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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Domingo, 20.12.15

Perfume de Natal

O telefone de secretária com demasiados botões tocou. Ataíde foi repentinamente despertado da concentração que depositava nuns documentos, ergueu o olhar e carregou no botão de alta-voz:

- Diga Lucinda…

- Senhor engenheiro… são sete horas, é véspera de Natal e ainda tenho de ir fazer o jantar de consoada…

O patrão percebeu e avançou:

- Desculpe por a ter demorado tanto. Está dispensada… Até depois de amanhã!

Um silêncio profundo foi-lhe devolvido. Por fim chamou:

- Lucinda!

- Estou aqui senhor engenheiro.

- Ainda está aí? Vá-se embora… e… Feliz Natal!

- Obrigado senhor engenheiro. Um Santo Natal também para o senhor!

A chamada interna desligou-se e Ataíde pode regressar à leitura. Porém a interrupção tirara-lhe o foco nos papéis e percebeu que era tempo de fechar o escritório. Reviu os mails e acabou por desligar o portátil. Depois pegou na mala preta, encheu-a de documentação, apagou a luz e saiu.

O trânsito àquela noite tendia a diminuir. Alguns retardatários corriam para casa onde a ceia certamente os aguardava.

Do escritório até à garagem onde costumava estacionar o carro, Ataíde caminhou devagar e foi pensando na sua vida. Empresário de sucesso ainda assim não era feliz. A mulher trocara-o havia uns anos por outro. Os três filhos viviam cada um seu lado, sendo que a mais nova ficara com a mãe. Deste modo regressaria a uma casa vazia.

Pairavam no ar diferentes aromas… a Natal. Fosse da pastelaria quase encerrada ou das casas particulares a verdade é que dançava no ar frio da noite um perfume…

O engenheiro encheu o peito de ar tentando absorver toda a áurea daquela noite mágica para tanta gente. Mas o perfume acordou algo dentro de si. Sentiu um arrepio… Não era do frio mas algo diferente, estranho, invulgar e que lhe atormentava o coração.

- Bolas, cheira-me a quê?

Parou e rodou para perceber que cheiro era e donde vinha. Mas o vento sempre desigual ora trazia o cheiro de um lado ora de outro… Poisou a mala no chão, fechou os olhos e procurou no fundo de si mesmo aquele odor.

Devagar foi recuando no tempo… Até que chegou à mocidade vivida numa aldeia do planalto transmontano. Lembrou-se dos antigos Natais passados com os avós e os tios e uma troupe de irmãos e primos irrequietos. Continuou a recuar…. Até que encontrou quiçá uma referência. Lembrou-se daquele Natal em casa dos compadres dos pais com os amigos Adelino e Ilídio dois gémeos quase inseparáveis.

Sorriu! Lembrava-se tão bem dessa noite… E das brincadeiras… Do lume enorme e quente, das alheiras assadas e do botelo cozido acompanhado de cascas. Decerto havia ali por perto um transmontano a comer provavelmente o mesmo.

Nesse mesmo instante teve uma ideia... estúpida ou talvez não. Pegou no telemóvel e buscou um número. Encontrando-o ligou. Atenderam:

- Está João boa noite! Desculpa a hora tardia mas responde-se a uma questão: o meu avião tem combustível?

- Claro! Está sempre pronto a sair!

- Tem? Ok… Prepara-o que vou para aí agora!

- A esta hora? Não se esqueça que hoje é véspera de Natal… tenho gente à minha espera.

- Não me interessa nada… Assim que eu levantar podes sair.

Apressou o passo até ao carro de alta cilindrada adquirido um mês antes. Já na estrada enquanto tentava fugir ao trânsito tricotando por entre os carros, ligou aos filhos. Nem um nem outro o atenderam. Já calculava… Faltava a mais nova... Ligou:

- Boa noite papá!

- Boa noite Maria. Como estás?

- Estou bem… E tu?

- Também estou bem!

A pergunta era obrigatória. Por isso Ataíde atirou:

- Então onde vais passar o Natal?

Um silêncio. O empresário pensou ter perdido a chamada. Teimou:

- Estás aí Maria?

Finalmente a resposta:

- Estou sim papá. E quanto ao Natal estou… com uns amigos. Muito longe… - respondeu a medo.

- Não estás com a tua mãe?

- Não! Ela partiu ontem para o Brasil… com o novo namorado!

- Hum entendo! Pronto… era só para te desejar uma boa consoada!

- Obrigado papá. Feliz Natal!

A chamada desligou-se para logo a seguir tocar. Era o filho mais velho:

- Boa noite Renato… estás bom?

- Estou… e o pai?

- Vou indo… Era só para te desejar uma boa consoada…

- Obrigado pai… Olhe está aqui também comigo o Vasco…

Ataíde nem reagiu. Sabia que o filho mais novo não se dava com ele e por isso apenas observou:

- Deseja-lhe também um bom Natal.

E desligou. O aeródromo aproximava-se a passos largos. Demorara menos tempo do que julgara a chegar e assim poderia dispensar o amigo mais cedo que o previsto.

- João, assim que eu levantar podes ir.

Deu-lhe um abraço e espetou-lhe com uma nota verde na mão.

- É para comprares champanhe para o teu jantar! Obrigado!

Saltou para dentro da sua aeronave que já não conduzia havia algum tempo e tratou de preparar tudo para a partida. Assim que teve ordem levantou vôo.

Entretanto enquanto aguardava pela autorização para penetrar no espaço, ligou uma vez mais:

- És tú Lúcio? Daqui Ataíde… Estás bom?

- Ataíde? Que se passa?

- O aeródromo já está fechado?

- Já, porquê?

- Porque vou para aí no meu avião… e preciso de aterrar.

- Mas não podes…

- Deixa-me as luzes ligadas da pista.

- Não posso…

- Ouve… daqui a duas horas estou aí… Faz-me esse favor…

- Sabes que hoje é véspera de Natal… E tenho cá a família que veio da França…

- Imagino, mas tenho de chegar aí ainda hoje. Vá… deixa-me aterrar aí…

Um silêncio fez Ataíde temer o pior. Lúcio veio finalmente à linha.

- Ok… Vem lá. Mas ficas-me a dever uma.

- Fico de bom grado. Só mais uma coisa… Arranja-me também um táxi…

- Mais nada? Uma guincha, um escrinho…

Ataíde acabou por rir. Havia tempo que não ouvia aquelas expressões.

- Não, não é preciso mais nada.

Já no ar o empresário reviu uma vez mais toda a sua vida. Um casamento com três filhos mas quase sempre ausente. Uma mulher que o traíra e os filhos distantes. Era estupidamente rico em bens e dinheiro porém pobre em calor humano. Por isso aquele perfume despertara em si sensações que não sentia havia muito tempo.

Naquele fim de tarde, início de noite, decidira não ficar sozinho… Nem que para isso tivesse que fazer muitos quilómetros. Regressar às origens provavelmente nem seria mau. O problema era perceber como seria acolhido… Havia anos que não via o irmão Telmo. Nem a irmã Lurdes. Só o Carlos é que lhe aparecia no escritório apenas para lhe pedir dinheiro emprestado, que ele nunca recusava.

Quando viu as luzes da pista o coração quase saltou. Olhou o relógio e percebeu que se demorara mais do que seria de esperar. Aterrou com a suavidade de um perito e parou a aeronave logo que pode. Correu para a saída onde Lúcio o esperava. Um abraço selou o agradecimento:

- Estás na mesma rapaz… Não te fazes velho – disse Ataíde.

O outro riu-se e mostrou então uma boca quase sem dentes.

- Obrigado. Vai-te lá embora… que tens o táxi à espera.

Nova nota quase caiu na mão do amigo mas este recusou.

- Nem penses…

- Obrigado!

