal dormira o resto da noite. Admirara-se daquela atitude e acima de tudo das palavras.

O despertador tocava e não parava. Chegou junto do marido e abanou-o com força na cama. Este virou-se, mas foi o empurrão dela não a vontade dele.

Estava morto!

Amanhã

Não há palavras nem poemas,

Nem gritos nem beijos.

Só esperanças e ensejos.

 

De um novo raiar luminoso,

Há outros sonhos renovados

Cem dias amargurados.

 

Desfolho estranhas semanas

Repletas de páginas em branco,

Dúvidas, desejos e pranto.

 

Dói-me a paz e o sossego

A alma, o espírito, a emoção,

A tua ausência e o coração.

 

Não quero perder o rumo,

De te ver só mais uma vez,

Liberdade!

Desafio de escrita dos pássaros #2.8

Mote: Foi tão bom, não foi

Encostado à enxada de bicos gastos, Elizário mirando o quintal, sorria. Um mimo.

Regos impecavelmente direitos, cômaros certos e as couves a crescerem com encanto.

Sentia-se bem naquela família que definitivamente o adoptara. Ainda por cima agora que a sua conterrânea estava de esperanças… Avô… diziam-lhe que seria avô… Mas como se nunca fora pai?

Era sempre com renovada alegria que o florentino chegava ao quintal e via o resultado do seu trabalho. Um manto verde, viçoso, fresco e pujante.

Porém naquele dia o ilhéu levantara-se estranho. Acordara com um mal-estar que o incomodava. Todavia nem uma queixa já que não queria aborrecer ninguém. Sentia que algo não estaria bem… uma dor permanente no peito, alguma dificuldade em respirar…

Quando acordou e tomou verdadeira consciência viu-se rodeado de um conjunto de aparelhos e tubos que entravam no seu corpo. A seu lado a sua amiga recente e o marido.

- Olá… Que grande susto nos pregou…- disse o futuro pai, enquanto ela segurava na mão isenta de tubos.

As forças eram poucas e fechou os olhos. Tinha sono, muito sono e sentia-se deveras cansado… tão cansado. Voltou a adormecer.

Quando recuperou do longo sono tinha a seu lado um homem de bata vestida.

- Então mestre Elizário, sente-se melhor?

Os tubos, aparelhos e demais artefactos médicos continuavam a rodeá-lo. Nem sabia se a pergunta feita pelo doutor seria para ter resposta. Preferiu calar-se.

O especialista foi olhando para os visores e para uns papéis e comentou com outro colega entretanto chegado.

- O caso parece grave… Se esta creatinina não descer os rins param.

- E como está o coração?

- Mal… muito mal!

Foi a última coisa que Elizário escutou.

Ao acordar achou-se noutro lugar.

- Estranho… nunca aqui estive…

À sua frente uma planície estendia-se a perder de vista. Olhou as suas roupas e percebeu que eram as mesmas que vestira quando assentara praça. A seu lado soou então uma voz:

- Bonito não é!

- S… sim… - respondeu sem perceber o que dizia.

- O Elizário acaba de chegar a um local fantástico. O Céu…

- O quê? O Céu? Quer dizer que… morri.

- Pois… um dia teria de ser.

- Mas os meus amigos?

- Foi tão bom, não foi? Gente boa…

- Foi… mas eu não posso deixá-los sozinhos. Não posso!

De súbito ouviu:

- Já o temos doutor, já o temos novamente!

Desafio de escrita dos pássaros #2.7

Mote: Escreve o teu elogio fúnebre

Enquanto a viatura negociava as curvas lentamente, Elizário mirava os campos verdes salpicados por inúmeras cabeças de gado.

A ladear tufos de hortências, ainda por desabrochar. Enquanto subiam a serra, o céu toldava-se numa chuva miúda ou num nevoeiro denso.

- Olha o nevoeiro…

- Junho é o mês deles.. – acrescentou a conterrânea.

Quilómetros passados a estrada principiou a descer.

- Sabe onde vamos, Elizário?

- Oh, oh, nem imagino.

- Lembra-se da Fajãzinha?

- Se me lembro… - o olhar do florentino acabou por adquirir uma enorme tristeza.

- Hum! Cheira-me que houve para aí uma história de saias… – calculou o condutor com um sorriso.

Silêncio. Na estrada uma tabuleta indicava o caminho.

- Vamos revisitar este lugar… Pode ser senhor Elizário?

