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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 05.04.15

O Padre Leandro

Chegou aos ouvidos de um Bispo que numa das suas paróquias os fiéis eram cada vez menos. Restavam somente algumas beatas muito velhas e teimosas. E homens… nem vê-los. Era certo que a povoação ficava longe de tudo, enfiada num vale onde só se chegava de cavalo e através de um só carreiro que serpenteava por entre carrascos, aroeiras, giestas e alguns tímidos pinheiros. Mas nada disto servia de razão para haver tão pouca gente na eucaristia. A constante nomeação de novos padres para a paróquia não resolvera o problema.

Foi então que o chefe eclesiástico se lembrou do Padre Leandro. Este era o perfeito exemplo do que não deveria ser um padre. De verbo muito fácil era frequente algumas desavenças com paroquianos, quase sempre por causa de saias. E nem os constantes avisos o mudavam. Outro problema era o jogo, tendo sido por diversas vezes apanhado em lugares impróprios para alguém da sua estirpe. Valia-se então da família com imensa fortuna pessoal, para fazer face a alguns contratempos… pecuniários.

Afável e esperto fora enviado por diversas vezes a alguns locais para resolver problemas mais complicados nas paróquias. E foi assim que o Bispo deitou mão deste recurso humano para fazer face à falta de fiéis na dita aldeia.

- Caríssimo Leandro, tenho uma missão espinhosa para si…

- Diga sua Eminência o que pretende deste humilde servo de Deus!

Explicadas as razões e o que se pretenderia fazer, Leandro tomou a sua égua pela arreata e partiu nesse mesmo instante para a dita povoação. Após longos quilómetros e uma noite mal dormida ao relento, Leandro começou a descer para a aldeia. Passou junto à igreja, mirou-a de alto a baixo e prosseguiu. Logo a seguir percebeu um estabelecimento e parou a montada. Permitira-se tirar a batina antes de sair para a aldeia enrolando-a num velho alforge da égua. Tal como calculava e esperava entrou numa taberna. A sala era pequena e nela pairava um odor misto de vinho azedo e tabaco. Por detrás do balcão encontrou um homem corpulento mas simpático:

. Boa tarde cavalheiro…

- Boa tarde!

- Que deseja tomar?

- Antes de beber necessito comer. Tem alguma coisa?

O outro coçou a cabeça e respondeu:

- Só se for um chouriço assado.

- Ora nem mais! Isso mesmo… e um jarro de tinto se faz favor. Que eu vou-me sentar ali.

Dirigiu-se para o canto da sala meia escura. Do outro canto dois homens olharam-no com curiosidade e depois com desdém. À sua frente copos de vinho meio cheios, que beberricavam com lentidão.

Ainda mal tinha chegado logo outro cliente entrou. Mas este dirigiu-se para a mesa com os outros dois e declarou:

- Acabou-se o jogo…

- Então porquê? – avançou um dos outros.

- O Jaquim não vem. Andas nas batatas lá para os lados da Lagoa Estreita…

Um dos que estava sentado deu uma palmada no tempo da mesa e declarou:

- Logo hoje eu queria a desforra de ontem…

Leandro escutou o diálogo e finalmente achou que seria tempo de meter o bedelho:

- Desculpem-me mas escutei a vossa conversa e parece-me que têm falta de um elemento para jogarem. Mas se não se importarem estou aqui disponível…

Os outros olharam-nos com espanto e um deles observou:

- Você é de cá?

- Não…

- Está de passagem?

- Ainda não sei… - e aproveitou para deitar mais fogo no lume – depende dos meus adversários de cartas…

- Mas você sabe jogar?

- Mais ou menos sei jogar de tudo um pouco. Aprendi com um velho avô… - mentiu.

Os clientes olharam-se e desejosos de jogar aceitaram a proposta.

- Então venda daí, já que sabe jogar.

Era meio-dia. À porta da igreja havia um papel a comunicar que a missa desse dia seria às seis da tarde. Havia assim muito tempo para jogar e… saber pormenores.

Leandro mostrou-se grande jogador para contento do parceiro e arrelia dos adversários. O chouriço que veio foi distribuído por todos assim como diversas rodadas de copos de vinho. Na taberna foram entrando e saindo clientes que miravam o grupo do canto que exibia de uma anormal algazarra. Ainda por cima com um estranho. Alguns chegavam mesmo a perguntar ao patrão quem era o novo elemento, mas a resposta era invariavelmente a mesma:

- Não sei quem é, nem donde veio. Chegou aqui e passado pouco tempo estava na mesa a jogar.

O tempo passou lento mas por volta das cinco e meio Leandro declarou:

- Este é por hoje o meu último. Ainda tenho que fazer!

A verdade é que acabada a partida o jovem padre cumprimentou todos da mesa e anunciou:

- Amigos, amanhã aqui à mesma hora!

Saiu, foi buscar a montada e dirigiu-se à igreja à vista de todos, que haviam vindo à rua para dar fé dos movimentos de Leandro. Às seis horas dava inicia à eucaristia e percebeu quão espinhosa seria a sua missão. Contou doze mulheres muito velhas. Não apareceu mais ninguém.

No dia seguinte à hora aprazada entrou na taberna de negra batina vestida e cumprimentou com alegria:

- Boa tarde amigos… então vamos a um joguinho?

- Boa, boa tarde… senhor prior… - gagejou um dos jogadores.

- Leandro, o meu nome é Leandro.

- Mas o senhor é o padre… - avançou outro.

- E isso quer dizer o quê? Que não posso jogar às cartas com os meus amigos, nem beber uns copos? Ora deixem isso para lá e dêem as cartas…

Durante muito dias o padre apareceu para jogar, sempre à mesma hora. Era já falatório na aldeia a sua conduta, especialmente nas mulheres mais velhas… E de doze paroquianas na missa o número começou a descer. Mas Leandro não se incomodava… Na sua mente fervilhava uma ideia…

Naquela tarde a chuva viera visitar a aldeia e os homens ociosos juntaram-se na pequena taberna. Era já conhecida a arte do padre nas cartas e todos queriam ser dele, parceiro. A tarde decorreu mais barulhenta do era costume mas quando chegou a hora da missa Leandro levantou-se e disse:

- Bem está na hora de irmos à missa…

Os homens olharam uns para os outros não entendendo onde Leandro pretendia chegar. Mas este sem olhar para trás e imaginando o que se estava a passar nas suas costas, acrescentou:

- Não se esqueçam… às seis em ponto.

A armadilha montada durante tanto tempo disparara agora sobre o povo aldeão. Muitas palavras proferidas entre dentes mas ninguém arredou pé da taberna. Nessa tarde Leandro teve ainda menos gente na sua igreja. Porém no dia seguinte o padre não apareceu na taberna. Os outros bem que aguardaram a sua chegada mas sem resultado. Viram-no somente à tarde a entrar para a sacristia pela porta lateral. Ao fim de quatro dias de ausência Leandro reapareceu na taberna como se nada tivesse acontecido e a alegria reinou na taberna. O próprio taberneiro agradeceu em silêncio a presença do prior tal era a força do negócio.

Quando bateu as cinco e meia no sino da igreja Leandro avisou:

- Este é o último jogo, depois vamos à missa…

Quando a partida finalizou o padre levantou-se da sua cadeira e comunicou:

- A missa é às seis em ponto.

Nessa tarde e para admiração de muitas paroquianas a igreja teve, pela primeira vez, mais homens que mulheres a assistir.

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por José da Xã às 23:10



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