No táxi começou a medir as consequências daquela sua repentina viagem. E se não estivesse ninguém  casa? Ou visse má vontade em recebê-lo. Nem uma garrafinha de vinho… para amostra, ele trouxera. O trânsito àquela hora era pouco mas o carro andava devagar devido ao gelo na estrada. Estava realmente muito frio. Meia hora depois chegou ao destino. Pagou ao condutor e agradeceu. Finalmente na aldeia.

Pairava no ar um forte aroma a lenha queimada, misturada com os restantes perfumes da época. Ao longe ouviu gargalhar ao mesmo tempo que um cão ladrou. Olhou o enorme portão da casa do irmão e que fora do seu avô e tentou empurrá-lo. Percebeu que estava fechado. Lembrou-se então do truque e meteu a mão por dentro e levantou o engate de ferro. O portão ferrugento mas pesado gemeu e abriu-se.

Um gato parecia espiá-lo em cima do muro de pedra mas alguém ouvira o ranger e veio à rua ao cimo da enorme varanda:

- Quem está aí?

Ataíde conheceu a voz da cunhada e disse então baixinho:

- Júlia, sou eu o Ataíde.

Júlia acendeu a luz do pátio e colocou a mão na boca. Desceu as escadas para cumprimentar o cunhado e foi dizendo:

- Tu aqui? Eras a última pessoa que esperava ver hoje. Mas preciso de te dizer uma coisa antes de entrares em casa…

- Não digas nada… por favor. Quero aparecer de surpresa ao meu irmão. Sei que el ficará contente em me ver…

Júlia cumpriu o pedido e seguiu atrás de Ataíde. Este subiu as escadas e penetrou na casa ampla. Cheirava ao tal perfume… Caminhou devagar e finalmente entrou na enorme sala onde à volta da mesa se sentava muita gente. O silêncio abarcou os convivas. O transmontano reconheceu então muitas pessoas, especialmente os três filhos.

Duas lágrimas rolaram pela face. O perfume do Natal que ele teimosamente viera tão longe procurar tinha finalmente um nome.

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por José da Xã às 00:06

Sexta-feira, 26.06.15

Contos tontos! - 8

O trânsito impedia que os carros andassem com fluídez. Parou no sinal vermelho. À sua frente, na passadeira, muita gente a atravessar a larga avenida. Entre a amálgama de pessoas reparou num homem que em passo decidido cruzava a estrada. Conheceu o seu passo, a postura...

Abriu a janela e chamou:

- João... João...

O homem parou, olhou ao redor e preparava-se para seguir quando ela apitou. Ele voltou para trás e espreitou para dentro do  carro.

- É comigo?

O sinal passara a verde. Ela ligou os 4 piscas e respondeu:

- Claro João... Não te lembras de mim?

- Desculpe mas deve ser engano...

- Impossível João não te lembrares de mim. Sou a Clara... Andámos juntos na escola... no Liceu...

O homem olhou para trás com receio dos carros que ultrapassavam a viatura imobilizada e respondeu:

- Lamento mas não a conheço.

Ela voltou ao ataque:

- Pergunta à tua irmã se não se lembra de mim?

Ele enfiou mais a cabeça dentro do carro e esclareceu:

- Minha senhora, lamento comunicar-lhe que sou filho único!

As últimas palavras foram ditas com tanta certeza que ela acabou por pedir desculpa e partir.

O homem atravessou finalmente a avenida e por fim ligou o telemóvel.

- Estou Alice? Nem imaginas quem vi agora? A Clara...

- Quem? A tua paixão de juventude?

- Essa mesmo.

- E que queria ela?

- Que eu me lembrasse dela...

- E lembraste-te?

- Não. Sou muito selectivo nas minhas recordações.

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por José da Xã às 19:49

Quinta-feira, 25.06.15

Contos tontos! - 7

Era uma daquelas tardes brandas que o Verão sabe oferecer. O sol acariciava o pópulo de forma serena.

