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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quarta-feira, 28.01.15

O amigo Rafa

A fama do canito do José Trapas havia ultrapassado e muito as fronteiras do concelho. O animal em causa não tinha uma raça bem definida, era feio como uma noite de tempestade, todavia simpático e muito competente no que se referia à caça!

Por diversas vezes, quando o dono se dignava acompanhar os outros caçadores, era vê-lo em busca de coelhos e lebres. Enquanto os outros cães ladravam tentando assustar a caça, Rafa embrenhava-se, qual furão, debaixo das pedras ou penetrava num silvado mais fechado fazendo saltar com rapidez os animais, para enorme gáudio dos caçadores:

- Como este animal nunca vi nenhum… - afirmava um.

- Será que o ti’ Zé Trapas mo vende? – assumia outro o interesse.

Mas o aldeão gostava pouco das referências ao seu cão. Recolhera-o ainda cachorro num velho palheiro, alimentara-o e mimara-o desde sempre. Era um verdadeiro amigo que ali tinha. Viúvo havia muitos anos Zé acabou por encontrar no Rafa a companhia ideal. E o cão jamais abandonava o dono, fosse para onde este fosse.

De pêlo amarelado, emaranhado e comprido, Rafa tinha todo o aspecto de um puro rafeiro sem eira nem beira. Nem manso nem bravo o canito respeitava o dono e a sua vontade. Conseguia perceber o que Zé lhe mandava fazer e obedecia-lhe com competência. Dormiu muitas noites debaixo do alpendre que dava guarida à porta mas depressa passou para dentro de casa fazendo companhia nas noites frias de Inverno.

Um dia antes da época da caça iniciar, bateram à porta do Zé que tentava sem qualquer dente, roer uma castanha crua. Este escancarou a porta e deparou-se com o Juvenal, um velho amigo da época venatória e não só. Surpreso, convidou a visita:

- Entra Juvenal, fica à vontade – e apresentou-lhe uma cadeira – Que te trás por cá?

- Obrigado amigo Zé, mas vou direito ao assunto: quanto queres pelo teu cão? Amanhã começa a caça e eu estou disposto a dar bom dinheiro por ele.

Admirado com a proposta de negócio, devolveu:

- Tu achas que o meu cão está à venda? Nem pensar…

O outro destapou a cabeça desvendando uma calva lisa e lustrosa, coçou-a com a mão esquerda, mas não desistiu:

- Mas não passa de um cão… É um animal… E eu pago bem!

Retirou do casaco sebento e puído uma velha e gorda carteira e mostrou um conjunto de notas prontas a passar de mão. Assim acedesse o Trapas.

- Não, para mim não! O Rafa é um amigo! E eu não vendo os amigos por dinheiro nenhum…

O outro percebeu que provavelmente o negócio não se fazia. Mas desistir não estava nos seus planos. Insistiu:

- Espera aí tu achas que o animal vai viver para sempre. Um dia fica aí debaixo de um qualquer carro de animais… e depois nem dinheiro nem cão.

- E o que tem lá isso? O Rafa é meu não o dou nem o vendo por dinheiro nenhum.

Juvenal não pretendia desistir e por isso mudou de estratégia:

- Então pronto, não me queres vender o cão… estás no teu direito. Mas pelo menos podias emprestar-me para amanhã ir à caça.

Zé olhou para a visita, franziu o sobrolho e perguntou:

- Tu não estás a falar a sério, pois não?

- Claro que estou. Preciso de um cão para ir comigo à caça… E só me lembrei do teu. Ainda te dou dinheiro por cima…

- Mas porventura ter-te-ás esquecido que o Rafa é para mim o meu melhor amigo. E como já te disse a amizade não se compra nem se empresta e muito menos se aluga.

O duelo parecia renhido. O Trapas estava decidido a não largar o seu cão e Juvenal não pretendia um não como resposta. Serenamente o Zé chegou-se próximo da visita e perguntou-lhe:

- Tu ainda estás casado com a Lucinda?

- Ó Zé tu sabes que sim. Que pergunta essa…

- E tu e a tua mulher sempre foram meus amigos?

