A ribeira das Duas Pedras nasce no meio da serra entre dois enormes penedos graníticos que a baptizou. Durante todo o ano a água sai do ventre da terra com maior ou menor força, todavia sempre límpida, fresca e com força de vida.
Se no Inverno o caudal farto vai descendo a encosta até encontrar a foz na ribeira dos Carvalhos, já no Estio o fio fresco fica naturalmente preso nalguns lameiros contíguos à linha de água, que agradecem. Porém a maior característica da ribeira é ser a divisão natural de duas enormes propriedades.
Augusto Maciel era dono de uma enorme Quinta que tinha como limite a leste, a boa ribeira. Do outro lado vivia Vicente Peres um outro fazendeiro sempre muito cioso dos seus terrenos e mais ainda das suas partilhas. Certo é que estes dois homens… detestavam-se.
Nunca ninguém, em boa verdade, soubera da razão do diferendo. Alguns aventavam a ideia de ser um problema antigo envolvendo saias, outros falavam de coisas de heranças e partilhas antigas e havia ainda quem ousasse falar de questões de dinheiros.
Certo, certo é que ambos não se podiam ver de tal forma que quando se cruzavam na estrada estreita havia sempre problemas. Conta-se que certa vez foi chamado o padre para tentar resolver o diferendo, conseguindo-o de forma pouco natural já que os chamou a ambos à parte enquanto o pessoal tratava de passar as carroças.
Naquele Inverno a chuva chegara mais cedo. Pouco depois do S. Miguel principiaram a cair as primeiras chuvas. Vinham mansas, miúdas, chatas. Mais tarde o céu cobriu-se de uma cor plúmbea, pesada e com ela vieram os aguaceiros fortes, carregados e persistentes. Lentamente os campos encheram-se de água, os caudais alagaram as diferentes galerias ripícolas limitando o uso do pasto que cria crescer, mas num ápice afundava sob tanta intempérie.
Na aldeia tudo estava parado e não fossem alguns terrenos mais escarpados, mais o feno guardado do último Verão e muito gado passaria fome.
Se os seis filhos de Augusto, recentemente viúvo, não achavam graça à demanda do pai, já os dois filhos varões de Vicente alinhavam na bravata. Sobrava deste a filha que nunca comprara a ideia do diferendo, ainda por cima sem saber porquê.
Vicente acordava sempre de madrugada. Comia uma bucha e partia a pé acompanhado do seu fiel cão Profeta. A Lua havia muito tempo que não se deixava ver, tal como o Sol. Caía uma chuva obesa, densa que não deixava ver o caminho enlameado. Da sua casa até à margem da ribeira distava umas boas centenas de metros. Geralmente por aquela hora também Augusto andaria perto da margem, mesmo que estivesse alagada.
Uma mania de ambos em fiscalizar a ribeira não fosse o vizinho comer algum pedaço de terra. Viam-se ao longe, mas nem se cumprimentavam. Geralmente o velho Augusto trazia sempre consigo um cajado gordo e resistente.
Naquela manhã Vicente desceu devagar a pequena encosta que dava acesso ao seu lameiro. Pé ante pé não fosse alguma pedra fugir por debaixo das botas o homem foi-se aproximando das margens bem alagadas. A chuva parecia naquela madrugada querer de súbito amainar, mas mesmo assim a corrente do rio parecia tudo querer levar.
O dia clareava mais que o habitual quando uma nesga de céu venceu as nuvens e deu um ar da sua graça. Foi nesse momento que Vicente olhando para o lameiro do vizinho Augusto pareceu ver alguém caído.
- Ei… Ei… - gritou.
Podia não ser ninguém, mas quanto mais se aproximava e se enterrava na lama mais certo estava de que alguém estava caído no chão. O problema é que o terreno era do Augusto e não queria questões com ele.
- Ei… você… Está a ouvir?
A água na ribeira corria célere e foi nesse instante que Vicente procurou a montante uma séria de penedos que podiam servir de acesso ao outro lado, mas que fazia muitos anos não passava por ali. Encontrada a passagem com a forte corrente que ladeava os calhaus Vicente atravessou e foi a correr com a dificuldade da lamaçal e da água ao encontro do corpo.
Para seu espanto o homem era mesmo Augusto, que estava enterrado até aos joelhos na lama. Ao lado um ramo de freixo parecia querer boiar. Assustado Vicente ordena:
- Profeta… vai a casa e traz a dona. Vai, vai depressa.
O cão pareceu perceber o dono e correu quanto a água do lameiro deixava, enquanto o dono tentava arrancar o vizinho da lama. O homem estava inanimado, mas não estava morto já que respirava. Tremia de frio e foi com enorme esforço que retirou o inimigo daquele lamaçal. Lentamente tentou puxá-lo para fora do lameiro para uma zona mais alta e menos alagada.
Quando finalmente chegou ajuda, capitaneada pelo fiel Profeta, Vicente estava extenuado. Os seus empregados carregaram então Augusto e levaram-no para casa do patrão. Este mandou aquecer água e metê-la numa banheira onde depois deitou Augusto que não reagiu. Finalmente ordenou:
- Alguém que vá ao povo chamar o Dr. Almeida. Rápido.
Já era noite quando o velho Augusto deu sinal de querer acordar. Abriu os olhos e logo percebeu que não estava na sua casa. O quarto havia pouca luz e não viu quem tinha a seu lado. Quando deu pelo Vicente, ergueu-se, mas logo caiu no leito sem forças.
Os filhos do doente estavam longe da quinta e por isso ninguém do lado de Augusto foi avisado. Todavia no dia seguinte Vicente mandou um empregado comunicar o sucedido. Entretanto os filhos principiaram a atentar o pai pela presença do vizinho.