Dois jovens namorados caminhavam devagar nos trilhos desenhados no imenso parque. De mãos entrelaçadas, falavam de trivialidades nada interessantes para o comum dos mortais mas essenciais para eles.

Procuravam um banco para se sentarem. Mas os que foram surgindo estavam todos ocupados! Aqui três idosos relembravam tempos passados. Mais à frente uma jovem universitária parecia estudar grossos compêndios. Do outro lado duas idosas tentavam dirimir um conflito entre duas amostras de cães que teimavam em se zangarem um com o outro..

E os jovens caminhavam.

Logo à frente diversas senhoras teciam nacos de algo enquanto desfiavam longas conversas. Num outro banco um sem abrigo dormia ao sabor da pacata tarde.

Finalmente o tão desejado banco. Sentaram-se os jovens e voltaram a entrelaçar-se um no outro. Mesmo ao lado outro casal, este já de longa e provecta idade, parecia também namorar.

A jovem foi a primeira a reparar. E chamou-o à atenção. Ambos riram à sucapa. Perguntou ela:

- Será que daqui a muitos, muitos anos também namoramos assim?

Resposta pronta:

- Claro! O nosso amor é eterno!

Ela sorriu, respondeu que sim mas simplesmente não acreditou!

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por José da Xã às 08:20

Segunda-feira, 22.06.15

Contos tontos! - 6

Pegou na chávena com a mão direita, entrelaçou o dedo indicador na asa mas foi com a mão esquerda que conseguiu levar a chávena à boca. Ainda assim tremia...

A doença de Parkinson tornara-se tão evidente que já não conseguia esconder. Assumiu por isso o mal como algo normal. Também a cabeça já dava sinais evidentes da doença.

Devagar bebeu o chá quente enquanto olhava para a paisagem que se abria à frente da sua janela. O dia morria lentamente. No horizonte as cores variavam entre o amarelo e o laranja coladas a um anil perfeito.

De dentro da casa ouviu alguém chamar pelo seu nome:

- Doutor Acácio...

Já sabia para o que era... Os medicamentos... Aqueles que o punham a dormir e o inibiam de olhar aquele horizonte.

- Doutor Acácio...

A voz feminina apareceu por detrás e ele nem se incomodou a olhar para ela. 

- Estão aqui os comprimidos para tomar. Vá, vamos lá!

Não se mexeu. A enfermeira deu a volta ao cadeirão e colocou-se defronte do idoso. Foi com a serenidade que a idade o permitia que o doente declarou:

- Durante dezenas de anos mantive esta casa de pé. Ninguém fazia nada sem me perguntar primeiro a minha opinião. Fiz fortuna sim mas nunca esbanjei um tostão.

Finalmente olhou fixamente para a jovem e terminou:

- E foram os meus filhos, que nunca fizeram nada na vida, contratá-la somente para me tapar a paisagem. Desvie-se... deixe-me ver o pôr-do-sol.

A enfermeira desviou-se, rodou nos calcanhares e ficou outrossim a mirar a paisagem.

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por José da Xã às 21:49

Quarta-feira, 17.06.15

Contos tontos! - 5

- Lembras-te quando namorámos as tardes tão saborosas que passámos?

Ele olhava para o portátil e parecendo distante disse:

- Isso foi há tanto tempo. Ainda te lembras?

- Se me lembro... Tenho tantas saudades desses dias... bons!

Ele recostou-se no grande cadeirão e erguendo os olhos do computador, perguntou:

- Gostarias de repetir?

Os olhos dela incharam-se de alegria e devolveu:

- Claro que sim... E tu não?

- Eu também. Mas para isso tens de largar os comprimidos que te estão a definhar.

Ela baixou os olhos repentinamente e iniciou uma torrente de lágrimas.

Ele não se enterneceu com o choro. Era sempre assim!

Quando parou, recomeçou como se nada tivesse passado.

- Lembras-te quando casámos as nossas noites de leituras...?

Ele olhou-a com rispidez e respondeu, seco:

- Lamento, mas já não me lembro!