- Claro. Alguma vez duvidaste?

- Não, não, nunca.

- Então… porque perguntas?

- Bom Juvenal… - e tossiu um pouco como quisesse aclarar a voz – a minha mulher morreu faz daqui a meses, dez anos…

- Já… - interrompeu o outro – parece que foi ontem.

- E desde essa altura nunca mais soube o que era ter uma mulher… Entendes?

- Sim. Mas onde pretendes tu chegar?

- Alugas-me… nem que seja por um dia a tua mulher?

O outro quase caiu da cadeira, tal foi o choque da proposta escutada.

- Tu estás completamente doido? Mas que ideia é essa?

- Tão doido quanto quereres o meu cão.

- Mas… mas… são coisas diferentes- gaguejava.

Foi o momento de Zé Trapas se sentar defronte da visita e explicar-lhe:

- Como deves calcular eu não necessito da tua mulher. Serviu este pedido para te fazer entender que na vida o dinheiro não é tudo! E a amizade, mesmo vindo de um rafeiro, vale mais que todo o dinheiro do Mundo.

Levantando-se dirigiu-se à porta, abriu-a e mostrando assim a Juvenal o lugar para onde deveria ir.

- Portanto tu não me alugas a tua mulher e eu não te alugo o meu cão – concluiu a rir.

Juvenal reconheceu finalmente que não fazia negócio e regressou a casa sem o Rafa. No entanto levou muito com que pensar!

 

Também aqui

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por José da Xã às 23:15

Quarta-feira, 26.09.12

Ainda o Outono...

 

(Como prometi  José. Aqui fica com carinho e amizade.)

 

Nas nuvens, que a chuva prenunciam

e nos acessos de vento desmedidos

vê-se o alterar do tempo,

como em nós ele passa lento

e vai deixando sulcos na pele

regados por lágrimas, que como cinzel

nos modelam a face...

 

Nos lembram dos dias, que já passados

faltam menos para contar...

E isso, que importa?

Quando cá dentro, a idade, não conta

mas uma criança a pular,

de poça em poça, em pingos tão grossos,

sem ter medo de se molhar.

 

Nua, simples, ou atribulada

a vida que gostas, não dá trégua, ou escolha

terás que atrever-te, a viver

entre ventos que sopram, gotas que caem

raios de sol que te afrontam,

mas que te beijam também... Uma certeza terás.

Vais vencer. Porque tem de ser. Cada dia, que sem temer, à vida te dás. 

 

(Muito obrigado pela companhia e pelo ser humano bom que és)

 

Fátima soares/Verniz Negro

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por José da Xã às 12:36

Quarta-feira, 26.09.12

Lágrimas de outono

(mui simbólica homenagem a Verniz Negro, pela paciência e sapiência)

 

Gosto destes dias de chuva que aplacam a ferocidade

De um sol demasiado tardio inundando um imenso verão.

 

Gosto de sentir a água fria como de fonte se tratasse

Jorrando do céu plúmbeo a vida em límpidas gotas.

 

Gosto do silvo sibilante do vento debaixo da fresta

Traz-me novas do outono feito de castanhas e vinho.

 

Gosto sim de me molhar e perceber no ar revolto

O perfume da terra molhada a pedir fria enxada

 

Gosto de ti simples, nua, como tu vida sabes ser.

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por José da Xã às 00:02

Quarta-feira, 04.07.12

Sentidos dos Dias - Planos e dúvidas VII

Pedro Rafael sonhava. Lavado em suor, virava-se na cama! O som das granadas a explodir era tão real. Tal como a terra que levantavam ao redor. Os gritos de camaradas e o destroçar dos nativos em aflição e terror, fazendo de tudo um pandemónio tornava-se insuportável. Não se via nada a certa altura com o pó. Apenas vultos. Nem se reconheciam se amigos, se dos outros. Muitos acabavam a cair num fogo cruzado... E a roupa pegada ao corpo! O cheiro do sangue e o tilintar das chapas identificadores no seu peito, enquanto corria também buscando abrigo.

