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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quinta-feira, 14.06.12

Sentidos dos Dias - I O Diário

 

 

"Somente os mortos viram o fim da guerra."

 

Platão

 

Pedro Assunção. De seu nome completo Pedro Rafael Rocha Lopes Assunção, passava entre o dedo polegar e o indicador, a sua chapa identificativa da companhia onde servira, na guerra em que combatera, olhando-a. Afagando-a como se a uma Lâmpada de Aladino sustendo a respiração. O desejo de que as imagens, sons, odores se voltassem a repetir naquele ecrã da memória tão martirizado. O fio que a agarrava pendia-lhe da mão. Com alguma relutância voltou a colocá-la na caixa, perto de uma outra medalha de mérito que jamais quis merecer. Acarretavam-lhe demasiado desgosto, raiva. Recordavam-no da morte, de amigos e oponentes, alagados no seu sangue entre pernas estropiadas e intestinos à mostra, moscas e demasiado calor. Vegetação luxuriante, falta de munições e demasiado pó. Sem água! Sujidade. Desconforto. Medo!

Havia tanto tempo! E o horror continuava. Cada ruído, silvo, desconfiança, ansiedade. O eterno pesadelo e os suores frios acompanhavam-no em noites inteiras sem dormir. Muitas delas em que a mulher, outrora a sua madrinha de guerra, o ia encontrar sentado na habitual cadeira frente à janela fixando a noite sem nada ver, até ser dia. Tudo o que perpassava diante da sua retina, não eram os ramos das árvores lá fora no roçagar calmo de uma noite de Verão. O sibilar das cigarras e dos grilos cantando à desgarrada. Nem aquela lua enorme que o observava silenciosa. Muito menos o ressonar fraco e baixo, raro de Helena. Os movimentos acompanhados de algum suspiro fundo, ao virar-se na cama, que antigamente quando mais jovem, bastavam, para o fazerem levantar e aninhar-se junto dela para se embrenhar no seu corpo e procurar esquecer. Libertar-se da culpa, da mágoa, da tensão.

Hoje ela, pacificamente como sempre fora seu hábito, ajudava-o a preparar a mala. Limitara-se a olhá-lo quando lhe comunicara que teria forçosamente de voltar a África antes de... Morrer! Embora a sua vontade fosse contrapor, impedi-lo, anuiu simplesmente. Vivera toda a sua vida ao lado daquele homem partilhando o seu corpo, a comida, o tecto. Dando-lhe filhos que tinham crescido e ido à sua vida, mas sempre soubera que ele era seu e... Não era. Metade dele parecia ter ficado para trás. Por mais que fizesse e fosse tudo o que ele desejava, lhe apontava ser, tinha havido muito para além de si e algo contra o qual ela não podia combater. Ele já travava a sua própria batalha há anos demais. Tinha de admitir que para serenar, ou perecer tentando essa paz, era impreterível voltar.

Por isso punha-lhe as camisas, impecavelmente passadas, na mala. Tudo o que se lembrava lhe pudesse faltar, em colaboração ao que ele juntava e fingia que não via os gestos pesados. A respiração funda. Já aquela distância no olhar. Custava-lhe sobretudo e custou-lhe imenso, no dia em que casados recentemente, Pedro lhe contou que houvera alguém...Com diplomacia afirmara-lhe que acabara, nada mais poderia existir, mas...Ficara. Não conseguia esquecer. E embora fosse a ela que amava, preferira, tinha de descobrir isso também. O que fora feito dela? Do filho que mais tarde se constou, ficara prenhe de si..."Era boato! Uma forma que elas tinham de os agarrar ou fazer com que as trouxessem para a Metrópole...", asseguravam-lhe muitos camaradas já a caminho do navio para regressar, quando ele pretendia retroceder e ir procurá-la. Mas convenceu-se que teriam uma certa razão já o vira acontecer. Essa torpe forma de chantagem e... Havia Helena. O retrato que guardava sempre na carteira junto da medalha da nossa Senhora que a mãe lhe dera, no dia da partida. E o diário!

Aquele companheiro de dias sem sentidos, ou com eles demasiado despertos. Na alcova com Zuleica entre saraivada de morteiros, sirenes de alarme de novo combate a despoletar-se. A pressa de extravasar a paixão. Mas, o correr para fora de casa ainda a arranjar-se. A pegar na arma atabalhoadamente, deixando-a lá...A chorar. A gritar que... Sabia, lá! Tantas vezes as armadilhas rebentavam logo à frente e mais um corpo ia pelo ar. As rajadas e os obuses debitavam fogo como a boca de um dragão. Mas Helena jamais podia compreender. Ninguém podia...Ou só quem lá vivera naqueles dias. Naqueles malditos mil dias de horror e morte. E porque regressava? Porque anotara sagradamente cada passagem, hora, local, emoção e tanto que vivera naquele A2 demasiado gordo, preso com elásticos grossos? Talvez fosse ele também. O diário a chamar por si e a pedir-lhe que fosse, porque ainda tinha lá que fazer. Hoje com quase 70 anos era loucura! Seria?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 23:47

Terça-feira, 12.06.12

Trilhos Privados XXXII - Compromisso

Ricardo bem esperou mas Jorge não apareceu no outro dia. Apenas ligou a informar as amigas e a pedir para avisarem o jovem, que teria assuntos a tratar que pediam a sua presença inadiável. Prometeu passar por lá no dia seguinte. Isso levou o rapaz a pensar na gravidade que teria o assunto que o levaria a não cumprir com a sua palavra. Por outro lado, dava-lhe mais um dia de recuperação e...Perto de Célia, da mãe e da governanta, cheio de mordomias, onde quase já se sentia parte da família.

E foi exactamente isso que Guiomar o fez saber. Ao invés de se afastar, ou se demitir do seu papel de mãe como até ali, por motivos muito válidos, a doença de Ludovico, jurou a si mesma que seria o pilar daquela família doravante. Por isso aproximou-se e tiveram uma longa conversa. Ricardo foi honesto. Completamente transparente sobre os seus sentimentos para com Célia. Tudo o que se tinha passado desde que se haviam cruzado o primeiro dia na escola. Como ficou logo interessado nela, para além do visível desconforto que sentia pela indiferença com ela o tratava. Mas não desistiu. Guiomar sorria um riso velado, mas de satisfação. Avaliava-o! Ele continuou a responder com verdade a tudo que lhe perguntava, mesmo que se sentisse um pouco acanhado. Em falta por ser motorista de prostitutas. A senhora parecia não se manifestar, apenas por sinais mais sérios ou traços mais brandos de expressão. E completamente elucidada foi a vez de ela o esclarecer.

- Muito bem, Ricardo. Agradeço-lhe a franqueza. O desvelo com que tratou a "situação" melindrosa  que envolvia a Célia. Pelo seu recato em não fazer disso qualquer alarido.

- Eu... Jamais! Creia-me eu...Amo...A sua filha. Há, muito. Nunca a prejudicaria. Nem contaria nada a ninguém do que se passava... - Apressou-se o moço a interrompê-la.

- Compreendo. Como lhe estava a dizer isso mostra o seu carácter vincado. O que me faz pensar... - Olhou-o um pouco e acrescentou - Que a minha filha fez uma boa opção, no meio da trapalhada toda em que se meteu.

- A Célia é no fim de tudo, uma rapariga espect...

- Por favor deixe-me continuar. Ou não terei força para dizer o que deve ser dito. Muita culpa foi minha. Se não ficasse totalmente empenhada com a doença do meu marido teria visto os sinais de insubordinação na minha filha. Cresciam dia a dia. Resolvi não ligar. Fiz pessimamente! Não eram tolices de adolescente, mas problemas graves de uma jovem que sempre viveu num clima extremamente pesado. Exigimos demasiado dela. A certa altura o meu marido já não podia e eu... Nunca me perdoarei pelo que ela passou. Provavelmente se fosse mais presente...

- São coisas que acontecem. Não se culpe.

- Meu querido rapaz! Ouvirmos o relato cru de uma noite maldita, da boca de uma filha não é fácil. Os pormenores mais chocantes, a baixa humilhação da chantagem. O facto daquele asiático ser, por qualquer motivo, alguém idóneo. E se não fosse? Não sei onde a minha filha estaria gora.

Ricardo ficou em silêncio. Lágrimas bailavam nos olhos de Guiomar mas mulher de fibra, recolheu-as sem as deixar rolar. Mais uns minutos de conversa e Ricardo tinha a bênção dela para se relacionarem "às claras". Ele riu sem maldade quando ela se afastou. Era natural uma senhora daquelas ser ainda um pouco antiquada.  

O resto do dia foi passado ao lado da rapariga entre abraços e alguns beijos. Um pequeno passeio pelo alpendre da cozinha, onde Genoveva os serviu de chocolate quente e bolo de laranja. E foi já de noite que Xavier bateu na porta, entrou cumprimentou, disse qualquer coisa à serviçal e entregou-lhe uma carta...Para Ricardo! Despediu-se e saiu. Mais tarde e avisado por Genoveva o rapaz leria a carta de Jorge Simas recolhido no seu quarto. Nela, o seu já quase idoso amigo, elucidava-o de como tudo se passara...Aquilo que ele não sabia.

Heng escapara porque homem de "negócios" visado por muitos interesses contrários, andava sempre de colecte á prova de balas! Sorte quando abriu a porta ao mandante de Gui. Caso contrário não estaria lá quando ele tentou matar Ricardo. Quanto a Gui, o "tempo" que lhe dariam seria uma deportação para a Sibéria com a conivência de Zeca. - Ricardo até abriu os olhos ao ler. 

Mais à frente explicava a organização Trilhos Privados, em pormenor, e tudo o que faziam. A certa altura quando chegou à parte de Gui, Jorge dizia que o tinha embarcado num avião para o "destino". Ficara descansado. Porém, tinha sido avisado, mal chegara a casa depois de estar com ele, na de Célia, que o avião caíra a meio do percurso. Alguém alegava ter visto o piloto e co-piloto saltarem de pára-quedas, mas o aparelho despenhara-se. Ora Jorge mal soube disto, meteu-se ele mesmo, num avião com Zeca e foram inspeccionar o local. Os homens da organização de ambos, aguardava-nos. Chegados ao destino a polícia local tinha identificado Gui pela dentadura, visto que o aparelho se incendiara. Zeca, policial experimentado quis saber quem fazia parte da tripulação. Mal mostrou os nomes a Jorge ficou explicado acidente. Ambos os tripulantes eram chineses.

Mais tarde e já no aeroporto de regresso... Heng mandara-lhes alguém, para agradecer terem-lhe acobertado a participação no caso e o deixarem ir em paz. Portanto, se no futuro necessitassem dos seus serviços... Ricardo estava estupefacto. Célia e ele estavam finalmente livres de Gui. Jorge estaria quiçá a poucas horas de voltar a estar com ele. E Zeca? Seria também um "anjo da guarda" nas vidas do jovem casal. Com a aprovação de Guiomar e os mimos de Genoveva, o jovem adormeceria feliz. Quase se sentiu recomposto de imediato, pelo peso que lhe saíra de cima. No entanto antes de se deitar mandou uma mensagem.

Célia no seu quarto sentiu o telemóvel vibrar e leu: "Duvidas que te amo, ou não?" Digitou de volta. "Não duvido nem um pouco. Porque também te...Amo, meu maluco. Vê se dormes!" Já enfiada na cama o aparelho voltou a dar sinal. Ela leu. "Queres casar comigo?".

Teve vontade de saltar do leito e ir ter com ele, mas... Não! Respeitaria a sua casa, a mãe e Genoveva. Mais! Passaria respeitar-se a si mesma. E a dar graças por Ricardo na sua vida. De volta  respondeu. "Hum... Vou pensar no teu caso." Riu-se. Apertou o telemóvel contra o peito e apagou a luz.

 

 

Fim

 

 

Verniz negro

 

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por José da Xã às 23:03

Segunda-feira, 14.05.12

Trilhos Privados VII - O velório

 

Nada do que Vanessa e Ricardo disseram apressadamente a Genoveva fazia sentido. Falaram aos tropeços e como seria desejável dadas as circunstâncias, saíram logo, mas nos seus olhos a mulher não viu sinceridade, antes aflição. Talvez se devesse à morte do patrão. Ao descabido que tudo ficava perante isso. Genoveva não repreendeu Célia. Não era ela a mãe, embora o “fosse.” Só a tomou nos braços e lhe ouviu os soluços. Toda a tremideira e choque, que também poderiam não ser exagerados, porque ele era seu pai, porém… Era como se a miúda chorasse por ele desaparecer, mas por ela mesma. Pela mãe que sabia provavelmente entraria numa das suas depressões habituais, não servindo para nada, como na maior parte das vezes. Nem para uma breve decisão. Basicamente só gritava e se lamentava…Cumpria ao mínimo e dedicava-se ao marido. Já não era mau. Ficava Genoveva! Como um muro. “O que seria das duas agora? Mais que nunca necessitariam de alguém com o juízo assente.

O dia correu num suspiro. A noite chegou e a casa encheu-se de parentes, conhecidos, amigos e vizinhos mais próximos para velarem o morto. Embora falecesse em casa, a causa da morte estava mais que apurada, devido a isso, foi tudo mais simples. O funeral seria mesmo no dia seguinte pela manhã. Genoveva andava num corrupio. Graças aos céus que Zulmira, a serviçal de uma das “boas” casas das redondezas, tinha vindo ajudá-la a mando dos patrões, há muito sabedores da doença de Ludovico e impossibilidade de auxílio, por parte de mais criados dispensados há muito.

Entre café quente, choros e conversas a noite fria ia-se passando. A mãe de Célia sentada perto da urna parecia distante. O olhar perdido, sempre em silêncio, mesmo quando interpelada, sorrindo apenas "mecanicamente" não adivinhava nada de bom. A rapariga com ar extremamente cansado fosse do vestido preto, pesadíssimo para a idade, ou do peso das “funções” que lhe cabiam, a par da criada iam recebendo as pessoas. Indicavam o caminho ouviam e acenavam, fazendo “sala”. No entanto por volta das dez da noite Genoveva reparou que Célia se retirou para um canto e aproximou-se.

- Que se passa minha querida, estás mal disposta?

- Um pouco. Se pudéssemos abreviar isto e descansar só que fosse uma meia hora…mandá-los embora com uma desculpa qualquer. Isto é mórbido.

Genoveva entendeu-a. Estava extenuada. Quase a desatinar. Há tanto tempo na casa, muitas das pessoas olhavam a mulher, já como da família, por isso talvez não levassem a mal quando desculpasse a pequena dizendo que teria ido descansar um pouco, descendo mais tarde. Foi o que salvou Célia. Mal se retirou, sentiu o telemóvel a estremecer-lhe na perna direita. Sacou-o visivelmente contrariada e leu o visor. “Estou cá fora à tua espera. Como vês, cumpro o que digo! Que tal irmos dar uma volta? GUI." Célia ficou de todas as cores. Primeiro nervosa. Depois indignada e respondeu. “O meu pai faleceu!Tenho a casa cheia de pessoas a… Não estou sequer em condições de falar contigo, quanto mais, sair… Vai-te embora! Não temos nada a dizer.”

