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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Sexta-feira, 15.11.19

Desafio de escrita dos pássaros #10

Mote: Já chegámos? Já chegámos?

O autocarro negociava as curvas dos Pirinéus a boa velocidade. O condutor, um italiano de metro e meio, dirigia a viatura com perícia, sem nunca perder o controlo.

A noite caíra há muito e uma chuva miudinha obrigava o motorista transalpino a uma condução mais defensiva. Uma paragem prevista numa estação de serviço deu para os passageiros esticarem as pernas.

Malquíades procurou rede para telefonar a Beatriz, mas a operadora espanhola parecia não estar disponível. Finalmente o sinal de rede. Ligou:

- Olá rapaz, onde estás?

- Algures no meio de Espanha.

- Não imaginas onde?

- Não!

- A que horas calculas chegar…

- Provavelmente só ao fim do dia.

- Não te esqueças de me trazeres caramelos…

Nem respondeu! Desligou o equipamento e foi à loja comprar os doces.

Decididamente tinha de perder o medo de andar de avião… Aquela viagem a Paris demoraria, pelo menos, mais dois dias só por causa desse estúpido receio.

Voltou para o autocarro, sentou-se no seu lugar, olhou o relógio e encostou a cabeça à janela de forma a poder dormitar um pouco. A viatura voltou à estrada. A seu lado sentara-se logo em Versailles um português minhoto emigrado há meio século em França. Fugira à guerra de África e ficara por terras gaulesas assumindo todo o tipo de trabalhos. Na altura era um jovem… agora com o peso dos anos aceitara a reforma e vinha a Portugal somente para tratar de uns assuntos de heranças. Demasiado tagarela para o gosto de Malquíades, este ia respondendo, quase sempre com monossílabos, às questões formuladas pelo chato companheiro de viagem que lhe calhara em sorte. O emigrante, entretanto, admirou-se por um jornalista viajar de autocarro…

Finalmente veio o sono a ambos e cada um ajeitou-se como pode de forma a dormir. Lá fora o breu mantinha-se, cortado aqui e ali pelas luzes de uma ou outra viatura.

Tempo e quilómetros atravessaram a península…

De súbito o companheiro de Malquíades gritou a plenos pulmões:

- Já chegámos? Já chegámos?

Os passageiros agitaram-se confusos, assim como Malquíades que acordou sobressaltado e num alvoroço impróprio na sua pessoa. Entre admirado e estremunhado perguntou:

- Já chegámos à fronteira de Portugal?

- Não… ainda não. Mas chegámos a Salamanca.

Uma fúria perpassou pelo olhar do jornalista. Respirou fundo e finalmente devolveu num tom áspero que denunciava irritação:

- Oh homem, pela sua saúde, cale-se e deixe-nos dormir!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 08.11.19

Desafio de escrita dos pássaros #9

Mote: Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta 

Tinha os olhos fechados, mas percebeu que estava ao ar livre. Deveria ser do Sol a bater-lhe no corpo com força ou da água tépida que lhe beijava os pés.

As mãos estendidas qual Cristo cruxificado davam à situação uma bizarra anormalidade. Sentiu com a mão esquerda uma areia fina. O mesmo com a direita.

Por fim abriu um olho e deparou com um Sol inclemente e um céu anilado e sem nuvens. Abriu o outro olho, mexeu-se e percebeu estranhamente… que estava nu!

Ergueu-se e tentou perceber onde se encontrava. À sua frente uma praia calma fazia aterrar à beira-mar pequenas ondas. De um lado e do outro percebeu árvores…

Porém para Malquíades nada daquilo fazia sentido… Beliscou-se temendo que fosse novamente um sonho, mas depressa percebeu que não era.

Fechou os olhos e tentou rebobinar a sua mente até onde se recordava antes de acordar naquele ermo: assistira a um concerto com a Beatriz, depois fora a casa dela buscar o portátil e regressara a sua casa.

Finalmente um enorme vazio… até acordar ali sem roupa, sem ninguém ao seu redor e com uma vontade enorme em sair dali…

A maré subira e Malquíades recuou uns bons metros na praia. Pairava no ar uma leve brisa, amenizando o calor do astro-rei.

Ali não valeria a pena gritar porque provavelmente ninguém o escutaria. O enigma adensava-se, ainda por cima naquela altura em que tinha tanta coisa para escrever…

De súbito ocorreu-lhe uma ideia… Poderia ser parva, mas parecia ser a única com alguma lógica.

Ergueu-se da areia, olhou o céu do lado contrário do sol e perguntou como se alguém o escutasse:

- Tu que teclas nesse portátil diz lá quem é que me colocou aqui?

Um silêncio…

- Sim tu… o autor destas linhas… quem te mandou criar esta ideia?

Respondi:

- É comigo?

- Claro!

- Que me queres?

- Diz-me lá de quem foi a ideia de me colocarem aqui nesta ilha?

Com alguma relutância, respondi:

- Foi de um conjunto de pessoas.

- Essa gente não deve ter mais nada em que pensar do que estragar a vida.

- Estragar?

- Tu achas correcto que me tenham atirado, assim sem mais nem menos, para este ermo?

- É um desafio…

- E tu, claro, aceitaste…

- Claro… dá gozo e obriga-me a puxar pela cabeça.

- Bando de tolos! – concluiu!

Emendei:

- Bando de pássaros!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 01.11.19

Desafio de escrita dos pássaros #8

Mote: Escreve uma carta para a criança que foste

 

Fechou o livro, colocou-o ao lado, olhou o tecto e largou um profundo suspiro. Beatriz deitada no sofá deu conta e perguntou:

- Até onde foi esse suspiro?

O namorado não respondeu. Deixou-se ficar ali a cismar, numa lassidão incomum.

Na lareira ardia um fogo denso e crepitante que aquecia a sala. De um candeeiro vinha uma luz amarela quase tão quente quanto o lume. O ambiente propiciava ao sossego.

- Malquíades diz-me lá até onde foi esse suspiro? – teimou Beatriz.

Um silêncio. Por fim respondeu:

- Até a um tempo… longínquo!

Insistiu:

- Nunca falaste do teu passado, mas não é por não se falar, que ele deixou de existir. Sempre senti que há algo, aí nesse coração, mal resolvido…

Novo silêncio. As palavras eram sempre tiradas a ferros…

- O meu pai… Nunca conheci verdadeiramente o meu pai…

- Não queres falar disso agora?

- Não… - uma longa pausa - preferiria escrever… um dia!

Fez-se luz na mente de Beatriz. Talvez conseguisse que Malquíades escrevesse… Talvez! Ergueu-se do seu confortável poiso, foi à lareira, ajeitou o lume, aproximou-se finalmente do namorado, abraçou-o ternamente e sussurrou:

- Imagina que o teu pai sabia que iria morrer e antes disso escrevia-te uma carta. Ou dito de outra forma… escreve tu hoje uma carta ao menino que foste ontem…

A ideia, estranhamente, agradou a Malquíades. Saiu do seu lugar, foi à secretária e sacou do bloco. Regressou ao seu cadeirão e começou a escrever. Queimaram-se alguns quilos de lenha até que o bloco caiu nas mãos de Beatriz.

Esta pegou nele, desfolhou algumas páginas e leu:

“Meu filho,

Sei que estou longe, muito longe, mas acredites ou não, velarei sempre por ti.

Não tive culpa de não termos falado mais, brincado mais, ralhado mais. De nunca termos ido ao futebol, ao cinema ou simplesmente levar-te a uma festa de anos dos teus amigos.

Lamento profundamente este afastamento involuntário. A vida nem sempre é como gostaríamos.

Há algo ainda que me arrependo de nunca ter feito e se pudesse voltar atrás, crê-me, que o faria amiúde.

E parece tão simples, tão natural…

Bastava dizer: amo-te meu filho!

Algo que jamais proferi…

Desculpa e até um dia.

O teu pai.”

Lágrimas esvaíram em torrentes pela face bonita de Beatriz. Levantou-se, aproximou-se do namorado, cravou as mãos finas na face de Malquíades e beijou-o docemente. Declarou:

- Um dia serás um maravilhoso pai!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 25.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #7

Beatriz sentiu o telemóvel tremer no bolso de trás das calças de ganga. Alguém lhe estaria a ligar, quiçá Malquíades, que após o esquecimento do jantar daquela sexta-feira, de má memória para ambos, fora votado a um longo castigo por ela imposto, mas que ele nem daria conta.

Continuou por isso a pintar calmamente uma enorme tela até que, já extenuada, decidiu parar. Recuou uns passos e ficou a observar o trabalho pictórico acabado de fazer. Esboçou um sorriso malandro como prova de que gostara do que via. Desembaraçou-se do avental sujo de tinta, descalçou as luvas, bebeu uma garrafa de água e finalmente sentou-se para ver o telemóvel.

