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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O relógio

Devagar, muito devagar entrou no escritório que era acima de tudo a sua biblioteca, o seu refúgio, tal era quantidade de livros espalhados pela pequena divisão.

Tricotou por entre as resmas de livros e sentou-se finalmente à secretária, também ela repleta de publicações. Ao centro destacava-se, contudo, uma velha máquina de escrever.

Da janela entrava um sol acolhedor que parecia aquecer a pequena sala. Numa parede de lado dormia um velho relógio, herança do pai e que já fora do avô. Olhou-o e percebeu que estava parado… havia muitos anos! Desabafou:

- Então companheiro… há quanto tempo que ninguém te dá corda, hem!

Depois virou-se para a sua “Hermes 2000” e devagar foi carregando o carro com uma nova folha de papel. Rodou o rolo lentamente e acertou a folha, como sempre o fizera. Ao contrário de todos os outros escritores que conhecia, ainda não se adaptara às novas tecnologias. Daí a sua velha companheira.

Na verdade a sua editora através de carta solicitara que escrevesse algo para a época do Natal desse ano.

- Um conto de Natal? Mas eles estarão mais senis que eu? – questionou na altura.

Voltou a pegar na missiva que recebera, releu e suspirou. Um suspiro profundo que saiu naturalmente, tal parecia vir a ser o frete.

Não obstante a sua já provecta idade ainda assim mantinha a escrita como modo de vida. O sucesso das suas obras residia num passado já longínquo, mas aquele ainda lhe trazia alguns proveitos pecuniários. O suficiente para ir sobrevivendo.

Agora estranhamente surgira este invulgar pedido. Escrever um conto de Natal…

Ele que havia trinta anos não comemorava a quadra. Desde que os seus filhos haviam partido de casa sem nunca mais darem sinal de vida. Depois seguira-se a Laurinda…
Desta jamais fizera luto. Achara que não seria necessário. O amor pela mulher morava ainda no seu coração e não nas vestes negras…

- Mas vou escrever sobre o quê?

Olhou novamente o relógio de parede e perguntou-lhe:

- Companheiro silencioso… que me dizes? Tens alguma ideia?

Afastou-se da secretária de forma a poder abrir e vasculhar a gaveta. Após alguns minutos encontrou o que pretendia. Ergueu-se devagar e procurou um banco no meio de tanto livro, atirou alguns ao chão, até o encontrar. Finalmente subiu para ele e abrindo a portinhola de vidro enfiou a chave no buraco respectivo e rodou. Um som característico fez-se ouvir e ele deu 12 meias voltas até que a chave não rodou mais. Seguiu-se o outro buraco e repetiu as voltas e os gestos. Finalmente pegou no pêndulo e fê-lo balancear.

Escutou um tic-tac compassado e nivelado. Desceu do banco e sorriu…

Voltou à sua secretária e começou a bater as teclas. Puxou o rolo para cima para reler o que acabara de escrever e repetiu em voz alta:

- Um conto de Natal, o relógio…

De súbito uma voz grave, mas calma disse atrás dele:

- Como podes gostar tanto de relógios se nunca os pões a trabalhar?

Ele reconheceu a voz. Uma lágrima correu pela face mas não se voltou. Continuou a bater nas teclas da sua máquina de escrever, todavia desta vez ia repetindo em voz alta o que escrevia:

- Fizeste-me falta meu filho. Sabes do teu irmão?

Outra voz soou:

- Estou aqui meu pai!

O escritor continuou a escrever:

- Este ano o espírito de Natal tem a voz dos meus filhos.

O relógio bateu finalmente as horas, pela primeira vez em trinta anos.

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