O que leu a seguir deixou Célia estarrecida. “Engano teu, querida. Lamento a morte do velho, mas se não estás aqui fora em 15 minutos, bem-disposta e “disponível”, terás a agradável surpresa de me veres entrar e juntar à festa! Tenho comigo imagens tuas… “frescas”! À altura… percebeste?

Célia não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Como se ia esgueirar de casa no meio de todo aquele aparato, com a mãe à beira de um ataque, o pai morto e Genoveva… Mas se o não fizesse, Guilherme cumpriria a ameaça! Subiu ao quarto a correr. Trocou o vestido por umas calças de ganga, uma blusa e ténis. Agarrou na mala e no telemóvel e desceu. Do fundo do enorme corredor fez sinal a Genoveva que ia sair um pouco. A mulher veio em polvorosa ao encontro dela e antes que pudesse argumentar, Célia foi tão efusiva a dizer que precisava de um pouco de ar ou não responderia por si, que a criada ficou a vê-la desaparecer atrás da porta. Prometendo-lhe que no máximo, daí a uma hora estaria em casa. E mal chegou ao carro entrou e explodiu. Mas encontrou a cara trocista de Guilherme com um saco na mão e uma ordem, seca!

- Banco de trás, rápido. Troca de roupa e faz uma maquilhagem à altura. Espera-nos um jantar de negócios.

A rapariga ainda refilou, mas um apertão no braço, não deixou dúvida que ele não aceitaria uma recusa. Por isso fez o que ele disse. Despiu-se, vestiu-se e pintou-se, tudo com o olhar dele insistentemente cravado nela, amiúde, pelo retrovisor enquanto conduzia. Não fossem também, aquelas palavras dele, como vergastadas no rosto mais uma afronta a engolir.

- Querida! Fica à vontade. Tudo o que mostras eu já vi…Ontem! Em pormenor e devo dizer que… - Beijou os dois dedos como se lhe chamasse um “Petisco!”.

 

 

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:22

Sábado, 12.05.12

Trilhos privados - V Plano

 

Passavam pouco mais das sete da manhã, quando o táxi parou junto do carro de Célia depois de Vanessa lhe dar as coordenadas do sítio e nome da discoteca. Como era possível que não se lembrasse de nada? Nem sequer de qualquer pormenor mais íntimo, da noite passada com Gui, a não ser a triste realidade que os lençóis mostravam? Se lho afirmassem diria não ser possível ter feito uma coisa tão estúpida como aquilo... Mas estava feito! E virgindades perdem-se. WTF, o tipo até era giro, além de um incrível anormal... Mas não o veria mais. Aquilo de passar lá em casa, não fora mais que a típica conversa da treta, de quem dorme com alguém e sem ter mais que dizer, atira aquela. Ou o também "deja vu": "Depois telefono-te." O pior seria, o agora! Lidar com o facto de chegar a casa àquela hora, sem uma boa desculpa, para contornar Genoveva que já estaria em pé. Depois convencê-la a bem... Com muito jeitinho a desculpá-la perante a mãe.

Vanessa dissera-lhe que vinha a caminho, para depois aparecerem as duas, mas não havia meio de chegar, portanto depois de um busca no fundo da mala e de ter encontrado as chaves do carro, resignou-se a entrar e a ter de enfrentar tudo sozinha. Como explicaria o seu aspecto miserável? O cabelo sujo, desgrenhado e a cheirar a tabaco que tresandava? A roupa amarfanhada, imunda, tal qual alguém tivesse despejado o conteúdo do estômago em cima dela. E aquelas nódoas negras no antebraço esquerdo? O ínfimo orifício, tipo picadela de agulha que no centro de uma... Não! Ele não seria capaz de drogá-la. Seria? Um arrepio de pânico percorreu-a. A chave tremeu-lhe na mão não encontrando à primeira a fechadura. E então ouviu uma voz atrás de si.