- Vamos onde mesmo?

- Já vai ver.

A estrada descia e tornava-se agora mais íngreme e as curvas mais perigosas. Finalmente o alcatrão desembocou numa espécie de largo. Pararam o carro e saíram todos. Ao fundo, não muito longe… o mar de um azul forte. A perder-se no horizonte…

Perguntou ela:

- Onde é a sua Fajá?

- Para aquele lado… encostadinha ao mar – apontou Elizário.

De súbito tocaram três badaladas. Subiram então uma pequena encosta e perceberam que bem perto da igreja estava o cemitério.

- E aqui haverá alguém da sua família?

- Isto lembro-me… por causa daquelas imagens – e apontou para uns anjos encrustados no velho e pesado portão de ferro.

O portão rangeu sob o peso e a ferrugem, encostaram-no e em silêncio, procuraram alguma indicação. Voltou a ranger. Uma idosa, quase tão velha como o tempo, penetrou no cemitério e encarou com aqueles estranhos:

- Bom dia!

- Bom dia – responderam para logo a seguir - a senhora é de cá?

- Sou sim…

- Haverá aqui alguém da fajã de Santo Elói?

- Oh se há… veja aqui… - e apontou para uma campa que já tivera melhores cores.

Leram numa lápide desenhada na pedra negra:

- “Aqui jaz Fulgêncio Mota”.

- Era o meu avô… - confessou em surdina.

A viúva partira, deixando-os sós.

- Quando morrer adoraria ser aqui enterrado…

- O que é que gostaria que dissessem de si?

- Oh sei lá… Pergunta cada coisa, a menina!

- Vá pense…

Por fim.

- Aqui dorme para sempre Elizário Mota. Nasceu pobre e morreu rico, mas sem sequer ter um tostão.

Olhou o casal e genuinamente sorriu.

Desafio de escrita dos pássaros #2.6

Mote: oh não, um vírus outra vez!

Havia algumas semanas que Elizário fora recolhido pelo casal, em que a jovem esposa tinha raízes na bela ilha açoriana das Flores.

Após uns dias de adaptação a uma vida que jamais conhecera, o veterano chegou-se junto do marido e num tom sereno perguntou:

- Senhor… até quando irei ficar aqui em casa?

O rapaz percebia que aquele homem estava demasiado habituado à rua, ao frio, à fome e acima de tudo à tristeza e más lembranças. Pensou calmamente na resposta de forma a não ofender o ilhéu. Por fim:

- O Elizário ficará aqui enquanto desejar… Não queremos, de todo, prendê-lo a nós. Gostamos de o ter cá, mas longe de nós forçá-lo…

As palavras saíram calmas, quentes. A jovem chegou entretanto e escutando as palavras do marido convidou:

- Quer ir até à nossa ilha?

O conterrâneo ergueu os olhos para a anfitriã e quase num soluço perguntou:

- Não está a falar a sério, pois não?

- Claro que estou… Todos os anos vamos lá pelas festas do São João. Se quiser pode vir com a gente…

As lágrimas voltaram a rolar. Eram pérolas de felicidade de um coração tantos anos amargurado.

- Eu não posso ir… - declarou.

- Porquê?

- Porque não tenho dinheiro… Nem cartão…

- Cartão?

- Sim aquele com a nossa cara…

- Ah o cartão de cidadão… Mas isso arranja-se, não se preocupe!

O florentino temia que tudo o que lhe estava a acontecer não passasse de um sonho. De um instante para o outro a sua vida virara para o direito após muitos anos do avesso. Por isso ao jantar enquanto comia um prato de sopa comunicou:

- Amanhã vou arranjar o vosso quintal. Já vi uma enxada e um ancinho… Depois digam o querem plantar.

Os jovens olharam entre si e sorriram. Por fim concordaram com o pedido de Elizário.

No dia seguinte Elizário não apareceu na cozinha onde costumava tomar o pequeno almoço. Admirados bateram à porta do quarto.

- Senhor Elizário, bom dia… Aconteceu alguma coisa?

De dentro escutaram:

- Oh… só estou com um bocadinho de febre…

- Febre? – perguntou a jovem num tom assustado.

Depois virou-se para o marido e exclamou:

- Oh não, um vírus outra vez!

Entretanto a porta abriu-se e de lá saiu Elizário a tremer e embrulhado num cobertor:

- Não tema menina… é só mais um ataque de paludismo.

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