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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Poema

Há uma linha,

Nessa face de neve,

Que me faz doer

O coração, a alma.

 

Socorro-te

Num abraço sereno

Num beijo surdo

A palavra terna.

 

Estendes a mão,

Procuras o Mundo,

Eu dou-te alegria

Tu dás-te a mim.

 

Danças num sorriso

E num grito feliz.

Sei agora

Que és musa única.

Rosa

- ROOOOOOSA, Ó ROOOOOOSA – alguém gritava.

Ninguém respondeu.

Naquele preciso instante apenas se ouviam os pintassilgos que nas árvores chilreavam com primaveril alegria, incólumes ao chamamento. Entretanto surgiu vindo do fundo do quintal uma esbelta jovem carregando debaixo do braço um velho e remendado alguidar de barro, vazio. Aproximou-se em passo lento da casa e respondeu num tom áspero:

- Chamou-me mãe?

A antecessora aguardou no pequeno alpendre, no cimo de umas escadas de pedra que a filha se aproximasse. Gastara a força que ainda lhe restava nos gritos e mal conseguia falar. Juntas, a mãe perguntou em tom profundamente sumido:

- Sabes onde o teu pai deixou o garrafão?

A filha passou à frente da mãe em silêncio, virou-lhe as costas e entrou na casa pouco asseada arrastando atrás de si a fraca figura para finalmente responder:

- Tem-no vocês no bucho… beberam-no todo ontem… Cambada de bêbados! Não têm vergonha...

Rosa Maria era a filha de 15 anos de um casal que via no álcool a sua essência. O pai trabalhava no que arranjava, mas num ápice gastava o pouco dinheiro que ganhava na taberna. A mãe não conseguia fazer nada já que estava quase sempre sob o efeito do vinho. Era a jovem e esbelta cachopa que tentava, com assaz dificuldade, tocar a casa para a frente. Umas limpezas aqui, umas ceifas acolá e até um subtil assédio por parte de um patrão a que Rosa fez-se desentendida, mas que lhe haviam valido umas notas boas!

Filha do meio, tinha quatro irmãos, todos rapazes. Os dois mais velhos já haviam partido para longe em busca de melhores vidas. Os mais novos procuraram refúgio na casa de uns tios, que sem filhos, aceitaram as crianças de bom grado e desde tenra idade.

Restara, portanto, Rosa… a flor mais bela da aldeia! Os cabelos pretos, os olhos negros e o corpo formoso faziam da ainda adolescente uma rara beldade. E alvo de incontáveis e impossíveis desejos marialvas!

A mãe com a voz arrastada ainda sob o efeito dos vapores etílicos da última noite, atirou com raiva, espumando:

- Cabra, porca, foste tu que escondeste o garrafão. És uma velhaca!

A jovem ignorou as acusações e sem proferir uma palavra foi à sua luta doméstica.

- Rosa, oh Rosa, minha filha, ajuda-me! Por favor! - pediu encarecida a bêbada, numa voz cada vez mais rouca e sumida e quase a chorar!

Surgindo na entrada a jovem devolveu novamente num tom áspero:

- Se quer ajuda atire-se pelas escadas abaixo… Pode ser que algo de bom lhe aconteça...

Voltou para dentro para limpar a sujidade deixada algures pelos pais na noite anterior.

A mãe olhou-se num velho espelho, muito baço que havia na entrada: uma face sem expressão, o olhar mortiço, as rugas a rasgarem-lhe a face. Depois mirou as mãos engelhadas, as roupas sujas e rasgadas, os sapatos rôtos. Por fim aquela dor que sentia no fundo do peito, lugar onde mora a alma, disseram-lhe certa vez.

Saiu para o alpendre aproximando-se devagar das escadas íngremes e pouco niveladas. Do lado de fora um frágil corrimão de ferro velho e quase todo podre, à sua frente a escadaria...
A cabeça latejava, mas as palavras de Rosa mordiam-lhe ainda. Baixou-se então e olhando os degraus com uma invulgar bonomia, deixou-se por fim cair…

Os diversos baques secos fizeram Rosa vir a correr ao cimo da escada. No fundo a mãe jazia imóvel, surgindo na terra um fio de sangue que um cão faminto veio gulosamente lamber.

