Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 05.04.12

Contos Breves - A Lagoa - XX


Vivia-se no fervor da guerra contra as tropas napoleónicas. Da aldeia calma e tranquila, de casas baixas e alvas, todos os homens válidos haviam sido recrutados para combater os franceses. Assim, velhos intrépidos, mulheres frágeis e crianças indefesas viviam amedrontados se, por ironia do destino, os inimigos rondassem as serras envolventes à aldeia. Os campos estavam mal amanhados, pois os braços não eram suficientes para trabalhar tanta terra. O gado tinha pouca pastagem e só a água parecia ser suficiente, num imenso charco natural onde os animais matavam a sede e as mulheres lavavam algumas roupas. A lagoa enchia-se naturalmente com as chuvas abundantes que tombavam durante o Outono e o Inverno. Longa e de margens lisas e acessíveis tornava-se após a invernia num espaço profundo e perigoso.

Um dia surgiu na povoação um soldado português montado num belo e bem tratado alazão. Trazia urgência. Avisou então toda a população que uma quantidade indefinida de soldados franceses haviam-se perdido do grosso das tropas. E provavelmente poderiam por ali passar em busca dos companheiros. Alertou para a necessidade de esconderem os melhores mantimentos desses homens e não prestarem qualquer ajuda. Não obstante o aviso, a aldeia pouco poderia fazer se os franceses cruzassem a serra por aquele ponto. Não havia quem a defendesse.

O tempo foi decorrendo com a pacatez de quem vive o dia a dia. E por isso em breve o povo esqueceu quase por completo o aviso. Os que conseguiam trabalhar continuavam a amanhar o chão e a pastar os rebanhos que prosseguiam as suas lentas caminhadas por entre penedos e mato. As primeiras chuvas outonais chegaram como de costume. As margens da lagoa alargaram-se ocupando como de costume alguns nacos de fazendas ao seu redor. As crianças adoravam brincar à beira, atirando pedras que provocavam círculos de ondas que cresciam no sentido das margens até aí desaparecerem. As mães cautelosas e atentas, chamavam a atenção enquanto malhavam numa pedra branca a roupa mal lavada:

-       Saí daí cachopo! Ainda me cais à água!

Mas a teimosia infantil acabava invariavelmente num tabefe eem pranto. Eassim sossegavam ambos: mãe e filho.

Numa manhã fria e entristecida pelo sol que tentava envergonhadamente surgir por detrás das nuvens cinzentas, arribaram à aldeia dois soldados de aspecto bizarro. Os uniformes que envergavam apresentavam-se muito sujos mas ainda assim assentavam perfeitamente. Traziam na cabeça chapéus invulgares e vinham montados em excelentes cavalos, o que lhes conferiam um ar ainda mais imponente. Surgiram pela entrada nascente e, conquanto fossem apenas dois, rapidamente espalharam o terror e o pânico pelos aldeãos indefesos.

Um velho, sentindo que algumas forças lhe subiam às mãos, pegou energicamente numa gadanha, enfrentando com vigor um dos soldados. Mas o francês do alto da sua montada e com uma simples estocada pô-lo fora de combate. O ferimento parecia profundo, mas não mortal.

Dando razão às ideias do militar luso, os soldados estrangeiros pareciam procurar companheiros de armas. Mas as encostas que envolviam a aldeia sempre se tinham apresentado como inóspitas e inacessíveis.

Fosse por necessidade ou apenas por requintada malvadez aqueles dois homens pilharam e molestaram a aldeia sem dó nem piedade. Uma viúva idosa chorava pois um dos soldados rasgara-lhe as orelhas ao puxar pelos brincos de oiro. Uma mãe tentava evitar desesperadamente que lhe levassem a vaca, único meio que tinha para dar algum leite aos filhos ainda pequenos. Um outro idoso amaldiçoava a sorte pois vira-se despojado de todas as suas cabras.

Quando os franceses saíram restou o povo que carpia a desdita sorte. Nenhuma casa ficara por pilhar, nenhum celeiro por arder. Um rastro de destruição e morte era a herança que aqueles homens haviam deixado. Os cães uivavam duma forma sinistra acompanhando a tristeza dos seus donos.

Ao abandonarem a aldeia, os dois cavaleiros passaram então pela lagoa tranquila mas traiçoeira. Quando a viram, grande e esplendorosa, reflectindo os fracos raios solares, decidiram dar de beber aos cavalos. Como não quiseram descer das montadas, enfiaram-se com os animais pela lagoa dentro. Num ápice ficaram com água pelos joelhos e sentiram-se na obrigação de desmontar, não fossem perder os cavalos. Mas a profundidade das águas era maior do que os homens julgavam e sentiram que as suas vidas se encontravamem perigo. Tentandonadar para a margem descobriram o fundo da lagoa e aí renasceu-lhes a esperança de se salvarem. Mera ilusão. O fundo era constituído essencialmente por lodo e, quando mais caminhavam na direcção da margem, mais se enterravam. O peso das armas e de alguns objectos que haviam roubado não ajudavam a salvação. Bem pelo contrário. Aflitos e em pânico começaram a gritar por socorro. Os seus apelos ouviam-se por todo o vale destruído mas os aldeões mantinham-se surdos de tanto sofrimento e dor. Em vão gritaram e apelaram - mas o destino estava traçado. O lodo devorou-os calmamente, sem dó nem piedade. Os cavalos salvaram-se e todos os animais regressaram aos seus donos. Só os brincos da viúva ficaram enterrados no lodo para sempre.

Muitos anos se passaram até que a lagoa quase secou. Hoje, só mesmo na força do Inverno tem água com fartura. Durante o Estio não passa de um reduzido charco onde as rãs coaxam alegremente num despique salutar com os melros vizinhos.

E as crianças sempre que podem, brincam ainda, agora sem perigo...

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 18:57


2 comentários

De Fátima Soares a 05.04.2012 às 20:57

Adorei este conto! Não adianta ser mau. A justiça de Deus tarda mas não falha. Adorei mesmo. Um beijinho José...Ah! E quanto a ir consigo para o ano sou mulher para isso, assim Deus nos dê saúde para tal. Uma noite com paz.

De José da Xã a 05.04.2012 às 21:17

Prepare-se pois é muito duro. Estou quase sem unhas.
No facebook procure por Jorge Anselmo e encontrará um padre. Veja as fotos.
Ser peregrino não é sair de Lisboa e chegar a Fátima o mais breve possível. É um caminho que se faz por fora mas acima de tudo por dentro. Se pretender mais informações envie-me um mail. Basta ir ao meu perfil.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2012

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes