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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 09.04.12

Contos Breves - A Porta aberta - XXVI

A tempestade descia a encosta em torrentes de chuva e vento. Em meses de invernia era frequente a rudeza dos temporais, com a água a escorrer em verdadeiros ribeiros ladeira abaixo, pelas canadas de terra vermelha e negra. Todavia naquele ano a intempérie parecia querer tudo levar na sua frente. Os inhames fustigados pelos aguaceiros fortes quase quebravam nas suas folhas largas e côncavas. O vento no seu rugir frenético rasgava as searas de milho com violência. Finalmente crescia da costa, logo a seguir ao caminho de terra batida, o clamor forte e impetuoso do mar sovando as rochas silenciosas e frias. O síbilo dos imprevisíveis refolgadouros – o Felix Maqueiro, mais conhecido pelo Pé Grande, desapareceu em dia de pesca, ao cair num desses buracos que a natureza criara, quiçá para sua própria defesa - ouvia-se agora mais longe. O mar penetrava pelas entranhas de lava, outrora incandescente, e saía em jactos que se erguiam no ar, quais foguetes em dia de festa do Divino Espírito Santo.</p>

Na pequena bacia da aldeia piscatória, as barcas e as traineiras elevavam-se e desciam num bailado invulgar, ao sabor das vagas que morriam com estrondo nas muralhas negras. Os grossos cabos que agarravam as frágeis embarcações a terra, quase cediam à imensa força das águas oceânicas As mesmas águas que em dias menos agitados, enchiam por completo os barcos de bom peixe. Uma alegria, quando assim era! A prata do mar, saltava ainda parecendo querer-se mostrar. Mas a faina rendia geralmente pouco dinheiro. A maior parte das vezes, após noite e dia de mar sempre em sobressalto, cabazes repletos, mal dava para pagar a conta fiada na taberna havia semanas.

Os sucessivos relâmpagos iluminavam o fim de tarde tenebroso e escuro. O gado habituado às tempestades repousava na encosta, repleta de erva verde, indiferente ao mau tempo. Uma ou outra vaca mugia como que dando sinal da sua existência aos deuses das tormentas. Mas estes continuavam impiedosos ou desatentos, tanta era a chuva e vento.

Em casa de Américo Bailinho, a família preparava-se para comer: inhame frito em banha, linguiça e milho cozido, tudo acompanhado de broa e vinho, muito vinho. As luzes das velas, iluminavam pobremente a acanhada sala.

Ele, camponês mas também baleeiro, era um homem forte e corajoso. Na barca Santa Rita, onde era trancador, ganhara boa fama e indiscutível prestígio. Jamais cachalote algum escapara à ponta afiada e certeira do seu mortífero arpão, que ele guardava com devotada paixão por entre os seus pertences. O medo, esse sentimento tão contraditório que criva os bravos dos outros, vivia todavia permanentemente consigo. Não receava morrer na luta quase titânica contra um animal de cinquenta toneladas, temia apenas a falta do pão na família. E por isso cuidava-se. E orava...

Lá fora o mau tempo engolia a noite já escura. As portadas há muito cerradas, desde que Efigénia olhara o cimo da serra e previra...

-          Temos trovoada! E da grossa!

... vibravam ao sabor do vento. E as grossas bátegas de água trazidas por Eolo, fustigavam as janelas com invulgar violência.

Após a oração dita com a solenidade que a situação obrigava, todos se lançaram ao jantar. Entretanto a tormenta parecia querer redobrar de intensidade.

-       Diabo de temporal este! – comentou Américo com raro azedume.

-       Deixa lá homem! Amanhã é outro dia e o mau tempo não dura sempre. Há que ter paciência -  apaziguou a Efigénia.

-       Três dias, já lá vão três dias, que não saio de casa. Diabo de temporal! – repetiu o marido.

E o homem foi comendo e bebendo. Que mais haveria a fazer?

De súbito e após uma rabanada de vento mais forte, o acesso à rua escancarou-se com estrondo, permitindo que a chuva e o vento compartilhassem a casa numa confraria pouco usual. Num salto Américo agarrou a búrdia.

-       Diabo de porta, agora é que havia de se abrir.

Mas ao tentar encerrá-la não o conseguiu. Um poder estranho parecia surgir de fora e empurrava-a para dentro. Nem era o ímpeto do vendaval, que esse por breves instantes parecia esmorecer ligeiramente. O baleeiro uma vez mais em esforço empurrou a porta tal qual fosse lançar um arpão. Mas sem êxito.

-       Mas que Diabo porque não se cerra ela? – resmungou.

As crianças tremiam agora. Crentes, viam naquele bizarro fenómeno como algo vindo do Além. A mulher, todavia serena e confiante, ajudava os filhos.

-       Não tenhais medo. Isto é apenas o vento! O pai vai já resolver o assunto... Sabem como ele é forte – descansava.

Mas estranhamente aquela não se deixava mover. E Américo usava de toda a sua pujança para a contrariar. Enfim, em vão.

