Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Contos Tontos - 26

Do outro lado da secretária o médico abriu o sobrescrito, desdobrou o papel e percorreu todos os items. A mão esquerda foi à cabeça instintivamente, dando azo a que o entregador desconfiasse de algo.

Por fim disse:

- Bom está tudo... mais ou menos bom. Só há aqui um pormenor que pretendo esclarecido.

O doente recostado na cadeira, de perna traçada e mãos no joelho, avançou calmamente:

- Oiça Doutor... deixe-se de rodeios e diga o que se passa. Já percebi que há aí algo que não será bom. Vá diga lá o que tenho.

O médico continuava a observar o papel. A bola estava agora do seu lado. Dizer ou não a verdade pareceu ser a questão principal.

- Então Doutor diga o que lhe parece! Não tenho medo de nada. E não o culpo daquilo que tiver...

- Oiça... - respondeu finalmente - já percebi que é um homem pragmático. Assim digo-lhe tudo o que tem e qual vai ser o seu futuro.

- Vá desembuche...

- Bom o meu caro tem... um cancro em estado avançado... Mas tem tratamento.

O silêncio reinou na sala por uns curtos minutos. Até que:

- Quanto tempo terei de vida a partir de agora?

O médico não esperava aquela questão. Assim respirou antes de dar a resposta. Depois:

- Não imagino... Com tratamentos pode ainda durar muitos anos.

- Bom... digo-lhe já que não vou fazer qualquer tratamento. Nem direi à minha família o que tenho.

- Mas isso é um absurdo...

- Pode ser que sim. Mas a partir de agora se disser à minha família todos irão sofrer até eu morrer. Se morrer em breve só sofrerão com a minha morte e não com o meu sofrimento.

- Desculpe lá, mas se morrer em breve as pessoas sofrerão mais depressa com a sua morte. Ao invés, se tomar medicamentação vai poder viver mais anos e a sua família só sentirá a sua perda daqui a muito tempo.

O doente levantou-se da cadeira e contrapôs:

- Já viu com toda a certeza gente a definhar com os tratamentos, certo?

- Claro que sim, mas...

O outro interrompeu:

- Alguma vez deu conta do que sofre a família ao assistir ao lento murchar do familiar?

- Provavelmente não... mas... calculo...

- Então doutor... deixe-me morrer em paz. É só o que lhe peço!

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D