Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 30.03.12

Contos Breves - A estória de Zézita - XIX

No quarto atarracado e humilde, duas mulheres rodeavam Maria da Glória, que sofria atrozmente para parir. Uma, a Josefina era a parteira, mulher forte e experiente naqueles trabalhos de pôr no mundo nova gente, a outra era a Almerinda, mãe da parturiente. Ao lado, na sala rústica que servia também de cozinha João, marido da parturiente, guardava ao lume a panela de ferro com água. Sempre que ouvia a mulher gritar tragava de uma penada um cálice de aguardente como se ele apagasse os gritos e acalmasse o sofrimento.

Quando uma das mulheres saía do quarto em busca de água quente, o patrão perguntava:

-          Então, ainda falta muito?

-          Está quase, João, está quase! – Respondia invariavelmente.

E voltava a entrar no quarto. Novo grito e mais um cálice. Ao fim de um bom bocado a velha Josefina aflorou à porta para comunicar o nascimento da criança e encontrou o homem completamente bêbado ressonando em cima da velha mesa de madeira.

-          João acorda! – tentou a parteira sacudindo o novo pai. – Acorda João!

Estremunhado o bêbado levanta a cabeça e pergunta com a voz turvada de tanto alcool:

-          Então já nasceu?

-          Sim, é uma menina!

João ergueu-se de um salto mas a bebedeira era tamanha que caiu redondo no meio da sala. A outra regressou então ao quarto barafustando:

-          Raio de marido. Nem no nascimento da filha!

O dia seguinte amanheceu chuvoso. Uma chuva miudinha que entranhava na roupa até à pele. O homem levantou-se do chão frio e procurou logo a garrafa de aguardente. Mas esta encontrava-se vazia. Abriu a porta da rua e notando a chuva logo ralhou:

-          Que porcaria de tempo! Mais um dia sem fazer nenhum.

De súbito ouviu um choro de uma criança e logo se lembrou da filha que nascera na noite anterior. Dirigiu-se ao quarto e abriu a porta com cuidado. A mulher amamentava a filha num gesto pictórico que João jamais observara. Aproximou-se com delicadeza e perguntou baixinho:

-          É bonita a nossa menina, não é?

A mulher olhou-o com tristeza, mas respondeu:

-          É linda!

-          Que nome lhe vamos dar?

-          Pensei em Maria José como a tua falecida mãe.

-          Acho bem. Será Maria José.

João deixou a mulher de volta da criança e saiu, cruzando-se na rua com a sogra. Almerinda mal o cumprimentou, ainda aborrecida com a noite anterior em que ele bebera demais. O homem levava o sentido da taberna onde se preparava para comemorar o nascimento da filha, mas lembrou-se do olhar severo da velha mãe e arrepiou caminho e optou por ir para a horta onde ajeitou com perícia a terra molhada à volta das couves ainda tenras.

Os meses vieram trazer à realidade que Maria José não era normal. Desde logo se percebeu algum atraso no desenvolvimento. As idas com a criança ao hospital eram frequentes devido a um número anormal de ataques indefinidos. Após alguns exames os médicos concluíram que a menina tinham um desenvolvimento intelectual realmente abaixo do que seria normal e desejável. E assim seria para o resto da vida. Mas a mãe, desgostosa e inconformada com a sina, perguntou certa vez ao médico, por entre lágrimas e soluços:

-          Porque é que a minha filha é assim, senhor doutor?

O homem sentiu o olhar sincero e resignado daquela mulher e em vez de responder perguntou:

-          Diga-me lá uma coisa. O seu marido bebe muito?

-          Bebe sim, senhor doutor – respondeu.

-          E a senhora? Também bebe?

-          Eu senhor doutor? Eu não! Não gosto, nem de vinho, nem de aguardente. Pelo S. Martinho lá beberrico um dedito de jeropiga, mas é coisa pouca.

O homem passou a mão pela barba mesclada e finalmente confessou:

-          Pois creio que o problema seja mesmo do seu homem. O álcool em exagero cria situações destas. Não é caso único por estas bandas.

A mulher lembrava-se ainda daquela noite em que o marido chegara a casa perdido de bêbado na véspera do casamento de um sobrinho. Semanas depois descobria que estava grávida.

No regresso a casa, Maria da Glória fez uma promessa: enquanto a filha vivesse o marido jamais lhe tocaria, nem com um dedo.

Já era noite quando finalmente transpôs a porta de casa. Como de costume o João não estava. Sem se preocupar em demasia com a ausência, tratou de preparar a menina e adormeceu-a ao colo enquanto mamava no peito volumoso da mãe o leite já quente e temperado.

Deitou-se, por fim. Dormia já, quando sentiu o corpo pesado do homem. Trazia consigo o costumado e repelente bafo a vinho. O marido ajeitou-se na cama tentando chegar-se à esposa. Mas esta, duma forma brusca e determinada, repudiou-o com veemência. João estranhou a reacção pouco usual da mulher e aguardou por outra noite.