- Célia! Tu por aqui a estas horas?

Virou-se assustada, desejando estar o mais longe possível e viu  o rosto admirado de Ricardo a percorrê-la de cima a baixo.

- Eu... Hei... Pois, bem... Eu... Aqui. Sim. Olá...

O rapaz percebeu tudo na voz trémula. Na postura insegura, dela. A desorientação do flagrante, misturada com medo. Acima de tudo, o desespero, bem como o embaraço de não associar a pessoa ao nome.  Tinha todo o tipo de ter passado a noite ali. Mas com quem? Deveria ter vindo com amigos, mas não havia mais ninguém ao redor. 

- Pareces algo desorientada, posso ajudar-te? Lembras-te de mim, não? Ricardo... Da Faculdade.

- Sim, sim Ricardo. Claro! Como não me lembraria. - Acrescentou, disfarçando mal - Fiquei de me encontrar aqui com a Vanessa. O meu carro teve um furo e...

Ele dissimuladamente olhou para as rodas. Para a posição estável do automóvel, o que lhe indicava que se estes estavam bons, os do lado de lá bons estariam, ou o carro descairia ligeiramente, mas não disse nada. Sorriu ao mesmo tempo que Vanessa aparecia saída de um táxi.

- Bom dia, Célia. Olá Ricardo. Ai, miúda quem olha para ti... Que mau aspecto. O que te aconteceu ontem, afinal depois de teres saído com aquele tipo? Quem era ele, teu conhecido?

Célia ficou de todas a cores, quando Ricardo remeteu os olhos para o lado esquerdo  e olhou o céu, como se avaliasse o estado do tempo. De seguida ouviu em silêncio também o "bichanar" das duas e percebeu nitidamente do que se tratava. Talvez não fosse muito boa ideia mas morava perto e...

- Segundo me parece um bom banho e mudares de roupa, seria o ideal para tornar credível um qualquer acidente... Com o pneu. - Riu - Ou quem sabe, uma possível operação de trânsito tardia, em que detiveram pessoas para identificação e... Se enganaram claro! Levando o justo e o pecador, soltando-vos agora de manhã com imensos pedidos de desculpa. 

- Bem! Caíste do céu não, Ricardo. Não me passaria pela cabeça uma desculpa tão plausível. Se bem que...

- Necessita um pouco mais de empenho eu sei. Que tal virem até minha casa. Eu moro já ali à esquina. A Célia toma banho veste o uniforme de novo e depois de um café bem forte, acompanho as duas... Prometo salvar-vos. Afinal um cavalheiro é necessário quando duas "princesas" estão em apuros.

- Uma! Só ela se faz favor.

- Obrigadinha. És realmente um conforto Vanessa. Mas não posso demorar-me muito mais. Cada segundo que passa...

- Arriscas a tua cabeça. Percebo. Mas entre apareceres assim e mais apresentável. Que tal pormo-nos a caminho? Dez minutos para o banho. Dez para o café forte e em mais 20 minutos estás em casa. São, 7, 20 se às 8 não estiveres a cruzar o umbral da tua porta permito que me esbofeteies. Não me dirijas mais a palavra.

Eram realmente 8h quando Célia e os seus dois "guarda-costas" batiam à porta que dava para a entrada da cozinha. O que nunca esperou foi que Genoveva lhe abrisse a porta lavada em lágrimas e gritos estridentes viessem do interior da habitação. Também o que jamais pensou, foi que o que a esperava fosse tão difícil, que remeteria o "problema" da sua noite para segundo plano.

- A estas horas! Filha ingrata... Nem sequer estava em casa quando o pai faleceu.

Ricardo e Vanessa entreolharam-se e nunca nas suas vidas, se tinham sentido tão insignificantes, como naquele momento.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 19:51


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