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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O Pastor #11

Quando chegou ao curral percebeu que o gado já estava quase todo na rua. Primeiro assustou-se, porque prendera bem a cancela na noite anterior, para logo descobrir o pai que ajudava a retirar o resto do rebanho.

- Bom dia, que faz aqui? - perguntou com inequívoco mau modo.

O pai não enunciou qualquer azedume e num tom que impunha alguma autoridade respondeu:

- Vou levar as ovelhas que escolheste à quinta. Foi meu o erro... sou eu que irei dar a cara.

O Pastor correu a cancela e mais não disse colocando-se a caminho pela estrada de terra batida. Corria um vento frio vindo da serra. Mas o jovem nada sentia... apenas uma raiva que não traduzia em palavras, apenas em passos lestos.

Por detrás da colina surgia a madrugada. O céu estava salpicado de umas nuvens que foram desaparecendo conforme o dia clareou. Caminharam, pai e filho, calados durante todo o tempo. Entretanto Sapatos fazia com competência a sua função e o gado que o conhecia bem raramente lhe desobedecia.

Devoraram quilómetros até que chegados a uma bifurcação o pai parou e olhando para o filho questionou:

- São estas marcadas as que vamos devolver?

- Sim! Depois de as entregar pode voltar para casa. Vou à minha vida.

E seguiu pelo caminho que daria acesso à imensa charneca. O canito de súbito apercebendo-se de que algumas ovelhas não seguiam o dono correu atrás delas, mas no instante seguinte o pastor chamou-o:

- Deixa Sapatos… essas já não são nossas… Anda deixa-as!

O jovem pastor regressou ao seu passo lento, observando a paisagem e a natureza. Mas foi com espanto que percebeu a presença de alguém mais à frente semi escondido nas árvores. No início pensou ser um outro pastor com quem raramente se cruzava para, quando chegou ao local, dar de caras com ela. Uma raiva subiu-lhe à garganta, mas naquele instante lembrou-se de uma velha frase do seu avô:

- Mais vale aquilo que fica por dizer do que aquilo que se diz!

E assim nem parou apenas dizendo ao passar:

- Bom dia menina.

A jovem estava de pé junto ao seu cavalo preferido e retorquiu:

- Bom dia…

Vendo que o pastor não parava a jovem iniciou a caminhar ao lado do rapaz e foi dizendo:

- Devo-te um pedido de desculpas!

- Nada há a desculpar…

- Há sim…

O silêncio dele enervava-a, mas percebeu que a única forma de ele se defender. Tinha tanta coisa para lhe dizer, mas temia a sua reacção. Respirou fundo aproximou-se mais dele e pegando no braço virou-o para ela e assumiu:

- Gosto de ti sabias? Muito…

- Mas eu não… - e sem emoção continuou o caminho.

Dor!

Há quem ame por amor,

Há quem ame por despeito

Há quem sinta temor

Da dor que sente no peito

 

Há quem odeie por tristeza

Há quem odeie por raiva

Há quem tenha a certeza

De que odiar é a sua seiva

 

Há quem chore por sentir

Que amar é só dor

Que odiar é só vestir

A alma de traidor.

O Pastor #10

(... Continuação daqui)

Sentadas na enorme sala, ricamente decorada, mãe e filha olhavam em redor como se ambas quisessem fugir a uma conversa, que nenhuma delas ousava ter. Uma porque sabia que perdera a razão. A outra porque percebia que a filha não era já uma criança. E provavelmente o coração prendera-se algures…

Coube à progenitora abrir então a demanda:

- Não tens nada para me dizer?

- O quê, mamã?

A filha respondeu num tom seco como estivesse muito segura de si. Todavia a mãe percebia o nervosismo da jovem através de umas mãos inquietas, tique que conhecia desde criança. Portanto o ataque teria de ser agora:

- A menina acha que tem procedido bem nos últimos meses, não acha?

- Eu não fiz nada de mal…

- Ai não… Sai de casa a desoras, entra quando quer, faz negócios nas minhas costas, maltrata as pessoas, usa de um poder que não lhe foi conferido e ainda tem a ousadia de me dizer que não fez nada de mal…

A rapariga encolheu-se qual cachorro atemorizado com um trovão forte. Por fim ganhou coragem e contra-atacou:

- O que a mamã queria é eu fosse aprender a bordar ou a fazer outras coisas como no seu tempo. Eu não quero isso… gosto da terra, dos cavalos, do gado…

A viúva olhou o quadro do marido pendurado na parede, como a rogar bom-senso e rigor para uma menina que parecia ter perdido a verdadeira noção do correcto. Respirou fundo e regressou ao questionário:

- Explique-me então essa história de ter estado na aldeia a ouvir relatos fantásticos do pastor… Não negue que não esteve lá…

Um tom rubro subiu à face da jovem, enquanto se desculpava:

- É verdade mamã que estive lá, sim, mas nessa noite o capataz levou-me na charrete, aquela antiga, mas rápida…

A resposta veio seca, rápida e ríspida:

- Velozes foram os cavalos… - e levantando-se aproximou-se da janela donde via o seu belo e bem tratado jardim.

Aquela casa fora herdada pelo marido, mas ela é que reformulara todo o edifício. Desde cima a baixo, tudo passara por si. Por isso olhando o horizonte, disse:

- Nada do que daqui se vê, nada é meu. É tudo seu… ou será quando eu, um dia, partir. Mas até lá…

A filha mantinha-se sentada desfiando nada com os dedos inquietos. Por fim ergueu-se do canapé e aproximando-se da mãe assumiu:

- Tenho tantas saudades dele… - e principiou a chorar.

- Também eu tenho saudades do seu pai. Faz-me tanta falta!

A jovem ergueu os olhos lavados em lágrimas para a mãe e assumiu:

- É dele que tenho saudades…

- Dele quem? – desentendeu.

- Do pastor…

Resposta ao desafio...

... da Ana

Chuva

 

Sinto nas mãos as lágrimas mansas

Caídas de um céu cinzento.

São cristais de vida, recompensas

Que doravante eu acalento.

 

Sinto na face as lágrimas frias

Tombadas de um negro sentido

Relembro longas noites e dias

De um amor quente e unido.

 

Sinto na roupa as lágrimas pesadas

Repletas de força, poder e estreiteza.

Vivo de ideias, de sonhos e estradas

Todas alinhadas na minha tristeza.

 

Ai lágrimas, lágrimas do céu!

Por que te chamaram de chuva?

Se não és mais que um véu…

E da minha amargura uma luva!

O Pastor #9

(... Continuação daqui)

Já noite a mãe surgiu no barracão onde o jovem pastor se via no meio do rebando.

- Filho, podes aqui chegar? O teu pai não me contou nada sobre a ida lá à Quinta...

Puxando por uma ovelha grande, o pastor aproximou-se da mãe que mal se via na escuridão e comunicou-lhe:

- Estou a tratar do negócio...

- Não me digas que sempre vais entregar o rebanho todo?

- Consegui ficar com o rebanho, mas tenho de devolver o que falta do dinheiro em gado...

- E quantas ovelhas serão?

- Cinco...

A ovelha deu um esticão, mas o pastor não a largou.

- Estou a marcar as cinco que devo entregar amanhã.

- Ai Graças a Deus - e colocou as mãos em oração olhando o céu negro - E o teu pai, o que disse?

- Nada mãe, nada!

Havia algo no coração que necessitava dizer à mãe. Mas temia o resultado ou reacção da antecessora. Veio para a rua sempre a puxar pela ovelha e aproveitando a Lua deu-lhe uma pincelada com uma cor no pescoço. Por fim largou-a e esta regressou ao meio do rebanho.

- Temos de falar mãe!

- O que se passa agora!

- O pai tem de ir trabalhar... ganhar o seu sustento... Eu não vou andar aqui a vida toda com o gado para ele gastar os poucos tostões na taberna... Nem pense.

A mãe virou as costas ao filho. Sabia que ele tinha razão, mas agora dizê-lo ao casmurro e bruto do marido... Depois:

- Sei que vai ser difícil, mas pode ser que este caso o tenha acordado para a realidade.

- Mãe, acorde! Se não se impuser ele vai continuar a gastar o dinheiro sem destino. Encoste-o à parede... Sem dinheiro dele... não há comida...

