Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Domingo, 17.01.16

Contos Tontos - 14

Adormecia sempre a pensar nela. Acordava todas as manhãs após ter sonhado com ela. Parecia quase uma doença viral.

Morava meia dúzia de portas abaixo, na mesma rua. Já a vira diversas vezes entrar e sair da moradia. Mas nunca lhe falara… Nem um sorriso, nem uma saudação. Nada!

No seu critério ela era de uma beleza impossível. Ninguém podia ser tão belo assim. Também não percebia se a amava platonicamente ou se aquilo não passava de uma imbecilidade.

Naquela tarde regressou a casa mais cedo do que o costume. Apanhou o comboio e sentou-se. Pegou no livro que sempre carregava e retomou a leitura deixada pela manhã. A marca ajudava-o a achar o reinício.

Sentiu que alguém se sentara no lugar defronte de si. Mas não levantou os olhos para ver quem era. Quando esporadicamente o fez sentiu um choque… era ela.

Assim tão perto ainda parecia mais bela que ao longe. Sentiu as faces ruborizarem e baixou o olhar para a leitura, que nunca mais mudou de página…

Todo o seu corpo tremia num frémito estranho. E destilava calor e frio ao mesmo tempo e em doses paquidérmicas. O comboio parou por fim na sua estação e ele deixou que ela saísse primeiro. Mas ela não saíu e ele teve de correr para se apear antes que o comboio partisse.

Entre o desiludido e o triste viu-a afastar-se no transporte e com ela partiram também todos os seus sonhos tanto tempo alinhavados e cosidos à sua alma.

Nessa noite não sonhou com ela. Curara-se finalmente da "tal" doença?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 20:23

Domingo, 09.08.15

Contos tontos! - 12

Nas suas memórias, mesmo as mais remotas sempre vira pai e mãe em constantes zaragatas. E quase tudo servia para discussão. Quando o tema não passava pela sua mera existência era o regresso tardio a casa do pai ou o cheiro nauseabundo a perfume barato da mãe.

Demasiadas vezes o usavam como arma de arremesso contra o outro. O jovem sentia-se nessas alturas somente uma pena que voava ao sabor do vento. Quando a discussão amainava, lá vinha o aconchego do pai ou da mãe tentando devolver alguma serenidade, que ele depressa percebia jamais existir.

Adaíl habituou-se por isso a resguardar-se no seu quarto onde, longe das discussões, ouvia Reimmstein em doses cavalares. Apreciava Sepultura ou Korn mas aquela banda alemã preenchia-lhe na plenitude os seus vazios. E amansava a sua raiva!

Mas pouco a pouco na sua mente foi crescendo uma idiea. Parecia idiota e sem sentido, mas foi a serenidade que o ajudou a tudo preparar. Até ao mais ínfimo pormenor!

Um dia pela calada da noite, o jovem Adaíl de dezasseis anos, partiu sozinho de casa sem deixar rasto nem recado. Quando de manhã os pais descobrissem a sua ausência, já estaria provavelmente muito longe de casa.

Ainda viu os pais uma última vez na televisão antes de embarcar. E riu-se das declarações dos antecessores que de um modo choroso afirmavam peremptoriamnete que não percebiam a razão da fuga...

Adaíl jamais regressou a casa!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 01:00

Quarta-feira, 01.07.15

Contos tontos! - 9

Foi desfiando folhas atrás de folhas. Cadernos e mais cadernos... Dezenas deles!

Lia alguns textos e perguntava-se como nunca dera por nada. Poesias, contos, pequenas crónicas do quotidiano. Tudo manuscrito naquela letra redonda e professoral.Páginas e páginas onde alguém desfiara as mágoas de uma vida.

Partira subitamente levando consigo esse segredo. Que nunca desvendou... Descoberto numa velha mala de viagem já em desuso, Óscar não conseguiu evitar as lágrimas.

Bateram à porta. Apressadamente limpou a face a um lenço e respondeu:

- Entre.

A porta abriu-se e surgiu uma menina de olhar triste. Aproximou-se devagar e perguntou:

- Que estás a fazer avô?

Quase sem perceber que a criança seria demasiado nova para escutar um desabafo disse:

- Porque será que a tua mãe me escondeu isto de mim? Ela escrevia tão bem...

Uma outra voz respondeu então pela neta:

- Porque tu nunca tiveste tempo para ti... Como querias ter tempo para os outros?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 21:04

Domingo, 17.05.15

Contos tontos! - 3

Preparara tudo sem ela saber. Comemorava nesse dia mais um aniversário de casamento. Ela, todavia, andava demasiado ocupada e preocupada para se lembrar da data. Ele pelo contrário... Após uma depressão ainda mal debelada tinha todo o tempo do mundo.

Os filhos nunca haviam surgido. Nem nunca procuraram as razões para tal falta.

Tocou o telemóvel. Ele atendeu:

- Diz amor!

- Não vou jantar - declarou secamente.

- Como não vens jantar? Tenho tudo preparado.

- Desculpa mas não posso ir. O novo projecto tem de ser entregue até à meia noite.

Poisou o telefone. Não era a primeira vez que ela não vinha a horas de jantar.

Desligou tudo e sem comer saiu porta fora. Necessitava apanhar ar. Pegou no carro e foi conduzindo devagar sem destino. Ao fim de uma hora deu-lhe a fome. Parou o carro e procurou um restaurante. A rua estava movimentada. Sem saber como, fora parar aquele lugar de enorme afluência. Como gostava de peixe, tal como ela, procurou um local onde o peixe fosse o rei.

De súbito apalpou o bolso e reparou na embalagem volumosa. Um anel de brilhantes para oferecer à esposa nesse dia dos seus 20 anos de casados.

Entrou no restaurante e pediu um lugar para si. Sentou-se e olhou ao redor. De súbito ao fundo, quase num canto viu alguém muito familiar. Nem soube o que fazer... Finalmente levantou-se, encaminhou-se para o casal que de mãos dadas sussurravam segredos e observou:

- Boa noite, desculpa incomodar o teu jantar mas tens aqui uma prenda dos teus 20 anos de casada. Espero que gostes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 22:51

Sexta-feira, 15.05.15

Contos tontos! - 2

O carro seguia dentro dos limites, na auto-estrada. Ele conduzia e pensava, ela dormia profundamente.

