Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sorte de principiante!

Naquele canto da taberna, Armandino e Izidoro falavam em surdina. Combinavam “umas coisas”, disseram eles ao Adérito quando este se tentou intrometer.

- A noite está fechada com nuvens, não há Lua… calha mesmo bem… - afirmava um.

- Então e o Lambranca? – duvidava o outro.

- Não te rales que hoje é sábado o dia da tosga da semana.

- Mas mesmo assim tenho medo!

- Não tenhas, Izidoro… Está tudo controlado. Amanhã tens laranjas na mesa e das boas!

- E se alguém desconfia? – insistia – Não quero chatices com o senhor José Joaquim que foi padrinho do meu pai…

- Ninguém vai saber! Daqui a nada cada um sai e encontramo-nos ao pé da oliveira velha. Quando chegares tosse, se me ouvires tossir entramos juntos pelo portal. Temos é de desviar aquela cancela de madeira. De acordo?

Izidoro puxou uma fumaça do cigarro, beberricou o resto do vinho quase azedo e confirmou com a cabeça.

Era a primeira aventura para roubar as laranjas do velho Joaquim. Todavia o problema mesmo era o seu capataz Lambranca, homem de espírito irascível, velhaco e pouco condescendente com quem roubava o patrão.

Conta-se, sem qualquer confirmação, que o Jesuíno desaparecera às mãos do capataz, só porque armara umas laçadas para tentar apanhar um javali na fazenda do outro. Mas ninguém tinha certeza de nada.

Perto da hora combinada Izidoro paga a sua despesa e sai. Encaminha-se para casa em busca de um saco. Por sua vez Armandino fica mais uns minutos, não fosse a malta desconfiar da saída simultânea.

Depois também ele abandonou o tasco despedindo-se de todos.

- Já vais? Olha que ainda é cedo…

- Tens razão Adelino, mas sinto que estou a chocar alguma. Vou até à deita a ver se isto passa.

- Ó Armandino, arrefinfa-lhe um bagacito com mel antes de te deitares - Sugeriu um.

- Um bagacito sim mas quente… - referiu outro.

Num ápice instalou-se a confusão na taberna. Momento ideal para Armandino sair dali.

Entrou na noite fria, já que soprava uma brisa cortante. Virou no sentido de casa, mas assim que saiu do alcance da vista da taberna virou por um carreiro estreito. Valia-lhe conhecer bem o caminho já que a lua continuava sem aparecer em toda a sua plenitude. Caminhou uns bons minutos até chegar perto do lugar combinado com Izidoro. Assim que chegou aguardou que o parceiro tossisse. Escutou finalmente o sinal, respondeu com a sua tosse e rapidamente se encontraram perto do portal fechado.

Evitando fazer barulho retiraram as tábuas e finalmente entraram na fazenda. Devagar aproximaram-se da laranjeira carregada de frutos grandes e maduros.

O chão apresentava-se repleto de fruta que caira e que ninguém apanhara. Um desperdício comentavam muitos. Depois calmamente começaram a apanhá-las. Quase em surdina Armandino sugeriu:

- Vou tentar subir e filar as lá de cima. São maiores e mais saborosas. Tu fica atento não vá alguém aparecer.

- Certo…

Estavam naquele despautério há algum tempo quando a Izidoro pareceu escutar passos. Armandino também ouviu. Este virou-se para o parceiro tentando fazer-lhe sinal de silêncio não obstante a escuridão da noite.

Os passos surgiam mais próximos. No instante seguinte pararam, para logo recomeçarem. Entretanto izidoro aproveitou uma aragem mais forte e fugiu da laranjeira, escondendo-se por detrás de um arbusto. Por seu lado Armandino ficara quieto em cima da árvore até perceber o que iria acontecer. Ambos temiam o Lambranca e daí a quietude.

A noite mantinha-se fechada num bréu incomum prevendo uma madrugada de chuva. Enquanto Izidoro se aninhava cada vez mais, o outro vulto entrara também no cerrado e caminhava lentamente e quase em silêncio. Sem saber passou à frente de Izidoro no preciso momento que duas nuvens se desentenderam e deixaram passar um pouco da luz lunar. Foi o suficiente para o furtivo perceber que a visita era nem mais nem menos que o João Rebola outro conhecido amigo do alheio.