Só que essa noite jamais chegou. A esposa evitava o marido e arranjava todas as desculpas para a fuga. Certa vez, já varado com tanta abstinência, João virou-se para a companheira e perguntou-lhe:

-          Olha lá, que mal é que eu te fiz para já não me quereres?

-          Que mal me fizeste? Olha para a tua filha e descobre!

-          Descubro o quê?

A mulher suspirou um pouco, fechou os olhos e respondeu de forma repentina e brutal:

-          O senhor doutor disse-me que a Zézita ficou assim porque bebes demais. E como gostas mais do vinho do que de mim, ficas-te com ele. Em mim não tocas mais enquanto beberes.

O João ficou atónito e nem sabia o que dizer. Nessa noite o homem foi dormir para a barraca que erguera no chão da horta. A ideia de largar o vinho repugnava-o. Mas o pensamento de não passar uma noite com a mulher ainda se afigurava pior. Entretanto preferia aguardar até que passasse aquele desígnio infeliz da mulher.

Mas o gosto pelo vinho mandou mais na sua vida que o desejo da carne da esosa e passaram-se tempos sem que João tocasse nela. Por outro lado Zézita crescia e notava-se cada vez mais o evidente retardamento da menina. Se fisicamente parecia estar dentro do normal, intelectualmente era visível o seu atraso. Não conseguia acompanhar a escola e assim nem aprendeu a ler nem a escrever. Porém com a ajuda de uma mãe cada vez mais carinhosa foi aprendendo a lida da casa. Fazia devagar mas conseguia dar conta do recado. O pai olhava por vezes para a cachopa e começava a odiá-la. O sentimento de revolta fora substituído por uma vontade imensa de fazer desaparecer a rapariga.

Os anos passaram e os cabelos castanhos deram lugar a cãs e as mãos pujantes e enormes transformaram-se num conjunto de ossos, carregados de dores reumáticas. A barriga crescera com o álcool, assim como o peso que quase chegava à centena de quilos. Enfim João estava velho e doente. Zézita era há muito uma mulher feita. Falava pouco, mas fazia sempre sem azedume o que lhe pediam. A mãe envelhecera também e estava muito mais mirrada que o marido. As preocupações da filha e o permanente estado alcoólico do companheiro fizeram da mulher um palco perfeito de maleitas. Se não fosse o pequeno pé-de-meia que juntara aquando da venda de um pinhal provavelmente que a conta da loja seria muito maior. Aproximava-se a viajem final e o seu temor era a rapariga deficiente.

Quando morreu, nem pai nem filha carpiram a sua partida. Ela, porque só mais tarde percebeu, o pai porque havia muito que não conhecia a mulher. Quantos anos sem tocar na companheira… mas muito vinho bebido. Antes assim…

Os dias sucederam-se. Sentado à soleira da porta, João após várias achaques, mal falava. Deixara finalmente de beber, mas agora já era tarde. Maria da Glória havia muito tempo que partira. E a quem o saudava, respondia com algo imperceptível.

Certo dia, quando o primeiro sol de Primavera tendia a aquecer, João sentou-se como habitualmente no seu lugar preferido. A filha andava por casa, a arrumar tal como a falecida lhe ensinara. A rapariga saiu entretanto e trazia vestido uma velha bata, que fora da mãe. O pai olhou-a contra o sol e conseguiu vislumbrar as formas femininas da filha. E nesse mesmo instante, assaltou-lhe uma ideia.

Num passo lento e pesado recolheu a casa. De súbito Zézita viu-se sozinha na rua. Entrou apressada em casa onde encontrou o pai deitado na cama mal feita. Preocupada no seu pobre pensamento dirigiu-se ao antecessor:

-          Que tem pai?

Com evidente dificuldade João respondeu:

-          Nada. Senta-te aqui ao pé de mim!

A filha obedeceu com submissão. João pegou na mão da Zézita e ao fim de mais de 40 anos conseguiu finalmente vingar-se da mulher.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 22:07


2 comentários

De Fátima Soares a 30.03.2012 às 22:57

Bem José esta até me deixou sem respiração. Espero que não tenha acontecido o que eu estou a pensar, mas deve ter sido. Jesus! Se isto foi verdade não sei o que pensar. Mas a vida é crua e madrasta. Está muito bem escrito como sempre mas é realista em demasia. Agora eu pensava que já tinha ido embora. Desejo-lhe uma boa viagem . Se, se lembrar e não se importar reze também por mim. Obrigado amigo. Uma boa ida e uma boa volta. Tudo a correr-lhe bem e a todos os que o acompanharem.

De José da Xã a 30.03.2012 às 23:33

A Zézita existe sim, mas a história foi inventada por mim após um gesto que vi do pai para a filha. Aquilo na altura pareceu-me estranho mas suficiente para incendiar a minha imaginação e escrever este conto.
Há um outro que foi bem pior. Depois na altura conto.
Em relação à partida, estou a horas de abalar. Mas não tenho sono.
Guarde por cá os meus textos, que eu rezarei por si e pelos seus e que Deus continue a iluminar essa sua força e competência para a escrita.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Março 2012

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes