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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 20.12.15

Perfume de Natal

O telefone de secretária com demasiados botões tocou. Ataíde foi repentinamente despertado da concentração que depositava nuns documentos, ergueu o olhar e carregou no botão de alta-voz:

- Diga Lucinda…

- Senhor engenheiro… são sete horas, é véspera de Natal e ainda tenho de ir fazer o jantar de consoada…

O patrão percebeu e avançou:

- Desculpe por a ter demorado tanto. Está dispensada… Até depois de amanhã!

Um silêncio profundo foi-lhe devolvido. Por fim chamou:

- Lucinda!

- Estou aqui senhor engenheiro.

- Ainda está aí? Vá-se embora… e… Feliz Natal!

- Obrigado senhor engenheiro. Um Santo Natal também para o senhor!

A chamada interna desligou-se e Ataíde pode regressar à leitura. Porém a interrupção tirara-lhe o foco nos papéis e percebeu que era tempo de fechar o escritório. Reviu os mails e acabou por desligar o portátil. Depois pegou na mala preta, encheu-a de documentação, apagou a luz e saiu.

O trânsito àquela noite tendia a diminuir. Alguns retardatários corriam para casa onde a ceia certamente os aguardava.

Do escritório até à garagem onde costumava estacionar o carro, Ataíde caminhou devagar e foi pensando na sua vida. Empresário de sucesso ainda assim não era feliz. A mulher trocara-o havia uns anos por outro. Os três filhos viviam cada um seu lado, sendo que a mais nova ficara com a mãe. Deste modo regressaria a uma casa vazia.

Pairavam no ar diferentes aromas… a Natal. Fosse da pastelaria quase encerrada ou das casas particulares a verdade é que dançava no ar frio da noite um perfume…

O engenheiro encheu o peito de ar tentando absorver toda a áurea daquela noite mágica para tanta gente. Mas o perfume acordou algo dentro de si. Sentiu um arrepio… Não era do frio mas algo diferente, estranho, invulgar e que lhe atormentava o coração.

- Bolas, cheira-me a quê?

Parou e rodou para perceber que cheiro era e donde vinha. Mas o vento sempre desigual ora trazia o cheiro de um lado ora de outro… Poisou a mala no chão, fechou os olhos e procurou no fundo de si mesmo aquele odor.

Devagar foi recuando no tempo… Até que chegou à mocidade vivida numa aldeia do planalto transmontano. Lembrou-se dos antigos Natais passados com os avós e os tios e uma troupe de irmãos e primos irrequietos. Continuou a recuar…. Até que encontrou quiçá uma referência. Lembrou-se daquele Natal em casa dos compadres dos pais com os amigos Adelino e Ilídio dois gémeos quase inseparáveis.

Sorriu! Lembrava-se tão bem dessa noite… E das brincadeiras… Do lume enorme e quente, das alheiras assadas e do botelo cozido acompanhado de cascas. Decerto havia ali por perto um transmontano a comer provavelmente o mesmo.

Nesse mesmo instante teve uma ideia... estúpida ou talvez não. Pegou no telemóvel e buscou um número. Encontrando-o ligou. Atenderam:

- Está João boa noite! Desculpa a hora tardia mas responde-se a uma questão: o meu avião tem combustível?

- Claro! Está sempre pronto a sair!

- Tem? Ok… Prepara-o que vou para aí agora!

- A esta hora? Não se esqueça que hoje é véspera de Natal… tenho gente à minha espera.

- Não me interessa nada… Assim que eu levantar podes sair.

Apressou o passo até ao carro de alta cilindrada adquirido um mês antes. Já na estrada enquanto tentava fugir ao trânsito tricotando por entre os carros, ligou aos filhos. Nem um nem outro o atenderam. Já calculava… Faltava a mais nova... Ligou:

- Boa noite papá!

- Boa noite Maria. Como estás?

- Estou bem… E tu?

- Também estou bem!

A pergunta era obrigatória. Por isso Ataíde atirou:

- Então onde vais passar o Natal?

Um silêncio. O empresário pensou ter perdido a chamada. Teimou:

- Estás aí Maria?

Finalmente a resposta:

- Estou sim papá. E quanto ao Natal estou… com uns amigos. Muito longe… - respondeu a medo.

- Não estás com a tua mãe?

- Não! Ela partiu ontem para o Brasil… com o novo namorado!

- Hum entendo! Pronto… era só para te desejar uma boa consoada!

- Obrigado papá. Feliz Natal!

A chamada desligou-se para logo a seguir tocar. Era o filho mais velho:

- Boa noite Renato… estás bom?

- Estou… e o pai?

- Vou indo… Era só para te desejar uma boa consoada…

- Obrigado pai… Olhe está aqui também comigo o Vasco…

Ataíde nem reagiu. Sabia que o filho mais novo não se dava com ele e por isso apenas observou:

- Deseja-lhe também um bom Natal.

E desligou. O aeródromo aproximava-se a passos largos. Demorara menos tempo do que julgara a chegar e assim poderia dispensar o amigo mais cedo que o previsto.

- João, assim que eu levantar podes ir.

Deu-lhe um abraço e espetou-lhe com uma nota verde na mão.

- É para comprares champanhe para o teu jantar! Obrigado!

Saltou para dentro da sua aeronave que já não conduzia havia algum tempo e tratou de preparar tudo para a partida. Assim que teve ordem levantou vôo.