 

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por José da Xã às 21:43

Domingo, 14.06.15

Contos tontos! - 4

Ela olhou-o gulosa. Era uma mania, ela sabia, aquela tentação por homens mais velhos. Mas nunca evitava um olhar frontal.

No entanto este fora diferente... Muitos, quando ela os olhava assim de frente, fugiam com o olhar chegando mesmo a corar. Mas aquele...

Aceitara o olhar como se fosse a recompensa de alguma coisa que nem ele sabia. Mas ao mesmo tempo sentiu o peso do seu olhar adversário e foi a vez dela fugir ao confronto.

Na esplanada apenas eles os dois, em campos opostos!

Ela levantou-se serenamente e foi-se sentar na mesa dele, no lugar defronte. Ele, após a devolução do ataque visual, embrenhou-se no jornal.

- Boa tarde sou a Mónica!

Ele atirou-lhe novo olhar que ela temeu. Mas não desistiu:

- Porque me olha assim... dessa forma tão fria e distante!

Calmamente dobrou o jornal, levantou-se do lugar e antes de sair, perguntou :

- Sabe o que é o amor? Calculo que não!

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por José da Xã às 19:17

Quinta-feira, 14.05.15

Contos tontos!

Foram anos e anos a procurar a mulher. Sempre ocupada, indisponível, ausente...

Até que um dia ele cansou-se.

Procurou então noutras alcofas a forma de matar o desejo.

Até que ela descobriu.

Mas a partir desse dia passou a estar disponível e pronta para aceitar o marido.

Tarde demais!

Ele perdera para sempre o desejo daquela mulher.

E ela perdera a hipótese de ser finalmente amada.

 

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por José da Xã às 23:41

Quarta-feira, 28.01.15

O amigo Rafa

A fama do canito do José Trapas havia ultrapassado e muito as fronteiras do concelho. O animal em causa não tinha uma raça bem definida, era feio como uma noite de tempestade, todavia simpático e muito competente no que se referia à caça!

Por diversas vezes, quando o dono se dignava acompanhar os outros caçadores, era vê-lo em busca de coelhos e lebres. Enquanto os outros cães ladravam tentando assustar a caça, Rafa embrenhava-se, qual furão, debaixo das pedras ou penetrava num silvado mais fechado fazendo saltar com rapidez os animais, para enorme gáudio dos caçadores:

- Como este animal nunca vi nenhum… - afirmava um.

- Será que o ti’ Zé Trapas mo vende? – assumia outro o interesse.

Mas o aldeão gostava pouco das referências ao seu cão. Recolhera-o ainda cachorro num velho palheiro, alimentara-o e mimara-o desde sempre. Era um verdadeiro amigo que ali tinha. Viúvo havia muitos anos Zé acabou por encontrar no Rafa a companhia ideal. E o cão jamais abandonava o dono, fosse para onde este fosse.

De pêlo amarelado, emaranhado e comprido, Rafa tinha todo o aspecto de um puro rafeiro sem eira nem beira. Nem manso nem bravo o canito respeitava o dono e a sua vontade. Conseguia perceber o que Zé lhe mandava fazer e obedecia-lhe com competência. Dormiu muitas noites debaixo do alpendre que dava guarida à porta mas depressa passou para dentro de casa fazendo companhia nas noites frias de Inverno.

Um dia antes da época da caça iniciar, bateram à porta do Zé que tentava sem qualquer dente, roer uma castanha crua. Este escancarou a porta e deparou-se com o Juvenal, um velho amigo da época venatória e não só. Surpreso, convidou a visita:

- Entra Juvenal, fica à vontade – e apresentou-lhe uma cadeira – Que te trás por cá?

- Obrigado amigo Zé, mas vou direito ao assunto: quanto queres pelo teu cão? Amanhã começa a caça e eu estou disposto a dar bom dinheiro por ele.

