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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Domingo, 09.09.12

Sentido dos dias – Medo XXVI

 

Já sentado na cadeira no avião rodeado por muitos passageiros, Pedro sentiu pela primeira vez medo. Mas não era igual ao que sentira muitos anos antes no meio do mato, aguardando escondido que o inimigo se revelasse. Este era um receio bem diferente. Assim que tomou consciência do que estava prestes a fazer, um arrepio atravessou-o de cima a baixo. Um gosto amargo subiu-lhe à boca e as mãos suavam como se estivesse num deserto.

Olhou àsua volta enquanto passageiros continuavam a entrar e arrumar sacos e malas nos compoartimentos por cima das cabeças. A seu lado uma jovem, já instalada, abria um livro e lia, completamente indiferente ao movimento dos passageiros que chegavam.

Da escotilha vedada Pedro podia ver a azáfama que o pessoal do aeroporto tinha para com o avião. Eram malas e mais malas que chegavam, cabos, tubos, um manancial de coisas que Rafael desconhecia completamente que fossem necessários para colocar o avião a andar. Ao longe viu o céu azul… O mesmo onde dali a uns minutos estaria a embrenhar-se.

A mulher recusara-se a ir com ele ao Aeroporto. Ficara em casa, lavada em légrimas. Fora a filha que o trouxera às Partidas da Porteta. Ajudou-o com o carro para colocar a mala e largou-o à entrada, dizendo:

- Pai… Vai e volta bem, sim?

- Claro minha flor. Em breve estarei  de volta.

Dois beijos trocados e ainda teve tempo da filha desaparecer no carro. Estava agora sózinho, entregue a si próprio, numa viagem que não sabia o que iria dar. Mas tinha de a fazer, viver ou morrer em paz…

Na banco da frente dois miúdos lutavam por um lugar à janela e foi a mãe que duma forma autoritária impôs disciplina. Sossegaram finalmente e Pedro pode novamente passar os olhos pelo interior do avião e procurar algo que o serenasse.

O avião deu um esticão, finalmente deslocava-se. Ainda era no alcatrão mas dali a uns instantes seria no ar… E de súbito Pedro teve vontade de sair dali, fugir, regressar ao aconchego do lar… Porém agora seria totalmente impossível. Viu os carros na segunda circular a movimentarem-se em passo lento devido ao engarrafamento, percebeu uma quantidade de prédios ao longe, mas tudo, tudo assente num medo que quase não sabia esconder. Alguém então falou. Era o comandante que dava as boas vindas e desejava que todos fizessem boa viagem. A seguir os comissários de bordo fizeram uma pequena demonstração quanto aos coletes de salvação…

- Mas para que quero aquilo? – perguntou a si próprio.

A questão ficou sem resposta… Mas fez o possível por manter a tenção. A jovem companheira de viagem nem ligava, tantas seriam as vezes que ouvira aquele discurso. A avião parara agora. Pedro apenas continuava a reparar nas casas e no que o horizonte lhe podia ofertar.

Um esticão e o aeroplano arrancou comno se estivesse numa corrida. Ganhou velocidade de tal forma que as linhas de amaraelo pintadas no alcatrão negro passavam velozmente.

- Será agora?

Uma sensação estranha tomou-lhe todo o seu corpo… Olhou o chão e viu que ele se afastava cada vez mais. A cabeça encostada, as mãos apertadas uma contra a outra, uma muito breve náusea a formar-se na boca do estômago. Os dentes rangiam tal era a força que Pedro fazia. Depois fechou os olhos e tentou repousar… acima fde tudo o espírito.

A passageira ao seu lado levantou os olhos do livro e reparando na palidez de Pedro logo perguntou:

- É a primeira vez que viaja de avião?

O alafarrabista nem sabia o que dizer. Para ele até falar podia prejudicar o vôo. Finalmente percebeu a patetice em que entrara e respondeu com a maoir calma possível:

- Por acaso é… Nota-se muito?

- Nota! – e riu-se.

A avião continuava a subir. Rafael olhou pela janela e aquilo que minutos antes eram enormes edifícios não passavam que pequenos pontos. Depois sentiu a curva e finalmente o mar. Os azuis juntavam-se duma forma que Pedro jamais esqueceria…

A jovem fechou o livro e perguntou-lhe:

- É a primeira vez que vai a Angola?

A pergunta era inocente, mas o alfarrabista teve medo de responder a verdade. Optou por uma resposta que contentasse a outra:

- De avião sim!

- Acredito que vai gostar…

A resposta dera resultado. Só que a conversa não ficou por ali. A jovem começou a falar até que finalmente desculpou-se:

- Sabe Angola é um vício… Quem lá vai, fica lá… refém. Entende?

Pedro nem sabia o que dizer. Todavia respondeu:

- Entendo e de que maneira…

O medo desaparecera!

 

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por José da Xã às 07:16

Domingo, 02.09.12

Sentido dos dias – Leituras XXIV

Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.

Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.

Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…

Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.

Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…

Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:

- Aí está o nosso cronista…

- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.

Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.

As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.

Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.

Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.

João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!

Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:

- Pai venho despedir-me…

- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.

- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…

E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.

Finalmente arriscou:

- Dê-me um abraço… meu pai!

Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:

- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…

O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:

- Agradeces-me porquê pai?

Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:

- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.

-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…

- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… 

 

José da Xã

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por José da Xã às 02:05

Quarta-feira, 18.07.12

Sentidos dos dias - Vidas XI

O Sol aquela hora da manhã já lhes queria arrancar a pele. Dentro do jipe e com o ar condicionado quase no máximo. O astro rei a bater nos vidros fazia-se implacável, como se quisesse entrar e participar da conversa. A telefonia baixa, acabara de dar o tempo, as notícias e uma música dolente com uma voz pacífica corria, como o veículo ora mais ou menos célere. Lá à frente a estrada parecia derreter-se num tremelicar que adivinhava um dia de inferno. Nada a que os dois amigos não estivessem habituados. E foi quando debaixo duma das poucas sombras pararam para "matar o bicho" e desentorpecer as pernas, que a conversa se fez mais franca. Até aí, focara-se em trivialidades e possíveis cenários que encontrariam.

- Diga-me cá, Pedro! Você nunca mais aqui pôs os pés...O que me leva a pensar que terá uma boa vida lá pelo nosso Portugal. Porquê agora no fim da vida? Nem me diga que é só por causa dela e do miúdo. Você tem filhos lá seus, não tem?

- Uma vida boa sim, João. Posso considerá-la. Não foi melhor por culpa minha.

- O que quer dizer com isso homem? No fundo o que você deixou para trás aconteceu a tantos...Não se pode viver sempre no passado. Você não teve culpa de nada. E se tem uma boa mulher, filhos uma vida desafogada, feita, é descansar agora. Esperar por ela.

- Por não conseguir deixar de pensar nela é que quase desperdicei e arruinei a minha vida.

- Eh, lá! Eu falava da morte. Essa está certa aí ao virar de qualquer esquina. Espera-nos. Mas conte-me lá, se me acha capaz de ouvir, tanto que o amargura homem? O caminho é longo e ainda agora começámos. Então a sua senhora... Sabe dos seus motivos?

- Sabe, João. Anos atrás quando fui obrigado a contar-lhe estava ela grávida do nosso terceiro filho. Tivemos uma discussão tal, que o gaiato nasceu prematuro. Há coisas na minha vida que apesar de me correr bem, ser hoje um homem de sucesso estive por um triz de não ser ninguém.

- Compreendo...

Pedro bateu nas costas do amigo e mais uma vez regressados ao carro, com ele em andamento já depois de consolado o estômago e refrescada a pele com uns salpicos de água, continuou a narrativa.

- Não meu caro! Nem te passa pela cabeça. Perguntar-me-ás: O que leva um homem que tem uma mulher ainda hoje bonita, a melhor de todas quiçá. Uns filhos que nunca lhe deram problemas, de quem me orgulho e um presente feito de sucessos a arrastar-se no passado? Querer sempre algo que lhe falta, mas não sabe explicar. Um sentimento de amargura constante. Eu? Tive tudo. Mas parte de mim perdeu-se. E não acaba!  

- E a sua senhora sempre conviveu com isso. Grande mulher! Se fosse outra...

- Se fosse outra, não gostasse de mim e tivesse essa espectacularidade que lhe atribuís, quando uma semana depois do miúdo ter nacido me ameaçou que, ou eu mudava ou ela sairia com os filhos, teria ido embora.

- Mas se você não mudou... Está aqui é porque de muito, não serviu.

- Tive de me adaptar. Fazer das tripas coração. Ela tinha razão. Já não estava a ser vida, as noites passadas em branco. A ameaçar viciar-me no álcool. Fumar que nem um danado para ela me ir encontrar assim, esgotado. Irritadiço. Ou quando mais tarde já trabalhava no que era meu me resguardava, no chegar cada vez mais tarde a casa, para esconder que bebera: Apesar disso nunca ter interferido a sério com o que fazia. Outra mulher? Ela já nem falava disso. Sabia que mulher me assombrava. Não sei se fiz bem em contar-lhe, entendes? Um homem deve guardar os seus fantasmas consigo.

- Ah, Pedro, meu amigo! Não se martirize. Quando os fantasmas começam a azucrinar o miolo, temos mesmo de desabafar. Sei do que falo. Eu com a minha e sabe que a conheci aqui, fiz toda a minha vida...Não terei esse tipo de alucinação. Mas tenho outras que você acumula com essas. As pernas pelo ar, os miolos desfeitos, os camaradas a esvaírem-se em sangue nos braços. A nossa própria saliva a lavar a pó da estrada e dar a impressão que todos nos haviam abandonado. Um dia um balázio era o nosso destino. Não se condene sem razão. Depois de tudo o que passamos, temos sorte de estar aqui e com o juízo todo. Fez bem contar-lhe. Afinal ela foi a sua parceira. É a mãe dos seus filhos.

- Fui um covarde, João! Devia ter regressado na altura. Ter resolvido os meus assuntos pendentes. Assim deixei-me envolver por ela. Que me aqueceu a alma depois de destroçada. Me ajudou quando eu não sabia o que queria, ou o que fazer depois de ter visto a carnificina acontecer. De não concordar com nada daquilo que nos mandavam fazer e... Depois duma noite já de cabeça toldada, me ter aquecido o corpo na cama também e achar que devia casar come ela. Afinal seria lá o meu lugar. Quando tinha sempre a outra no pensamento...

- Hum... Desculpe que lhe diga meu capitão, mas as mulheres sempre lhe deram volta rápida ao juízo. Você ficou sempre um bocado à nora com as raparigas. E depois essa sua mania de ser cavalheiro. Quando se dorme com alguém não se tem forçosamente de se cumprir com a pompa do casamento...Bah!

- Educações muito rígidas, meu bom camarada. Uma mãe católica, um pai conservador. Uma aldeia para lá do sol posto e pouca soltura. Eu fui para Àfrica sem saber nada! Cheguei aqui e pouco mais tinha aprendido, que disparar, limpar armas e matar.

João sorriu solidário. Interrompeu a conversa logo de seguida, apontando para um aglomerado de casas que emergia do pó lá ao fundo.

- Eis a nossa primeira paragem. Caxito!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 12:46

Domingo, 24.06.12

Sentidos dos dias IV - Regresso

Através dos cabogramas Pedro denunciara a sua chegada à metrópole. Mil dias haviam passado desde que pusera os pés em Luanda. E agora de regresso tudo lhe parecia tão diferente. Deixara havia muito de ser um menino quase imberbe a quem haviam dado uma arma para matar. Os obuses e rajadas de metralhadora, as vísceras dos companheiros ao ar, as pernas e braços estropiados, haviam feito de Pedro Rafael um homem duro e quiçá frio. Muitos que com ele regressavam no paquete Infante D. Henrique falavam de saudades das suas terras, das famílias, das namoradas, saudades de tanta coisa… Mas Pedro falador por natureza quando partira da Metrópole, tornara-se silencioso e ouvinte. Curiosamente não tinha saudades de Portugal… Ou melhor passava a ter saudades de Angola. Do que lá ficara… Da inocência perdida e duma mulher…

Um mar de gente espalhava-se pelo cais da Rocha de Conde de Óbidos naquela tarde plúmbea a ameaçar chuva. Milhares de mãos acenavam do cais nem sabiam para quem. Bastava levantar a mão!

Pedro sentado em cima de caixas de cerveja Cuca fumava um cigarro, vício que o tomara no meio do mato. Quantas vezes passara horas e horas de sentinela, tendo apenas o paivante como companhia. O navio atracou. Todos acorreram ao portaló de saída onde fora colocada uma prancha. Rafael deixou-se ficar para o fim… De quando em vez um companheiro passava por ele a correr e perguntava:

- Então “Rafa” não vens? Olha que já chegámos.

- Já vou, já vou… – respondia em voz serena como fosse outra a vontade. E provavelmente era…

A multidão inicial parecia desaparecer e ele que era dos últimos, depressa viu a mãe e o pai. Que choravam, que riam, que se benziam.

- Deus seja louvado, é o nosso menino…

Um abraço envolveu-o parecia uma carcaça, dum lado a mãe que o devorava com beijos, do outro o pai sempre austero mas lavado em lágrimas… Foi a primeira vez que Pedro Rafael viu o pai chorar.

- Filho, filho… chegaste bem… Deixa-me olhar para ti. Estás tão magrinho…– a mãe.

- Então rapaz como correu isso por lá? Ganhamos a guerra ou não? – o pai.

Filosofias de vida tão diferentes e às quais Pedro apenas queria dizer: Basta!

Mas não podia, nem devia. Faltava ele falar. Mas não lhe apetecia. Um fotógrafo apareceu e tirou uma foto aos três. Depois entregou um papel a Pedro dizendo:

- Passe pela minha loja a partir de amanhã à tarde para levantar a fotografia. Nesse papel está a morada.

E lá ia ele à procura de mais vítimas.

O silêncio mantinha-se… Aquele cheiro do pai a esterco das ovelhas acordou-o:

- E vocês como estão por cá? Ena mãe está cheia de cabelos brancos…

- Pois estou meu filho! E tudo por tua causa… Mal escrevias… e quando o fazias dizias tão pouco. A mãe de Asdrúbal todos os dias recebia carta do filho…

Só faltava a crítica, pensou… Mas eles tinham razão. A sua vida em Angola não fora só guerra. Muitos sentimentos haviam ficado por lá. Mas agora não havia nada a fazer. Pensou em Zuleica, nas noites que passara com ela, nos sonhos que com ela sonhara, nos desejos que ambos haviam projectado.

Entretanto lembrou-se da madrinha de guerra, que o queria conhecer. E estaria ali à sua espera. Olhou em redor e a multidão quase que dispersara por completo. Ao longe uma mulher de mala na frente das pernas parecia aguardar. Pedro Rafael aproximou-se e perguntou:

- Boa tarde é a dona Helena?

A mulher ergueu os olhos e Pedro viu pela primeira vez um olhar simples e terno daquela que seria a sua mulher.

- Sou a Helena sou… É o Pedro Rafael?

- Em pouca carne e muito osso… - e riu-se.

O militar apresentou os pais e dali partiram devagar. Nem sabiam para onde ir… O pai olhou o velho relógio de bolso e confirmou:

- Comboio para o Porto só às oito da noite. Ainda temos muito tempo até lá.

Mas o filho não estava para regressar:

- Pai eu daqui a dois dias tenho de estar em Lisboa no quartel. Eu vou ficar lá. Quando for desmobilizado regresso então a casa. Mas hoje não posso ir. Mal lá chegue tenho de voltar para trás…

Foi um choque para os pais. Mas o filho tinha razão: ir e vir eram quase dois dias até Campo de Víboras. O tempo que tinha para o descanso. Assim caminharam todos até à estação de Santa Apolónia e ali ficaram os quatro à conversa horas a fio. Até que o comboio para o Porto partiu e com eles os pais de Pedro Rafael, descansados e felizes pelo bom regresso do filho.

- E a menina como vai para casa?

- Vou a pé. Tenho uma tia aqui na Graça e vou lá dormir - e olhando para o relógio exclamou – ai tâo tarde…

Para Pedro não havia horas. Tinha umas notas pequenas que tinha ganho ao jogo na viagem de regresso e podia dormir numa pensão.

- Posso acompanhá-la até a casa?

- Pode, claro.

- E diga-me há lá uma pensão perto?

- Até mais que uma.

Pedro desconhecia o caminho, assim:

- Para aonde vamos, então?

 

 

José da Xã

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por José da Xã às 21:51

Quarta-feira, 20.06.12

Sentidos dos dias - III Zuleica

Pedro voava sobre o Atlântico. Do mesmo que há tantos anos atrás, o Vera Cruz rasgava águas impiedosamente, com pressa de descarregar mais um contingente de tropas. Era como uma linha de montagem a fornecer peças continuadamente para engrenar a máquina de guerra. Mas não era só chumbo. Eram carne e sangue de muitos que já não regressavam. Mais uns quantos que vinham sem préstimo, naqueles corpos atacados pelas maleitas tropicais, a que não estavam habituados. Outros... A cabeça deixava de lhes funcionar a preceito e ainda mais, como ele ficavam obrigados a possuir uma sala de cinema privativa, cujo o lugar na primeira fila era sempre seu, rodeado de caras desfeitas e corpos em decomposição. A fita que passava no ecrã era sempre a mesma! Tiros, pó, gritos, desorientação, carros, lama, vegetação luxuriante. Palhotas, vultos emboscados, crianças, mulheres a correr e entre todos aqueles rostos um... Zuleica!

Era uma bonita jovem mulata, cuja pele era bastante clara em relação aos demais habitantes. Senhora de belos, expressivos e enormes olhos verdes, com sorriso tão branco que lembrava neve no meio daquele clima abrasador. Uma mulher diferente. Instruída, com pensamento próprio sobre o diferendo. Curvas generosas, carne... Firme! Que não fazia questão de mostrar em demasia, mas o que estava à vista... Foi nesta altura que Pedro Rafael acordou. Nem sabia como, pegara no sono, mas detestava aviões. Ficara-lhe da maldita guerra quando do céu vinha a chuva da morte e na terra se abriam crateras do tamanho de uma casa. A mulher que ia ao lado dele olhou-o desconfiada quando estremeceu e despertou, depois limitou-se a sorrir e a dizer:

- Não gosta de voar?

Ele sorriu de volta e respondeu com muito poucas palavras para abortar logo ali a possível “familiaridade” que viesse a nascer.

- Não é das minhas coisas preferidas, não senhor!

Ela ainda ficou um pouco à espera de mais, mas Pedro Rafael fixou os olhos no filme que estava a dar sem nada ver. O beijo dos actores voltara a recordar-lhe os seus próprios beijos. Os daquela mulher com quem vivera uma eternidade, que jamais voltaria. Conhecera-a num dia de mercado em que as tropas, algumas numa rápida folga, outras em revista, deambulavam por ali ou pelos bares. Muitos enrolados em negras e encharcados de Whisky barato. Tantos foram os bastardos que por lá ficaram. Isto fazia o seu estômago revolver-se. Tratar-se um ser humano como gado para se fazer dele refúgio de frustração. Mas ele, não o tinha feito? Não seria também por isso que lá ia? Tirar a limpo a humilhante história do filho. Da sua degradante actuação perante ela? A ser verdade tê-la-ia tratado como lixo, e jamais lho merecera. Devia-lhe muito. O ter continuado são e inteiro. Devia-lhe... tudo!