Entretanto enquanto aguardava pela autorização para penetrar no espaço, ligou uma vez mais:

- És tú Lúcio? Daqui Ataíde… Estás bom?

- Ataíde? Que se passa?

- O aeródromo já está fechado?

- Já, porquê?

- Porque vou para aí no meu avião… e preciso de aterrar.

- Mas não podes…

- Deixa-me as luzes ligadas da pista.

- Não posso…

- Ouve… daqui a duas horas estou aí… Faz-me esse favor…

- Sabes que hoje é véspera de Natal… E tenho cá a família que veio da França…

- Imagino, mas tenho de chegar aí ainda hoje. Vá… deixa-me aterrar aí…

Um silêncio fez Ataíde temer o pior. Lúcio veio finalmente à linha.

- Ok… Vem lá. Mas ficas-me a dever uma.

- Fico de bom grado. Só mais uma coisa… Arranja-me também um táxi…

- Mais nada? Uma guincha, um escrinho…

Ataíde acabou por rir. Havia tempo que não ouvia aquelas expressões.

- Não, não é preciso mais nada.

Já no ar o empresário reviu uma vez mais toda a sua vida. Um casamento com três filhos mas quase sempre ausente. Uma mulher que o traíra e os filhos distantes. Era estupidamente rico em bens e dinheiro porém pobre em calor humano. Por isso aquele perfume despertara em si sensações que não sentia havia muito tempo.

Naquele fim de tarde, início de noite, decidira não ficar sozinho… Nem que para isso tivesse que fazer muitos quilómetros. Regressar às origens provavelmente nem seria mau. O problema era perceber como seria acolhido… Havia anos que não via o irmão Telmo. Nem a irmã Lurdes. Só o Carlos é que lhe aparecia no escritório apenas para lhe pedir dinheiro emprestado, que ele nunca recusava.

Quando viu as luzes da pista o coração quase saltou. Olhou o relógio e percebeu que se demorara mais do que seria de esperar. Aterrou com a suavidade de um perito e parou a aeronave logo que pode. Correu para a saída onde Lúcio o esperava. Um abraço selou o agradecimento:

- Estás na mesma rapaz… Não te fazes velho – disse Ataíde.

O outro riu-se e mostrou então uma boca quase sem dentes.

- Obrigado. Vai-te lá embora… que tens o táxi à espera.

Nova nota quase caiu na mão do amigo mas este recusou.

- Nem penses…

- Obrigado!

No táxi começou a medir as consequências daquela sua repentina viagem. E se não estivesse ninguém  casa? Ou visse má vontade em recebê-lo. Nem uma garrafinha de vinho… para amostra, ele trouxera. O trânsito àquela hora era pouco mas o carro andava devagar devido ao gelo na estrada. Estava realmente muito frio. Meia hora depois chegou ao destino. Pagou ao condutor e agradeceu. Finalmente na aldeia.

Pairava no ar um forte aroma a lenha queimada, misturada com os restantes perfumes da época. Ao longe ouviu gargalhar ao mesmo tempo que um cão ladrou. Olhou o enorme portão da casa do irmão e que fora do seu avô e tentou empurrá-lo. Percebeu que estava fechado. Lembrou-se então do truque e meteu a mão por dentro e levantou o engate de ferro. O portão ferrugento mas pesado gemeu e abriu-se.

Um gato parecia espiá-lo em cima do muro de pedra mas alguém ouvira o ranger e veio à rua ao cimo da enorme varanda:

- Quem está aí?

Ataíde conheceu a voz da cunhada e disse então baixinho:

- Júlia, sou eu o Ataíde.

Júlia acendeu a luz do pátio e colocou a mão na boca. Desceu as escadas para cumprimentar o cunhado e foi dizendo:

- Tu aqui? Eras a última pessoa que esperava ver hoje. Mas preciso de te dizer uma coisa antes de entrares em casa…

- Não digas nada… por favor. Quero aparecer de surpresa ao meu irmão. Sei que el ficará contente em me ver…

Júlia cumpriu o pedido e seguiu atrás de Ataíde. Este subiu as escadas e penetrou na casa ampla. Cheirava ao tal perfume… Caminhou devagar e finalmente entrou na enorme sala onde à volta da mesa se sentava muita gente. O silêncio abarcou os convivas. O transmontano reconheceu então muitas pessoas, especialmente os três filhos.

Duas lágrimas rolaram pela face. O perfume do Natal que ele teimosamente viera tão longe procurar tinha finalmente um nome.

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por José da Xã às 00:06


4 comentários

De BataeBatom a 22.12.2015 às 15:52

Uau!
Parabéns, que leitura maravilhosa me proporcionaste...
Diz-me como raio vou ler coisas científicas a seguir, que não têm esta capacidade de me prender às palavras?
Continua assim!!!

De José da Xã a 22.12.2015 às 20:51

Obrigado!
És uma querida! Não sou merecedor de tamanha simpatia! E dos elogios.
Beijos!

De Cris a 16.06.2016 às 21:41

Fogo, até me vieram lágrimas aos olhos...

De José da Xã a 16.06.2016 às 22:12

Não é preciso chorar!
Gostei de escrever este conto, Fez-me regressar a um tempo que jamais virá.
E depois... há tanta gente assim, como o Ataíde.
Bjs.

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