Vicente deixou-os refilar sem dizer fosse o que fosse, para depois devolver:
- A demanda que possamos ter com alguém fica esquecida quando há uma vida em perigo. O que deveria ter feito? Deixá-lo lá a morrer de frio? E depois como ficaria a minha consciência?
Os filhos ainda tentaram dizer algo, mas o pai abriu muito os olhos e continuou:
- E vão vocês todas as semanas à missa bater com a mão no peito…
Os filhos envergonhados pelo pai saíram da sala em silêncio. Para logo vir Inês, a filha mais nova, abraçar Vicente, sussurrando ao ouvido:
- Obrigado meu pai!
Foi no segundo dia que Augusto principiou a falar:
- Onde estou? Que me aconteceu?
Vicente pegou na vela e aproximou-a de Augusto:
- Apanhei-te no teu chão caído, enterrado na lama e inanimado. O meu pessoal trouxe-te para aqui e já cá esteve o Doutor Almeida. Tens de descansar. Mas se não quiseres ficar aqui…
O velho Augusto olhou para Vicente e perguntou:
- Porquê?
O outro percebeu a pergunta e respondeu:
- Porque somos ambos imbecis…
Augusto estendeu a mão.
- Obrigado… provavelmente devo-te a minha vida. Uma dívida que nunca será paga…
- Não é preciso pagar. Tenho a certeza que farias o mesmo comigo!
As mãos ásperas e calejadas juntaram-se num aperto afectuoso e sincero. Para logo a seguir Augusto adormecer.
Na manhã seguinte uma empregadita jovem e vivaça entrou no quarto com uma bandeja e uma chávena de chá bem quente. Poisou o tabuleiro numa mesa e devagar abriu o reposteiro deixando que a claridade matinal entrasse no quarto do enfermo. Vendo o doente mexer-se cumprimentou:
- Bom dia senhor, está melhor?
- Bom dia menina… Acho que sim, obrigado.
- Vou deixar aqui o seu chá, sim? Aproveite que está quentinho.
O doente ergueu-se da cama e percebeu que alguém o vestira com roupas que não eram as suas. Não se importou… naquele instante já estava por tudo. Sentado à beira da cama Augusto tentou recordar o que se passara dias antes. Mas havia ainda alguma confusão dentro da sua cabeça.
Bateram à porta do quarto.
- Entre!
Era Jacinta a mulher de Vicente que naquele seu jeito sempre simpático não obstante a idade, veio acautelar-se do vizinho:
- Bom dia Augusto! Isso é que foi um susto, homem de Deus!
- Pois foi Jacinta…
- Mas lembras-te do que se passou?
Augusto calou-se. A vizinha percebeu que algo o incomodava e não insistiu. Foi o homem que acabou por confessar:
- Todas as manhãs ali passo naquele lameiro… A água trás tanta coisa e de repente notei que estava um animal atolado.
- Mas que bicho era?
Um silêncio penetrou no quarto, mas logo a seguir Augusto desvendou:
- Era o vosso boi.
- Qual?
- Não sei como se chama, mas pareceu-me o boi de cobrição…
- O Bravão?
- Vendo ali enterrado fui buscar rama de freixo e com o meu cajado fui tentando empurra-lo dali para fora. Não sei como terá ido lá parar, mas a verdade é que consegui que ele saísse pelos seus próprios meios. Só que com tanta manobra e força a determinada altura havia perdido o meu bordão. E é aqui que tudo pára pois só me lembro de ir à procura do cajado…
Jacinta levou a mão à boca e pediu:
- Já venho Augusto, já venho – e saiu quase a correr.
Regressou rápido com Vicente e perguntou-lhe:
- O que aconteceu há dias ao boi, o Bravão?
- Não imagino. Só sei que um dos homens o encontrou à solta nem sei onde!
- Pois é foi aqui o Augusto que o salvou de morrer afogado. E ao invés ia ficando ele… se não fosses tu…
Num segundo tudo se fez luz a Vicente, para logo assumir:
- Deus sabe o que faz! Não gostava da nossa estúpida bravata e arranjou estes desafios…
Augusto abanou a cabeça numa concordância para acrescentar:
- Se não fosse crente Nele diria que eram apenas coincidências…
Jacinta rematou:
- Pois sim tens razão Augusto foram apenas Deuscidências!
Os dias que antecederam o aniversário da Olívia, foram vividos de forma frenética pela cachopita. Faria seis anos e para ela aquela idade surgia como um marco de vida, como se tudo ao seu redor passasse a ser diferente.
Doce ilusão!
Naquele Domingo acordou muito cedo e em vez de procurar a árvore de Natal como fizera no ano anterior foi buscar os puzzles que lhe haviam oferecido na festa do Advento. Espalhou-os em cima da mesa da cozinha e escolheu um dos sacos com dezenas se não centenas de peças recortadas e com a gravura para se guiar.
Estava tão embrenhada que nem notou que pai e mãe a olhavam havia uns minutos embevecidos naquela atitude de menina que sabe o que quer. E menos criança, mais rapariga pronta a entrar num longo e sinuoso caminho de vida e para o qual ainda não tinha real consciência.
Foi o mano Gustavo que aos gritos de “mããããããããeee” a fez desviar a atenção do seu puzzle.
Levantou os olhos, notou o pai e no mesmo instante:
- Paaaaaaiii! – e correu para os seus braços que a envolveram num amplexo apertado, sincero e sentido.
- Parabéns Olívia…
- Obrigado papá! – para logo devolver – A mamã?
- Foi buscar o mano que já acordou!
Nesse mesmo instante entraram ambos e a mãe de lágrimas nos olhos de tanta alegria, virou-se para o rebento mais novo e perguntou-lhe:
- Vamos dar um abracinho à mana de parabéns, vamos?
Um momento único naquela família, com pais e filhos numa comunhão feliz, serena e cúmplice.
- Parabéns minha querida… Vês passou um ano num instante…
- Obrigado mamã!
- Agora vamos tratar do pequeno almoço de todos, comemos e depois vamos às compras para o teu lanche. E vais ser tu a escolher o bolo, sim?
- A sério, posso escolher?
- Claro!
- Convidaste muitos amigos para a tua festa?
- Muitos… mas…
A voz da pequenina mudou de súbito de tom! Uma emoção estava ali presa na garganta e Olívia parecia estar com dificuldade em se desembaraçar dela. A mão percebeu a filha, abraçou-a com ternura e em sussurro comunicou-lhe:
- Ele está a ver-te!
- Mas eu não o vejo… E gostava tanto que ele pudesse estar aqui comigo hoje!
Os pais olharam-se sem saber que resposta dar à aniversariante. Foi o pai que deu o mote:
- Tenho a certeza que esteja onde ele estiver está a ver-te, como disse a mamã, e não gostará de te sentir triste.
Olívia não evitou as lágrimas e agarrou-se com mais força à mãe, para esta logo a afastar e dizer:
- Este é o teu primeiro teste como menina crescida.
A menina nada disse! A mãe continuou:
- Perdeste o teu boneco preferido, mas ele não te perdeu. E isso é um gesto muito bonito e de uma menina crescida.
- Achas mamã?
- Pergunta-lhe – retirou então das costas o velho, sujo e gasto coelho de peluche e entregou-lho. Olívia quase caiu para trás de alegria e gritou:
- Piflin!
E abraçou-se a ele como tivesse somente três anos.
João percebe movimento no corredor. Estremunhado imagina ser um sonho, para no instante seguinte escutar conversas em surdina.
Devagar acorda a mulher e faz-lhe um sinal de silêncio e pede para se levantar. Depois ambos escondem-se atrás da porta do quarto. No corredor continua um diálogo em tom muito baixo mas que ainda assim o pai consegue escutar:
- Vai tu Santiago és o mais velho...
- Não posso, vai o Simão que é o mais novo!
- Não quero, tenho medo!
- Pronto vou eu - avançou Salvador.
O rapaz do meio entra no quarto meio escuro, todavia encontra a cama vazia. Recua e nem sequer repara nos pais escondidos.
- Não estão cá!
Os miúdos olham-se e temem o pior. Simão palpita:
- Foi o Pai Natal que os levou?
- Deixa-te de ideias parvas miúdo. O Pai Natal não existe, pá!
- Existe sim... eu já o vi!
- Viste nada, os pais levantaram-se mais cedo e devem ter ido para baixo.
Os três rapazes de 12, 9 e 5 anos descem as escadas e aparecem na cozinha. Mas pelo caminho reparam que tudo está ainda em silêncio devido à hora madrugadora. Voltam para cima.
É neste vai vem que acabam por encontrar os pais. A mãe estende os braços para os filhos e eles caiem-lhe em cima numa alegria contangiante.
- Bom dia meninos, Feliz Natal!
- Feliz Natal mamã! - gritam em uníssono.
Depois é a vez do pai receber os cumprimentos matinais dos seus rapazes e por fim descem para preparar o pequeno-almoço. Mas o mais importante estava ainda por vir. As prendas no sapatinho...
- Mamã quando vamos abrir as prendas?
- Daqui a nada! Primeiro vamos comer e depois vamos ver as prendas.
A refeição corria melhor do que o esperado já que as crianças estavam em pulgas para verem o que o Pai Natal lhes teria deixado. Faltam apenas os dois primos e os tios sempre dorminhocos e atrasados.
Quando todos se juntam alguém declarou:
- Vamos lá ver então as prendas que o Pai Natal deixou no sapatinho de cada um!
Entram na sala, mas surpresa das surpresas não havias dezenas de embrulhos como era hábito em anos anteriores. Ao invés as cinco crianças apenas acharam um embrulho sob cada sapato. A prenda parecia grande, mas não havia rigorosamente mais nada.
Entre o assustado e o admirado cada criança olhou para certificar-se que os outros ao seu redor estavam nas mesmas condições.
Foi Santiago que afoito começou a rasgar o papel de embrulho. As outras crianças imitaram-no. Papel desfeito o menino abriu finalmente a enorme caixa de papelão. Olhou para dentro dela e logo duas lágrimas cairam pela face. Sentou-se no chão e esperou a reacção dos outros.
Para todos as prendas foram iguais e abertas as caixas havia um coro de lágrimas, até que Salvador ergue-se do chão e leva a caixa para junto do pai e da mãe, quase grita:
- Esta caixa está vazia! Não tem nada. Onde estão as minhas prendas?
Cinco tristes crianças olham para o pai e tio e aguardam a resposta à questão de Salvador.
Com calma João coloca-se estrategicamente no meio das crianças, para depois se agachar. Senta-se no chão ficando quase ao mesmo nível dos miúdos e finalmente espera que todos acalmassem nem que fosse com a ajuda maternal.
- O que encontraram nas caixas?
- Nada - respondem em uníssono. As caixas estão vazias.
- A minha também - avançou Benedita, a mais nova de todos.
- Pois é, foi de propósito!
- Porquê, porquê?
- Calma, eu explico se me deixarem! Estamos na época do Natal e assim todos os meninos e meninas pedem coisas ao Pai Natal...
- Eu só quero uma boneca... - insistiu Benedita.
João passa a mão pela cabeça da sobrinha e acaba por carregá-la para o seu colo. Para logo continuar:
- Mas há muuuuuuuuuuuuuuitos meninos por todo o Mundo como vocês que nem uma caixa sem nada tiveram direito. Nada! O Pai Natal para eles apenas existe como um boneco de uma bebida, pois sabem que ele nunca lhes trará nada. Portanto achámos todos aqui que estava na altura de todos vós sentirem o que sentem as crianças pobres.
Um longo silêncio paira na sala para o pai dizer:
- Santiago... gostei das tuas lágrimas.
As crianças olham umas para as outras em silêncio. João ergue-se do chão com a sobrinha ao colo e olhando em redor e recebendo dos crescidos a aprovação final abre a porta do quarto contíguo e anuncia:
- As vossas prendas estão aqui todas. Agora divirtam--se.
Num segundo a magia do Natal volta àquela sala e a confusão no quarto parece enorme. Para logo a seguir Santiago e Salvador chegam perto do pai e da mãe e declaram em tom quase solene:
- Tivemos prendas a mais. Vamos querer dar algumas das nossas a outros miúdos. Consegues tratar disso pai?
Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino:
- Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor!
- Com certeza menina.
Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu.
- Olha queres ver que o senhorio já a arranjou?
Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha.
Ouviu uma voz:
- Quem é?
- Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe.
- Desculpe, mas não sei quem é a senhora…
Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar:
- Diga!
- Não mora aqui a dona Odete?
- Mora sim!
- Ora eu sou a filha.
- Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor!
Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe.
Finalmente:
- A Dona Odete afirma peremptoriamente que não tem filha. Lamento. Passe bem!
Vera bufava! Virou as costas à porta, respirou fundo e lembrou-se da vizinha do rés do chão. Desceu as escadas do prédio e tocou à campainha. Do outro lado escutou passos e uma voz:
- Quem é?
Temendo igual desfecho do andar de cima, perguntou:
- É a dona Alzira?
- Sou!
- Sou a Vera, a filha da Odete do segundo…
Ouviu então a chave rodar e o trinco abriu-se!
- Olá Alzira, viva como está?
- Oh minha querida Vera. Ai meu Deus que já nem te conhecia… Faz tanto tempo que não te via. Mas entra, entra, não fiques à porta.
- Dez anos… mais ou menos – e Vera fez um gesto com a mão, sinal de incerteza, enquanto entrava na casa.
- Já dez anos? Parece que foi ontem…
- Desculpe maçá-la, mas vou directa ao assunto: passa-se alguma coisa com a minha mãe?
- Que eu saiba não. Porque perguntas?
- Porque fui lá bater, atendeu-me uma voz feminina que nem me abriu a porta e depois comunicou-me que a minha mãe nunca tivera uma filha…
Um silêncio ficou na sala onde ambas se sentaram. Alzira foi à janela confirmar se estaria fechada regressando para ao pé de Vera.
- Sabes… a tua mãe nunca perdoou a tua partida… Sempre pensou que estavas a fugir dela… E esse pensamento tem-na devorado.
Vera ergueu-se e conferiu a casa humilde. Um pequeno hall de entrada e na parede uma figura de Nossa Senhora. Percebeu também as decorações de Natal espalhadas por quanto o seu olhar alcançava. Numa trinchante encostada à parede uma fotografia a preto e branco de um homem que deveria ser o senhor Américo, marido de Alzira. Tudo aquilo era pobre, mas cheirava a bafio e a genuíno.
Virou-se para Alzira:
- O que disse tem um pouco de verdade. Quando acabei o meu curso superior tive a hipótese de fazer um estágio em Barcelona. O estágio seria pago e ainda com direito a estadia. Por isso parti aproveitando a oportunidade surgida. Depois, sim, fugi das suas garras sempre tão poderosas.
- Mas o que é que tu querias que ela fizesse?
- Eu tenho consciência… ela criou-me sozinha, sem pai. Mas não era razão para me prender. Sabe… - e fez uma longa pausa como se quisesse ganhar coragem – ela detestava esta época do Natal.
- Detestava nada.
- Recordo-me que um certo Natal fui passar uns dias com a minha avó Florinda. Quando entrei deparei-me com uma árvore de Natal e um presépio, lindo, lindo, lindo… cheio de figuras, uma ponte, um moinho, uma fonte.
- Lembro-me bem desses presépios…
- Pois… só que a minha mãe proibiu-me de o contemplar. E de tal forma o fez que mandou a minha avó desmanchar o presépio ou no mínimo colocar um lençol sobre ele, se não íamos embora.
- E a tua avó que fez?
- Disse que na casa dela mandava ela. E se a minha mãe queria ir embora que fosse.
- E ela foi?
- Não! Mas sobrou para mim. E desde esse dia nunca mais tive direito a viver o Natal como os outros meninos. Até na escola foi complicado…
- Imagino…
- Olhe, dona Alzira, agradeço ter-me aberto a porta, mas vou-me embora para o aeroporto a ver se apanho um avião de regresso a Barcelona. Detesto sentir-me a mais, sabe?
- Vera, querida, não faças isso! A tua mãe sofre muito com a tua ausência…
- Não parece… - e uma lágrima caiu na mão de Alzira que lentamente afagou os cabelos bonitos da menina que vira crescer.
- A minha casa é pequena, mas tenho uma cama para ti. Aguarda até amanhã. Deixa-me lá ir falar com ela.
- Não merece a pena D. Alzira… a sério. E agradeço muito o seu gesto. Feliz Natal!
Vera deu dois beijos na idosa, abriu a porta e saiu sem olhar para trás.
De regresso inesperado à cidade condal, a jovem assumiu a sua ruptura com a antecessora, um sentimento que a deixou profundamente triste, numa época que se diria de reconciliação. Percebeu que nada mais na sua vida a ligaria ao seu velho Portugal. Passaria a ser mais uma catalã, apenas com a nuance de ter nascido no país vizinho.
O tempo voou e um ano depois da viagem de Vera à cidade que a vira nascer, uma mulher descia o Passeig de La Gracia a caminho da Plaça de Catalunya. Empurrava um carrinho de bebé e parecia imensamente feliz, ao mesmo tempo que a criança de meses, olhava a miríade de luzes daquele início de noite fria.
O tempo de Natal espraiava-se por toda a cidade com muita luz, cor e outrossim muitas feiras alusivas à época, com centenas ou milhares de pessoas em busca de algo diferente para colocar num sapatinho.
A criança pareceu agitar-se no berço de rodas e a mulher colocou-se na sua frente e perguntou-lhe:
- Queres ver o presépio, queres? Sim?
O bebé sorriu como que consentindo na visita.
- Então ‘bora lá!
Odete atravessou toda a Plaça e entrou no bairro El Gotic.
Nos tempos antigos de usar calção, Saía a pequenada, das duas salas, Cantando afinados na emoção, Desafinados nas vozes engalanadas.
Corria pimpona a pequenada, Saltando em fintas alegres, “Aulas acabadas, férias começadas, Vamos para casa comer rabanadas.” Em dezembro pelos vinte e dois, ou e três, Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro Anunciava-se o quase, quase já, Do dia mais mágico do ano e do mês. Toda a pequenada abalava até casa Pegar em cestos e carrinhos Depois, entre mato e pinheiros, Colhia o melhor musgo p’r’ó presépio
Todos sabíamos de antiga tradição, Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha, Que aquele dia era de enorme encanto De fazer presépios no canto da sala. Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes, Nos outros dias do ano inteiro, Naquele dia incendiavam-se Como se lá se acendessem candeeiros. Ó meus amigos de antigas pernas nuas, Cobertas de picos e arranhões. Hoje olhamos pelas janelas da vida E tudo se desmorona aos atropelões.
É uma rua que se incendeia em novembro, É uma cantoria vendedeira pelas ruas, Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação De voz cansada rouqueja oh … oh… oh … Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções, De joelhos no chão a raspar musgo, Mataram o nosso Natal de sonho e magia, Sepultaram-no no féretro do tudo se vende e se compra.
Maria Justina era uma mulher já com alguma idade, que vivera momentos fantásticos na sua vida e outros menos brilhantes que ainda assim não a ensombravam.
Mãe de três filhos e avó de meia dúzia de cabeças era uma mulher independente, não obstante ter o pensamento na idosa mãe com quase 90 anos que vivia sozinha. Todos os dias lhe ligava. As conversas não variavam:
- Bom dia mãe!
- Bom dia Ju! Que se passa?
- Nada! Só quero saber como estás…
- E para isso é necessário ligar todos os dias?
Não obstante o discurso seco por parte da antecessora, Justina preocupava-se genuinamente com a mãe a ponto de ter contratado uma senhora para estar com ela durante o dia. À noite ficaria sozinha, mas a idosa nunca fora pessoa para sair. Até ao dia que a companhia diária da mãe lhe ligou, logo pela manhã, comunicando entre lágrimas e fungos nasais o falecimento daquela, durante o sono.
Uma tristeza profunda que não sentia desde a morte prematura do marido, havia seis anos. Agora a mãe...
Entretanto os filhos ofereceram-lhe os seus préstimos, mas Maria Justina negou peremptoriamente qualquer apoio:
- Não quero nada. Sei cuidar das coisas muito bem sem necessidade de andarem em cima de mim. Vá chispa daqui e vivam a vossa vida que eu vivo a minha.
Durante meses após a morte da mãe, Maria Justina andou de volta dos papéis e demais burocracias para assumir a herança que consistia num casarão na aldeia, uns pedaços de terra, coisa pouca, e a casa da cidade.
Foi neste entretanto que percebeu que naquele ano teria de fazer algo de diferente para o Natal. Durante muitos anos dedicara-se aos filhos, depois ao marido com a sua doença e finalmente a preocupação permanente com a mãe. Com tudo isto deixara de viver coisas que sempre sonhara e uma delas seria viver um Natal diferente.
Se o pensou, melhor o organizou e fez uma lista do que gostaria de fazer para a sua festa natalícia. Sempre que ia ao supermercado trazia qualquer coisa que juntou num só lugar. Certo dia um dos filhos, o mais novo, visitou-a e vendo aquele rol de sacos e caixas questionou-a:
. Mãe, não me digas que agora te tornaste açambarcadora? – e apontava para os sacos repletos de coisas.
- ‘Tás parvo rapaz! Achas? Isso vai sair daqui em breve.
Não deu mais explicações. Era o que mais faltava divulgar os seus intentos ao fedelho. Então aquele que não gostava nada que alguém se metesse na sua vida.
Até que a duas semanas do Natal pegou no carro encheu-o com os sacos que havia guardado mais alguns agasalhos, enviou uma mensagem aos filhos “vou para longe passar o Natal, sozinha” e desligou o equipamento.
Deu à chave, o motor evoluiu e lentamente arrancou.
Horas mais tarde chegou ao velho casarão onde a mãe havia nascido e agora pertença sua, via herança. Fazia anos que não ia àquela aldeia, mais por força do marido e da antecessora. Agora era tempo de sentir o que para si faria sentido.
Assim que chegou abriu as janelas e deixou que o ar bafiento saísse em busca, quiçá, de outros casarões. Depois foi à cozinha devidamente equipada e testou fogões e restantes equipamentos electricos. Tudo trabalhava.
- Boa! Estamos bem! – pensou - Agora o quarto.
O sol da tarde entrava pelo quarto, mas não o aquecia tal era a brisa fria que entrava pela larga janela. Destapou a cama limpou o pó e finalmente estendeu os lençóis no enorme leito. A seguir um cobertor de papa e rematou com a colcha.
Durante dias a casa foi virada do avesso e num instante o bafio foi substituído pelo perfume de cera e limpeza.
Veio o passo seguinte: o Natal!
Maria Justina sempre sonhara em fazer o Natal na aldeia, juntar alguma família lateral que ainda tinha, mais o marido, os filhos, netos e todos juntos naquela enorme sala poderiam desfrutar da companhia uns dos outros. Mas por esta ou aquela razão e sempre contra a sua vontade, o Natal decorria em sua casa, na cidade, sem ajuda de ninguém.
Com calma e serenidade todos os dias principiou a levantar-se cedo e atirava-se ao compêndio de receitas que trouxera da cidade e onde durante décadas depositara as receitas de avós. sogra, mãe e algumas amigas.
Na enorme sala de jantar onde um enorme louceiro guardava mais heranças, Justina foi retirando travessas, pratos fundos, onde ia depositando cada bolo, cada doce que aprontava. Ao fundo na lareira, que tinha por cima uma tela pintada com a figura da sua mãe quando nova, ardia um fogo crepitante e acolhedor e de uma das janelas ela conseguia ver o rio que devido às chuvas recentes se alargara para as margens.
Quase ao fim do dia Justina ia ao café beber um chá de erva princípe bem quente e dava uns dedos de conversa com quem lá estava, geralmente senhoras reformadas que aguardavam os maridos do regresso da horta.
Ao Domingo ia à missa. Gostava daquela intimidade com Ele, pedia-Lhe que tomasse conta do marido e da mãe, já que do pai tinha poucas ou nenhumas recordações.
À noite ligava a televisão via umas parvoíces e cansada de mais um dia de acepipes adormecia em paz.
Chegou assim a véspera de Natal. Maria Justina entrou na sala de jantar e devagar foi destapando a mesa que estava coberta com um lençol de linho antigo que encontrara numa das arcas e lavara a preceito antes de o estender.
Apeteceu-lhe tirar uma fotografia do que via, mas logo percebeu que assim os filhos saberiam que ela esta disponível e ligar-lhe-iam. Preferiu não o fazer.
No forno colocou uma perna de borrego a assar lentamente com todos os condimentos. As batatinhas entrariam mais tarde.
Durante o resto do dia cirandou pela casa, sozinha, porém feliz. Como há muito não se sentia… Ou se calhar até não…
Obviamente que sentia saudades das suas crianças pequenas, mas mesmo na cidade via-as tão pouco. Disciplinas dos filhos.
A noite caíu na aldeia. Uma chuva miudinha começara a espalhar-se pelo vale. Maria Justina olhou o velho relógio de pé que estava no corredor e percebeu que teria de se despachar para ir à missa do Galo. Só depois se lançaria no desafio de derreter todos os acepipes que preparara nos últimos dias.
Na eucaristia escutou uma homília que quase a fez chorar, mas conseguiu resistir sem verter uma lágrima. Já na rua ainda com a chuva a molhar os crentes e não só, foi-se despedindo de algumas pessoas e regressou a casa.
Outra das iniciativas que tivera foi decorar o exterior da casa com umas iluminações eléctricas muito singelas, dando um ar festivo ao casarão. Ao aproximar-se admirou-se de não ver as iluminações acesas.
- Ai que me esqueci de acender as luzes de Natal. – pensou!
Apressou o passo, abriu o portão e subiu as escadas. Meteu a chave na porta e procurou o interruptor da luz, mas este não ligou nada. Um bréu havia invadido a casa. Assustada, pensou o pior e com cuidado foi entrando devagar pois sabia onde estava a central dos fusíveis. Mas para isso teria de atravessar toda a sala de jantar onde um fogo ardia baixinho quase como se tivesse receio do próprio escuro.
Chegado à central onde se encontravam os fusíveis apalpou se algum estaria desligado. E sim o fusível central havia disparado. Com cuidado rodou-o e de repente toda a sala se iluminou:
- Boas festas, mãe – desejaram os filhos.
- Feliz Natal avó – gritaram em uníssono os netos abraçando-a.
Só soube dizer:
- Obrigado meus filhos. E desculpem-me. Mas como souberam que estava aqui?
- Alguém nos avisou – confessou o mais velho.
Maria Justina estava atónita e de repente olhou para o retrato de jovem da mãe e pensou ou imaginou tê-la visto sorrir.
Cheirava a Natal na aldeia rude e fria. Rude nas suas pedras graníticas, pesadas e invioláveis por qualquer aguaceiro por mais forte que este se mostrasse. Fria por uma brisa que sorrateiramente parecia descer pelas encostas geladas da serra contígua
Em cada casa as mulheres afadigavam-se em criar. Doces… muitos doces. A boca do forno não parava de receber formas com pudins, bolos e finalmente aquele cabrito para a consoada. Muitas mãos, muitas conversas, algumas repetidas de outros anos.
Os homens fugiam às azáfamas domésticas… antes a enxada, diziam. Escapuliam entre dois carregos de lenha para a boca negra do forno, antes que algumas delas se lembrasse de os voltar a chamar.
No tasco do Quim Maravilhas os fugitivos reuniam-se num conclave único e raro. Copos de vinho, cerveja, aguardente e até alguns sumos conviviam sem bravatas e as discussões nem se assumiam muito acérrimas. Era Natal… ou quase!
Ao balcão encostara-se Anacleto, um militar da GNR que escapara ao serviço natalício. Do alto do seu metro e oitenta de envergadura e ajudado pelas sucessivas cervejas ingeridas apregoava a sua sorte por se ter livrado ao serviço na quadra.
A algazarra parecia a de um mercado enquanto o tasqueiro distribuía bebidas. As contas far-se-iam no final…
No extremo da aldeia um vulto surgiu em passo lento, pesado vindo do meio do pinhal que ano após ano, como por milagre, ia escapando à voragem dos incêndios. Quando entrou no centro do povoado a torre centenária da igreja assinalou qualquer hora que o homem nem contou.