- Filho, filho, tu achas que seria capaz de deixar o teu pai morrer à fome? Nunca na vida...

Principiou a chorar, num pranto baixo, mas que não passou despercebido ao filho varão. O rapaz aproximou-se segurou-a nos ombros e aproveitando novamente a luz lunar, confrontou-a:

- Mas vai deixar morrer os filhos…

O pranto era agora bem maior. Embrulhou as mãos no xaile e partiu do curral. Já no cimo da pequena encosta que dava acesso ao caminho ainda disse:

- Vou vender as coisas que herdei dos meus pais... à fome ninguém há-de morrer!

O filho largou a cancela e correu atrás da mãe e voltou-lhe a dizer:

- Não vende nada. E depois quando não tiver mais nada para vender? Mãe... o pai precisa de uma lição. E se não lha der... dou-lhe eu!

- Ai filho que vais desgraçar a nossa família... Não faças nada... Por enquanto... Deixa-me falar com o teu pai primeiro!

Regressou ao carreiro e quase correu caminho fora. Entretanto o jovem pegou no tarro com leite e seguiu em passo lento para casa.

(Continua...)

O Pastor #8

(... Continuação daqui)

A madrugada surgia de mansinho ao longe, quando o jovem pastor e o pai chegaram à orla da Quinta das Figueiras. Todavia ainda tinham um par de quilómetros até chegarem à casa. O sol elevava-se já por detrás da colina quando avistaram o enorme casario. Para o rapaz era a primeira vez que chegava ali, mas o pai conhecia bem aquele lugar pois trabalhara ali muito. Noutros tempos, noutras idades…

Sentaram-se ambos na parede defronte da escada e esperaram em silêncio. Um gato fugia encostado à parede enquanto os pardais saltitavam no terreiro defronte. Quando o velho capataz surgiu vindo da sua velha enxerga e encontrou dos dois homens admirou-se. Aproximou-se e cumprimentou:

- Olha quem cá está… Viva… bons olhos te vejam…

- Obrigado – respondeu o pai num tom triste.

- Não digam que vieram trazer o gado?

Olharam-se mutuamente e foi o filho a responder:

- Vimos discutir uns assuntos com a sua patroa por causa do rebanho.

- Aquela miúda é o diabo… Safa… Sai ao pai que Deus tem! Querem que a vá chamar?

- Não merece a pena aborrecer ninguém. Nós esperamos…

- A menina raramente se levanta cedo…

- Não importa… Vá à sua vida e não se empate por causa da gente…

Nesse mesmo instante surgiu na varanda a moça que atentava o pastor.

- Ora viva… Pai e filho… E onde está o rebanho? – e olhava ao redor a ver se percebia alguma cabeça.

O rapaz afoito devolveu:

- É por causa desse negócio que cá estamos…

A jovem desceu as escadas e ficou defronte dos dois homens. Por fim:

- O que se passa?

- O que se passa é que a menina comprou um gado que não é de quem vendeu…

Virando-se para o pai inquiriu:

- Deixa ver se entendi… O senhor vendeu-me um rebanho que sabia não ser seu?

O jovem deu um passo em frente e assumiu:

- O gado é da casa, é o nosso sustento. Mas o meu pai vendeu-o para pagar a dívida ao taberneiro do vinho que lá tem bebido. E sem me dar conhecimento…

- Então e agora? Eu já paguei o rebanho… E das duas uma… Ou vem o rebanho ou o dinheiro…

Ambos os homens olharam-se, mas desta vez foi o pai a dizer:

- O dinheiro serviu para pagar a minha dívida… Temos aqui algum, mas não todo.

A rapariga deu uma volta sobre si própria, arranjou o cabelo solto e declarou:

- Não quero saber… Ou o gado ou o dinheiro.

A algazarra acordara mais alguém na casa pois no cimo da mesma escada onde estivera a jovem surgira uma senhora alta, magra e de negro vestido.

- Mas que discussão é esta logo pela manhã! Parece que estamos na feira de S. Romão…

O Pastor #7

(... Continuação daqui)

Aproximou-se da aldeia em passo lento. Havia mais de uma semana que havia partido por não querer ver o pai naquele definhamento etílico. Agora não queria estar na estrada para não ser sempre apanhado pela rapariga. Uma dúvida triste e amargurada que lhe enublava os dias.

Meteu o gado no curral, fechou-o e encaminhou-se para casa. Sapatos saltitava a seu lado numa costumada brincadeira. Ao aproximar-se o jovem pastor deparou com a mãe sentada no degrau da porta e parecia chorar. Apressou o passo e chegado a casa olhou a mãe lavada em lágrimas.

- O teu pai… o teu pai…

Pensou o pior. Entrou de rompante, mas não viu ninguém. Percorreu a casa pequena e não viu o antecessor. Finalmente aproximou-se da mãe que continuava:

- O teu pai… o teu pai…

- O meu pai o quê?

Respirou fundo, fungou, assoou-se ao avental e declarou:

- O teu pai vendeu o rebanho…

- Vendeu o quê?

- O rebanho… Todinho…

- Mas como se só cheguei agora com ele. Não pode ser…

- Para ir para a taberna gastar tudo no maldito vinho… estamos desgraçados…

E voltou a carpir. O pastor percebeu num instante o que havia acontecido e decidiu por um fim naquela estória. Arregaçou as mangas e partiu em busca do antecessor. Ao aproximar-se da taberna percebeu lá dentro enorme algazarra e onde o cheiro a vinho, suor e tabaco se misturavam em partes iguais, criando um ambiente pesado e nauseabundo.

Irrompeu pelo estabelecimento, qual bode enraivecido, foi ao encontro do pai encostado ao balcão que nem o vira entrar e pegou pela gola do casaco e sem dizer uma palavra arrastou-o para o empedrado da rua. Principiava a cair uma chuva forte o que fez com que ninguém os seguisse. A turbulência sonora no minuto antes fora substituída por um silêncio fúnebre. Apenas o irmão do bêbado apareceu para tentar levantar o irmão. Todavia o filho não autorizou.

- Deixe-o… Não lhe toca… A conversa é comigo e com ele… Não se meta…

O outro recuou deixando-os sós.

A chuva caía agora com força. O jovem pegou novamente no pai e levou-o até à fonte onde mergulhou a cabeça no tanque de pedra. O pai estrebuchava, mas a pujança e a raiva do jovem não o deixava vir fora de água. O filho tirou-lhe finalmente a cabeça de dentro do tanque e gritou-lhe:

- Vai desfazer este negócio e é já!

Ainda preso ao álcool o pai respondeu ofegante:

- Não posso… já me pagaram…

- Quero lá saber… Vamos agora falar com quem comprou e devolver o dinheiro.

- Já não tenho todo… devia na taberna…

- Já lhe disse que não quero saber…

E mergulhou a cabeça do pai novamente no tanque.

Quando finalmente pode respirar, o velho iniciou a vomitar. O chão alagava-se agora de tons de vinho, que a chuva ia lavando. Enfurecido o pastor encaminhou-se para a taberna e ficando à porta vociferou:

- Cambada de sacanas… a valerem-se da desgraça dos outros… Gostam de estórias, gostam? Têm aqui agora uma… - e apontou na direcção do pai - Mas esta é triste e são vocês que a irão contar… Se forem capazes…

(Continua...)

O Pastor #6

(... Continuação daqui)

Aquele Inverno parecia querer entrar pela Primavera tais eram os dias de chuva permanente e frio glaciar. As noites no largo eram assim triste e obrigatoriamente curtas. Para uns pela ausência daquelas estórias que o jovem pastor todos os serões inventava, para o autor pois era sinal de regressar a casa onde o pai permanecia cada vez mais tempo sem falar com a família, mantendo, contudo, um diálogo surdo com o garrafão de vinho e o copo que alternava entre cheio e vazio. Havia semanas que perdera o emprego por causa de uma bravata com o chefe. Agora deambulava pela aldeia e arredores. Uns confessavam que ele só queria vingança, outros que iria por termo à vida, outros ainda olhavam-no de longe e desdenhavam…

Quando finalmente surgiu o sol e a erva nasceu com mais vigor, o pastor partiu para mais uma das suas longas e distantes viagens. Com a sua normal juventude esquecera-se por completo da rapariga que tantas vezes o atentara. Todavia quando chegou ao cruzamento lembrou-se dela e preferiu não passar pelo meio da Quinta. Poderiam ocorrer novos encontros e ele não estava para aí virado.

Todos os rios, ribeiras e charcas brilhavam agora de água. Passou então perto de um regato onde o gado matou a sede. Sentou-se então por debaixo de um sobreiro, recostou-se a este e fechou os olhos. Sabia que Sapatos colocaria o gado no caminho da charneca assim que deixassem de beber e por isso descansou.

De súbito pareceu-lhe ouvir alguém a falar. Ergueu-se do seu lugar e rodando sobre os calcanhares foi tentando perceber donde viria a voz. Não viu ninguém.

O gado havia entretanto partido e por isso o pastor apressou o passo de forma a apanhar a cauda do rebanho. Começou por ver algumas cabeças brancas, para no meio ver outra que não era certamente de uma ovelha e de nenhuma cabra.

- Mas que coisa vai ali?

Apressou mais o passo para quase no instante seguinte descobrir a jovem menina que de vez em quando lhe aparecia sem que ele esperasse.

- Olá… - saudou ela numa voz viva e alegre.

- Olá – respondeu o pastor de modo rude, contrariado.

- Sabes… - acrescentou a jovem – estou muito zangada contigo.

- Porquê?

- Oh tu sabes porquê…

- Sei lá eu! Raramente lhe falo.

- Pois não, mas devias falar mais. Talvez perdesses esse medo ao falares comigo. Eu não faço mal…

- Ninguém faz até à primeira vez…

- Ai sim… e quando é que te fiz mal?

O jovem engoliu o silêncio e não respondeu. Todavia a jovem continuava a tocar os animais quase com sabedoria. O canito Sapatos aproximara-se do dono e caminhava a seu lado. Andaram assim em silêncio quilómetros, até que o pastor decidiu:

- A menina que me quer? Não me larga…

A jovem rodopiou no chão de terra enlameada e finalmente respondeu:

- Agora… nada! Mas um destes dias sei lá… Posso precisar de um pastor novo na quinta.

- Tire daí o sentido que não largo este gado… Nem pense… Preferia morrer.

- Está bem… é justo… Então quanto queres pelas tuas ovelhas? Eu compro-tas todas…

O guardador sem dar sinal baixou-se, apanhou uma pedra, calculou-lhe o peso e arremessou-a para longe. Aquela foi cair num pequeno charco fazendo um som característico ao bater na água funda. Depois respondeu:

- A menina, desculpe-me mas não tem dinheiro para as comprar…

(Continua...)

O Pastor #5

(... Continuação daqui)

Os dias corriam moles e lentos para o Outono. A espaços caía uma água constante, baça e chata. O gado não se preocupava com a pluviosidade e ia rapando terrenos de erva fresca e tenra. Por seu lado o jovem pastor fugia pouco da sua tarefa de guardar as ovelhas e algumas cabras, entre os muros das suas fazendas.

A imagem da amazona bonita e persistente acabara por desaparecer e agora a única preocupação do guardador seria os futuros borregos prestes a vir ao mundo.

Todas as manhãs percorria o estábulo em busca de uma cria nova e se a achava procurava saber onde estaria a mãe, quase sempre perto. Depois ajeitava o teto da monja da ovelha na boca do filho e este depressa ganhava o jeito.

Quando não havia crias abria os portões e deixava que os animais saíssem com calma, mas sempre liderados por Sapatos que as encaminhava para o terreno certo.

Era uma vida calma, sem correrias nem apoquentações. Talvez a única preocupação seria inventar a estória para a noite. Mas bastava uma pedra bizarra no leito do ribeiro, um gesto ou uma brincadeira de uma qualquer cabra e logo o rapaz inventava mais uma aventura para contar ao serão.

À noite após a mesmíssima ceia de todos os dias, o contador de estórias acercava-se do largo, sentava-se na velha e puída pedra e antes de começar a falar alguém lhe fazia a pergunta sacramental:

- O que bebes hoje?

- Nada, obrigado… Tu sabes que eu não bebo…

- Pois é, esqueço-me, qu’é tu queres?