O dia estava muito quente, o suor escorria-lhe em bica. Havia os cheiros activos da criação, peixe, frutas, legumes e especiarias. O colorido da terra, mais o explodir de cores das bancadas e dos vestidos, com lenços da mulheres atados na cabeça. Ouvia-se o choro das crianças que carregavam nas costas, enquanto mais dormiam. E a discussão sobre preços e qualidade ou frescura do produto. No fundo e em tempo de paz seria aprazível, estar ali. Porém, não havia paz, ou sossego. Acabava-se a olhar nos olhos dum simples pescador que vendia, como se ele fosse o nosso inimigo. Pronto a empunhar uma arma e desfazer-nos por inteiro. Aconteceu quando se refrescava numa torneira aberta, perto onde os putos chapinhavam e brincavam entre si. Viu-a! Falava com outra rapariga mais escura, despreocupadamente, olhando para ela enquanto explicava qualquer coisa, e sem querer chocara com ele, que atabalhoado se desfez em desculpas. A primeira coisa que o arrasou foram os olhos verdes e o contraste da pele. Seguidamente o ar de surpresa, coberto de receio e desconfiança. E o outro! Inquisidor. Como podia ela achá-lo tão indesejável na sua presença? Nunca o vira, sabia quem ou como era? Que estava ali sem vontade. Obrigado como tantos. Porém aquele olhar duro  foi pior que a tal rajada. Era como um insulto. Como se lhe desse uma ordem para se ir embora. Aquela terra não era sua. Contrariamente ao que os olhos expressavam, a boca linda e carnuda, abriu-se num sorriso breve e desvalorizou o encontrão violento. Pedro ficou tão atarantado, preso nela que tinha de fazer algo. O que fez foi convidá-las para um refresco ali. Ela não quis aceitar. Pareceu na defensiva, mas a outra convenceu-a. Beberam-no em pé, sorvidos de cocos. A Pedro pareceu-lhe que jamais bebera coisa mais gostosa na sua vida e a imagem daquele dia nunca se desvaneceria da sua mente.

Esteve dias sem a ver. A guerra voltou a pedir a sua concentração, o seu melhor desempenho. Por vezes a improvisação que nem sabia possuir e então... Foi o destino. Num dia em que tinham sido destacados para inspeccionar uma aldeia sob suspeita, encontrou-a de novo. Morava ali pelo visto. A conversa entre os dois chegou a dar-se, mas breve. Não morreram ambos nesse dia por um triz. Rapidez de um colega que mais tarde lá ficou radicado e os avisou, do click da granada. Depois? Depois foi novamente o inferno. Ele só teve tempo de agarrar nela e proteger-se dando-lhe uma estrita ordem para que não o abandonasse. Ao fim do dia todos exaustos, mas passado o pior e capturados os cabecilhas do ataque, neutralizada a aldeia, ela iria com eles... Entre os reféns! Não houvera palavra sua que adiantasse, para a defender. Contudo chegados ao aquartelamento alguém discerniu, por intervenção de muitos outros, que a rapariga estava inocente e com Pedro. Não fazia parte dos rebeldes. Teria sido assim que começara o quebrar do gelo dela para com ele? Demorou muito para a ter nos braços mas quando aconteceu... O seu devaneio foi interrompido pela voz da hospedeira. Uma ordem para apertarem os cintos e da proximidade da pista. Pedro tornou-se um vulcão em actividade. No seu interior nada era pacífico. Até o sangue rivalizava com os miolos e entrara em ebulição.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 12:28

Quinta-feira, 17.05.12

Trilhos Privados X - Confronto

Ricardo estava impecável na sua farda de motorista de luxo. O carro era uma espectacular limusina preta. Célia assim que o viu voltou a gelar. Os olhos grandes azuis do rapaz lembravam-lhe o oceano glaciar árctico, nos dias de maior calmaria. A face normalmente afável, mostrava traços duros, os lábios que costumavam ser bonitos e carnudos, crispados quase numa fenda. Mal a encarou remeteu os olhos a Hen e logo depois ao chão, aprimorando-se nas suas funções e nem uma palavra.

Sentados no banco de trás, a alguma distância, a rapariga viu Hen carregar no botão e a divisória de vidro descer enquanto de costas, Ricardo muito direito, se mantinha imóvel esperando coordenadas. Ela apreciou-lhe o cabelo ondulado negro, debaixo do boné. E recordou a postura dele no branco da camisa, gravata e tudo impecavelmente assente, num corpo atraente que fazia a maior parte das raparigas da escola, já tarde alta quando por vezes ele e Célia se encontravam, olhá-lo e trocarem segredinhos. No entanto ele parecia ignorá-las, dar toda a sua atenção a...Ela. Estúpida! Como nunca reparara melhor. Deixara praticamente o rapaz sempre a falar sozinho, virando as costas demasiado depressa, ou respondendo um simples olá, ou aceno contrariado de cabeça, quando ele a cumprimentava com o mais bonito e franco sorriso. Que tinha se ele era pobre e estudava de noite? Mas também! Quem era ele para olhar agora assim para ela, se também estava ali a serviço dos outros? Como é que explicaria isso? Anormal! Ela ao menos estava a ser coagida. Por sua culpa e leviandade, sim, mas era obrigada. Ele tinha de entender isso.

Hen mandou-o seguir na direcção de casa dela. A jovem ainda esteve para argumentar que não seria muito desejável que uma limusina parasse na sua porta e ela saísse lá de dentro, dadas as circunstâncias. Mas como ele tinha sido tão gentil, educado para além de extraordinariamente correcto calou-se. Passados alguns minutos e ultrapassado Cascais, um pouco mais à frente o chinês fez novamente sinal a Ricardo que encostasse, perto de um aglomerado de casas junto à Boca do Inferno. Sem grandes explicações, disse que se apearia ali para dar uma volta nas redondezas. Que ele a deixasse em casa o mais rápido possível. Se indagado pelos outros, sobre onde os tinha levado, dissesse que tinham ambos saído no Guincho e ido divertir-se. Hen tê-lo-ia dispensado depois. Recorrido ao seu próprio pessoal. Contudo antes de sair do veículo Hen pediu o numero de telemóvel a Célia a fim de se certificar se chegara bem. Se não houvera nenhum contratempo com o seu "álibi". Caso necessitasse da presença dele, estaria pronto a suportar qualquer esquema, que fizesse credível o atraso. A rapariga agradeceu, cedeu o número, após o que ele muito respeitosamente lhe beijou a mão e se despediu, assim, saindo. Os olhos de Ricardo ou a voz, não se fizeram ouvir ou mexeram, em todo e qualquer momento até alguns metros antes da residência de Célia e foi porque ela baixou a divisória e lhe ordenou que parasse. Quando ele não obedeceu logo, fê-lo, depois de um convincente grito histérico.

Assim que o carro se imobilizou Célia rapidamente trocou de roupa e saiu. Começava a ficar pratica naquilo...Que lástima! Furiosa dirigiu-se ao lugar do condutor, uma vez que o jovem não se mexera, nem sequer perguntara o que ela fazia lá atrás.

- És capaz, de sair daí já e falares comigo! Como raios me explicas, estares a conduzir este carro?

Ele olhou-a superior, com ar trocista quase desdém, o que a fez ficar ainda mais enraivecida. Mas precisava manter o mínimo de controle e despachar-se. Viu-o sair com uma calma enervante. Encostar-se ao carro, como se estivesse num lindo dia de Verão à espera de uma qualquer madame, vip.

- Penso que não tens nada a ver com a minha vida. Se há alguém a explicar-se és tu. Gostei! Afinal tão pudica e não passas de uma reles... puta!

A mão dela aterrou-lhe na cara sem que ele esperasse, o que o fez empertigar-se. Ficar muito próximo dela. A respiração a bater-lhe na face. Os olhos chispavam ódio.

- Não voltas a fazer o que fizeste, ouviste? E esquece que me conheces. Que terias em mim alguém que te via como não és. Banhos, agora...Só em casa dos teus patronos... Benfeitores.

- Não é o que pensas! Eu...

Sem lhe dar tempo para mais uma palavra, o rapaz meteu-se no carro e arrancou deixando-a ali sozinha. Não era longe até sua casa. Seria até preferível chegar a pé, se alguém viesse a sair ou estivesse por ali a fumar. Foi o caso exacto. Quando se aproximou, o patrão de Zulmira estava à porta da sua residência. Ainda se via luz lá dentro e parecia estar tudo praticamente na mesma. Sabia que tinha demorado muito mais que uma hora. E quando Jorge Simas lhe perguntou se já se sentia melhor, acenou com a cabeça. Mal o homem se chegou perto e a informou que já estavam a ficar preocupados com a sua demora, ela só se protegeu nos braços dele e soluçou como em poucas vezes fizera na sua vida.

- Chora, minha filha. Sei como te deves sentir. Nada será como antes, Célia. Tens de ser forte por ti e pela tua mãe, pequena. Mas tens a Genoveva e isto com o tempo passa. Estarei aqui com a minha mulher para vos amparar. Sabes como gostava do teu pai.

Por fim entraram os dois em casa.

 

(por motivo de grande afazer laboral do meu companheiro de escrita, o capítulo foi continuado por mim.)

 

 Verniz Negro

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por José da Xã às 12:26


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