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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 08.04.12

Contos Breves - O Pintas - XXIII

Alberto era o seu nome. Cotão o apelido. Pintas a alcunha.

Alto, robusto à força dos baldes de argamassa e das cargas de tijolos que faziam o seu dia a dia, era valente e destemido. Jamais se negava a uma briga mesmo que sofresse de quando em vez alguns reveses traduzidos num olho negro ou nalgum dente partido. Contudo a sua principal faceta destacava-se pela forma expedita como de um momento para o outro inventava uma partida. Ideias mirabolantes assaltavam o seu espírito rebelde, sempre disposto a passar à prática as suas invenções.

Fosse quem fosse, homem ou mulher, o Pintas atacava a vítima como um predador voraz. Porém, havia sempre quem não apreciasse as brincadeiras e devolvia, à laia de retribuição, a façanha. Conta-se que, certo dia, Alberto descobriu num olival próximo um ninho de melro. Com habilidade e sabedoria logo tratou de caçar o macho. Após a captura decepou, com a crueldade de um carrasco, a cabeça à ave. Encheu então o ninho ainda sem ovos de excrementos frescos e com perícia colocou no topo a cabeça colorida do pássaro morto. Finalmente chamou um dos colegas de trabalho, ainda pouco familiarizado com o espírito burlesco do colega e convidou-o:

-          Ei Lídio! Em cima daquela oliveira está um melro. Vê lá se mo apanhas que eu vou em busca da melra.

O homem, crente e solicito, procurou então uma escada. Devagar com medo de assustar a ave que ele desconhecia morta, encostou-a à árvore e subiu os degrausem silêncio. Chegadoao cimo em vez de espreitar o destino, enterrou sem olhar a mão na porcaria. Espantado com o que o ninho lhe devolvia logo percebeu, pelas gargalhadas sonoras do Pintas e doutros colegas, que fora mais uma vítima das brincadeiras. Calmamente, sem demonstrar qualquer azedume, esboçando mesmo um leve sorriso, como que aceitando de bom grado a marosca, desceu da escada e aproximou-se do amigo brincalhão. Sem que ninguém esperasse deu com a mão suja e fedorenta em cheio na cara do outro. No mesmo instante o riso trocou de faces e o Pintas nesse dia não brincou mais. Mas nem mesmo assim Alberto evitou perpetrar noutras alturas e pessoas as suas bizarras ideias. E o pior é que o pedreiro envolvia-se amiúde com quem não devia e nunca calculava com propriedade o alcance dos seus actos. E foi assim que certa vez esteve prestes a receber ordem de prisão. Valeram-lhe naquela altura alguns colegas que tendo ajudado à festa, evitaram o pior.

No início da rua onde surgiam as primeiras pedras de uma nova habitação, vivia um juiz. Rico e toleirão, tinha entre outros criados, uma jovem sopeira bonita, de formas bem torneadas, nariz empinado e resposta a preceito. Todos os dias pela tarde, desde que o tempo o permitisse, a moça descia a rua empurrando, com formosura camoniana, um carrinho de bebé de rendas brancas. Acompanhava-a um pequeno cão de raça indefinida e de nome infantil: Mimi.

Os rapazes mais jovens, sempre que a rapariga passava à beira da obra, lançavam largos elogios às suas formas físicas. Assobiavam, clamavam, riam... Nada. A moça jamais respondia aos piropos. Pintas entrava então no jogo e por diversas ocasiões surgiu repentinamente na frente da criada, vindo sabe-se lá de onde, tentando em vão, assustá-la. Mas a jovem era forte de espírito e o rapaz ficava-se pelas ganas de uma reacção nunca surgida. Porém diabólico, velhaco e persistente, em breve engendrou uma partida.

Humildemente o jovem pedreiro, solicitou, como não podia deixar de ser, a colaboração dos seus colegas e amigos. Acertado com requinte o que fazer, logo combinou a partida para a tarde seguinte.

Nesse dia o sol nasceu mais luminoso e mais quente e a manhã decorreu com serenidade. Afinados os detalhes esperou pelo costumado passeio da tarde. Esta chegou, trazendo uma canícula abrasadora. Como habitualmente à hora do costume lá surgiu no fundo da rua a sopeira. Vestia uma bata justa que denunciava com mais relevo as curvilíneas formas femininas. Aleixo surge de repente por detrás de uma árvore e caminhou lado a lado com a jovem.Em silêncio. Ambos. Depoisavançou:

-          Tenha paciência com os meus amigos. Eles são uns brutos, não sabem lidar com uma menina. É pena!

Incrivelmente a criada sorriu então, mostrando um conjunto de dentes brancos e bonitos. O rapaz manteve o passo, par a par com a jovem, esperando uma palavra, um sinal. E este surgiu:

-          Já fiz queixa ao meu patrão dos seus amigos!

-          E fez muito bem! Eu faria o mesmo, se estivesse no seu lugar – concordou.

-          Ele é juiz e vai pô-los a todos na prisão... – ameaçou.

-          Também não é preciso chegar a tanto. Uma boa ensinadela basta! – sublinhou o rapaz.

Aleixo tentou subtilmente alterar o rumo da conversa para outros temas e com tal sucesso o conseguiu que quando chegaram perto do final da rua longa e inclinada já falavam de outros assuntos e riamem uníssono. Adeterminada altura o jovem arriscou:

-          Vai aí tão carregada, deixe que eu levo o canito!

Agradecida a criadita sorriu com ternura e entregou o animal ao seu acompanhante. Nesse mesmo instante Alberto chega-se sorrateiramente perto do par e quando dobraram a primeira esquina do quarteirão já a trela com o cão na ponta, estava na sua posse. Agarrou o canino, envolveu a cabeça com sacos velhos, para que abafassem os latidos e friamente o Pintas pegou nas malaguetas já previamente preparadas e esfregou-as com gozo e vigor no rabo do pobre bicho. Este, estremecia e debatia-se violentamente. Foi uma luta que o homem acabou por vencer.

No final de outra rua, de mansinho Cotão entregou o bicho com a respectiva trela, ao Aleixo. A criada continuava tão enfeitiçada pelas palavras doces do jovem que nem notou o reboliço vivido atrás de si. Mas num segundo tudo se alterou. O cão, como que tomado por qualquer coisa infernal, endoidecera e passou para a frente do casal, arrastando com força o rabo pelo chão. A criada surpreendida logo clamou aflita:

-          Mimi, ó Mimi. O que é que tu tens?

O animal puxava a trela com força das mãos do rapaz, arrastando ainda e sempre o rabo pelo chão enquanto gania.

-          Mimi, Mimi, ó Mimi – chamava a sopeira.

Um olhar penetrante e reprovador enterrou-se na face de Aleixo e este encolheu os ombros. Finalmente ela arrancou com violência a trela da mão do jovem pedreiro e sentenciou:

-          São todos iguais! Vou queixar-me ao Senhor Doutor Juiz... Olá se vou!

O cão continuava a debater-se com o ardor. E tanto puxou que acabou por rebentar a trela frágil. Livre o animal, logo fugiu em correria desenfreada rua abaixo, latindo, ganindo, ladrando e sempre, sempre com o chão como aliviador. A não muito longa cauda do rafeiro dava por fim os primeiros sinais de ferida.

A criada chorava e chamava pelo cão:

-          Mimi, Mimi!

Entrou então em casa com a criança e saiu a correr em busca do infeliz animal. Passou pela obra, onde tudo começara e gritou:

-          Mimi! Mimi!

Mas o bicho levava o diabo no corpo. Não havia quem o segurasse. Ouviam-se ao longe os latidos lancinantes do pobre animal. Avisado rapidamente pela mulher em breve surgiu na obra, o Juiz acompanhado de dois polícias. A sopeira era jovem mas não era parva de todo. E rapidamente entendeu que a partida surgira das mãos do velhaco do Pintas. Denunciado pela jovem, as autoridades entraram no terreno onde crescia a casa e chamaram por Alberto. Este assentava tijolos em cima de uma parede e foi de lá que respondeu aos agentes.

-          Digam senhores. Que me quereis?

-          O senhor é acusado de… roubar um cão, animal de estimação do senhor Doutor Juiz.

-          Eu! Mas para queria eu um cão?

-          Não sei, nem me interessa. Só quero que me acompanhe.

Nesse mesmo instante aproximou-se o patrão da obra e vendo tamanho reboliço na sua propriedade perguntou a um dos polícias:

-          Mas o que se passa aqui? Pode-se saber?

A autoridade conhecendo bem o construtor em vão tentou explicar os últimos acontecimentos da tarde. O Juiz desvairado acusava o proprietário da casa de proteccionismo. Os colegas defendiam o Alberto. Uma confusão.

Por fim tudo acalmou, para bem de quase todos.

Nessa noite o Juiz deitou-se a ralhar, o Aleixo a sonhar e o Pintas, como de costume, a rir.

O cão, finalmente apareceu, após três dias. Vinha sereno, esfomeado e sem cauda.

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por José da Xã às 17:33


2 comentários

De Fátima Soares a 08.04.2012 às 21:55

Que peste este Aleixo! Coitado do animal... Gostei. Boa semana José.

De José da Xã a 08.04.2012 às 22:15

Pior que o Aleixo foi o Alberto... eheheheh.
Deu-me gozo escrever este conto. Mas aproximam-se os que eu mais gosto. Talvez não sejam os melhores, mas eu gosto deveras deles. Uma fantástica semana.

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