O alcatrão negro desenrolava-se à frente tal qual um manto. E a viatura consumia quilómetros.

Entretanto o espírito dele viajou para um passado tão longínquo que quase não acreditou que tivesse existido.

As festas, as brincadeiras, as amigas e os amigos, as partidas aos colegas... Esboçou um mero sorriso ao lembrar-se! Olhou para o lado, onde ela dormia. Vinda também do seu passado notou-lhe então os rasgos cravados na face, o pescoço quase flácido, os cabelos de cor cinza. Mas ainda era bonita... E como ele a amava...

Quanto tempo passara desde a última vez que ele lhe sussurara a palavra mágica. Perdera o conto.

Umas vezes por isto, outras por aquilo, acabaram por se afastar!

De súbito ele falou em tom sonoro:

- Amo-te!

Acordada subitamente pela palavra, perguntou:

- Disseste alguma coisa?

- Eu? Eu não... Devias ser tu a sonhar!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por José da Xã às 23:22

Sexta-feira, 30.03.12

Contos Breves - Amor Tropical - XLI

O corpo esbelto e bem torneado de Regina era o tema de todas as conversas no povo. Chegara havia semanas acompanhada do pai Bernardo, um filho da terra que partira para terras de Vera Cruz havia mais de trinta anos e durante todo esse tempo jamais comunicara com a aldeia que o vira nascer. Regressara finalmente acompanhada pela filha de pele morena, queimada pelo sol tropical e longos cabelos loiros, tal qual a seara de trigo, que tantas vezes em gaiato ajudara a ceifar.

A jovem, era agora alvo de falatório aguçado e viperino. As mulheres quase todas viúvas, mal casadas ou mal amadas, respingavam com azedume palavras ásperas com o intuito de magoar pai e filha:

- Uma desavergonhada! Uma tentação do Diabo!

- Doidivanas é o que é! Que descaramento! Vir para aqui assim… naqueles propósitos…

E o assim correspondia a saias muito curtas, evidenciando um par de pernas bem desenhadas e acobreadas. A jovem, porém, não temia os ditos. Sorria, apenas. Havia muito tempo que se habituara a ser o centro perfeito dos homens e o imperfeito das mulheres.

Regina adorava passear pelos campos, repletos de flores silvestres. Só. Saía de casa manhã cedo e explorava com natural emoção locais e referências doa quais o pai sempre lhe falara. Não temia ninguém e muito menos o povo sereno da aldeia, não obstante as venenosas observações de que era alvo.

Os jovens rapazes sonhavam romances arrebatadores e paixões quentes e impossíveis com a jovem estrangeira. Todos lhe queriam conquistar o coração. Havia mesmo quem já imaginasse coisas…

 Ora certa tarde de uma primavera luminosa o Alfredo entrou na taberna do Bilhas e anunciou com ar triunfante:

- Aquela já cá mora no "papo" do menino! - e batia com as mãos no peito inchado.

Os outros desconhecendo a quem se referia o galã, perguntaram:

- Aquela quem?

- A brasileira…

- A brasileira? Mas que é que lhe fizeste?

- Ainda nada! Mas não tarda nada ides ver…

No pensamento dos amigos passou a imagem quase proibida da jovem nua e ao alcance da mão.

- Não acredito! – Afirmou com relutância Jorge.

- Então não acredites! Isso é contigo.

- Mas conta lá o que é que aconteceu.

Uma dúzia de olhos, ávidos de relatos mais coloridos, convergiu a atenção para o que Alfredo iria dizer.

Apanhado na sua própria arrogância e mentira, o jovem rapaz começou por coçar a nuca numa preocupação evidente. Pigarreou e finalmente avançou:

- Uma destas tardes andava eu à caça, lá para os lados da Pia Estreita…

- … mas agora estamos no defeso, se a Venatória te apanha… - cortou o Felisberto.

- Eh pá cala-te, deixa lá o rapaz falar – zangaram-se os outros.

- Pronto, pronto, não digo mais nada. Continua Alfredo…

- Ora com estava a dizer eu andava lá para os lados da Pia, quando vi ao longe uma figura toda jeitosa - e desenhou no ar com as mãos as curvas de um corpo.

Um coro de assobios soou na tasca. Continuou:

- Aproximei-me devagar e encontrei a brasileira envolta em silvas, picando-se e rasgando as mãos, pernas e braços. Então cheguei ao pé dela e perguntei-lhe calmamente: quer que eu a desamarre desse enredo?

Todos o miravam em silêncio, aguardando a resposta que a jovem teria dado:

- … tremia como varas verdes, parecia que lhe metia medo…

Estas últimas palavras haviam sido proferidas pela própria Regina que entrara na taberna com à-vontade e escutara as últimas fanfarronices de Alfredo. Este, num estalo de dedos, transformou-se na cor da cal. O ar zombeteiro e marialva fora substituído por um agitar demasiado nervoso.

O suor escorria testa abaixo deixando antever a agitação que o invadia. Os amigos que o rodeavam perceberam rapidamente o estado de espírito do outro e inclementes atacaram:

- Olha lá Alfredo foi mesmo assim como diz a Regina? Tremias que nem um pudim em dia de boda?

- Nem pensar! Ela é que está a exagerar!

- Mas tu disseste que ela estava no “papo”! Ou fui eu que ouvi mal?

A atrapalhação da última pergunta fez com que Alfredo abandonasse o café bufando e praguejando. Os restantes mantiveram-se na loja, riram do jovem gabiru e aproveitaram para conversar com a brasileira, que no seu linguajar doce ia deitando algumas achas nos corações daqueles jovens repletos de ideias e paixões apenas sonhadas.

- Vocês são uma gracinha! Mas aquele pobre partiu triste…

- Deixe lá Regina. Ele é um gabarola muito conhecido na aldeia e arredores. Já ninguém vai na conversa dele! Mas conta histórias engraçadas e nós gostamos de o ouvir…

A jovem ficou com os homens na taberna, tornando-se um deles. Ria alto, contava piadas, ouvia com atenção as dos outros e bebia cerveja naturalmente.

Devagar a aldeia foi-se habituando à presença da brasileira. A simpatia que irradiava acabou por ser contagiante e finalmente o povo aceitou a jovem tal como era. Visitava os idosos fossem ou não da família, ajudando-os em algumas tarefas caseiras, apaziguando alguns corações mais revoltosos.

Desde os acontecimentos na taberna que Alfredo fugia da bonita brasileira. Temia que esta o envergonhasse uma vez mais. Assim que chegava do trabalho recolhia-se a casa, ajeitava a horta que crescia nas traseiras, dedilhava um velho banjo que herdara de um avô, suspirava… De manhã pegava na velha motorizada e partia bem cedo para a fábrica. Porém foi a jovem Regina que o apanhou desprevenido um sábado à saída de casa, quando aperaltado se dirigia não sabia bem aonde, só sabia que estava farto de estar em casa fechado:.

- Oi como está você?

O rapaz deu um salto, pensou voltar para trás mas ganhou coragem e respondeu ao cumprimento:

- Estou bem! E a menina?

- Tudo numa boa. Me diga uma coisa, porque me evita?

Ele merecia aquele castigo.

- Eu peço imensa desculpa. Sou um parvo…

- Não é nada. Você não me fez mal algum. Foi só a si…

- É, sim… claro! – Alfredo tremia. Sentia-se desfazer-se na frente daquela bonita mulher. Parecia a do calendário que o Fernando expunha no velho barracão. Aqueles olhos verdes, o cabelo longo, o corpo perfeito…

A jovem sorriu. Tinha perfeita consciência das sensações que causava. Mas aquele rapaz era ainda muito ingénuo, não obstante a gabarolice das suas palavras. Por isso pegou-lhe na mão, puxou-o para si e beijou-o ternamente. Alfredo nem queria acreditar. Um sonho tornado realidade. Uma paixão tanto tempo alimentada de sonhos e desejos… E respondeu como pode e sabia ao ósculo feminino.

- Gostou?

- Eu… eu … - gaguejou – não sei o que dizer. Desculpe.

Regina riu. Pegou-lhe na mão e puxou-o para si.

- Eu gosto de você! Me quer?

Alfredo derretia-se. Tremia, tremia como estivesse perante uma fera e não duma mulher. As palavras nem saíam. A garganta travava a fala. A emoção do momento era demasiada para o jovem coração. Finalmente recompôs-se e perguntou:

- Isso é a sério? Não está a mancar comigo?

Regina voltou a sorrir e respondeu:

- Pateta, claro que não. Eu não brinco com os sentimentos dos outros…

- Quero sim menina e muito…

- Não me trate por menina. O meu nome é Regina Novais.

Meses depois casavam na velha capela da aldeia com a pompa e circunstância que a cerimónia obrigava. Ao sair de braço dado com a noiva, Alfredo piscou o olho matreiro aos amigos que o aguardavam na rua.

- Afinal ele sempre a caçou… um sortudo! - comentou com os companheiros, quase em surdina, o Jorge.

Nesse instante alguém ouviu e respondeu também em surdina:

- Hum! Creio mais que foi ela que o caçou…

Os jovens olharam para trás e deram de caras com Bernardo, que sorria… feliz.

 

 

Também pode ler aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 23:11

Quinta-feira, 29.03.12

Contos Breves - Ana Descalça - XL

Viviam-se tempos incertos. As terras mal amanhadas exigiam braços para lavrar e deitar ao solo as sementes para nova colheita. O Francisco Xavier olhava a fazenda coberta de erva e mato, subia a pala da boina até ao topo da testa e lamentava-se:

- Quando é que vou ter este chão lavrado?

E respondia logo de seguida:

- Nunca!

A leira estendia-se da baixa da Ribeira das Mós até ao cimo onde iniciava a tapada do ti’Brito. A brisa daquele fim de tarde carregava frescura e parecia anunciar chuva:

- E se chove ainda por cima…

A chuva seria bem vinda, mas só depois da sementeira. Até lá haveria de arranjar braços.

- Mas onde?...

Nessa noite na taberna enquanto dormitava entre dois copos de três, encostado à mão calejada, ouviu o Joaquim Goivo a falar sobre umas mulheres que trabalhavam a terra, tal qual um homem. O preço era mais barato e no despacho era semelhante ao que dava um homem. Ouvido atento Chico deixou que o outro fosse soltando a língua. Para isso pagou mais um copo:

- … Traçadinho, se fizeres favor ó Januária.

E lá ia destravando a conversa. Nessa noite Chico deitou-se mais descansado. Já soubera onde encontrar pessoal para a sua lavra. Logo pela manhã, ainda o sol não despontara por detrás da serra de Santa Teresa e já o homem aparelhava a burra. Légua e meia separava-o da terra onde as mulheres trabalhavam que nem homens.

Muito caminho para palmilhar com a esperança no coração. Não fosse o Tó Telhas ter vendido o gado para emigrar e nada disto seria necessário, porque a junta de vacas que o Tó costumava passear pela aldeia com orgulho servia na perfeição para amanhar o chão. Enfim o que precisava agora era de gente para tratar a terra.

Soava o meio-dia quando chegou à terreola. A manhã mantivera-se fresca ameaçando chuva, que não chegou a cair. Ao longe conseguiu finalmente ver o relógio da velha igreja que sobressaía dos restantes telhados. Antes de entrar no povo, desmontou-se da burra e continuou o caminho a pé até encontrar uma tasca onde pudesse enganar a barriga esfomeada.

As ruas eram estreitas e o chão pedra cinza. O som das ferraduras do animal ecoavam e de quando em vez viúvas curiosas assomavam à porta ou à janela dando fé de quem passava. Chico, quando as via, saudava com simpatia, recebendo normalmente também um cumprimento:

- Bom dia!

- Bom dia, senhor!

A rua principal desembocou no largo da igreja. Ao lado, uma velha porta aberta deixava antever o interior de uma taberna. Chico entrou e saudou:

- Bom dia.

Nas entranhas da loja fervilhava um odor profundo a vinho azedo misturado com o fumo de tabaco barato. Uma lâmpada caía do tecto, negra das moscas. Nas mesas toalhas de plástico de quadrados vermelhos, semi-rasgadas cobriam os tampos velhos e sujos. Um pano seboso retirou os vincos redondos dos copos de vinho. Foi o que fez o taberneiro quando o aldeão se sentou:

- Então viajante o que o trás por cá?