Não sendo o temível Lambranca, ainda assim Izidoro manteve-se no escuro.

João longe de imaginar que não era o único à caça de laranjas aproximou-se pé ante pé da frondosa árvore. Chegou ao tronco por onde Armandino subira, estendeu a mão em busca de um ramo e… encontrou uma bota velha e rôta.

Um momento surreal: João engole um berro e sai do local a correr temendo que o outro seja o capataz. Armandino por sua vez e sem pensar atira-se da árvore abaixo e foge em direcção a casa, deixando nos picos da laranjeira parte da roupa e da sua própria carne.

Entretanto e passado os primeiros momentos Izidoro sai do seu esconderijo, pega no saco das laranjas que sempre estivera a seu lado, salta o muro, recompõe as tábuas e segue devagar para casa.

Promete a si mesmo não voltar à aventura das laranjas... nem de algo que não seja seu!

Muito mais tarde Armandino diria dele:

-  Escapou sem nada porque teve a sorte de principiante.

Desafio de escrita dos pássaros #17

Mote: Luz e sombra

A tela pictórica estendida à sua frente dava-lhe ares a qualquer coisa, mas não se lembrava bem do quê. E já ali estava há um par de horas a observá-la.

De quando em vez um visitante passava, olhava para o quadro e seguia. Outros, tal como ele, ficavam ali mais algum tempo. Sentavam-se ao lado de Malquíades, sorriam para este e raros eram os que partilhavam comentários, sempre em línguas diferentes.

O quadro fora pintado por Beatriz e encontrava-se em exposição numa das mais conceituadas galerias de arte de Barcelona, situada no bairro gótico quase paredes meias com o museu Picasso.

O movimento ao redor da galeria era imenso, essencialmente turistas que passavam, espreitavam, entravam e por fim ficavam espantados com a beleza das telas que a namorada de Malquíades pintara nos últimos anos.

Beatriz, já com uma evidente barriga de grávida, tentava explicar aos visitantes as razões de cada tela num inglês bem pronunciado. Por vezes surgia um ou outro que falava catalão, língua que a pintora também dominava. O problema parecia ser o francês ou o alemão…

Num pequeno intervalo Beatriz sentou-se ao lado do namorado encostou a cabeça a Malquíades e perguntou:

- Há quanto tempo estás aqui sentado?

- Não sei. Perdi a noção dos minutos.

- Gostas deste quadro? – apontando para a tela enorme.

O jornalista luso gostava especialmente daquela tela, mas continuava sem saber as verdadeiras razões da sua preferência. Respondeu à namorada:

- Este desenho é curioso, diferente…

Beatriz ficou em suspenso a aguardar as restantes ideias do namorado.

- A palete de cores com os respectivos contrastes, a profundidade do desenho, aquela silhueta baça…

- Tu davas um excelente crítico de arte – interrompeu Beatriz.

- Nem penses… Não tenho competências para tal…

E mudando rapidamente de assunto:

- Como está a nossa Eva? – e passou com doçura a mão bela barriga redonda da futura mãe.

- Está bem. E recomenda-se… Amanhã vou fazer outra ecografia.

- Vou contigo.

- Acho bem… Ah… ainda não te perguntei… Como foi andar de avião pela primeira vez?

Silêncio.

- Ui… já percebi que não correu bem!

- Correu, correu… Pensei que fosse pior!

Malquíades poisou o queixo nas mãos e perguntou:

- Mas o que será que me lembra este quadro?

Subitamente:

- Como é que se chama?

- “Luz e sombra”!

- Tem piada… este título é o último tema do “Desafio dos Pássaros”!

Desafio de escrita dos pássaros #16

Após alguns pequenos avanços e muitos recuos na vida, Malquíades conseguira finalmente assentar num trabalho onde, estranhamente, se sentia bem.

A sua primeira opção de emprego como jornalista não havia corrido de forma iluminada. Diversos conflitos com colegas e maioritariamente com o chefe da redacção, fizeram com que abandonasse o jornal mais cedo do que gostaria.

Saltitou de emprego em emprego (chegou mesmo a concorrer a Pai Natal!!!), até parar naquela agência onde a sua única função seria… escrever. Ao que constava figuras mais ou menos públicas tinham blogues, mas eram os outros que escreviam os supostos textos. Para Malquíades a situação era confortável desde que lhe pagassem. E pagavam… principescamente.

