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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 25.08.16

Contos tontos - 22

A notícia penetrou-lhe na alma tal qual um murro na boca do estômago. A dor ficara ali presa dentro de si sem hipótese de sair. Um tormento!

Em toda a sua já longa vida habituara-se a lidar com o imprevisível. E acatara serenamente tudo o que o destino, ou fosse lá o que fosse, lhe reservara. Tudo… menos aquele momento.

Aceitara que a mãe abandonasse o pai, trocando este por um qualquer artista plástico de qualidade duvidosa. Aceitara com condescendência que a mulher se tornasse alcoólica por viver ociosa. Aceitara que os filhos o deixassem só, fugindo certamente a uma mãe que não os soubera educar.

A sua vida resumira-se por isso ao dinheiro que ganhara e ao que com ele conseguira adquirir. Não tinha amigos verdadeiros, nem familiares próximos que o amparassem. Estava só. Mas aquela solidão não o magoou, pensou ele.

Uma singela lágrima tremeu nos olhos, teimando em correr pela cara bem escanhoada. Passou as costas da mão pela face e limpou o sal humano.

Tanta raiva contida, quantos desejos adiados, tantas palavras silenciadas… para nada! Restava a pergunta: valera a pena?

Nem pensou em responder.

Em passo lento entrou no escritório, onde prateleiras com milhares de livros que nunca lera, forravam as paredes. Em cima da secretária uma moldura que ele pegou e virando-a para si reparou nos seus três filhos ainda pequenos. Lembrou-se daquele dia na casa da praia com os descendentes e a mulher na cama a curar mais uma das muitas e usuais bebedeiras.

Sentou-se num velho “fauteil”, herança de um avô belga, encostou a cabeça ao braço e ficou ali estático a contorcer-se com aquela dor que se embrenhara na alma.

Algures na imensa casa tocou um relógio. Deixou que o tempo passasse lentamente e tentou não pensar. Pela primeira vez em muitos anos desligara o telemóvel. Queria estar em silêncio, a carpir somente a mágoa que o consumia.

Olhou então para o pequeno móvel que ladeava a poltrona herdada, onde um candeeiro de loiça irradiava uma luz quente e amarela.

Serenamente o homem abriu a porta do pequeno armário, meteu a mão dentro como se tivesse a certeza do que ia encontrar e finalmente retirou a pistola.

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por José da Xã às 22:12


6 comentários

De Maria Araújo a 05.09.2016 às 22:04

Não conhecia estes contos.
Gostei.

De José da Xã a 07.09.2016 às 19:33

Tenho mais. Já leste outros que há por aqui?

De Cris a 30.10.2016 às 20:53

E o que fez?

De José da Xã a 11.11.2016 às 11:16

Consegues imaginar?

De Cris a 11.11.2016 às 21:43

Pensava que podia haver um volta-face!

De José da Xã a 12.11.2016 às 00:48

Deixo à imaginação de cada um.
Bom fds.

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