- Boa tarde, primeiro preciso de comer alguma coisa! O que é que tem?

- Chouriço para assar, couratos…

- Pode ser o chouriço! E um jarro de vinho.

- É para já…

Aguardou pacientemente que o petisco chegasse. Entretanto foi reparando no pouco movimento da casa. Ou fosse do espaço sombrio e triste, ou fosse da hora, ainda relativamente cedo, a verdade é que poucos eram os clientes. O taberneiro surgiu finalmente com o prato ainda fumegante, um naco de pão e o respectivo jarro de barro repleto de vinho sangue e espumoso. O patrão era um homem atarracado, redondo de barriga e pernas, cara tal qual uma abóbora como as que cresciam nas terras fecundas, calva plena. Caminhava com passos curtos e apressados e trajava à volta da cintura um pano que já vivera outras brancuras.

Chico Xavier era pobre mas sempre se habituara à limpeza e aquele não era o esmero do asseio. No entanto o chouriço era excelente, assim como o pão e o vinho. Após ter pago a despesa passou para a parte que o obrigara a sair da sua aldeia.

- Sabe-me dizer onde mora a Ana Descalça?

- Oh se sei! Segue aqui ao lado da capela até encontrar uma enorme amoreira. Esse é o quintal dela. Tem de dar a volta ao cerrado que a casa é do outro lado – e gesticulava com as mãos sapudas e gordurosas tentando ajudar o forasteiro.

- Obrigado – agradeceu Xavier enquanto se apercebia de um sotaque característico no taberneiro.

Pagou, agradeceu uma vez mais e partiu em busca da Ana. O nome soubera-o na noite anterior quando o Joaquim soltou as amarras da língua e despejou o que queria e não queria, pois o homem era pouco dado a conversas da sua vida e aquele momento fora obviamente um achado a roçar a denúncia.

A amoreira surgiu enorme na sua frente. Um muro de pedra não evitava que se visse o naco de terra que ali se espraiava. Bem tratado, a horta parecia um jardim. Esguias canas surgiam do chão segurando os feijoeiros verdes e viçosos. Mais ao lado tomateiros, pimenteiros, cebolas, alhos, batatas tudo crescia como se tivesse sido ali posto com régua e esquadro. Chico aprovou o que via e procurou a porta. Para a estrada de terra batida apenas reparou nas janelas. A porta surgia ao lado, mas um portão de ferro impedia-lhe a passagem. Bateu no portão com vigor e chamou:

- Ana! Ó Ana!

Silêncio. Apenas se ouviam os pardais no cimo da amoreira numa chilreada infernal. Logo percebeu que Ana não se encontrava em casa. Havia que aguardar pacientemente. Deixou que a burra procurasse de comer num baldio defronte da casa enquanto Chico rebolou uma pedra para debaixo de uma oliveira e a esta se encostou aproveitando para colocar algum sono em dia. Acordou quando ouviu o portão da casa a bater com força. Levantou-se lesto e acorreu em busca de Ana. Bateu suavemente e desta vez ouviu alguém responder:

- Quem tá aí?

- Ana?

A mulher apareceu. Trazia nas mãos uma galinha que se debatia para fugir. Trajava uma roupa de trabalho muito suja e amarrotada. Ana era magra, cabelo preso na nuca, andar despachado e face rasgada por anos de trabalhos. Chico mirou-a de alto a baixo e não obstante a sujidade, gostou da forma simples como se apresentou. Calçava uns sapatos velhos e sujos, mas foi perguntando:

- Quem é o senhor?

- Sou o Chico Xavier. Venho daquela aldeia por detrás da serra em busca de gente para vir trabalhar para mim.

- Ai sim?

- Pois eu sei que trabalha bem a terra. O Joaquim Goivo é que me disse – avançou antes que ela o mandasse embora.

Ao ouvir o nome do Joaquim, Ana pareceu outra. Deixou aquele ar agitado e falou com mais calma.

- Foi ele que falou de mim?

- Foi…

- E o que disse?

- Que era boa trabalhadora, tal qual um homem. E pelo que vi na sua horta, ele tem razão…

Os lábios da camponesa abriram-se num sorriso franco. A horta de Ana era a sua única vaidade. A mulher estremeceu ao ouvir falar da sua terra.

- Gosta?

- Gosto sim senhora. Bem tratada aquela terra. Foi você que fez aquilo?

- Sozinha… - Ana estava feliz, deslumbrada.

- Belo trabalho, sem sinhora…

Mas Chico temia que aquela forma de abordagem não fosse suficiente para convencer a mulher a trabalhar para ele. Passou então ao que interessava:

- Está disposta a vir tratar do meu chão?

- Ainda não sei… - após breve silêncio devolveu -  e quanto paga?

- Pago-lhe mais que pagou o Joaquim.

- Assim gosto mais da conversa.

- E dou-lhe de comer e onde dormir. Se arranjar mais alguém, também pode levar. Há lá muito trabalho para fazer…

A necessidade obrigava-o a abrir os cordões à bolsa.

- Isso é que é falar…

Chico percebera no diálogo avinhado do seu conterrâneo que a mulher pelava-se por dinheiro. E pagar mais seria a única maneira de a levar até à aldeia.

- Posso então contar consigo?

- Não sei. E é para fazer o quê?

- Tenho um grande pedaço de chão a pedir enxada, já que quem me lavrava a terra antes, emigrou para a América.

- Hum, e quanta gente precisa?

- Duas ou três… mulheres - ele não sabia bem que número avançar.

- E para quando?

- Logo que pudessem. Estou apertado com o tempo. Daqui a pouco chove e eu preciso do chão cavado para deitar sementes à terra.

Ana coçou a cabeça por cima do lenço que lhe tapava o cabelo sujo e após alguns segundos de silêncio concordou:

- Depois de amanhã estamos lá. Eu e mais duas mulheres.

- De acordo, espero por vocês lá. Eu vivo perto da fonte de Santo António. Pergunte por mim que toda a gente sabe onde moro.

Chico partiu feliz. Finalmente conseguira alguém para trabalhar a sua terra. O chão era bom mas urgia trato. Quando entrou em casa já noite profunda, carregava um ar mais aliviado. Dois dias depois, manhã cedo ouviu bater à porta. Admirou-se que alguém viesse a sua casa tão cedo, mas respondeu:

 - Já vou!

Quando escancarou a entrada deu de caras com Ana, acompanhada por mais duas mulheres.

- Cá estamos, conforme combinado.

- Bom dia. Não vos esperava tão cedo.

- Acredito, mas saímos ainda de madrugada.

- Muito bem, vou-vos levar à casa onde vão ficar estes dias.

- Isso é que é falar!

Chico regressou ao interior da sua casa, rapou das chaves de um velho casacão e partiu com as mulheres. Pelo caminho foi-lhe indicando alguns locais mas as trabalhadoras não se mostraram muito interessadas. No casarão, que em tempos fora uma habitação quase nobre, abriu a porta e acendeu um coto de vela. Uma luz parda e mole iluminou mal a entrada.

- É aqui que ficam. Isto está um bocado sujo, mas vocês podem limpar de forma que fique em condições para vocês viverem.

- Está bom. Nós tratamos do resto. Sempre é melhor que o palheiro do “Jaquim”.

Aquela maneira engraçada de falar é que o espantou mais o Xavier.

- Bom então quando podem começar?

- Logo a seguir ao almoço, pode ser?

- Pode, pode… Eu já vos trago alguma coisa para comer.

- Hoje não, amanhã!

- Como queiram. Então à uma estou cá...

À hora aprazada quando chegou junto à casa, já as três mulheres o aguardavam.

- Boa tarde, meninas! Vamos lá?

- ‘Bora! – Responderam em uníssono.

A terra a amanhar surgia quase imponente. Chico apontou as estremas e exclamou:

- Eis aqui o chão para tratar. Daqui até ao fundo, junto daquele velho carvalho.

- Podemos começar?

- Claro, quando quiserem.

As mulheres pegaram nas enxadas previamente trazidas pelo Chico e sem mais nada descalçaram-se e entraram na terra. O patrão olhou-as com espanto mas nada disse. Ana e as companheiras cravavam na terra o aço da alfaia, com vigor ombreando com o mais forte aldeão.

No dia seguinte bem cedo as cavadoras recomeçaram o trabalho com o mesmo vigor. Na tarde anterior haviam cavado um bom pedaço. Falavam na sua forma engraçada por vezes quase imperceptível. A terra revirada, ferida pelas enxadas frias estava agora quase pronta para a sementeira de Xavier. Ana e as companheiras continuavam a descalçar-se sempre que entravam para terra. Chico espantado perdeu a vergonha e perguntou:

- Porque te descalças, rapariga? Tu e as tuas amigas?

Ana olhou-o de frente e em vez de responder, questionou o patrão, naquele seu sotaque tão invulgar:

- Vossemecê vinha para aqui calçado?

- Eu? Claro! Porque não?

- Porque eu não gosto de estragar os sapatos. Eu não sou rica para comprar outros.

Chio abanou a cabeça em total desacordo, mas não disse mais nada. Dava gosto ver aquelas mulheres trabalhar, fosse calçadas ou descalças.

- Esta terra fica um mimo. Tem pouco pedra, desfaz-se bem – exclamou uma das companheiras de Ana.

A tarde corria para o fim. O sol escondia-se por detrás da colina. A brisa da tarde levantava pó como uma nuvem sempre que a enxada fendia a terra. Chico olhou o relógio de bolso e exclamou:

- Meninas! Por hoje chega!

Mas Ana logo retorquiu:

- Pelo menos deixe-me chegar até aquela estrema. Fica mal um bocado por cavar.

O patrão aceitou.

- Seja como vocês quiserem.

Uma enxada silvou no ar e subitamente bateu numa das poucas pedras escondida pelo mato, soando um som metálico do choque. Logo de seguida um grito estridente veio das mulheres. Fora Ana a vítima. A folha da guincha resvalara na pedra e acertou no pé descalço cortando-o numa ferida profunda. A mulher gritava, tentando em vão estancar o sangue que jorrava abundantemente:

- Ai, ai, ai o meu sapatinho…

Xavier abismado ainda olhou para o pé, mas não viu nenhum sapato, nem perto. Mas Ana continuava a lamúria:

- Ai, ai, ai o meu sapatinho… Se tenho o meu sapatinho calçado estava agora todo cortado… Ai o meu rico sapatinho…

 

 

Também publicado aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 23:50

Terça-feira, 27.03.12

Contos Breves - Sílvio Agreste - XXXIX

Quinze anos, espigados e imberbes; cabelo curto como restolho, olhos castanhos, vivazes e atentos; boca grande denunciando dentes negros e mal tratados, tez morena. Assim era Sílvio, nascido e criado numa aldeia beirã embutida na serra pedregosa e fria nas invernias que tombavam serra abaixo e demasiado quente no Estio impossível de respirar, espraiando-se a seus pés planícies e charnecas férteis, cruzadas por ribeiros que encharcavam os lameiros sempre que a torrente vinda da encosta assim o exigia.
O rapazola, aos olhos do povo mordaz e cruel, tornara-se num gaiato bizarro. Não tinha amigos, não falava com ninguém, apenas breves e imperceptíveis saudações por quem passava, desaparecendo dias inteiros só surgindo véspera fora.
A mãe ralhava-lhe num discurso que sabia de cor e já nem ouvia. As irmãs, raladas umas, outras nem tanto, dividiam-se entre o incondicional apoio à mãe ou ao mano rebelde:
- Sílvio por onde andaste? – Perguntava Auzenda em tom azedo e ríspido como era seu timbre, sempre que a vítima era o varão, enquanto enxugava as mãos sapudas e molhadas num pano negro.
O costumado silêncio enfurecia-a:
- Estou farta deste traste. Nem escola, nem trabalho, nada… É um valdevinos…
- Oh mãe, não diga isso. Sempre que precisa dele, ele está por aí – desculpava-o a mana mais nova, enquanto afagava a barriga volumosa do fim duma gravidez indesejada e acidental.
A escola para Sílvio fora uma aventura da qual não guardara boas memórias. Nos bancos puídos de madeira de castanho sentara-se pouquíssimas vezes, preferindo o cuidado com um ninho de pintassilgo ou com a toca profunda de um coelho. Após uma breve passagem por uma escola das redondezas, não fosse a professora da terra exigente demais, acabou por desistir e apenas aprendeu a escrever o seu nome com dificuldade.
Os seus verdadeiros amigos eram por isso os animais, especialmente as cabras e os pombos, que ele criava com carinho e ralação. As gaiolas permanentemente abertas permitiam que as aves columbinas durante todo o dia voassem numa liberdade que ele jamais privara. À noite retornavam ao poleiro aguardando que Sílvio lhes trouxesse a costumada dose de farelos com milho e pão duro previamente demolhado. O tratador conhecia-os a todos e a cada um deles dedicara um nome: Farrusco, Farelo; Bico Torto… Quanto às cabras dominava-as como poucos e nem a irreverência natural dos animais lhe fazia frente. Bastava um assobio e os caprinos largavam o pasto e acorriam com ligeireza para perto do jovem pastor. Saía de casa sempre cedo, muitas das vezes nem o Sol despontara e já ordenhava as cabras sem crias ou carregava a manjedoura de feno e favas. Depois largava na cozinha, negra e suja, o tarro repleto e partia em busca do seu mundo. Seguia-o um cão, o qual tratava por Baixinho por ser minúsculo e rafeiro, de cor cinza, aqui e ali salpicado de preto. Mais um amigo incondicional e atento. E fiel…
O pai de Sílvio era carpinteiro de profissão e partia todos os anos assim que a Primavera surgia para terras de Espanha. Por lá andava aos meses, deixando na mão da Maria Auzenda a responsabilidade de tomar conta da casa e educar o descendente. Quando regressava, fugindo às intempéries castelhanas, adorava ver o seu rapaz cada vez mais crescido, quase um homem.
Juntos percorriam caminhos e carreiros ao redor do povoado durante todo o dia. O eucalipto da Ribeira Nova tombara finalmente, as oliveiras vergavam ao peso da azeitona quase madura, o chão da coxa fora vendido a alguém de fora; ou então nada diziam e caminhavam durante tempos infinitos em silêncio, gozando cada um a presença do outro. Uma simbiose quase perfeita que Auzenda não colhia mas invejava.
O Inverno chegara mais cedo. Primeiro viera o frio que penetrava na pouca roupa e arrefecia os corpos magros. Depois o vento que sacudia a aldeia com rajadas sucessivas quase sempre acompanhadas por chuva forte que tombava em revoadas diluvianas. Finalmente arribou a neve branca em flocos, que descia do céu negro como por magia.
Nascia uma dessas manhãs bravias de frio e chuva. Sílvio levantou-se madrugador e despachado. Vestiu a velha e surrada camisa, entrou nas calças de surrobeco rijo e pobre, alcançou a jaqueta e enfiou a boina na cabeça quase rapada.
Na cozinha procurou na arca costumada, um naco de pão duro e da gaveta da mesa retirou o resto de chouriço. Devorou tudo com gosto e prazer, partindo então em busca dos seus companheiros.
Abriu a gaiola dos pombos mas estes mantiveram-se imóveis. A madrugada ainda não clareara e o jovem não os brindara com a habitual refeição matutina. Alvoraçou-se a gaiola assim que o moço surgiu com os comedouros.
Depois foi a vez das cabras que se ajeitavam ao som dos passos do tratador. Manjedoura cheia, pias repletas, num ápice os animais tratavam de limpar a comida.
O dia queria despontar por detrás da serra mas as nuvens escuras encastelavam-se e teimavam em cobrir o sol arrepiado. A noite fora de temporal. Fios de água corriam pelos beirais até ao chão onde juntando-se a outros cresciam em pequenas levadas.
Libertadas da cerca, as cabras ocuparam o caminho sabendo qual a direcção a tomar. O soar metálico dos chocalhos deixava-se ouvir por todo o pópulo. Uma vara de marmeleiro e o costumado companheiro canino seguiram à distância o rebanho irrequieto. Duas corridas e chegou-se mais perto controlando as diabruras de cabras e filhos.
Sílvio afastou-se do povoado como era seu hábito. Palmilhou os carreiros com à-vontade. Sempre que uma cabra fugia do rebanho lá soava um assobio que a colocava junto às outras. Naquela manhã o jovem escolhera o Bosque das Luzes para pastar o gado. Aquele situava-se num vale pequeno, aconchegado pelas serranias. Havia mesmo quem contasse histórias mirabolantes desse local. Mas o rapaz pouco crente, nada temia e nada entendia. Ali chegado logo procurou um poiso onde pudesse sentar e descansar não olvidando a visão sobre o prado onde o gado já pastava em sossego. O Baixinho dormitava a seu lado mas de orelha sempre atenta, não fosse o dono necessitar dos seus préstimos.
O jovem sentou-se numa pedra que colocara junto ao pé de um imponente pinheiro e recostou-se ao tronco. Cerrou os olhos e deixou-se embalar pelos chocalhos das cabras. Era daqueles momentos que Sílvio gostava. Um torpor lento invadiu o corpo e em breve dormia serenamente.
Acordou ao som de um assobio. Admirado e incrédulo no que ouvira, procurou o gado e vendo-o demasiado longe ordenou ao canito:
- Vai buscá-las, anda!
O cão entendeu a ordem e correu encosta abaixo a cumprir o mando. Por seu lado o rapaz manteve-se atento aos sons da floresta. Como nunca mais ouvisse qualquer ruído estranho, pensou que tudo não tivesse passado de um sonho. Porém novo assobio soou. Desta vez o jovem teve a certeza do que ouvira. E vinha do interior do bosque. As cabras aproximavam-se em passo lento aproveitando a erva viçosa. Assim que chegaram perto Sílvio ordenou novamente ao seu companheiro.
- Não as deixes sair daqui. Eu vou ali dentro e já volto.
Como sempre o cão entendeu a ordem e deu um latido, compenetrado na sua função de guarda.
O jovem penetrou então no bosque sem receios. Conforme caminhava a mata adensava-se com as giestas a tomarem conta do espaço entre os pinheiros, sobreiros e alguns eucaliptos. Andou algumas centenas de metros até que ouviu uma vez mais o silvo. Agora muito mais próximo. Continuou a deambular pelo bosque até que lhe pareceu vislumbrar por entre uma folhagem uma pequena clareira. E foi aí que reparou na figura formosa que dançava no meio do pasto verde. Os cabelos cor de fogo, longos e fartos. Um longo vestido branco aqui e ali pintalgado de pequenas flores coloridas, davam-lhe um ar gaiato mas ao mesmo tempo selvagem.
Sílvio escondeu-se por detrás de um enorme penedo que fazia fronteira entre a clareira e o bosque. Saltitando e rodopiando a jovem iniciou uma cantiga:

Quando eu não te conhecia
De ti nada se me dava
Sem tormentos vivia
Sem cuidados acordava

Ora vira ao norte, vira ao norte,
Vira ao sul
Quando vira ao norte
Fica o céu azul

O jovem estava estarrecido. Em silêncio aproximou-se devagar da orla do prado, enfeitiçado pela voz da menina. Sentia-se tocado, como se alguém tivesse entrado na sua alma. Um arrepio atravessou-lhe a espinha e ganhando coragem deu força à curiosidade e apresentou-se à cachopa. Só que ela antecipou-se, quiçá adivinhando a intenção e cumprimentou apenas:
- Olá Sílvio.
Um tanto titubeante foi dizendo, meio a gaguejar, surpreendido pela facilidade da miúda:
- O… olá!
A seguir roído pela curiosidade que nunca tivera, perguntou de rajada:
- Quem és tu? Como sabes o meu nome?
Notando-lhe um sorriso meio trocista na face alva, continuou:
- Eu não te conheço…
A voz feminina surgiu como uma melodia:
- Conheço-te bem e aos teus pombos e às cabras que estão à entrada da floresta.
- Mas quem és tu?
- Eu sou a Cecília…
Rapidamente comentou:
- Não conheço. Quem é a tua mãe?
Na aldeia quando não se conhecia uma pessoa, pergunta-se pelo pai, mãe ou avó. Todos têm alguém que se conhece:
- A minha mãe é a Lua.
_ Hem?
- O meu pai é o Sol e sou neta do vento da tarde e da brisa matinal.
Para o jovem esta conversa criava-lhe muita confusão. Lua, Sol, vento e brisa eram coisas que ele conhecia de sobra, mas não havia ninguém com aqueles nomes na aldeia, pelo menos que ele soubesse:
- Oh, tás a mancar comigo…
E virou-se para entrar na floresta. Preocupava-o o gado. Mas numa corrida Cecília colocou-se à sua frente barrando-lhe o caminho.
- Já vais?
- Já!
- Porquê?
- Porque tás a brincar comigo…
- Sílvio, não estou a brincar. Já te disse como me chamo.
- Sim, mas o sol, Lua, brisa, vento?
- Sim é a minha família.
O rapaz olhou-a de frente como jamais fizera a alguém e viu então no seu olhar o azul do céu. Pela primeira vez Sílvio teve medo. Não sabia o que dizer e as coisas que ouvira toldavam-lhe o pensamento como uma nuvem plúmbea. Finalmente recompôs-se e voltou ao questionário:
- Mas onde vives?
- Vivo na mata, rodeada pelos coelhos, lebres, algumas cobras, sapos, rãs, corujas, melros, cucos…
A conversa agradava-lhe agora. Entrou no jogo.
- Eu também gosto de bichos. No ouriço é que não pego, pica que se farta.
- Pois pica – confirmou a miúda – E o lacrau?
- Vi um debaixo de um molho de feno e por pouco não me mordeu…
E ali ficaram os dois a conversar dos animais que conheciam e que mais gostavam. Sílvio nem deu pelo tempo passar, só reparou que o sol se escondia por detrás da Colina da Louca. Finalmente decidiu:
- Tenho de ir. Faz-se noite daqui a poucochinho. Mas gostei de falar contigo.
- Eu também.
- E amanhã estarás cá?
- Não sei, talvez…
O rapaz ia a entrar na floresta, quando de repente virou-se para a amiga e perguntou-lhe de supetão:
- Quem és tu?
- Eu? Sou uma fada…
E adivinhando a perplexidade, acrescentou:
- Não acreditas?
E perante o silêncio, concluiu:
- Sou a fada das Luzes!
Sílvio partiu por fim. Já fora da floresta regressou com as cabras e o Baixinho a casa enquanto comentava baixinho:
- Fada das Luzes? È tonta a cachopa…
Pela primeira vez o jovem pastor entrou em casa a cantarolar:

Quando eu não te conhecia...

 

 

 

 

Também publicado aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por José da Xã às 00:54