O pior mesmo ocorreu quando lhe encomendaram um texto sobre um tema quase filosófico. O tipo que solicitara o trabalho à agência era um pequeníssimo “bloguer” de nome bizarro e que se confundia com uma bebida. O tema versaria: “Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é para fazer”.

- Que raio de tema escolheu este tipo… - pensou o escritor a soldo.

Perguntou quantos dias teria para escrever…

- Mais ou menos 15 dias, mas convém que escrevas quanto mais cedo melhor, porque recebe-se mais algum… – confidenciou o chefe.

Sentado à secretária na sua casa e enquanto afagava docemente o Aissú, o jornalista ficou muito tempo a matutar. De súbito, como era seu apanágio, virou-se para o portátil e começou furiosamente a escrever. Ao cabo de uns bons minutos parou, releu o que redigira sobre o tema encomendado e um sorriso meio traquina aflorou ao rosto.

Tocaram à campainha da rua.

- Quem será a esta hora? – perguntou, visivelmente desagradado.

Malquíades abriu a porta para surgir na sua frente… Beatriz. Linda como sempre.

- Bia? Mas… mas… Não estavas em Barcelona numa exposição?

- Estava sim – pondo-se em bicos dos pés espetou um ósculo no namorado.

Depois entrou e sentando-se no sofá, chamou-o:

- Anda, senta-te aqui ao pé de mim que tenho uma coisa para te dizer.

- Mau… que se passa?

- Estás preparado para me ouvires?

Nunca estava, mas mentiu:

- Sim… sim… estou…

- Estou grávida… Vais ser pai… - confessou com um sorriso luminoso.

Malquíades sentiu-se gelar. Um rol de emoções no coração… Pai? Iria ser pai? Mas ser pai era coisa de…

Olhou para o portátil e percebeu que tinha muita coisa para alterar no texto acabado de escrever.

Tancat (*)

Encerrei o meu baú recheado

de memórias, afectos, lágrimas,

ardores, forças e farpas.

 

Fechei o meu coração à cínica fantasia

De crer na luz brilhante do dia em vez

Da noite temerária de breu vestida.

 

Voam finalmente as penas e folhas

De inesperado Inverno ríspido e bravio

Que só me trás orvalhos gelados.

 

As cartas de uma vida rasgadas

Num acto desesperado de salvar

Não o meu pobre cadáver. Quiçá a alma.

 

(*) Tancat - expressão catalã para encerrado

A missa do Galo!

Pequeno conto de Natal dedicado à Isabel que escreve aqui!

 

Um choro forte que alastrou a toda a sala foi o primeiro sinal de vida.

O corpo ínfimo, frágil, ensanguentado surgiu nas mãos enluvadas do médico que logo o entregou à enfermeira que o limpou.

Aquele era um choro repleto de vida. André não evitou por isso que as lágrimas caíssem pela face jovem. Era uma sensação estranha ser pai… Tão estranha que nem sabia explicar o que sentia naquele preciso instante.

Ana descansava agora com o filho em cima do seu peito. Também ela chorou… de felicidade, alegria e acima de tudo de responsabilidade. A vida do casal sairia agora de uma nefelibata para um mundo mais assente e com mais ralações.

Já em casa ambos revezavam-se nos permanentes cuidados do inocente João, acabadinho de vir ao mundo. Até que Ana abordou o marido:

- Não comunicas à tua família o nascimento do Joãozinho?

Nenhuma resposta. Insistiu:

- Ouviste o que eu perguntei?

- Ouvi…

- Que vais fazer então?

- Nada!

- Os teus pais e as tuas irmãs deveriam ficar felizes em saber que há mais um elemento na família.

Rudemente devolveu:

- Tu e o menino é que são a minha única família.

Ana sabia da demanda que afastara o marido dos antecessores. Uma história bizarra com estranhas bravatas e palavras violentas que haviam originado a expulsão intempestiva de André de casa onde fora criado. Depois as cunhadas Lúcia e Júlia que nunca haviam defendido o irmão. Uma espécie de tragédia familiar sem qualquer sentido e que trucidara uma relação familiar.

Muito longe Alberto e Lucília viviam sós. Desde a aposentação de ambos que haviam optado por abandonar a cidade recolhendo-se na aldeia longínqua e pacata. Sem relações com os três filhos, o casal dedicava-se à horta e aos cinco canitos que lhes preenchiam os dias.

O Natal deixara de existir naquele lar. “Não faz qualquer sentido” dizia Lucília à cunhada Alcina. “Não tenho qualquer família a não ser vocês” assumia o velho Alberto ao irmão Fernando.

Por isso na velha casa, herança dos pais, morava uma tristeza cava, polvilhada de amargura. Eram duas almas sós que, naturalmente, evitavam falar do passado mais ou menos breve. Falando era como se mexessem num vespeiro.

Alberto alternava os seus dias entre a horta viçosa e o pomar colorido de laranjas, taranjas, tangeridas ou dióspiros vermelhos. Só que a memória nunca desaparecia e muitas vezes, enquanto mondava as favas acabadinhas de nascer, deixava que as lágrimas caíssem pela face rasgadas por rugas de infelicidade.

Escondia portanto a sua amargura com o próprio afastamento da sociedade aldeã. Era raro vê-lo numa festa fosse ela pagã ou religiosa e muito menos no café. Ora, sempre que tinha de sair do povoado fazia-o pela calada da madrugada não fosse encontrar alguém.

Era véspera de Natal. A manhã clara e fria convertera-se numa tarde cinzenta e chuvosa. Uma nortada agreste descia da serra e gelava corpos e casas. Pelo fim da tarde Lucília perguntou ao marido:

- Hoje vamos à missa do Galo?

- À missa? Tu raramente vais à missa e hoje queres ir? O que te aconteceu, mulher?

- Nada homem…  Mas tenho o coração apertado de tanta tristeza que sinto que hoje far-me-ia bem ir à missa – confessou.

- Quem te proíbe? Vai!

- Também poderias vir…

- Não vou. Prefiro ficar em casa.

Lucília não disse mais nada. Eram perto das onze da noite quando saiu de casa para a igreja. O marido ficara já deitado a ler pela enésima vez “A Cidade e as Serras” quando a mulher se despediu.

Alcançou a igreja quase repleta e sentou-se logo atrás num dos poucos lugares vazios que encontrou. Havia muito tempo que não entrava ali. O silêncio daquele local sagrado pareceu esmagá-la.

Pensou em regressar, mas à sua volta sentaram-se mais pessoas que lhe foram sorrindo. Ela devolvia o cumprimento quase sem perceber.

Um conjunto de vozes iniciou a cantar. Os fiéis levantaram-se e o padre rodeado por uma série de acólitos aproximou-se do altar.

Lucília sentiu de súbito um toque de lado. Era o marido… Sem dizer nada encostou-se mais de forma a que Alberto se sentasse a seu lado.

Assistiram à missa como se fossem o mais normal casal da aldeia.

No final da cerimónia o pároco convidou, como era hábito, os fiéis presentes para que se aproximassem do presépio e beijassem a figura do menino. As pessoas juntaram-se então no meio da igreja e foram andando ao encontro do altar.

Lucília caminhava devagar. Seguia-a Alberto… contrariado! Passo a passo num calcorrear pesado como carregassem uma pesada cruz em cima dos seus próprios ombros.

Quando perceberam estavam ambos perante um presépio… vivo, feito de gente viva. De um lado André como se fosse José, do outro Ana qual Maria e no meio deitado num berço adaptado o menino…  João.

Desafio de escrita dos pássaros #15

Mote: O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevistas na perspectiva do recrutador de recursos humanos: A Rena Rudolfo.

 

Coçou os apêndices corníferos que saiam da cabeça com as patas da frente e releu as respostas às simples questões formuladas. A candidatura “on-line” que exibia no seu computador fê-lo rir. Provavelmente para muitos esta ficaria logo excluída. Todavia Rudolfo apreciara a forma desempoeirada como o candidato respondera às perguntas.

Tem noção de qual será o seu futuro trabalho?

Hoje não sei, mas logo saberei.

Como se relaciona com as outras pessoas?

Não me relaciono. Os outros é que se relacionam comigo!

Acredita no Natal?

Acredito no que vocês quiserem.