 

Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado e a Marquesa de Marvila .

Quatro quadras coloridas

Corre por aí à boca cheia

Outro desafio de escrita.

Está pouco mais de meia

A montra de escrita catita.

 

O mote é sempre o mesmo

Com uma caixa lápis de cor

São textos bons e a esmo

Falam de tudo, até de amor.

 

Há quem lute arduamente

Para escrever com fervor

Sou eu, sou eu somente

Pois cada lápis é um terror.

 

São dezanove os artistas

Que dão vida ao desafio.

Faltam cinco ametistas

Para nos encher de brio.

 

Dedico estas quadras a: 

FátimaConcha, A 3ª FaceMaria Araújo, Peixe FritoIsabelLuísa De SousaMaria, Ana D., CéliaCharneca Em FlorMiss Lollipop, Ana MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue, João-Afonso Machado, Marquesa de Marvila.

Poema breve

Há no teu voar

sereno e ondulante

Uma liberdade

que eu não conheço.

Há no teu grito

sonoro e profundo,

Uma voz

que não sei traduzir.

 

Colada ao anil

tão claro e infinito,

Voas buscando

um novel caminho.

És um momento

de liberdade.

Partir por fim,

jamais regressar.

 

Escondes-te

nessa almofada,

que pinta

o céu de branco.

Sobes e desces

ao vento...

Esse nosso amigo

silencioso.

 

Sonho-me também

assim livre,

repleto de mundo

ao meu redor.

Sonho-me também

assim perto,

desse azul céu

límpido e perene.

 

Somos homem e ave

a ansiar,

que a noite escura

nunca chegue.

Ambos queremos

amar o infinito,

E achar

a vida num desejo!

Na praia

Deitados de costas na areia numa praia deserta naquele brando inverno, a mão direita de um entrelaçada na mão esquerda do outro, pareciam ambos dormitar.

Uma brisa vinda do mar tentava arrefecer o ar meio tépido da tarde. No entanto o Sol continuava a emanar os seus braços fortes e por isso o casal sentia-se, naquele instante, muito bem. Aconchegado, como se um manto os tapasse!

Ela de olhos fechados perguntou como quem não quer a coisa:

- Onde vamos jantar hoje?

Ele meio estremunhado, já que estava quase a dormir, devolveu:

- Ora essa é uma boa pergunta… Diz tu!

- Oh, eu não conheço restaurantes como tu…

- Mas podias ter alguma ideia.

- Não tenho – respondeu ela – pronto, deixa, quando formos embora pensaremos nisso.

Voltaram ao silêncio.

Todavia por pouco tempo, já que ela voltou a falar:

- Sabes… há uma coisa que eu ainda não sei de ti…

- E qual é?

- Gostaria de saber qual a tua cor preferida.

- Isso é fácil. É o azul, Céu!

Azul claro!

Quantas enciclopédias de ler haverei,

Até descobrir um belo amor simples?

Quantas palavras terei de rabiscar,

Para que descubras quanto te amo?

 

Quantos trilhos me obrigo a percorrer

Até encontrar a sumíssima felicidade?

Quantas lágrimas deverei eu chorar

Para lavar a minha dor e alma sofrida?

 

Quanto Sol acharei no céu azul claro,

Até encontrar um telhado verdadeiro?

Em quantos frios e relentos dormirei

Até encontrar uma doce mão amiga?

 

Quantos dias faltarão para que eu parta,

Naquela viagem tão única sem retorno?

Enfim quanto do meu imo quererá saber

Se o fim anunciado é o fim mais perfeito?

 

Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, e o João-Afonso Machado.

Entretanto a veneradíssima Marquesa de Marvila entrou neste desafio também com um curioso texto.

Passeio pela aldeia!

Encostado a um enorme penedo quase todo tapado de um musgo verde e viçoso, Júlio apoiou ambas as mãos no puído e negro bordão e serenamente olhou em seu redor enquanto aguardava. Como se de repente se fizesse luz no seu espírito toda aquela paisagem passou a fazer sentido.

