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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 05.04.12

Contos Breves . O Cara-Velha - XXI

A trovoada rodeou a aldeia como num cerco guerreiro. Em breve grossas bátegas de água desabavam sobre a pequena planície. O céu negro, era de quando em vez iluminado pela luz brilhante de um raio que rasgava o firmamento. O trovão perseguia aquele de perto. Tenebroso e imenso, sacudia o ar qual leque sevilhano. As vidraças agitavam-se ao ritmo diabólico da tempestade. Na rua nem vivalma.

A meio dessa manhã, assim que os primeiros castelos de nuvens plúmbeas e espessas envolveram os céus do povoado, numa ameaça evidente de forte borrasca, os homens regressaram a casa em passo apressado, forçados pela inevitabilidade da intempérie que se deixava adivinhar.

-           Vem aí trovoada – previa o Chico Trapaça – e da grossa!

Os outros concordaram. Era costume...

O vento, súbito e rebelde, soprou finalmente, aproximando ainda mais a invernia. Ao longe os cães mais afoitos, prevendo o temporal, latiram agoirentos. A velha Rosalina, aos primeiros assomos de luz celestial, abriu as janelas de par em par e de mãos prostradas em oração desenrolou a lengalenga própria para a ocasião:

Santa Bárbara bendito,

no céu está escrito

com papel e água benta

abrandai esta tormenta.


E após uma ligeira pausa, retomou fôlego e prosseguiu:

 

Onde não haja eira

nem beira

nem gadelhinho de lã

nem alma cristã.

Ao que seguia um Padre-Nosso e uma Avé-Maria. E enquanto durasse a trovoada repetia indefinidamente a ladainha.

Pelos caminhos vermelhos, formavam-se torrentes, cobrindo as pedras, indo desaguar mansamente nas terras argilosas, atapetadas de erva verde, que aceitavam a água como dádiva. Parecia noite. As chaminés hirtas e negras encimando os telhados das casas velhas e humildes expeliam colunas de fumo, ajudando à penumbra daquele dia.

Quando tocaram as doze badaladas no campanário da velha e humilde capela, alguém comentou:

-          Ao meio-dia, carrega ou alivia!

Porém a chuva não aliviou mantendo-se impiedosa durante toda a tarde. Com o aproximar da noite o temporal abrandou finalmente em jeito de trégua. As nuvens abriam pequenos elos permitindo que o luar iluminasse tenuemente o casario, que se embrenhou afinal numa pacatez nocturna pouco comum. Os cães e gatos regressaram a casa, encharcados e famintos.

Do breu da noite surgiu como um fantasma, Justo Fragoso da Silva, mais conhecido na aldeia pelo Cara-Velha. De altura mediana e corpo franzino, caminhava devagar como era seu hábito, encostado a um velho e negro cajado de marmeleiro que além de amparo servia assim mesmo de meio de arremesso. Quem com ele convivia conhecia de sobra aquele varapau, como uma arma temível. Quantas lebres e coelhos haviam sido caçados? Perdera-lhe o conto. Bastava perícia e um bom olho. E nas zaragatas iniciadas por comezinhas, quantas vezes o pau caíra com violência nas costas dos adversários? Um ror...

De regresso a casa, Justo carregava a bolsa repleta de bom dinheiro. Vendera o rebanho na feira dos Santos havia uns dias e agora era só gastar. Ao fim de tantos anos cansara-se de calcorrear carreiros e veredas, apenas com o Jabru, seu fiel canino, como companhia. Saturara-se de comer toucinho e pão duro. Pão duro e toucinho. Dias a fio. O cão que o acompanhava havia alguns anos também preferia um pouco de ripanço. Para trás ficavam tempos infinitos a correr desalmadamente às ovelhas teimosas, a ladrar-lhes, a pô-las no trilho certo, a guardá-las de algum inimigo mais esfaimado. Noites de vela pelas charnecas desertas e inóspitas. Valia porém o dono, homem pacato e bom caminhante de quem nunca ouvira uma voz alterada, nem porventura uma mera observação. Por vezes quando bebia demais, atrasava-se em tirar o gado do redil na manhã seguinte e era ele, Jabru, que acordando o pastor, dava sinal da tardança. Sempre fiel.

