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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 29.03.12

Contos Breves - As Pias da Ladeira - XVIII

Do fundo do vale profundo não se vislumbra na serra um pequeno declive, a que se dá o nome de Pias da Ladeira. É um local sereno de terra centieira e onde o horizonte parece ficar para lá do infinito.

Em tempos idos, viveu neste lugar uma família, constituída por um casal já idoso e três filhos: dois varões fortes e esbeltos e uma rapariga jovem e atraente. A casa, de pedras cinzentas e frias, unidas com barro, era acanhada mas resistente. Nos invernos mais rigorosos o vento conseguia fazer-se ouvir por entre as velhas telhas cobertas de musgo, enquanto a chuva batia com violência nas vidraças. Porém, o calor de uma lareira de labaredas sempre crepitantes e desiguais mantinham o lar quente e acolhedor.

Ladeando a casa ficavam quatro generosas pias, que davam o nome ao lugar e que a mãe natureza ali deixara como exemplo do seu poder de esculpir na rocha. Cobertas com largas lajes de pedra, ali colocadas por mão humana, só se abriam com esforço e em época das chuvas. Enchiam-se então até transbordar, permanecendo o resto do ano tapadas, mostrando apenas uma pequena abertura donde todos se serviam. Lá dentro marulhavam pequenos peixes que limpavam a água de forma que esta nunca se estragava. O clã vivia do que a terra bem amanhada lhes proporcionava. De sol a sol era vê-los, pai, mãe e filhos labutando o chão com saber e empenho numa alegria constante.

Por vezes, enquanto o sol escarlate da tarde solarenga descia placidamente no horizonte, aquela gente parava um pouco e olhando o vale verde e imenso, onde as oliveiras surgiam como singelos pontos, sentiam-se felizes.

No sopé da serra verdejante estendia-se uma pequena aldeia. Mas aquele pequeno grupo, de quem ninguém sabia o nome, raramente descia ao povoado. E, sempre que o fazia, era apenas para trocar algum gado por vestes ou melhores sementes. Quando pai e filhos circulavam pelas ruas pequenas, a multidão aldeã olhava-os sempre curiosa e desconfiada.

Certa altura a aldeia foi invadida por uma mortífera febre que dizimou muitos aldeãos. Nas Pias da Ladeira desconheciam por completo a doença e os perigos de contágio. Quando, mais uma vez, os três homens desceram à aldeia para o seu costumado negócio logo notaram que algo havia transtornado o povo naturalmente humilde e pacífico. Em quase todas as portas havia uma cruz de vermelho pintado como sinal de morte pungente. O silêncio predominava para além do que era normal. Nem cão ladrava, nem gato miava, nem qualquer outro animal parecia ali habitar. E até mesmo as chaminés outrora fumegantes renunciaram à sua fogosidade.

Entretanto o pouco tempo que haviam passado na povoação em busca de sementes, não lhes pareceu suficiente para contraírem qualquer doença. Todavia o medo brando de que também tivessem contraído a maldita atormentava-lhes a alma. E tinham razão para os temores pois um dia, o velho chefe da famí­lia caiu à cama com um febrão daqueles. Os arrepios de frio fora de época sucediam-se. Tanto a mulher como a filha revezavam-se agora nos cuidados permanentes ao pobre homem. Nem purgantes quase milagrosos, ensinados por uma tia que viveu até perto dos cem anos, nem caldos da galinha mais sã da capoeira reanimaram o chefe da família. Já moribundo, o velho patriarca conseguiu ainda pro­ferir entre os poucos dentes que lhe restavam:

-          Se alguém mais adoecer, ides à aldeia buscar a cura.

Horas depois morria com um simples suspiro. Em paz.

As semanas passaram então serenamente. O trigo e o milho cresciam com natural beleza convertendo as searas em invulgares mantos doirados, aqui e ali soprados com ternura pela mãe Natureza e, nas oliveiras, a prometedora candeia transformara-se em evi­dentes bagos de azeitona ainda verde mas prontaem enlutar-se. Masa febre continuou a sua missão dizimadora. A mãe, já corcunda e surda, foi a segunda vítima. Após noites de febres altíssimas e delirantes sucumbiu tal qual o marido como se de uma vela de cera sem pavio se tratasse. Poucos dias depois, antes de terem tempo para procurarem cura, morreu o irmão mais velho. Restavam unicamente, o rapaz mais novo e a rapariga. Ambos com afinco e a tenacidade da juventude dedicaram-se à ceifa e à debulha do milho e do trigo.

Certo dia, estava a rapariga sozinha, cuidando do gado, quando surgiu um velho, de cajado na mão e ao ombro uma pequena sacola, feita de pele de cabra. O pastor caminhava devagar, aparando-se como podia à vara, seu fiel apoio dos muitos anos que conseguira atravessar. Calmamente, o velho dirigiu-se à rapa­riga, numa voz serena e quase inaudível:

-          Vossemecê tem porventura algum irmão que anda acompanhado de dois burros albardados com uns quantos sacos?

Admirada com a pergunta, a moça demorou em responder:

-          Sim, tenho. O meu irmão partiu há três dias para o moinho. Levava dois burros carregados com milho e trigo para moer.

-          Pois venho aqui dizer-lhe que ele encontra-se a menos de uma légua daqui e está muito doente.

A moça bonita, sentiu aflorar aos olhos ver­des duas grossas lágrimas que dificilmente conteve. Entrou de supetão em casa e, quando saiu, estava preparada para uma longa jornada. Olhou para o pastor, agradecendo-lhe com os olhos. Preparava-se para partir quando, novamente, o pastor a chamou:

-          Menina, não vá.

-          Porquê?

A maçã-de-adão do pastor moveu-se na garganta tisnada e mal barbeada, sinal de que engoliraem seco. Enfim, ganhou coragem e respondeu:

-          Porque ele já está enterrado há dois dias. Não vale a pena lá ir. Lamento mas não tive coragem de lhe contar logo.

Os joelhos da rapariga vergaram-se ao peso do desgosto. Ajoelhada, benzeu-se e orou em silêncio com as suas finas mãos entrelaçadas. Estava agora só no mundo mas a coragem era mais forte e manteve-se em casa cuidando dos animais, arando a fazenda, amando a terra fecunda que criara.

Quando no lugarejo se soube que nas Pias da Ladeira apenas vivia uma moça, alguém comentou que seria melhor convencê-la a ir para a aldeia onde qualquer um lhe daria guarida por algum tempo. Escolheu-se então, entre todos os homens, um dos rapazes mais novos, mas talvez o mais vigoroso, para le­var a mensagem. Aceite a missão, o jovem logo preparou a jornada. No dia seguinte, o céu apresentava-se plúmbeo, prometendo forte trovoada. Mas o rapaz não se atemorizou e pôs-se a caminho, manhã cedo, ainda o sol não despontara por detrás do cabeço. A distância não era grande, mas a subida era difícil. Ao fim de três horas, molhado e com fome chegou ao início do declive. Mirou com olhar crítico aquele naco de terra bem amanhada e em silêncio aproximou-se da velha casa rodeada de pias. Encostou o ouvido à porta e ouviu do outro lado uma bonita voz cantarolando. Resolveu finalmente bater.

-          Quem é?

-          Menina, venho da aldeia aqui próxima, de propósito para saber se necessita de alguma coisa?

A rapariga abriu a porta, espantada e temerosa.

-          Quem sois?

-          Como já lhe disse cheguei agora do vale. Sabemos que está aqui sozinha. Lá em baixo a doença já desapareceu há muito e gostaríamos que fosse viver para perto de nós. Aqui pode tornar-se realmente perigoso. Há por aí muitos saltimbancos desertos para a atacar na melhor oportunidade.

As palavras saíam de uma forma atabalhoada. A moça olhou-o desconfiada. Que pensar de um rapaz que jamais conhecera que ali vinha bater num dia tão chuvoso? De súbito, teve uma ideia, e num ápice respondeu:

-          Obrigada pela sua preocupação. Espere então aqui que vou ali à pia grande buscar água para a sopa.

E com a gamela nas mãos passou pela frente do rapaz, baixando os olhos num gesto de vergonha e algum receio. Quando saiu, fechou a porta de madeira com cuidado, não fosse o rapaz desconfiar. Já na rua começou a correr tanto quanto as pernas e o vestido o permitiam. Atravessou a terra ainda com restos da última ceifa espalhada pelo chão e desceu serra abaixo em direcção à aldeia. Corria por entre pedras e mato, chegando a cair mas logo se levantava olhando sempre para trás, não fosse o rapaz persegui-la. A chuva tornava o caminho escorregadio e muito perigoso. Quando por fim entrou na pequena aldeia, estava completamente extenuada, molhada, suja e rota. Procurou então a primeira casa e bateu com alguma violência numa velha porta de madeira, que foi franqueada por um homem de meia-idade. Este, ficou espantado a olhar para aquela jovem completamente desconhecida. Finalmente perguntou:

-          Que deseja, menina?

A moça explicou-lhe tudo. Enquanto falava, o homem ria, ao imaginar a situação do jovem; vendo-se de repente sozinho à procura duma rapariga no meio da serra. Após o relato pormenorizado da fugitiva, foi a vez de ele explicar o que havia acontecido e que o rapaz fora com a verdadeira intenção de a ir buscar.

Desfeitos todos os medos e os equívocos, a rapariga foi finalmente pedir desculpa ao rapaz acabado de chegar. Es­te, embaraçado, disse que sim a todos os pedidos de desculpa que a jovem rogava, até na igreja alguns meses mais tarde.

Hoje as Pias da Ladeira ainda existem envoltas por carrascos e silvas e poucos são os que sabem que em tempos idos ali viveu feliz uma família.

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por José da Xã às 23:25


2 comentários

De Fátima Soares a 29.03.2012 às 23:49

São realmente adoráveis embora por vezes tristes mas sempre com uma boa moral, as suas histórias José. Sorte da moça que tudo acabou em bem e a do rapaz que achou a noiva. Moça honesta e prendada. Uma boa noite. Bom dia de amanhã

De José da Xã a 29.03.2012 às 23:57

Há homens com sorte... Eheheheh.
E mulheres também. Que nestas coisas de relações ou a sorte bate aos dois ou então é uma desgraça completa! Este foi talvez um dos meus primeiros contos com cariz mais rural.

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