Admirado com a proposta de negócio, devolveu:

- Tu achas que o meu cão está à venda? Nem pensar…

O outro destapou a cabeça desvendando uma calva lisa e lustrosa, coçou-a com a mão esquerda, mas não desistiu:

- Mas não passa de um cão… É um animal… E eu pago bem!

Retirou do casaco sebento e puído uma velha e gorda carteira e mostrou um conjunto de notas prontas a passar de mão. Assim acedesse o Trapas.

- Não, para mim não! O Rafa é um amigo! E eu não vendo os amigos por dinheiro nenhum…

O outro percebeu que provavelmente o negócio não se fazia. Mas desistir não estava nos seus planos. Insistiu:

- Espera aí tu achas que o animal vai viver para sempre. Um dia fica aí debaixo de um qualquer carro de animais… e depois nem dinheiro nem cão.

- E o que tem lá isso? O Rafa é meu não o dou nem o vendo por dinheiro nenhum.

Juvenal não pretendia desistir e por isso mudou de estratégia:

- Então pronto, não me queres vender o cão… estás no teu direito. Mas pelo menos podias emprestar-me para amanhã ir à caça.

Zé olhou para a visita, franziu o sobrolho e perguntou:

- Tu não estás a falar a sério, pois não?

- Claro que estou. Preciso de um cão para ir comigo à caça… E só me lembrei do teu. Ainda te dou dinheiro por cima…

- Mas porventura ter-te-ás esquecido que o Rafa é para mim o meu melhor amigo. E como já te disse a amizade não se compra nem se empresta e muito menos se aluga.

O duelo parecia renhido. O Trapas estava decidido a não largar o seu cão e Juvenal não pretendia um não como resposta. Serenamente o Zé chegou-se próximo da visita e perguntou-lhe:

- Tu ainda estás casado com a Lucinda?

- Ó Zé tu sabes que sim. Que pergunta essa…

- E tu e a tua mulher sempre foram meus amigos?

- Claro. Alguma vez duvidaste?

- Não, não, nunca.

- Então… porque perguntas?

- Bom Juvenal… - e tossiu um pouco como quisesse aclarar a voz – a minha mulher morreu faz daqui a meses, dez anos…

- Já… - interrompeu o outro – parece que foi ontem.

- E desde essa altura nunca mais soube o que era ter uma mulher… Entendes?

- Sim. Mas onde pretendes tu chegar?

- Alugas-me… nem que seja por um dia a tua mulher?

O outro quase caiu da cadeira, tal foi o choque da proposta escutada.

- Tu estás completamente doido? Mas que ideia é essa?

- Tão doido quanto quereres o meu cão.

- Mas… mas… são coisas diferentes- gaguejava.

Foi o momento de Zé Trapas se sentar defronte da visita e explicar-lhe:

- Como deves calcular eu não necessito da tua mulher. Serviu este pedido para te fazer entender que na vida o dinheiro não é tudo! E a amizade, mesmo vindo de um rafeiro, vale mais que todo o dinheiro do Mundo.

Levantando-se dirigiu-se à porta, abriu-a e mostrando assim a Juvenal o lugar para onde deveria ir.

- Portanto tu não me alugas a tua mulher e eu não te alugo o meu cão – concluiu a rir.

Juvenal reconheceu finalmente que não fazia negócio e regressou a casa sem o Rafa. No entanto levou muito com que pensar!

 

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por José da Xã às 23:15

Domingo, 02.02.14

Contos Breves - O sonho de Manuel Ganha-Nada - XLIII

 

A primeira coisa que se lembrava da sua infância era a mãe, demasiado obesa para poder correr atrás dos filhos, a ralhar com um vozeirão que se ouvia na aldeia inteira.