A porta estava destrancada como sempre. Bastou a Justo empurrá-la. À entrada no lado esquerdo, numa mesa desconchavada achou uma vela pouco maior que um coto que acendeu com o mesmo fósforo da beata mal fumada. Depois acorreu à lareira onde ainda restavam alguns tições do último fogo. Juntou-os, adicionou-lhes alguma palha que jazia ao lado e com o círio deu vida e luz à casa, acendendo o lume. O fumo enlevou-se célere pela chaminé encarvoada. Parecia buscar o ar fresco e húmido da noite. As labaredas cresceram lentamente em formas irrequietas e sempre desiguais.

A tardoz alongava-se um quintal jamais amanhado. Encostada à parede do fundo elevava-se uma minúscula arrecadação coberta por telha de canudo assente em velhos e quase podres caibros de madeira. De dentro Justo retirou uma pouca de lenha. Carregou-a sem esforço debaixo do braço até ao lume que parecia querer esmorecer após uns breves momentos de vivacidade. Encheu o borralho com a madeira seca e aquele depressa ganhou ânimo.

Finalmente já havia calor para secar a roupa e o pêlo molhados pela chuva violenta e cerrada. O pastor despiu-se e colocou as vestes de forma a apanhar o quente da fogueira. Em breve um ligeiro vapor exalou da roupa, misturando-se com o ar bafiento da habitação. Depois diligenciou a vasilha de barro que achegou debaixo de um velho e sujo panal de azeitona. Destapou-a e enterrou pela boca do recipiente a mão suja e calejada. De dentro retirou um chouriço envoltoem azeite. Limpou-ocom alguma palha que restava e rasgou-o de alto a baixo com uma faca aguçada. Na fogueira ajeitou uma clareira repleta de brasas incandescentes onde depositou o enchido:

-          Hoje Jabru, vamos realmente matar a fome! Há três dias que não comemos. - E passou a mão gordurosa pelo pêlo sujo e desgrenhado do animal. Este, como que agradecido, latiu baixinho.

Da última vez que estivera em casa, havia guardado na arca de madeira uma broa. Certamente enrijecida pelos dias, ainda assim seria melhor que nada. Retirou o pão do fundo, sacudiu-o de alguma farinha e enterrou-lhe a faca aguçada. Esta penetrou sem esforço. Cortou um bom bocado e atirou-o ao companheiro. Jabru abocanhou o naco e ficou a roê-lo até ao fim. Finalmente o chouriço surgiu quente, salgado e saboroso. Comeram ambos. Justo Cara-Velha, acompanhou a refeição com um resto de vinho que sobrara da jornada. Depois alcançou a jaqueta quase seca e retirou de um dos bolsos duas tangeras. Descascou-as e estranhamente comeu as cascas finas e só depois levou à boca os gomos, doces e sumarentos, dos citrinos saboreando a fruta com consolo. Rematou a refeição com uns goles de aguardente que arrecadara religiosamente para dias especiais. Adormeceu por fim, sentado no desengonçado cadeirão saboreando a pacatez de um lume acolhedor.

Quando acordou, já manhã alta, tinha o corpo dorido da posição pouco cómoda em que ficara durante o sono. O cão saíra já, procurando onde se aliviar. Ainda estremunhado o Cara-Velha, ergueu-se a custo do cadeirão e foi até ao quintal, onde uma alva radiosa dava razão ao adágio que falava de tempestades e bonanças. Na única oliveira do cercado, algumas lágrimas escorriam ainda pelas folhas verdes, indo tombar na erva viçosa que se erguia da terra vermelha. Últimos vestígios de uma véspera de invernia.

Em cima da antiga pia de pedra, morava uma bacia de esmalte que já conhecera melhores dias e que se enchera com a água da intempérie. Foi ali que Justo mergulhou, de chofre, a cara. Estava realmente muito fria mas soube-lhe bem. Reanimou-o. Esfregou a face com vigor deixando que pequenas gotas de água escorressem pela barba comprida e molhassem o tronco nu. Limpou-se a uma velha camisa que por ali encontrou. Passou a mão pelo cabelo sujo à laia de pente e deu por finda a sua higiene matinal.

Na trempe fervia agora a água para o café. Duma bolsa de pele retirou o pó castanho e aromático e deitou-o para dentro da cafeteira. Enquanto apurava o negro líquido, Justo cortou outro pedaço de broa e entregou-a a Jabru, entretanto regressado. O animal também tinha direito a mata-bicho.

De barriga desenganada, o antigo pastor saiu porta fora em busca não sabia bem do quê. E a primeira paragem foi na taberna do Frias. Um copo para começar, muitos para acabar.

Enquanto o dinheiro da venda do rebanho durou, o Cara-Velha comeu e bebeu durante muitos dias. Bebeu mais do que comeu. Depois, já sem cheta, procurou trabalho esporádico. O tempo e tostões suficientes para pagar a bucha para si e para o cão durante uns dias.

As irmãs bem que o avisavam tentando em vão cuidar da sua saúde:

-          Ó mano pensa bem no que andas a fazer! Um dia queres e não podes. E nós não vivemos eternamente para te poder valer quando já não puderes.

O ocioso zombava das apoquentações fraternas e ia respondendo:

-          Não vos raleis. Não morro ainda. Estou conservado em álcool – e ria ruidosamente.

Mais tarde, sem trabalho e sem dinheiro, acabou por vender as terras herdadas. Trocou-as por uma bagatela de dinheiro que logo voltou a gastar em comes e bebes. Era frequente entrar na tasca e pedir:

-          Ei Frias! Pratos para dois que o cão também come!

Os anos passaram qual rabanada de vento. O Cara-Velha estava cansado e doente. Mas jamais o reconhecia. E quando alguém mais atento o observava e comentava, Justo erguia-se e respondia:

-          Tomara tu teres a minha saúde!

Mas um dia o velho pastor deitou-se e não acordou mais. Ou como diria mais tarde o Ginga:

-          Que sorte teve o danado! Deitou-se e quando acordou estava morto...

O cão latiu toda a noite de velório. Para além dos irmãos, surgiram na pequena capela apenas alguns velhos companheiros de tasca. Ninguém mais. Os seus verdadeiros amigos haviam sido as ovelhas e as cabras, há muito vendidas.

No dia do funeral chovia uma água miudinha. Soprava ainda uma nortada fria e penetrante que enregelava os corpos. Na serra uma neblina parecia prender-se aos penedos cinzentos e enormes.

Dizia uma das manas, a caminho do cemitério, olhando a encosta:

-          A ladeira está a cozer. Temos água toda a noite!

Após a derradeira pá de terra vermelha, o coveiro ajeitou o monte, arrumou a ferramenta na arrecadação e abandonou o cemitério. Já da parte de fora, após ter dado duas voltas a velha fechadura do portão de ferro, olhou uma última vez para a nova sepultura e apercebeu-se  com estranheza que um cão acabara de se deitar em cima da campa acabada de tapar. Era Jabru, o fiel amigo de Cara-Velha. Nem na morte o abandonara.

E ali ficou deitado, de cabeça entre as patas estendidas como numa prece, até morrer à míngua, dois dias mais tarde.

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por José da Xã às 20:06

Quinta-feira, 05.04.12

Contos Breves - A Lagoa - XX


Vivia-se no fervor da guerra contra as tropas napoleónicas. Da aldeia calma e tranquila, de casas baixas e alvas, todos os homens válidos haviam sido recrutados para combater os franceses. Assim, velhos intrépidos, mulheres frágeis e crianças indefesas viviam amedrontados se, por ironia do destino, os inimigos rondassem as serras envolventes à aldeia. Os campos estavam mal amanhados, pois os braços não eram suficientes para trabalhar tanta terra. O gado tinha pouca pastagem e só a água parecia ser suficiente, num imenso charco natural onde os animais matavam a sede e as mulheres lavavam algumas roupas. A lagoa enchia-se naturalmente com as chuvas abundantes que tombavam durante o Outono e o Inverno. Longa e de margens lisas e acessíveis tornava-se após a invernia num espaço profundo e perigoso.

Um dia surgiu na povoação um soldado português montado num belo e bem tratado alazão. Trazia urgência. Avisou então toda a população que uma quantidade indefinida de soldados franceses haviam-se perdido do grosso das tropas. E provavelmente poderiam por ali passar em busca dos companheiros. Alertou para a necessidade de esconderem os melhores mantimentos desses homens e não prestarem qualquer ajuda. Não obstante o aviso, a aldeia pouco poderia fazer se os franceses cruzassem a serra por aquele ponto. Não havia quem a defendesse.

O tempo foi decorrendo com a pacatez de quem vive o dia a dia. E por isso em breve o povo esqueceu quase por completo o aviso. Os que conseguiam trabalhar continuavam a amanhar o chão e a pastar os rebanhos que prosseguiam as suas lentas caminhadas por entre penedos e mato. As primeiras chuvas outonais chegaram como de costume. As margens da lagoa alargaram-se ocupando como de costume alguns nacos de fazendas ao seu redor. As crianças adoravam brincar à beira, atirando pedras que provocavam círculos de ondas que cresciam no sentido das margens até aí desaparecerem. As mães cautelosas e atentas, chamavam a atenção enquanto malhavam numa pedra branca a roupa mal lavada:

-       Saí daí cachopo! Ainda me cais à água!

Mas a teimosia infantil acabava invariavelmente num tabefe eem pranto. Eassim sossegavam ambos: mãe e filho.

Numa manhã fria e entristecida pelo sol que tentava envergonhadamente surgir por detrás das nuvens cinzentas, arribaram à aldeia dois soldados de aspecto bizarro. Os uniformes que envergavam apresentavam-se muito sujos mas ainda assim assentavam perfeitamente. Traziam na cabeça chapéus invulgares e vinham montados em excelentes cavalos, o que lhes conferiam um ar ainda mais imponente. Surgiram pela entrada nascente e, conquanto fossem apenas dois, rapidamente espalharam o terror e o pânico pelos aldeãos indefesos.

Um velho, sentindo que algumas forças lhe subiam às mãos, pegou energicamente numa gadanha, enfrentando com vigor um dos soldados. Mas o francês do alto da sua montada e com uma simples estocada pô-lo fora de combate. O ferimento parecia profundo, mas não mortal.

Dando razão às ideias do militar luso, os soldados estrangeiros pareciam procurar companheiros de armas. Mas as encostas que envolviam a aldeia sempre se tinham apresentado como inóspitas e inacessíveis.

Fosse por necessidade ou apenas por requintada malvadez aqueles dois homens pilharam e molestaram a aldeia sem dó nem piedade. Uma viúva idosa chorava pois um dos soldados rasgara-lhe as orelhas ao puxar pelos brincos de oiro. Uma mãe tentava evitar desesperadamente que lhe levassem a vaca, único meio que tinha para dar algum leite aos filhos ainda pequenos. Um outro idoso amaldiçoava a sorte pois vira-se despojado de todas as suas cabras.

Quando os franceses saíram restou o povo que carpia a desdita sorte. Nenhuma casa ficara por pilhar, nenhum celeiro por arder. Um rastro de destruição e morte era a herança que aqueles homens haviam deixado. Os cães uivavam duma forma sinistra acompanhando a tristeza dos seus donos.

Ao abandonarem a aldeia, os dois cavaleiros passaram então pela lagoa tranquila mas traiçoeira. Quando a viram, grande e esplendorosa, reflectindo os fracos raios solares, decidiram dar de beber aos cavalos. Como não quiseram descer das montadas, enfiaram-se com os animais pela lagoa dentro. Num ápice ficaram com água pelos joelhos e sentiram-se na obrigação de desmontar, não fossem perder os cavalos. Mas a profundidade das águas era maior do que os homens julgavam e sentiram que as suas vidas se encontravamem perigo. Tentandonadar para a margem descobriram o fundo da lagoa e aí renasceu-lhes a esperança de se salvarem. Mera ilusão. O fundo era constituído essencialmente por lodo e, quando mais caminhavam na direcção da margem, mais se enterravam. O peso das armas e de alguns objectos que haviam roubado não ajudavam a salvação. Bem pelo contrário. Aflitos e em pânico começaram a gritar por socorro. Os seus apelos ouviam-se por todo o vale destruído mas os aldeões mantinham-se surdos de tanto sofrimento e dor. Em vão gritaram e apelaram - mas o destino estava traçado. O lodo devorou-os calmamente, sem dó nem piedade. Os cavalos salvaram-se e todos os animais regressaram aos seus donos. Só os brincos da viúva ficaram enterrados no lodo para sempre.

Muitos anos se passaram até que a lagoa quase secou. Hoje, só mesmo na força do Inverno tem água com fartura. Durante o Estio não passa de um reduzido charco onde as rãs coaxam alegremente num despique salutar com os melros vizinhos.

E as crianças sempre que podem, brincam ainda, agora sem perigo...

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por José da Xã às 18:57


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