- Bom cá vai…

De repente uma voz entrou-lhe pela cabeça e veio atormentar-lhe o espírito:

- Já ouvi dizer que és um bom contador de estórias…

Ergueu então o olhar e percebeu, para seu enorme espanto, a figura esbelta da menina que no Verão o havia atentado mais que uma vez. O pastor por breves instantes pareceu perder a compostura, mas olhou o Sapatos que dormitava a seus pés e por fim iniciou o relato.

A jovem sentara-se entre dois ouvintes atentos e parecia estar imbuída do mesmo espírito dos demais, escutando as aventuras falsas, mas bem faladas pelo jovem pastor.

O enredo parecia desta vez ser mais complicado e tortuoso tal era a revolta de pensamentos com a presença da jovem, mas num ápice o contador desembaraçou-se do novelo criado matando quase as personagens e pondo um fim apocaliptico à história.

Os ouvintes ficaram tristes e um a um foram abandonando o lugar. A maioria regressou a casa, todavia alguns foram para a taberna afogar as tristezas da estória em copos de traçadinho e bagaçosy. No largo ficou apenas o casal jovem. Afastado…

A jovem tomou a iniciativa de se aproximar e perguntou:

- Não tens estórias de príncipes e princesas?

O pastor percebeu um breve sorriso trocista e após um anormal e longo silêncio respondeu:

- Tenho… Mas as princesas são más e o príncipes pior ainda…

(Continua...)

O Pastor #4

(... Continuação daqui)

Quando à noite, após a ceia fraca e repetida donde se destacava o permanente feijão pequeno regado com um fio de azeite, entrou no largo repleto de homens sentiu-se diferente das noites de outrora. Havia ali algo que não o faziam sentir-se confortável. Todavia…

- Ena, já chegaste? Mas eu vi-te ontem…

- Sim cheguei ontem.

- Nem apareceste…

- Estava muito cansado… Preferi ir dormir.

- Agora também dormes? -perguntou um outro dando uma sonora gargalhada.

Os outros imitaram-no nos risos.

- Queres o quê para beber?

- Oh nada… eu não bebo… Tu sabes…

Depois arranjou um lugar entre dois e sentou-se. Recostou-se e fechou os olhos. Os presentes olhavam-no com espanto até que alguém avançou:

- Então não trouxeste nenhuma estória?

O pastor sentiu uma certa melancolia a invadi-lo e pensou contar a estória verdadeira em vez de usar a imaginação. Respondeu:

- Claro que tenho…

E iniciou a relatar os seus últimos acontecimentos. Ainda estava no início quando um dos ouvintes declarou.

- Essa não tem piada… Conta uma das outras…

O rapaz quase que riu… Então… a eles não interessava uma estória verdadeira, mas somente um relato com acontecimentos impossíveis, figuras inexistentes e finais felizes. Tudo o que pudesse corresponder à realidade não interessava.

Eis que o jovem inicia a sua nova aventura. Inventando cada situação, cada diálogo, cada demanda o pastor angariava cada vez mais ouvintes que o escutavam com profunda atenção vivendo cada relato como se ele tivesse sido verdadeiro.

Sempre que o caso tinha um final feliz, havia alguém que pagava a rodada. Daí muitos dos ouvintes tentarem introduzir no relato uns elementos que originasse mais finais felizs. Todavia o autor nunca o aceitava para enorme desespero de alguns.

Quando terminava dizia:

- E foi assim que tudo aconteceu. E amanhã há mais!

Mas naquela noite alguém se aproximou dele e apresentando-se acabou por questionar:

- Donde tiras essas estórias? São curiosos os teus relatos…

O guardador, perante a pergunta, tentou desaparecer por entre a multidão masculina que para ali viera para o escutar, mas o mais que conseguiu foi fugir apenas uns metros para ser rapidamente alcançado por um braço.

- Desculpa a ousadia, mas sabes ler?

- Porque quer saber?

Não ligando à questão continuou:

- Se não sabes ler também não sabes escrever. Mas as suas estórias têm uma genuidade única. Se quiseres levo-te comigo, gravo umas histórias tuas e depois publico-as em livro. Pode ser?

O pastor não percebera patavina do que o outro dissera, mas como tinha pressa para chegar a casa disse simplesmente que sim.

(Continua...)

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