Manuel cresceu no meio de muitos irmãos, nem ele sabia ao certo quantos! Uns já haviam morrido, outros fugiram para tão longe que jamais os viu. Poucos foram os que ficaram. A fome que diariamente o atormentava obrigou-o a buscar sustento noutro lado que não em casa. Por isso cedo começou a trabalhar para quem lhe pagasse. Todavia a maior parte das vezes só lhe pagavam com refeições que acabava por agradecer. Continuava pobre mas sem  fome…

Já homem enamorou-se por uma jovem da aldeia de nome Lurdes e rapidamente passou a viver com a aldeã numa velha casa que o sogro lhes cedera a título de empréstimo. O barraco havia sido um velho curral de telha vã e caibros quase podres. Mas com perícia e tenacidade Manuel foi remendando o lar, dando-lhe o ar mais humano e claramente mais confortável.

O jovem trabalhava de sol a sol para auferir uns parcos tostões. E ao fim do dia ainda arranjava tempo para se dedicar ao quintal que rodeava o velho casario. A mulher, para além da vida de casa, ia ajudando Manuel no que podia. E quando à noite, debaixo de uma luz parda e triste de uma candeia alimentada a azeite rançoso, o marido repousava de mais um dia de labuta, Lurdes rezava as suas orações como uma velha avó lhe ensinara. Manuel Ganha-Nada entre as orações e morfeu escutava-a e de vez em quando e observava:

- Pede a Deus que nos dê um dinheirito, o suficiente para endireitarmos a vida…

Todavia uma tosse teimosa e profunda acabou por levar-lhe a esposa em vésperas de uma Páscoa. Mas antes de falecer, a ainda jovem Lurdes, obrigou o marido a prometer que rezaria todas as noites, conforme a ouvira. E Manuel sem saber bem porquê prometeu, com os olhos rasos de água.

Desta forma, todos as noites antes de adormecer, o camponês cumpria o que prometera à esposa moribunda. Só que acrescentava usualmente um pedido da sua autoria:

- … E ajudai-me Senhor com umas moedas mais.

Ora certa noite Manuel teve uma daquelas noites tenebrosas… Um sonho inquietante viera-lhe atormentar o sono. Acordado a meia da madrugada Manuel lembrou-se do pesadelo: uma figura masculina e austera que ele não conhecia de lado nenhum, identificara-se como sendo alguém que cumpriria os mais humildes desejos de Manuel:

- A partir de hoje Manuel, quando acordares terás dinheiro debaixo da almofada. É teu. E será sempre teu, basta que tu o gastes todos os dias até à última moeda. Se deixares alguma por gastar voltarás à pobreza de agora.

Bem acordado Manuel espreitou debaixo da almofada e não viu qualquer moeda. Por isso voltou a deitar a cabeça na velha e suja almofada e tentou adormecer.

Na manhã seguinte o pobre lavrador acordou cedo como era seu hábito e lembrou-se novamente do sonho. Meio a rir, meio a sério levantou a almofada devagar… E foi com espanto que percebeu um ninho de moedas. Procurou à sua volta como estivesse em busca de alguém  mas vendo-se sozinho, acreditou no milagre.

Desta forma durante muitos e muitos dias Manuel foi vivendo conforme o dinheiro o ia deixando. E sempre que se deitava confirmava que não sobrara nenhuma moeda.

Uma noite ao deitar-se reparou que haviam sobrado apenas duas moedas. Muito pequenas por sinal... Despreocupado deitou-se na sua cama bem mais confortável que a anterior e esperou que o sono surgisse.

Mas foi mais uma daquelas noites terríveis… Novo sonho todavia a mesma personagem da primeira vez. Mas agora havia na voz a tristeza da crítica e do desalento:

- Não te disse para gastares todos os dias as moedas?

Manuel respondia no sonho:

- Só sobraram duas… E tão pequenas…

- Voltarás a ser pobre… como te havia prometido…

- Mas como poderia gastar o dinheiro àquela hora?

- Tivesses dado as moedas a alguém mais necessitado! O pobre nunca tem hora para receber…

No dia seguinte quando acordou Manuel Ganha-Nada sentiu a velha enxerga a ranger debaixo do seu corpo e logo percebeu que estava novamente pobre.

Como sempre o fora!

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por José da Xã às 22:59


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