De ouvido treinado e atento escutou o alvoroço na taberna e aproximou-se. Por uma pequena janela percebeu muitos homens num enorme chinfrim. Corajoso empurrou a porta lentamente e entrou.
Tal qual um interruptor a confusão desligou-se instantaneamente e os homens ficaram a olhar a visita, que no mesmo passo que o trouxera até ali chegou ao balcão:
- Boa noite! Desculpe esta entrada.
Quim o dono era bom tipo, mas quando não conhecia alguém tornava-se bem antipático. Assim, de maus modos perguntou:
- O que vai?
- Se houver aqui uma alma caridosa que me pague um copito agradeço. Se não houver, não há problema, saio já!
Anacleto nesse mesmo instante fez sinal ao taberneiro para servir o vinho. O homem beberricou e olhando o aldeão agradeceu:
- Obrigado senhor! Muito obrigado.
Despejou o resto do copo e virou-se para sair, mas Anacleto curioso como sempre fora não o deixou partir e ofereceu:
- Beba outro, homem!
. Não posso!
. Não pode porquê?
- Vai cair mal na minha fraqueza…
O silêncio quase esclareceu, mas continuou:
- Há três dias que não como nada… a não ser uns dióspiros que apanhei por aí!
- Três dias? Mas donde é que você vem?
A resposta pretendida não seria aquela:
- Não sei!
- Não sabe?
- Não…
- Então explique-me como aqui chegou?
O viajante olhou em redor e percebeu que todos aguardavam por uma ideia. Não sentiu medo, mas ficou desconfortável. Com os ombros puxou o casaco que já fora velho e devolveu:
- Vim pelo pinhal abaixo…
- Mas de onde?
- Isso não sei, senhor!
- Não sabe? Como não sabe?
Um mutismo cavo.
- Porque fugi do lugar onde estava a trabalhar…
- Fugiu?
- Sim!
À resposta tão peremptória colou-se o silêncio. Foi o fugitivo que acabou por esclarecer:
- É verdade… Fugi de uma quinta onde estava aprisionado. No princípio há uns meses pagavam e davam-nos comida e cama, mas depois fomos mudando de sítio e cada lugar era pior que o anterior. Ainda por cima sem darem um tostão.
Um arrepio, que não de frio, trespassou alguns dos presentes. Anacleto mostrava-se muito interessado e assumiu:
- Mas isso é escravatura…
- Pois não sei. Mas há três dias, dois dos meus colegas revoltaram-se e tentaram fugir pela estrada. No meio da confusão também escapei, mas vim pela floresta. Depois apanhei um ribeiro e entrei nele porque sei que os cães que eles têm perdem o rasto.
As vozes começaram a crescer numa espécie de revolta. Foi nessa altura que o GNR à civil desanuviou:
- Estamos aqui à conversa e não sabemos o seu nome.
- Também não sei…
- Ai homem que você é uma raridade…
- Não sei o que sou nem quem sou.
- Mas sabe ao menos onde nasceu?
- Ah isso sei… Lá para os lados de Oliveira do Bairro.
- Bolas…está bem longe de casa.
- Nem longe nem perto já que não tenho rigorosamente nada! Nem um curral…
- Então o seu pai e a sua mãe…
O pobre homem molhou os lábios no vinho para avançar:
- O meu pai morreu na guerra de África… E quando partiu deixou a minha mãe grávida de mim. Portanto nunca o conheci. Era eu pequeno, a minha mãe fugiu não sei para onde e deixou-me com a minha avó até ser mais espigadote. Nessa altura fui tomar conta de um rebanho de ovelhas e cabras e por lá fiquei até ir para França.
- França?
- Sim. Um amigo lá da quinta arranjou-me trabalho em França e por lá fiquei uns anos. Ganhei algum dinheiro, mas tive de o gastar para regressar a Portugal pois fomos todos despedidos. Sem casa nem papéis lá conseguimos arranjar quem nos trouxesse para cá… mas tive de gastar o dinheiro todo que ganhara.
- E onde foi parar? – ouviu-se.
- Onde haveria de ser? À minha aldeia… Como não havia ninguém da família acabei por ir trabalhar com uns ciganos.
Anacleto pegou no homem sentou-o a uma mesa e disse para o Maravilhas:
- Trás pão, queijo e mais o que tenhas aí no frigorífico. Não quero que este senhor passe fome. Vá trata disso.
- E quem paga? És tu?
-Tens dúvidas?
- Só se for hoje… és um coça para dentro.
Anacleto quase chegou a vias de facto com o taberneiro e foi o desgraçado que amenizou:
- Por favor não se zanguem por causa de mim… Era o que mais faltava. Prefiro pôr-me a caminho…
- Vai'nada… isto é com a gente. Mas agora diga-me lá como se chama… ou pelo menos como o chamavam.
- Ora isso é fácil. A minha avó disse-me um dia que a vontade do meu falecido pai era que eu me chamasse António, como ele! Mas a minha velhota gostava de Francisco que era o nome do marido. Quando fui para a Quinta da Amoreira passaram a chamar-me Peralta que era o apelido do meu pai.
- E sabe ler?
- Nem ler, nem escrever! Como dizia a minha avó se não existes para ter um nome também não existes para a escola.
Um coro soou no salão.
- Bolas como pode ser possível alguém não existir?
Os petiscos apareceram na mesa e todos os presentes participaram no singelo repasto comendo, bebendo e exigindo ao tasqueiro mais coisas.
- O chouriço que tinhas aí onde anda?
Lá veio o enchido e vinho, cerveja, pão!
Finalmente na tasca da aldeia vivia-se o verdadeiro espírito de Natal. Partilhar comida “buída”, estórias… Até o Quim acabara por se sentar e alinhar no convívio.
- Mas a sua casa na aldeia ficou para quem? – perguntou Anacleto.
- A minha irmã vendeu-a por tuta e meia. Ainda lá passei a ver se havia alguma coisa de interessante para levar, mas apenas encontrei loiça partida e uma fotografia a preto e branco com alguns militares. Imagino que um deles seja o meu pai… mas não sei qual deles é!
Com gestos lentos meteu as mãos negras e calejadas na roupa suja e malcheirosa e retirou um pedaço de papel. Colocou-o em cima da mesa e com cuidado foi desdobrando até se encontrar a dita fotografia.
- É esta!
A curiosidade alastrou a toda a sala e foi o próprio Peralta que se dirigiu a cada um dos presentes e mostrou a foto. Quando o velho Zé Gentil pegou na fotografia e a observou exclamou:
- Não pode ser, não acredito…
Os homens acorreram céleres ao idoso.
- Então ti Gentil que se passa? Sente-se bem?
- Chegue aqui homem.
O viajante aproximou-se com medo do que viria a seguir. Mas o Gentil ergueu-se da sua cadeira e com as forças que ainda tinha ergueu a mão e fez uma continência que a todos admirou. No instante seguinte olhou a foto e devolveu o olhar para o homem sujo, pobre, de barba de muitos dias, quiçá semanas que tinha à sua frente. Meteu a mão no peito e sentou-se. Havia agora ali um mistério… que o velho iria certamente desvendar.
- Senhor Peralta este aqui é o seu pai António – apontando para um dos soldados – E este aqui ao lado sou eu!
Todos se olharam num misto de alegria e surpresa.
- Tem a certeza senhor?
- Certezinha absoluta, já que tenho uma foto igual! Os outros dois que aqui estão eram o Camões e o Belmiro.
- Isto merece um aplauso. Safa que grande Natal este! Nunca pensei – assumiu alguém.
O velho mandou baixar as mãos para rematar:
- Este António é o meu único herói. Entregou a sua vida para salvar a minha. Jamais o esquecerei.
Peralta ouviu, comoveu-se e sentou-se lentamente na cadeira para, pela primeira vez na sua estranha vida, chorar!
O inspector Carmindo Novais era sempre o primeiro a entrar na enorme sala da brigada de Homicídios. Não suportava chegar atrasado e muito mais se aborrecia quando tinha de sair tarde.
A equipa com menos recursos humanos que os necessários, estava recheada de agentes muito competentes e esforçados. De todos talvez o chefe fosse o único de menor valia. Todavia tinha o cuidado de deixar a equipa trabalhar à-vontade, sem grandes receios dos directores acima de si. Muitos consideravam-no incompetente como polícia, mas assertivo como gestor de recursos humanos.
Carmindo sentou-se na secretária que em tempos fora de Valdemar, um inspector inteligente e profissional porém muito, muito flexível no que dizia à organização. Disse-lhe uma vez Benvindo da Cruz, o mestre dos disfarces quando deles se valia para recolher informações… especiais:
- Esta secretária é o local mais visível desta sala. Antes, com o Valdemar, eram os Himalaias de processos por fechar e arrumar, agora é o deserto Saahra sem um único papel. Os extremos tocam-se, bem dizia o outro!
O inspector ria-se, estendia a mão e recebia uma palmada, à moda americana.
No entanto a maior característica do inspector não era só a sua exigente pontualidade, mas a forma como se vestia. Diariamente Carmindo trajava um fato completo sobre uma camisa sempre alva que fechava com um par de botões de punho personalizados. Calçava uns sapatos clássicos sempre brilhantes de tão engraxados e com os quais alguns colegas ousavam brincar:
- Carmindo hoje esqueci-me do espelho… emprestas-me um dos teus sapatos?
Todos riam com a graça, até o próprio, que devolvia sempre com anormal classe.
- Pelo menos sempre ficarias mais bonito no sapato que num espelho verdadeiro!
Nova risada geral!
Certo, certo é que Novais tinha uma disciplina horária muito rígida. Levantava-se sempre muito cedo, arranjava-se para depois lentamente ir acordando as crianças. Diana, a esposa, já se adiantara e preparava o pequeno-almoço para todos.
Sentados à mesa as conversas variavam somente sobre os trabalhos da escola e os testes, pois Carmindo nunca trouxera para casa qualquer preocupação laboral, por mais grave que fosse o crime. Tudo e todos prontos metiam-se, por fim, no carro e eram distribuídos pelas diversas escolas. A última era a esposa que também tinha direito a uma boleia.
Assim quase sempre antes das oito da manhã estava à secretária a ler as novidades nos jornais.
Aquela manhã fora igual a tantas outras, com direito a investigação jornalística mas pouco credível, para após o almoço escutar o toque no vidro do gabinete do chefe. Uma mão chamou-o apressado e lá foi Novais no alto do seu metro e oitenta em passo lento.
- Boa tarde chefe!
. Boa tarde Novais! Temos um caso… Mas nem sei bem se deveremos intervir.
- Então vou para a secretária!
- Vais nada, pá! Um amigo meu trabalha como enfermeiro no INEM e foi há pouco convocado para uma paragem cardio-respiratória numa moradia no Restelo…
- Pensavas que eram só os pobres que morriam disso?
- Deixa-te disso e escuta. A dona da casa garante que não conhece o tipo, que nunca o viu, nem sequer imagina como foi lá parar.
- Então queres o quê?
- Pega aí numa dessas miúdas acabadinhas de chegar à brigada e leva-a contigo. Pode ser que a tipa se abra com a cachopa.
- De acordo, saio já! Mas não te esqueças que hoje tenho jogo e, portanto, vou sair mais cedo do que o costume.
- Como queiras… Só quero é que descubras o que se passou na casa.