Acertara na chamada de Malquíades. Ligou de volta:

- Olá boa noite, ligaste-me?

- Sim.

- E… - decididamente o homem não largava os monossílabos.

- Hummm… não sei como dizer isto…

Beatriz ergueu-se de um salto… Na sua cabeça aquela derradeira frase do namorado trazia algo estranho e o coração começou a bater mais depressa. Provavelmente esticara a corda em demasia e agora o namorado iria libertar-se dela, assim como quem estala os dedos de uma mão. Aquele homem era assim, por vezes, um ser estranho quase ausente, mas tinha um coração do tamanho do mundo onde todos cabiam e por isso amava-o profundamente. Todavia, e antes de dizer alguma coisa inconveniente, preferiu aguardar.

- Aceitei participar numa brincadeira de escrita com uns colegas da redacção do jornal e deram-me uma frase para eu desenvolver.

O coração de Beatriz aliviou-se… Respirou fundo, apaziguou o músculo cardíaco e mais desanuviada, acrescentou:

- E qual é o mote?

- Pois… é uma coisa de mulheres. Acho eu…

- Mas diz lá…

Malquíades leu:

A Constança precisa duma mascara capilar, mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar.

- Desculpa, mas não percebi bem. Podes repetir, se fizeres favor? – assumiu Beatriz.

Malquíades repetiu o texto, lendo devagar e pausadamente. Depois aguardou que a namorada dissesse alguma coisa:

- Mas isso é mesmo um tema?

- Sim!

- Um tanto bizarro… não achas?

- Ainda bem que pensas assim. Julgava que era só eu.

- Só há aí uma coisa que estranhamente não entendo…

- E é o quê?

- Quem é a essa tipa que aí falam… a Constança, hem?

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 18.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #6

Mote: "O Amor, uma cabana… e um frigorífico"

 

Estava tão embrenhado na revisão dos textos que acabara de escrever para o jornal que nem deu pelo telemóvel tocar, principalmente por aquele estar sem som. Eram quase 22 horas de uma sexta-feira invernosa.

Lá fora a chuva, sempre tão escassa, caía em torrentes quase diluvianas e o vento ajudava ao temporal. Um sopro sibilino, de alguma janela mal fechada, escutava-se…

Quando Malquíades descolou finalmente o olhar do monitor e o endossou para o aparelho telefónico que jazia a seu lado na secretária, percebeu que alguém lhe estava a tentar ligar.

Pegou nele e leu: Beatriz!

- Olá!

- Olá? Está tudo bem contigo?

- Sim.

- Pronto era só para saber…

Malquíades percebeu na voz da interlocutora algo que se assemelhava a um sarcasmo. Achou profundamente estranho, já que não era costume. Porém e sem saber muito bem porquê perguntou:

- Passa-se alguma coisa?

- Oh não, nada… Estás a trabalhar, não é?

- Sim.

Os monossílabos a imporem-se no diálogo de Malquíades… Como sempre!

- Vá fica bem e até amanhã.

- Até amanhã… - todavia a forma fria distante como do outro lado da linha se despediu denotava que algo estaria errado. Não percebia bem o que seria.

Beatriz desligou a chamada e Malquíades acabou de rever os textos. Ergueu-se por fim, espreguiçou-se, saiu calmamente do escritório e dirigiu-se à cozinha para recarregar a garrafa de água que sempre o acompanhava.

Recordou naqueles breves metros toda a história com a namorada. O seu olhar quase viperino que desconstruíra o coração da jovem, a paixão arrebatadora, depois transformada em amor profundo. O pedido estúpido e idiota que fizera a Andrelino para falar com ela, pedindo-lhe namoro por ele. Aquela tarde à beira-mar quando o sol se escondia por entre nuvens, céu e mar e onde ambos fizeram juras, tal qual os romances de cordel de um amor e uma cabana. Os segredos trocados ou melhor os segredos que Beatriz confessou perante o silêncio permanente do rapaz.

Encheu a garrafa virou as costas ao lava-loiça e reparou que na porta do frigorífico na parede oposta havia algo estranho. Aproximou-se devagar. Preso com um daqueles ímans trazidos do estrangeiro por um qualquer amigo, encontrou um papel escrito. Leu-o:

- Sexta-feira, 20 horas jantar com a Beatriz.

O seu coração quase explodiu. Procurou as horas de forma apressada no telemóvel e concluiu:

- Xiiiiiiiiii… grande bronca, esqueci-me completamente do jantar!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 11.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #5

Mote: Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo

 

Quando chegou encontrou uma fila enorme. Aproximou-se do último:

- Boa tarde, o que se passa aqui?

- Boa tarde…. Há uma embrulhada qualquer lá para a frente.

- Sabe o que é?

- Parece que não querem deixar entrar alguém…

- Isso faz algum sentido?

- Não sei. É a primeira vez que estou na fila para o Purgatório.

- Há quanto tempo aqui está?

- Humm… deixe cá ver… Praí há uns 15 anos.

- Acha que posso lá ir?

- Vá, vá… não se empate comigo…

Foi passando pelo aglomerado até que ao fim de muito tempo encontrou novo amontoado de cabeças. Aproximou-se devagar até que chegou perto duma porta onde duas pessoas trocavam-se de razões:

- Então boa tarde… o que passa aqui? – Questionou.

Um dos contendores respondeu célere:

- Este espécime de gente quer entrar no Purgatório e eu não quero… – respondeu o que parecia ser o porteiro, apontando para alguém de estatura média, bigode pequeno e uma franja ridícula que lhe tapava metade da testa.

- Mas porquê pode-se saber?

O outro mirou-o de cima a baixo e devolveu:

- Então não o conhece?

- Sim conheço e depois? Tem direito ao seu lugar no Purgatório como os outros.

- Deve estar doido não? Este nem morto passará aqui!

- Desculpe, mas morto já ele está. E há mais de 70 anos.

- Não quero saber… Não entra, pronto! Um tipo destes que mandou matar milhões… de judeus… e outros.

Irredutível o guarda era tempo de pegar nos seus trunfos e jogá-los. De outra forma dificilmente se sairia daquele estranho impasse.

- Diga-me lá uma coisa… Sabe quem eu sou?

Sem que o outro respondesse, continuou:

- Está a imaginar com quem está a lidar?

- Não sei nem quero saber… Até poderia ser o “Celito” ou o “CR7”. Para mim era igual. Este não entra. Ponto.

- Eu sou o… Malquíades – comunicou.

Um silêncio, a maçã-de-adão subiu e desceu por mais de uma vez, um rubor subiu às faces e as mãos tremeram. Por fim, refeito do susto, gaguejou:

- O… o… o… verdadeiro Malquíades?

- Eu mesmo!

Sem mais palavras franqueou a porta desviou-se e com uma vénia acrescentou:

- Desculpe o mal-entendido. Passem, passem os dois se fizerem favor.

Mal iam a atravessar a porta… acordou!

Malquíades suspirou confessando:

- Uff escapei de boa!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 04.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #4

Mote: A Beatriz disse que não. E agora?

 

Sentado numa esplanada Malquíades olhava o mar em todo o seu esplendor. A linha do horizonte divida-se entre o anil do oceano e os tons alaranjados de fim de tarde onde o sol tendia a desaparecer. Corria uma brisa leve.

Olhou o relógio e mostrou real preocupação. Espreitou para lá do caminho, mas só via gente desconhecida como se olhando fizesse aparecer alguém.

Pegou no cachimbo, encheu o fornilho, calcou o tabaco, furou-o para que o ar circulasse e finalmente acendeu-o. No ar pairou um ar doce e perfumado do fumo.

No instante seguinte Andrelino sentou-se sem que Malquíades tivesse dado conta da sua chegada. Finalmente:

- Então?

- A Beatriz disse que não…

O jovem puxou de uma fumaça, expirou o fumo, beberricou a cerveja que tinha à sua frente, recostou-se na cadeira e ficou a olhar novamente o mar. Andrelino pediu ao empregado também uma imperial e aguardou que o amigo se recompusesse do choque. Já de cerveja na mão bebeu um bom bocado e atacou:

- Estavas à espera de quê? Que eu fosse lá pedir namoro em teu nome e ela caísse nos meus braços? Sinceramente acho que ela fez muito bem…

Malquíades continuava a fumar em silêncio. O outro continuou num ataque cerrado:

- Essa tua mania de que só de olhares para uma mulher ela fica caída por ti, não faz qualquer sentido. E depois… já quase te tramaste por isso. Ou esqueceste-te que fui eu que te livrei de sarilhos?

Abanou a cabeça negativamente.

- Sabes que falar nunca foi o meu forte… E se lhe escrevesse uma carta - lembrou.

- Ouve lá… sabes em que século estás? O Cyrano de Bérgerac é que escrevia cartas… no século XVII. Se queres a miúda tens de ir falar com ela e dizer-lhe o que sentes. As mulheres adoram isso. Admira-me que sejas assim… Tu a escreveres és um ás… Que ideia é essa de não falares com as mulheres? Tens medo?

Malquíades bateu de lado com o fornilho no tacão do sapato deixando que a cinza se espalhasse. Respondeu então:

- Medo não… - e após um breve silêncio – vergonha…

- Eh pá vergonha? Vergonha é roubar e ser apanhado! Tens de ir ter com ela e roubar-lhe o coração senão outro o apanha. E agora parceiro?

O amigo olhou para a mesa e devolveu:

- Agora? Agora pede mais duas imperiais!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 27.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #3

Mote: Uma aventura/momento que te tenha marcado

 

Nunca conhecera verdadeiramente o medo. Nem mesmo naquela manhã em que fora chamado ao Director da escola. Sentira-se temeroso é certo, mas medo, medo não tivera.

A não ser naquela vez... Aí sim fora uma experiência inolvidável.

Era já noite cerrada quando Malquíades e o amigo Andrelino entraram no salão de baile, cheiinho quase até à porta. Com dificuldade foram passando por entre os espectadores até encontrarem um local mais aprazível de forma a perceberem o ambiente… feminino.

Na pista uns amigos viram-nos e sorriram. Ao intervalo juntaram-se todos no bar. Como de costume Malquíades mantinha-se em silêncio. Uma ou outra rapariga metia-se com ele, mas raramente respondia.

De repente apareceu junto do grupo uma jovem muito bonita que pediu a outra qualquer coisa. Ambas falaram, mas pouco se percebia tal era o barulho ambiente. Desconhecida de quase todos foi naturalmente apresentada. Quando chegou a vez de Malquíades, aquela pareceu estremecer tal a forma como ele a olhou. Os seus olhos verdes amendoados denunciavam alguém sereno e confiante.

Quando a música recomeçou as raparigas regressaram ao salão levando os rapazes atrás. Já dançavam alguns pares quando Malquíades convidou a rapariga que chegara no fim, para dançar. Esta acenou que sim e ambos dançaram um longo “pasodoble”.

Logo veio outra moda e mais uma e o par não se desfez. Os amigos admiravam-se com Malquíades. Entretanto novo intervalo.

- Parceiro… toma cuidado que essa com quem andas a dançar é casada… - avisou Andrelino.

Entretanto Malquíades percebeu que o seu par abandonava o baile sem dizer nada. Mas antes de sair a jovem procurou no meio da multidão o olhar do rapaz. Sem mais este declarou:

- Não esperes por mim.

Andrelino abriu os olhos de espanto.

A noite estava muito fria. Corria uma aragem forte evidenciando o cheiro a terra molhada. Malquíades percebeu ao longe, sob a luz de um candeeiro donde emanava uma luz mortiça, a figura esbelta do seu par. Devagar, como se andasse a passear perseguiu a bela jovem aproveitando a penumbra. De vez em quando esta parava aguardando que o rapaz ganhasse algum terreno. Ao chegar ao portão fez um breve compasso de espera e olhou para trás. Finalmente entrou na singela moradia.

Malquíades aproximou-se serenamente e preparou-se para entrar na casa.

De súbito sentiu uma mão forte a agarrá-lo no ombro, enquanto uma voz pujante gritava ao seu ouvido:

- Ah bandido que te apanhei!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 20.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #2

Mote: amor e um estalo.

Embrulhado na vergonha da sua consciência Malquíades aguardava sentado numa velha cadeira que o Director da escola o chamasse ao gabinete.

A gorda e anafada Umbelina fora buscá-lo de propósito à sala, naquele seu passo lento e pastoso, deixando nos outros alunos da aula uma estranha sensação de desconforto.

Enquanto percorria os corredores sentia que nada valera a pena. Aquele estalo pregado no Nelson por amor platónico à Vanessa, uma menina bonita, mas parva e que não lhe ligava patavina, só lhe trouxera dissabores. E os piores, provavelmente, ainda estariam para chegar.

A sala pequena era uma espécie de antecâmara para um eventual degredo. Temia profundamente o futuro. As mãos entrelaçadas, os olhos irrequietos a percorrerem o espaço alvo e vazio, o coração tão minúsculo que queria mirrar no peito.