Sabe o que é o espirito de Natal?

Sei… chama-se cartão de crédito.

Sabe quem é o Pai Natal?

Um tipo que se vendeu a uma empresa de bebidas que muitos bebem e poucos gostam.

Qual a razão que o levou a concorrer?

Estou no desemprego e necessito comprar ração para o Aissú, o meu canito.

Voltou a rir com gosto…

Chamou a “Corredora” uma rena que em tempos também guiara o Pai Natal por esses céus fora, mas que agora resumia a sua vida a ser secretária de Rudolfo.

- Diz…

- Chama este tipo cá… quero entrevistá-lo – e mostrou-lhe no computador a foto de Malquíades.

- É para já!

Passados alguns minutos a secretária bateu e entrou no gabinete. Foi avançando:

- O candidato perguntou se a entrevista poderia ser por Skype?

- Cá para mim… sem problema.

- Então marco para que horas?

- Sei lá… tenho aqui tantas candidaturas para ler… - Novamente as patas nas hastes – pergunta se às 5 será boa hora para ele.

- Marco então para as 5. Se ele não puder venho cá avisar então da nova hora.

- Boa.

À hora prevista Rudolfo ligou para um número e aguardou que atendessem. Tocou uma, duas e à terceira alguém atendeu. Malquíades surgiu no ecrán numa imagem meio difusa.

Rudolfo sem tempo a perder foi direito ao assunto:

- Sou o Rudolfo com a responsabilidade dos Recursos Humanos e estou aqui para o entrevistar. Tem alguma questão que pretenda fazer primeiro, antes de começarmos?

O director percebeu, mesmo à distância, o desconforto do entrevistado, mas aguardou que o jornalista dissesse algo mais. Finalmente ouviu:

- Desculpe poderia tirar a máscara? Não sei se já percebeu, mas o Carnaval ainda vem muito longe.

- Esta é a minha cara!

- Upps, então creio que a sua esposa não se tem portado bem, ultimamente!

Desafio de escrita dos pássaros #14

Mote: Não nasci para isto

Quando Malquíades entrou no restaurante encontrou Andrelino acompanhado por dois tipos que não conhecia. O amigo mal o viu ergueu-se e veio ao seu encontro de braços abertos:

- Ena homem, como estás? Faz tempo que não nos vemos…

- Viva parceiro…

Aproximaram-se da mesa:

- Adérito Candeias e Adail Marques.

- Boa tarde, muito prazer, Malquíades…

Andrelino não deixou que o amigo terminasse as apresentações:

- Senta-te aí.

Chamou o empregado e comunicou:

- Traga uma garrafa de água.

Deu uma palmada nas costas e atirou:

- Desculpa este convite para almoçar quase intempestivo, mas necessitamos da tua ajuda.

- Se eu puder…

- Claro que podes… Estes cavalheiros estão ligados à política como assessores. Todavia não conseguem manter uma relação próxima e pacífica com a imprensa, que como sabes está sempre ávida de notícias.

O jornalista mantinha-se em silêncio enquanto beberricava a água. O amigo continuou:

- Perguntaram-me então se conhecia alguém no meio jornalístico que os pudesse ajudar. E claro lembrei-me de ti…

Um dos convidados chegou-se à frente no diálogo:

- Muitas notícias que lemos carecem de veracidade. Outras são obras de verdadeiros zoilos que a única coisa que pretendem é denegrir a imagem de um político.

Malquíades passou a mão pelo cabelo, percebendo aonde pretendiam chegar. No entanto continuou a escutar as propostas.

- Deste modo gostaríamos que nos acompanhasse como assessor de imprensa… - convidou o outro.

O escritor olhou para ambos à sua frente e devolveu:

- Portanto o que vocês querem é uma censura encapotada.

Um deles veio a terreiro.

- Censura? Nem pensar. Estamos num país livre e democrático.

Malquíades olhou em seu redor, baixou o tom de voz como se quisesse esconder alguma palavra e por fim disse:

- Nenhum de nós aqui nesta mesa sabe o que foi viver em ditadura.

Após alguns breves segundos em que o silêncio reinou foi a vez de Andrelino regressar à conversa:

- Isto não é censura, mas unicamente controlar a forma como dão as notícias. Um exemplo: conheces aquele Desafio dos Pássaros?

- Sim…

- Como já deves ter notado cada um escreve algo diferente sobre o mesmo tema. Na política também é assim…

Três pares de olhos espectantes incidiram sobre o jovem, mas este declarou sem rodeios:

- Peço imensa desculpa, mas não contem comigo para tal função!  Definitivamente não nasci para isto!

Serenamente pegou no casaco e abandonou o restaurante.

Desafio de escrita dos pássaros #13

Mote: Reescreve o final dum filme

A confusão estava instalada na enorme sala de reuniões do jornal. O chefe da redacção, Pigmélio Antunes, coadjuvado por um dos editores, o Filinto Brandão, lançara no início da reunião um tema para a mesa que se tornaria palco de terríveis bravatas.

A ideia de um desafio no sentido de se reescrever o final de um filme até tivera estranha aderência. O pior viera depois quando uns consideraram que o filme deveria ser o mesmo enquanto outros desejavam um livre critério.

Enquanto as ideias eram bramidas em vez de civicamente discutidas, Malquíades olhava aquele espectáculo quase degradante, mantendo-se em silêncio no canto da imensa mesa.

Quando o chefe percebeu que perdera o controlo da discussão gritou de forma a fazer-se ouvir:

- Ó pessoal vamos ter calma, sim? Aqui o Malquíades ainda não expressou a sua ideia e eu gostaria de saber o que ele pensa deste tema.

As hostes acalmaram após o berro do chefe e todos poisaram o olhar no jornalista. Malquíades sentia-se mal naquela posição onde era o centro das atenções. No entanto também tinha uma visão e seria interessante proferi-la. Recostou-se na cadeira, abriu o seu velho caderno de apontamentos onde rabiscara umas ideias e disse então:

- Ao invés de vós considero este exercício uma verdadeira perda de tempo e de recursos.

Um burburinho atravessou a sala. Continuou:

- Como sabem os filmes são geralmente simétricos o que equivale dizer que para se reescrever o final de um filme, teria de reescrever também o seu início e provavelmente o meio…

Algumas cabeças acenaram que sim, outras que não, mas o silêncio de todos imperou. O jovem continuou:

- Percebo qual a ideia subjacente, todavia creio que haverá outras formas da redacção testar a qualidade da escrita e das ideias dos restantes redactores.

O editor entrou em defesa do exercício:

- Isto não é um teste à escrita de todos vós. Longe disso e nem faria qualquer sentido.

- Ah não?

- Não… é simplesmente um teste aos nossos leitores.

- Pior que seres incompetente é seres parvo!

Um silêncio cavo penetrou na sala. Uma mosca ouvir-se-ia a voar. O editor levantou-se da mesa irado, pegou nalguns papéis e saiu célere da sala. Outros redactores também afrontados seguiram-no. No fim Pigmélio observou:

- Não havia necessidade desta quezília. A ideia foi unicamente minha…

- Então o parvo és tu! – declarou Malquíades.

E abandonou também a sala.

Desafio de escrita dos pássaros #12

Mote: Aqueles pássaros não se calam

(Texto dedicado à Magda pelo seu aniversãrio!)

Enquanto Beatriz devorava as “Viagens” da Magda Pais confortavelmente recostada num sofá e tendo a seus pés um Aissú atento e amigo, Malquíades sentado à secretária ia desfiando textos para o jornal.

Os dedos fugiam céleres por entre as teclas do portátil. Parava, relia, revia, modificava e continuava. De vez em quando passava as mãos pelo cabelo, sinal que dúvidas lhe haviam assaltado o espirito. Depois, numa quase ferocidade, voltava a escrever.

Era uma daquelas brandas tardes primaveris, sem nuvens e onde o sol quente invadia o lar através de uma janela e da qual se podia ver o pomar de laranjeiras, qual “orangery” no Palácio de Schönbrunn, em Viena. Uma paisagem bucólica carregada de beleza, paz e serenidade. Tal como ambos adoravam.

Beatriz fechou o livro, ergueu-se do sofá devagar e quase em silêncio, aproximou-se do namorado, envolveu-o naquele costumado abraço quente, beijou os cabelos desalinhados e quase em surdina perguntou:

- Queres um chá?

- Sim.

Entretanto o canito abriu um olho, espetou uma orelha para perceber onde iria a amiga, mas depressa regressou à sua sesta quando deu conta que a menina se dirigia para a cozinha. Se fosse a rua… Talvez mais tarde!

Duas chávenas fumegantes deram à sala um ar perfumado. Beatriz poisou uma ao lado de Malquíades e levou a outra consigo. Recuperou o livro e foi beberricando a infusão enquanto lia.

A tarde adormecia já no horizonte trazendo cores mescladas e dando à véspera um sabor morno. Beatriz saiu do seu lugar carregando o livro, aproximou-se da janela e encostada a esta foi recebendo o sol em cheio, continuando a ler.

Todavia, faltava ao momento uma musicalidade exterior que as janelas fechadas não permitiam. Portanto abriu uma para deixar que o ar da tarde penetrasse na sala tépida.

Da fora veio então um som característico de fim de dia… Um vento manso sibilava por entre a folhagem nova e viçosa enquanto bandos de pardais, pintassilgos, piscos, melros concorriam entre todos pela conquista do melhor poleiro para a noite que se avizinhava.

Disse Beatriz:

- Tenho pena que os quadros que pinto não possam ter som... ficava tão bem este aqui…

Malquíades encolheu os ombros num gesto de paciência e continuou a escrever. Por fim levantou-se, encostou-se à namorada observando a paisagem e exclamou:

- Definitivamente aqueles pássaros não se calam…

- Estes aqui? – perguntou admirada com o desabafo.

- Não miúda… os outros!

Desafio de escrita dos pássaros #11

Mote: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação

A luz da manhã incidiu nos seus olhos ainda fechados, acordando-o. Dormira bem! Espreguiçou-se e saiu da cama de forma calma. Voltou a espreguiçar-se…

Entrou no corredor e reparou numa roupa estranhamente espalhada pelo chão: umas calças de ganga aqui, uma blusa acolá, cuecas mais à frente, meias… e finalmente um soutien!

Pensou:

- Mas quem é esta que está cá hoje? Cada noite é uma diferente, pobre homem. Desde que a Beatriz se zangou com ele por causa daquela tal Constança…

Preocupado acabou por voltar atrás e foi-se novamente deitar. Enroscou-se e adormeceu.

Já ia alto o Sol quando ouviu chamar:

- Aissú, Aissú acorda… vamos à rua dar uma volta.

Abandonou novamente a sua cama devagar, aproximou-se de Malquíades e recebeu uma longa e saborosa festa. Finalmente a rua onde pode aliviar-se e rever a cadela do segundo andar, uma cocker que ele tanto adorava. E ela a ele!

Malquíades sempre fora de poucas palavras, mas de muitos afectos. Tardes inteiras deitados no sofá com o seu amigo a ler e ele a dormitar, numa modorra contagiante.

Regressaram ambos a casa.

- Vá companheiro… deixa-me arrumar esta roupa espalhada que à tarde tenho de sair…

Nova festa por baixo do seu focinho. Aissú devolveu-lhe uma lambedela em compensação. Era assim a amizade entre ambos… repleta de troca de mimos.

Voltou para o seu costumado lugar no sofá, quando não estava a dormir e aguardou que Malquíades o brindasse com aquele biscoito que ele tanto adorava.

Chegara àquele lar havia pouco tempo, mas a relação entre ambos assumira-se profunda e sem exigências. Havia ainda coisas para perceber e habituar-se, que compreendia essencialmente horários. Mas com o tempo Aissú acreditava conseguir lidar com facilidade com Malquíades. O único problema seriam aquelas meninas que todos os dias, ou melhor noites, surgiam na casa. Algumas temiam-no, é certo, mas também havia razão para tal porque ele nunca lhes mostrava grande simpatia e um rosnar era o sinal.

Sempre gostara de Beatriz… Mas esta deixara de aparecer… e ele tinha pena.

Um barulho confuso veio de dentro da casa, provavelmente do quarto onde uma amiga colorida dormia ainda… Não se moveu. Apenas abriu um olho e esticou uma orelha para se certificar.

De repente apareceu na sala envolta num roupão de Malquíades e com uma caixa repleta de biscoitos:

- Bom dia Aissú!

O cão ladrou de alegria:

- Beatriz!

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D