-       Diabo de porta! Não se quer fechar! Tal coisa nunca me aconteceu! – admitia numa respiração já ofegante.

Por fim a mulher, sofrida por horas perdidas na incerteza se o homem regressava ou não de mais uma faina à baleia, ergueu-se calmamente, dirigiu-se à entrada teimosa e com a serenidade de quem ama o Divino, epilogou aquela sem esforço, terminando ali uma luta imperceptível. Espantado com o último gesto da mulher, Américo remeteu-se a um silêncio triste e vencido.

-       Homem de Deus, pensa bem! Nunca ponhas o Diabo à frente das coisas... Sabe-se lá do que ele é capaz! – Proferiu a companheira à guisa de uma sentença serena.

Na mesa pobre e humilde, reinava agora a calma, acabando todos o jantar já frio, em paz e sossego.

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por José da Xã às 22:42

Segunda-feira, 09.04.12

Contos Breves - Maria do Céu . XXV

 

Um manto azul forte e inconstante acariciava com doce melancolia a pequena rampa por onde subiam barcas e frágeis traineiras, arrancadas ao mar pelos pescadores. Fugiam aos inesperados e revoltosos temperamentos de um oceano sempre indomável. O dique de rocha negra e áspera embrenhava-se nas águas, criando uma defesa natural aos avanços violentas do Atlântico.

Logo que a tarde soava no relógio da Matriz, Guilherme Bento descia, apoiado na sua bengala e curvado não se sabe se ao peso dos anos ou das incontáveis fainas marítimas, a pequena ruela empedrada de blocos negros e rectilíneos. Cruzava os homens de pele morena e secos de carnes que por ali deambulavam e atirava:

-       ‘Tarde, pessoal!

-       ‘Tarde ti Mito... – respondiam os outros.

Ficavam depois a vê-lo desaparecer por detrás do muro do velho cais, só surgindo quase na ponta. Passo pequeno e lento, cachimbo de cana apagado ao canto da boca, boina em tempos branca cravada na cabeça, pele tisnada por muitas horas de sol e sal, olhos pequenos mas vivaços.

No extremo de um pontão de cimento, paralelo ao dique de rocha, repousava uma pequena pedra. Havia quem dissesse que fora o próprio mar que ali a colocara para que o velho Guilherme gozasse o resto dos seus dias, contemplando o horizonte onde os azuis distintos se juntavam. Vivia só, numa singela casa de um piso, caiada de branco e que adquirira no auge da sua vida de pescador. O que comia ninguém sabia, mas exalava frequentemente de sua casa o aroma característico a peixe frito.

A tarde mantinha-se serena, sem vento. No céu, o anil alternava com o plúmbeo das nuvens. Mas sem qualquer ameaça de chuva. Na enseada entrou uma traineira de casco vermelho forte. Trazia atuns e cavalas. Assim que a embarcação encostou ao pontão os homens saíram apressados. Na ponta repararam na figura mirrada do mestre Guilherme. Alguém tentou gracejar:

-       Será que ele ainda a espera?

Os outros conhecedores e respeitadores da história antiga e mal dissolvida pela amargura dos anos, miraram com desdém o autor da graçola.

Mestre Guilherme sempre vivera agarrado àquele imenso mar. As suas primeiras memórias, colocam-no com apenas cinco anos no barco do avô. Num dia de pesca. E que dia... Gorazes, chernes, corvinas e sabe-se lá mais o quê... Um carrego daqueles era uma vez na vida de um homem do mar. Quando a traineira arribou ladeira acima puxado pelos homens, logo surgiu a mãe em pranto:

-       Ai desgraçado! Tão pequeno e já nestas vidas. E eu aqui tão apoquentada que já prometi uma vela à Nossa Senhora da Saúde.

O mar viria naturalmente a ser o seu futuro. Primeiro com o avô, mais tarde o pai e finalmente ele como Mestre da velha traineira. Um fado cruel e injusto que ele preferiu, aos bancos desconfortáveis da escola. Um ofício tão implacável que tantas vezes pensouem desistir. Masquando olhava aquele azul tão negro e escutava aquele som tão claro contra as rochas, tudo se esvanecia e depressa regressava ao remendo das redes para nova campanha.

Anos a fio sulcou ondas e vagas numa vontade intrépida contra o mar. O sol, a chuva e o vento haviam sido os seus companheiros permanentes. Quantas vezes sentira que o seu dia tinha chegado, tal era a tormenta, a engolir de um trago a frágil traineira. Mas Deus ou fosse lá quem fosse, retirava no último instante à imensidão quase infinita do oceano o pequeno pesqueiro e colocava-o novamente no cimo das cristas brancas e bravias.

Já homem feito enamorou-se certo dia de Ana, também ela filha e neta de pescadores. Todavia a jovem tinha outras ideias para o seu futuro e logo que a oportunidade surgiu, embarcou para a América. Um desaire na vida de Guilherme. Uma ferida que nunca soube sarar.