A porta do gabinete abriu-se finalmente saindo de lá o adversário com cara de poucos amigos. O Director ordenou que Nelson se sentasse e olhando para Malquíades fez sinal com a cabeça para entrar.

Devagar o menino ergueu-se e passou na frente do antagonista e do velho professor entrando na sala. Esta era enorme terminando ao fundo numa secretária repleta de papéis, um velho telefone e um candeeiro, donde saía uma luz mortiça. Na frente uma cadeira onde foi convidado a sentar-se.

O Director cruzou os braços em cima do tampo da secretária, puxou os óculos para a frente e de olhar fixo no aluno por cima dos aros, atirou:

- Que me tens a dizer?

Malquíades tremia. A sua voz presa, o coração novamente aos pulos. Só soube gaguejar:

- Des… desculpe! N... não foi por mal…

- Não é a mim que tens de pedir desculpa… como deves calcular!

O silêncio invadiu a sala. O aluno mordia o lábio superior enquanto o Director aguardava… algo mais.

Mas o aluno gostava pouco de falar… E o professor sabia-o. Por isso e percebendo que dali não sairia mais nada, sentenciou:

- Vais ao Nelson, que está ali fora, pedir desculpa…

Acenou com a cabeça num consentimento enquanto fixava o olhar num taco de madeira podre.

O professor levantou-se então e encaminhou-se para a porta. Aguardou que Malquíades chegasse perto dele. Na sala era a vez de Nelson parecer nervoso.

- Então… - avançou o professor.

O agressor aproximou-se de Nelson e quase em surdina declarou:

- Para a próxima levas um murro na boca para não vires aqui “chibar”!

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por José da Xã às 15:00

Sexta-feira, 13.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #1

Mote: Problemas, só problemas.

Malquíades entrou em casa apressado, carregando a pesada mochila e numa fugaz ida ao quarto largou-a em cima da cama para logo procurar a cozinha.

O almoço estava na mesa. Devorou-o num ápice e em silêncio. De seguida tentou escapar de casa para a brincadeira. Porém a mãe, qual polícia atenta, tinha o dedo indicador apontado na direcção do quarto.

Já sabia ao que ia… Os idiotas trabalhos da escola. Sempre os trabalhos da escola. A sentença, essa, também a conhecia de cor: sem os deveres feitos não haveria brincadeira.

Pegou nos livros e nos cadernos e foi lendo e escrevendo. Primeiro a Língua Portuguesa com a cópia, ao que se seguiram as respostas ao texto. Depois aquilo do Estudo do Meio… Desta vez as soluções eram escritas no próprio livro (mas não com muita força, que os livros são para devolver no fim do ano, dissera-lhe a mãe).

Finalmente as contas.

A mãe, conhecendo o filho como ninguém perfilava-se à porta do quarto. Sabia da pouca capacidade que o jovem exibia para se concentrar e mais ainda da facilidade com que se distraía.
Pelo rabo do olho Malquíades percebia a mãe estrategicamente colocada. Não haveria hipótese de fuga sem que os trabalhos estivessem completados.

Aquilo era uma guerra surda e muda, desde o início do ano lectivo. E provavelmente perdida.

Naqueles momentos desejava ardentemente não ter mãe, responsabilidades, escola…

 

Segurou na fotografia descolorida da mãe ainda jovem e recordou com profunda saudade as chegadas diárias da escola, com graça os olhares reprovadores quando tentava escapar sem os trabalhos feitos, com dor as lágrimas que a antecessora vertera quando se viu viúva. Lembrava-se tão bem como se tudo tivesse ocorrido no dia anterior.

Sempre fora pessoa de muito poucas palavras. Preferia escutar… Por isso a sua relação com a mãe fora assente em muitos silêncios, que ambos entendiam quase como se falassem. Bastava por vezes um olhar reprovador, um imperativo indicador, um gesto simples com a cabeça para perceber que não valeria a pena esticar a corda. Sorriu só de recordar.

 

As contas complicadas, a aritmética com aquela tabuada mecânica e monótona que mais parecia uma lenga-lenga e finalmente aquelas longas e estúpidas perguntas sobre pesos e medidas que Malquíades olimpicamente detestava. Era por esta altura que o menino então falava, dando voz à sua imensa revolta:

- Problemas, só problemas!

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por José da Xã às 15:00


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