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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 14.07.15

Contos tontos! - 11

O público ia-se sentando no enorme anfiteatro. As duas filas da frente estavam reservadas para as personagens ilustres. Todavia ainda era demasiado cedo para chegarem. A verdade é que a sua última lição estava marcada somente para as dez horas.

Sentado atrás duma secretária que simpaticamente haviam colocado naquela espécie de palco, revia alguns rasbicos que havia escrito na noite anterior. Só que aquilo parecia um texto forçado, pouco adaptado ao seu último dia como professor. Ninguém esperaria dele uma lição onde desenvolvesse teorias para a cura desta ou daquela doença. Pretendiam, isso sim, um testemunho de vida, uma visão de alguém que fora uma referência no mundo médico. Os convidados continuavam a chegar. Alguns ao vê-lo já sentado esboçavam um aceno, que ele devolvia com um mero sorriso.

A sala estava agora quase cheia. Olhou o relógio, um Patek Phillipe que comprara em Zurique e que lhe custara uma pequena fortuna, e preparou-se para a lição final. Sentiu-se pela primeira vez, em mais de quarenta anos como professor, nervoso. Uma tremedeira estranha e que não conhecia. Respirou fundo.

Dez horas em ponto. Levantou-se da secretária e aproximou-se do púlpito, ajeitou o microfone à sua altura, enquanto olhou a plateia onde ainda se sentavam os derradeiros assistentes. Retirou os pequenos óculos duma caixa e aguardou a quietude da sala.

Tanta gente sua conhecida... Tanta! A aguardar uma lição inesquecível. E sem nada de relevante para comunicar... A não ser... E de repente fez-se luz. Os papéis que levara consigo guardou-os no bolso e fechando os olhos, deu início à lição:

- Bom dia caríssimos amigos. Dou início a esta última lição com a declaração de que só me restam três meses de vida. Diagnostiquei a mim mesmo uma doença do foro oncológico e vocês são assim os primeiros a saber!

 

 

 

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por José da Xã às 08:11


1 comentário

De Cris a 15.07.2015 às 12:08

Gostei.
Encontrei uns nomes próprios giros num livro de Domingos Monteiro: Sinfrónia e Cucufate. o que achas?

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