Naquele singelo banco, Mestre Mito – era assim que os mais novos o conheciam – perscrutava o horizonte,em silêncio. Auma milha, pouco mais, um pequeno ilhéu erguia-se do mar como de uma fortaleza se tratasse. Uma milha entre dois destinos. E o mar azul, mar de azeite por agora, entre eles. E uma história ou um mistério por desvendar.

Naquela madrugada, Guilherme aprontou tudo para partir para nova faina. O sol ainda nem despontara quando largou a caminho de um oceano permanentementeem mutação. Ovento de norte crispava as primeiras vagas, que rodeavam a embarcação como um novelo. Fugindo às correntes a traineira lutava contra um malagueiro feroz e impetuoso. À direita permanecia imóvel o velho ilhéu.

Todavia sempre que mestre Mito circundava tal rochedo, invadia-o uma sensação de que alguém ali o mirava de um jeito diabólico. Assim o pescador e os seus homens fugiam daquele destino. Porém nessa manhã a corrente parecia mais forte, tentando indomar-se à força dos velhos motores da traineira. De súbito alguém avisou:

-       Mestre, não se consegue passar as correntes. Estamos a ser levados para o ilhéu.

-       Vira tudo a bombordo e regressamos a terra – ordenou o comandante.

Só que o mar não estava pelos ajustes e mesmo após a manobra, aquele continuava a empurrar a embarcação para o enorme rochedo. Experiente e conhecedor, o velho pescador solicitou via rádio ajuda a outros barcos.

Num instante surgiram diversas traineiras muito maiores e que lidavam bem com aquele mar. Mas o mestre apenas solicitou que levassem os homens para terra. A barca era com ele. Nem quis qualquer ajuda para rebocar a sua velha embarcação, herança de pai e avô.

Respeitando a vontade férrea de Guilherme, os homens passaram a custo para os outros barcos e regressaram a terra firme.

Do cimo da enseada os homens viram a luta que o seu Mestre mantinha com as vagas, as correntes e o ilhéu. Alguém conhecedor daquelas fainas, previu com um agoiro:

-       Aquele dali já não se safa. A corrente de norte é muito mais forte que o barco. Ainda vamos ter para aí uma desgraça. E aquele homem é tão teimoso!

Conhecia-o bem doutras fainas. Casmurrice era coisa que não faltava a Guilherme Bento. Mas fora essa mesma tenacidade e perseverança que tantas vezes lhe salvara a vida e a demais companheiros.

Os olhares viviam aqueles instantes cravados no horizonte, ansiosos e descrentes. A chuva que entretanto começara a cair não fez ninguém arredar pé do velho ancoradouro. Todos admiravam a força de um homem contra a natureza. Mas esta jamais se deixaria domar, mesmo por um velho lobo do mar.

As vagas encapelavam-se e rebentavam quase em cima da frágil traineira. Lá dentro o homem só tentava tudo. O ilhéu crescia, crescia. E o mestre tentava, tentava.

Uma forte onda caiu por fim com violência no convés do barco, quebrando-o por completo. Estava irremediavelmente perdida a guerra. O mestre tentou ainda uma última manobra mas a água entrada já nem saía. Afundava-se finalmente a velha traineira, enxada de tantos cavadores de mar.

Num assomo de força e perseverança, mestre Guilherme só com a água como companhia tentou chegar ao rochedo negro e silencioso. Uma nova vaga arrastou-o contra as pedras, mas ainda assim a sorte protegeu-o, deixando apenas alguns arranhões nos braços e nas pernas.

Já em terra, naquele naco de rocha que ele nunca visitara e que temia, sem nunca saber realmente a razão de tal temor, tentou resguardar-se do temporal. Na aldeia piscatória, quando o mar tragou duma vez só a embarcação todos julgaram que o mestre havia também desaparecido. Os sinos tocaram a rebate naquela tarde, mesmo contra a vontade de alguns amigos de mestre Bento.

Dois dias mais tarde, um velho pescador lançou a sua barca e foi procurar peixe para o ilhéu como era seu hábito. O mar estava sereno desta vez e foi com um enorme susto que encontrou o Mito, deitado em cima uma rocha, dormitando. Sem perguntas de ambas as partes regressaram nesse momento à aldeia. Quando chegaram muitos se dirigiram, questionando  e congratulando-se com a vida poupada pelo mar.

No dia seguinte, Guilherme Bento aproximou-se do pontão de betão e aí encontrou a pedra. Sentou-se, carregou o fornilho do cachimbo, acendeu-o e mirou o mar com tristeza.

Um dos seus velhos companheiros, ganhou coragem e perguntou-lhe nessa célebre tarde:

-       Que procuras aqui, homem de Deus?

-       O que perdi! – Voltou secamente.

-       E o que é que perdeste?

A minha traineira, a Maria do Céu. Aguardo aqui, pacientemente, que o mar ma devolva ou então que me leve para junto dela...

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por José da Xã às 21:14


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