Segunda-feira, 26.03.12

Contos Breves - A Lua, amiga e confidente - XXXVIII

Eugénia deitou-se. Desde as 6 da manhã que andava a pé, num afã costumado e cansativo. Nem as refeições eram momentaneamente repousantes. Havia sempre alguém da casa que clamava e exigia a sua presença.
Puxou o lençol para cima e tapou-se. Não era que tivesse frio, porém fora um hábito que adquirira desde criança. Pela janela escancarada viu a Lua, sua amiga e confidente, que do alto do firmamento negro ouvia em silêncio a mulher triste desabafar, quase em surdina:
- Um dia parto... Sem destino.
E após um longo silencio continuou:
- ... Parto para longe, onde ninguém me conheça...
A confissão quase ameaça era, havia muitos anos, repetidamente a mesma. Mas ia ficando, sempre. Primeiro porque os gaiatos exigiram cueiros e cuidados permanentes. Mais tarde pretendiam batas limpas e asseadas na escola e agora crescidos nem sabia porquê, tudo servia de razão para ficar mais um dia, uma semana, um mês. E este último somado a tantos outros entornavam-se em anos e anos e anos…
A noite cálida e serena não trouxe consigo nenhuma brisa. Durante todo o dia um sol tórrido quase queimara as entranhas de um povo corajosamente sofredor, carregando aos ombros fardos de canseiras e fomes.
De súbito pareceu ouvir um leve arranhar no lado de fora da  porta do quarto. Sabia de antemão quem era, mas fez que não ouviu. Sem resposta, insistiram em bater ao de leve. Mas Eugénia manteve-se em profundo silêncio aguardando que do outro lado a julgasse já a dormir. Porém a insistência manteve-se e ela não teve outro remédio senão responder:
- Entre!
A porta abriu-se devagar rangendo nas velhas dobradiças e da penumbra surgiu um homem já de provecta idade. O cabelo branco e ralo cobria-lhe parte da fronte num desalinho, vestia um pijama surrado, de mangas puídas e muito curto. Nos braços, até onde se podia ver, a pele flácida e enrugada caia-lhe como de pedaços de carne a mais. Aproximou-se de Eugénia e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Posso deitar-me aqui a teu lado?
A sopeira pode sentir então o odor nauseabundo que exalava do patrão. Uma estranha mistura de vinho, aguardente, alho e suor. Um pegulho que a enojava!
Mas nada disse. Deixou-se ficar, olhando a Lua, sua amiga e confidente. O homem, não obstante o silêncio da criada, teimou em invadir o leito. Mas desta vez apenas pretendia companhia:
- Desculpa, mas hoje não me apetece dormir sozinho... Não te importas que aqui fique?
E chegou o seu corpo à sopeira:
- Só assim, está bem?
Não estava bem, mas que podia ela fazer? A mulher teve pena daquele homem, sempre tivera. Desde o primeiro dia que ali entrara, havia muitos anos.
O fidalgo era descendente de uma rica família com origens no princípio da história do país. O seu avô, D. Acácio, tivera apenas três filhos: Clemência, Francisco e Amândio. A rapariga fora a mais velha dos irmãos; solteirona por convicção, gozara a vida até morrer. Imensos romances com diferentes epílogos, haviam partilhado a sua companhia contra a vontade férrea porém impotente de um pai austero, que acabou por considerar a filha como uma reles meretriz:
- Criei eu uma mulher para ser uma senhora e não uma galdéria pronta a encafuar-se em qualquer alcofa. Que pouca vergonha... Uma desgraça.
Quanto a Francisco, pai de D. Miguel, seguira as pisadas do antecessor e dedicara-se com êxito aos negócios agrícolas. Por sua vez, o mais novo perdera tempo e dinheiro em casinos e bordéis. Jamais casara e acabaria por perecer numa rixa, na feira de S. Sebastião por desavenças que envolveu saias e um marido ciumento.
Com a morte do pai Francisco, D. Miguel herdou não só o título nobiliário como a fortuna amealhada pela família. Da tia Clemência recebeu um belo palacete onde passou a viver e mais alguns nacos de terra fértil. De Amândio nada herdou. Tudo se evaporara...
Rico, solteiro e naturalmente bem parecido, num ápice o fidalgo passou a ser um candidato perfeito a marido, muito disputado pelas raparigas solteiras das redondezas. Porém só a Maria Violante conseguiria levá-lo ao altar. Conta-se que o sogro pagou uma grossa maquia para que Miguel aceitasse a jovem para sua esposa.
Realmente a noiva não era feia, bem pelo contrário. Mas exibia um estupor de um feitio que afastava qualquer candidato a marido. De ideias fixas, raramente dava o braço a torcer. Inflexível, arrogante e teimosa foi com incontida alegria que o pai viu partir a filha para a casa do genro. Confessaria um dia mais tarde numa roda restrita de velhos amigos:
- Foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida! Desgraçado é do D. Miguel que tem de a aturar.
Todavia nos primeiros anos o casamento parecia quase perfeito. Foi o tempo de nascerem as crianças: três. Tal e qual o seu avô Acácio, dois rapazes e uma rapariga. Entretanto Maria Eugénia, ainda muito jovem, com pouco mais de doze anos, entrou ao serviço do casal, com a principal função de tomar conta dos gaiatos. Nessa altura já D. Miguel escapava sempre que podia de casa, enquanto a esposa se preocupava em caricaturar as vidas das vizinhas, em chás recheados de maledicência e coscuvilhice. A relação entre os cônjuges deteriorara-se abruptamente. O homem trocara uma postura alegre e acolhedora, pelo silêncio, rematado com uma tristeza permanente. Violante passou a usar e abusar da sua prepotência para desancar medonhas reprimendas na criadagem, como forma tristemente compensatória da sua vida medíocre.
Foi neste arruinado ambiente que Eugénia acabou por crescer. Também ela necessitava de carinho e algum consolo, principalmente após a morte recente da mãe. Mas no velho palacete teve de aprender à força a ser a mãe extremosa dos inocentes, a criada solícita da patroa, a governanta competente da casa e finalmente a amante fiel de D. Miguel...
Adormeceu por fim a mirar a Lua, sua amiga e confidente, sentindo nas costas o bafo quente e envinagrado do patrão. Quando acordou já a alvorada penetrava pela janela com se fosse uma carícia. Estranhamente sentiu ainda a seu lado o fidalgo. Estava tão sossegado que nem o ouvia respirar. Era a primeira vez em muitos anos que D. Miguel se deixava ficar na sua cama até de manhã.
Receosa do que poderia a patroa saber e pensar, resolveu então partir. A ameaça tantas vezes arremessada entre dentes transformara-se numa oportunidade única. Em silêncio, não fosse o fidalgo dar conta, amontoou os seus parcos pertences e encafuou-os numa cesta de verga comprada na feira de S.Bernardo. Arranjou-se, sempre em silêncio e saiu do quarto.
Fechou a porta devagar e desceu a frondosa escadaria. As tábuas velhas do soalho centenário rangiam à sua passagem, mas ninguém desconfiou da sua partida. Abriu a pesada porta e saiu. A manhã crescia por detrás das copas dos pinheiros que envolviam a imensa propriedade. Rodilha à cabeça lançou com perícia a cesta para o cimo, rodou-a um pouco para equilibrar e partiu. Depressa alcançou o caminho para a estação de comboios. Era ali que escolheria um novo destino para a sua vida. Nem sabia se para cima ou para baixo. Jamais saíra da aldeia. Punha o seu destino na Lua, sua amiga e confidente, que o Sol da manhã já não deixava antever mas que ela sabia que estava lá, colada ao firmamento, e ela que decidisse.
Entretanto no velho solar D. Miguel jazia naquela que fora durante muitos anos a cama de Maria Eugénia.
Em silêncio. Morto …

 

Também publicado aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por José da Xã às 22:17


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Setembro 2017

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes