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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sorte de principiante!

Naquele canto da taberna, Armandino e Izidoro falavam em surdina. Combinavam “umas coisas”, disseram eles ao Adérito quando este se tentou intrometer.

- A noite está fechada com nuvens, não há Lua… calha mesmo bem… - afirmava um.

- Então e o Lambranca? – duvidava o outro.

- Não te rales que hoje é sábado o dia da tosga da semana.

- Mas mesmo assim tenho medo!

- Não tenhas, Izidoro… Está tudo controlado. Amanhã tens laranjas na mesa e das boas!

- E se alguém desconfia? – insistia – Não quero chatices com o senhor José Joaquim que foi padrinho do meu pai…

- Ninguém vai saber! Daqui a nada cada um sai e encontramo-nos ao pé da oliveira velha. Quando chegares tosse, se me ouvires tossir entramos juntos pelo portal. Temos é de desviar aquela cancela de madeira. De acordo?

Izidoro puxou uma fumaça do cigarro, beberricou o resto do vinho quase azedo e confirmou com a cabeça.

Era a primeira aventura para roubar as laranjas do velho Joaquim. Todavia o problema mesmo era o seu capataz Lambranca, homem de espírito irascível, velhaco e pouco condescendente com quem roubava o patrão.

Conta-se, sem qualquer confirmação, que o Jesuíno desaparecera às mãos do capataz, só porque armara umas laçadas para tentar apanhar um javali na fazenda do outro. Mas ninguém tinha certeza de nada.

Perto da hora combinada Izidoro paga a sua despesa e sai. Encaminha-se para casa em busca de um saco. Por sua vez Armandino fica mais uns minutos, não fosse a malta desconfiar da saída simultânea.

Depois também ele abandonou o tasco despedindo-se de todos.

- Já vais? Olha que ainda é cedo…

- Tens razão Adelino, mas sinto que estou a chocar alguma. Vou até à deita a ver se isto passa.

- Ó Armandino, arrefinfa-lhe um bagacito com mel antes de te deitares - Sugeriu um.

- Um bagacito sim mas quente… - referiu outro.

Num ápice instalou-se a confusão na taberna. Momento ideal para Armandino sair dali.

Entrou na noite fria, já que soprava uma brisa cortante. Virou no sentido de casa, mas assim que saiu do alcance da vista da taberna virou por um carreiro estreito. Valia-lhe conhecer bem o caminho já que a lua continuava sem aparecer em toda a sua plenitude. Caminhou uns bons minutos até chegar perto do lugar combinado com Izidoro. Assim que chegou aguardou que o parceiro tossisse. Escutou finalmente o sinal, respondeu com a sua tosse e rapidamente se encontraram perto do portal fechado.

Evitando fazer barulho retiraram as tábuas e finalmente entraram na fazenda. Devagar aproximaram-se da laranjeira carregada de frutos grandes e maduros.

O chão apresentava-se repleto de fruta que caira e que ninguém apanhara. Um desperdício comentavam muitos. Depois calmamente começaram a apanhá-las. Quase em surdina Armandino sugeriu:

- Vou tentar subir e filar as lá de cima. São maiores e mais saborosas. Tu fica atento não vá alguém aparecer.

- Certo…

Estavam naquele despautério há algum tempo quando a Izidoro pareceu escutar passos. Armandino também ouviu. Este virou-se para o parceiro tentando fazer-lhe sinal de silêncio não obstante a escuridão da noite.

Os passos surgiam mais próximos. No instante seguinte pararam, para logo recomeçarem. Entretanto izidoro aproveitou uma aragem mais forte e fugiu da laranjeira, escondendo-se por detrás de um arbusto. Por seu lado Armandino ficara quieto em cima da árvore até perceber o que iria acontecer. Ambos temiam o Lambranca e daí a quietude.

A noite mantinha-se fechada num bréu incomum prevendo uma madrugada de chuva. Enquanto Izidoro se aninhava cada vez mais, o outro vulto entrara também no cerrado e caminhava lentamente e quase em silêncio. Sem saber passou à frente de Izidoro no preciso momento que duas nuvens se desentenderam e deixaram passar um pouco da luz lunar. Foi o suficiente para o furtivo perceber que a visita era nem mais nem menos que o João Rebola outro conhecido amigo do alheio.

Não sendo o temível Lambranca, ainda assim Izidoro manteve-se no escuro.

João longe de imaginar que não era o único à caça de laranjas aproximou-se pé ante pé da frondosa árvore. Chegou ao tronco por onde Armandino subira, estendeu a mão em busca de um ramo e… encontrou uma bota velha e rôta.

Um momento surreal: João engole um berro e sai do local a correr temendo que o outro seja o capataz. Armandino por sua vez e sem pensar atira-se da árvore abaixo e foge em direcção a casa, deixando nos picos da laranjeira parte da roupa e da sua própria carne.

Entretanto e passado os primeiros momentos Izidoro sai do seu esconderijo, pega no saco das laranjas que sempre estivera a seu lado, salta o muro, recompõe as tábuas e segue devagar para casa.

Promete a si mesmo não voltar à aventura das laranjas... nem de algo que não seja seu!

Muito mais tarde Armandino diria dele:

-  Escapou sem nada porque teve a sorte de principiante.