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Sorriu e o sorriso foi apreciado pela jovem que acabara de chegar.

- Bom dia avô. Estás a rir de quê ou de quem?

- Bom dia minha querida Marta, dá cá primeiro uma beijoca a este velhote…

Encostou-se a ela e a neta pespegou-lhe um beijo sonoro.

- Avô… cheiras sempre bem!

O velho voltou a rir. A neta insistiu:

- Mas conta lá de que estavas a rir há pouco?

- Tantas vezes que aqui parei, que aqui matutei como resolver problemas e nunca, mas nunca tinha reparado nesta beleza…

Com o bordão apontou da direita à esquerda. Do horizonte.

- És um romântico…

- Desculpa não tem nada a ver com romantismo… bem pelo contrário… realismo!

Endireitou-se e aproximando-se da parede de pedra cinzenta devolve à neta:

- Em que lugar tu poderias ver esta paisagem: a serra aqui encostada, esta planície que quase se assemelha a uma cova açoriana de um vulcão, depois o casario na encosta, encimado por aquele pinhal… E só agora é que percebi…

- Mas avô isto está assim há muitos anos.

- Pois está… mas o problema é teres consciência disso. Mas vamos embora senão não vês nada.

- Comecemos por aqui… mesmo - avançou a jovem.

- Bem esta estrada de terra batida onde estamos chama-se somente o Caminho do Fundo Felgar. Como sabes todo este bocado de terra direita tem o nome de Felgar. Depois há sítios que têm nomes mais específicos… Os Castanheiros são ali…

- Mas não vi nenhum, avô.

- É normal… já que em 2003, quando foi o grande incêndio do Parque Natural ardeu tudo. Há quem tenha tirado temperaturas de 60 graus tal era a imensidão do fogo. Entretanto esta encosta onde está o penedo a que me encostei chama-se Encosta do Curral. Queres ver?

Dando uns passos mais rápidos encostou-se uma vez mais à parede e chamando a neta apontou com o cajado.

- Esta casa em ruínas foi um antigo curral de cabras e ovelhas de um homem chamado Manuel Palrante. Solteirão empedernido certo é que um dia partiu daqui com o seu gado e nunca mais apareceu.

- Para onde terá ido?

- Ui… nem imagino. Mas as más línguas da aldeia sussurraram que ele tinha uma amiga para os lados de Alcobaça. Creio que nunca ninguém confirmou. Ainda por cima não tinha cá mais família… ficou tudo ao abandono.

- E agora?

O avô nem respondeu e continuou a ser o cicerone rústico.

- Isto aqui chama-se a Eira do Padre.

- Então houve cá um Padre?

- Dizem que sim, mas nunca o confirmei. Sei apenas que todo este bocado era dele mais um outro do lado de lá daquela eira que ali está de pedra.

- Chegaste alguma vez a trabalhar ali?

- Sim, sim… principalmente a debulhar favas e milho.

- Devia ser tão giro naquele tempo.

- Já leste as histórias escritas pelo teu tio Zé?

- Não… Porquê?

- Quando as leres perceberás…

- Oh avô… isso não vale – e aproximando-se do velhote beijou-o na face.

Mas o avô era um homem duro. Não obstante os olhos lindos da neta ainda assim resistia. Como sempre!

- Esta encosta é o Bajanco. Há muitos muitos anos, era eu rapazola, andava com os meus amigos na moinice quando dei conta que ali – e aponto com o bordão – havia muito fumo. Achei por bem vir aqui…

- E?

- O Ti’Manel Germano ao tentar queimar uma pouca de lenha deixou que o lume alastrasse ao restolho e deste às oliveiras. Quando aqui chegámos andava o homem em cima de uma delas a arder no tronco, com uma enxada a ver se a apagava.

- Poderia ter morrido.

- Pois poderia, mas mandei-o sair da oliveira e com a enxada fiz uma vala para que o fogo não alastrasse através do restolho.

- Avô?

- Sim querida…

- O que é o restolho? – perguntou a jovem fazendo uma cara triste.

Um afago do velho na cabeça da menina e explicou:

- Naquele tempo semeava-se por aqui trigo que depois de ceifado deixa uns talos no chão. É isso o restolho que estava seco.

- Ahhh!

Continuaram a caminhar quando se ergue uma enorme parede à esquerda.

- O cemitério velho!

- Não sabia que havia um cemitério aqui…

- Quantas vezes vieste visitar-me? Uma meia dúzia. Vens e vais logo…

- Tens razão avô, mas isto aqui… é tão bonito mesmo sendo tão rústico. Apenas se escuta a própria natureza…

O avô gostou daquela expressão… Achou-a feliz e disse:

- Um dia lá no jornal escreves uma crónica sob o título “O som da Natureza”… - depois gargalhou!

- Se calhar… Não me parece má ideia.

- Sigamos.

A estrada de terra batida curvou para a direita para logo se endireitar. De um lado e do outro erguiam-se velhos muros de pedra disformes e cinzentas.

- Erguer estes muros devia dar cá um trabalhão…

- E o pior era partir a pedra. Porque pedra há aqui muita, mas nem todas têm o tamanho necessário para este trabalho. Assim havia homens que a única coisa que faziam era partir pedra o dia todo com uma marreta.

-  Que coisa avô!

- Pois, mas naquele tempo não havia outros trabalhos. Claro havia sempre a agricultura e a pastorícia, mas nem todos tinham terras e gado. Vidas duras, vidas duras…

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Caminhavam devagar.  Marta diz de repente:

- Olha chegámos ao alcatrão…

O avô pára e observa o local como se estivesse à procura de algo. Depois:

- Para a direita vamos para a aldeia…

- E para a esquerda?

- Seguindo o alcatrão ali mais à frente há uma série de fazendas com nomes muito curiosos… - e piscando o olho à neta sorriu.

- Boa… Sabes que adoro essas curiosidades toponímicas…

Um breve compasso de espera e então desfiou:

- Covão de Inferno, Vale Escuro, Cova do Relógio, Marrã, Fetalhinhos… eu sei lá… olha Penedos Gordos...

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- Estes nomes são fantásticos avô. Certamente não sabes a origem deles?

- Perderam-se no tempo… - Entretanto olhou a serra e decidiu – Vamos embora que se está a fazer tarde.

- Tarde avô? Ainda é dia… e vai ser por muito tempo.

- Enganas-te… Quando o sol se esconder por detrás daquela ladeira - e aponto novamente com o velho cajado - cairá um frio que nem imaginas.

- A sério, avô?

- Fica por aí e verás… Eu vou andando que já não corro como tu…

- Acabou então a visita?

- Por agora sim! Mas toma consciência que nestas aldeias longe das cidades, escondidas entre matos e pedras nada é perene.

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Nota final: resposta ao desafio da Cristina Aveiro do blogue "Contos por Contar". Participam outrossim a seguinte "troupe" blogueira: Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, e a bii yue

Gratidão

Obrigado, pai e mãe

Por me fazerem nascer.

 

Obrigado, mulher e companheira

Por caminhares sempre a meu lado.

 

Obrigado, meus filhos

Por escutarem as minhas palavras.

 

Obrigado, meus amigos

Por me secarem as lágrimas.

 

Obrigado, aos que me lêem

Por só assim vale a pena escrever.

 

Obrigado, a quem me detesta,

Porque assim sei que existo.

 

Obrigado, meu Deus

Por me indicares o caminho!

A cor laranja

Sabes que cor tinham as contas que usavas

Naquele estranho encontro no alfarrabista

onde comprámos romances apaixonantes?

 

Lembras-te de que cor era aquele pôr do sol

quando, pela primeira vez, os nossos lábios,

conheceram o gosto inesquecível do amor?

 

Recordas-te de que cor era o teu belo vestido,

Que estreaste numa branda tarde, quase noite,

Em que ambos provámos o néctar da paixão?

 

Tens ideia de que cor era a doce madrugada

Em que acordámos juntos, nus e tão felizes

E olhando pela janela, sorrimos de encanto?

 

Olha amor, tens agora na tua enferma mão,

Mesmo nesta que já não mexe, nem aceita

Uma encantadora laranja. Sim a nossa cor!

 

Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, e o João-Afonso Machado