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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Ano Novo, conto velho

 

Certo dia um homem muito abastado aproximou-se de um pobre lavrador. Este sachava um extenso batatal das ervas daninhas. Quando viu a visita aproximar-se, o lavrador parou o que fazia e cumprimentou:

- Boa tarde senhor… não o conheço por ser destas terras perdidas…

- Boa tarde! – devolveu a saudação – Tem claramente razão no que diz mas vim aqui à sua procura.

- Á minha procura? Mas que posso eu, pobre lavrador de terras ainda mais pobres que eu próprio, fazer por Vossa senhoria.

O outro olhou em redor como se procurasse algo onde se sentar e não vendo nada a jeito acabou por encostar ainda mais o seu corpo gordo e anafado à velha bengala que trazia na mão. Finalmente decidiu responder ao camponês.

- Ouvi dizer que o meu caro amigo é um homem muito sensato!

- Ora…ora… - engasgou- faz-se o que se pode. A vida é que nos vai ensinando.

- Pois seja a vida, como diz. Mas o que eu realmente gostaria de saber é como consegue o meu amigo viver o dia a dia assim em tamanha paz?

Sem qualquer receio o lavrador empertigou-se e olhando nos olhos do outro voltou à carga:

- Mas meu senhor diga lá o que pretende de mim. Como vê – e apontou para o extenso batatal como bico da sacha – ainda tenho muito que fazer e daqui a nada é noite.

- Quanto ganha à jorna?

- Por esta altura, 12 vinténs!

- E como consegue viver só com esse dinheiro?

- Meu caro senhor… Não o esbanjando, já se vê!

O outro coçou a calva debaixo do chapéu de aba larga e insistiu:

- Que não gasta indevidamente já eu calculo. Mas mesmo assim…

O lavrador acabou por perceber onde o outro pretendia chegar e assim de forma serena foi explicando:

- Bem meu caro senhor… Dos doze vinténs que recebo, guardo quatro para pagar uma dívida, com outros quatro faço a minha humilde vida e os restantes ponho a render.

Desta vez o rico quase caiu. Como poderia um homem com tão poucas posses assumir tais compromissos. A dúvida por isso mantinha-se. E não desarmando insistiu:

- Há algo nessa sua vida que não consigo entender. Como pode com tão pouco dinheiro fazer tanta coisa?

- Ah, mas isso é fácil! Muito fácil.

O outro cruzou os braços numa espécie de dúvida e aguardou pelo resto da resposta.

- Como lhe disse com quatro vinténs pago uma dívida. Por isso tenho os meus pais já idosos a viver comigo. Dou-lhes de comer, carinho, atenção e de quando em vez algum remédio do boticário.

- Hum estou a ver!

- Com as outras quatro moedas dá para mim e a minha patroa podermos viver o nosso dia.

- Continue… - a curiosidade surgia agora com as moedas investidas.

- Bom o restante dinheiro serve para colocar os meus dois filhos a estudar. Será sempre um bom investimento e com retorno certo.

O homem rico e anafado abriu a boca já sem dentes num espanto e só soube dizer:

- Bem pensado meu amigo, bem pensado.

E virando as costas ao lavrador regressou ao caminho donde viera. O camponês não perdeu mais tempo e assegurou-se que as batatas ficavam sachadas.

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