E no meio de tudo uns olhos verdes! Um sorriso magnífico... E a pele dela nua, abraçada a si. Tão unidos, que não se saberia onde começava um e terminaria o outro. O perfume dela. Os lábios, a língua...E sem saber donde vinha, de repente, uma rajada de metralhadora que lha arrancaria dos braços, a qualquer momento. Cobrindo ambos de sangue e a ele de culpa.

Uma culpa que jamais poderia suportar. Ter contribuído para a morte dela por algum soldado inimigo, cheio de ódio que a marcasse como "colaboradora" dos brancos, militares. Suporiam alguns, que a olhavam de revês, que ela sendo africana vendo e sabendo algumas coisas que seriam, supostos segredos, lhos poderia transmitir... Como naquela maldita emboscada em que tinham ido por uma informação anónima de que ali, existia um paiol inimigo. E era verdade. Tinham escapado ambos graças a João. E foi entre morteiros e gritos, que Pedro Rafael se sentou na cama a arquejar com a cabeça a latejar!

Nunca lidara bem com o facto de Zuleica poder morrer por sua culpa. Sempre que a deixava sozinha para ir numa missão normal, em que regressava dali a horas, rezando a todos os santos para voltar mesmo... Repentinamente cumprir alguma ordem sigilosa, ou ainda por necessidade estratégica se deslocavam para mais longe em que ficava ausente por dias, a sua atenção ficava dividida. O coração subia-lhe para a boca. Nunca tivera intenção de amá-la assim! Quando a conheceu realmente gostara da simpatia. Da forma de falar. Achara-a um certo conforto. Faziam falta ali, pessoas e rostos amistosos. E de seguida, veio a graça, que lhe encontrava, quando ele falava e ela o ouvia falar do continente como se ele fosse o centro do mundo. Ela elucidava-o sobre Angola, as suas gentes e riam. Sabia-lhe tão bem rir por momentos e esquecer a guerra. E depois...Quando o envolvimento se adensou, continuou a jurar a si mesmo que não se envolveria, mas...Fora impossível! E não poderia nunca renegá-la. Não quando uma mulher se dá assim a um homem! De alma e coração. E ele já não sabia não se preocupar. Lidar bem com um desenlace fatal...Tal como não conseguia lidar com aquela certeza agora, de que o seu filho nascera.

Antes era uma suposição forte que já não lhe permitia descansar, uma vida inteira. Principalmente quando olhava os seus filhos com Helena... De tal forma que tivera de vir tirar a limpo aquela história. João fora um bom amigo de novo! Se não o tivesse encontrado demoraria muito mais e nunca estaria tão seguro. Combinaram que iria com ele a todo o lado que ele quisesse visitar, de todos por onde andaram no passado. Que o levaria até perto. Mas mesmo a ela? Isso...Não! Pedro teria de ir sozinho. E quanto ao filho?

Deus! Porquê tanto mistério quis saber? No fundo agora sentado na cama depois de ter bebido um copo de água e tomado um calmante, repara que João se esquivara. Sabia o quê? Nada! Mal se falara no rapaz e na mãe, o outro retraíra-se. Era como se fosse um assunto tabu. Mais! Algo que estava tão enraizado numa cortina de secretismo, que velho amigo mudava logo de tema. Mas tinham ficado de se encontrar de manhã e isso é que importava! Depois de comprarem algumas coisas necessárias para levar, fazer-se-iam à estrada. O amigo estava bem de vida. Não rico mas vivia folgadamente. Possuía um jipe que depois de bem carregado e atestado o depósito, com mais um ou dois bidões de reserva para os sítios mais inóspitos onde não havia combustível, não constituiria problema de maior que os atrasasse. E ligara ao anoitecer, depois de estarem juntos a confirmar. Acertara tudo com a mulher, a quem contara a história de Pedro e ela entendera os seus motivos. E foi já vestido e num nervoso desadequado à sua idade, que a madrugada o brindou. Mais uma hora e desceria para encontrar João no hall à sua espera, para fazer a viagem que sempre habitara a sua mente desde o dia que pusera o pé no cais, em Lisboa!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 00:10


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