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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 24.03.12

Contos Breves - Um Bom Homem -XI

O Sol surge timidamente por detrás duma névoa alva. São seis da manhã, toca o sino no cimo do campanário. Um galo canta tentando acordar a capoeira. Um cão ladra. O burro responde. A manhã está fresca. Uma brandura de Estio ideal para colher os tremoços.

Augusto Narciso já arreia a mula à carroça. É uma grande alma que ali está. Veste uma camisa surrada meia escondida por uma jaqueta puída. As calças largas deixam vislumbrar uma corrente prateada que, desaparecendo num pequeno bolso, permite adivinhar um relógio. Finalmente um chapéu de aba estreita assenta na calva franciscana. Começou do nada, tendo apenas as mãos que Deus lhe deu – como ele próprio ousa dizer. E construiu uma grande vida. Talvez a maior das redondezas. Mas irrita-se quando que lhe confirmam isso. Prefere o recato da descrição à balbúrdia da fama. Todavia o povo da aldeia reconhece mérito no crescimento daquela família. Dorme pouco de noite pois os negócios são muito mais importantes que o próprio Morfeu, mas nunca recusa a sesta, seja de Verão ou de Inverno.

Quantas vezes muitos homens e mulheres lhe haviam batido à porta em busca de trabalho e Augusto sem necessidade de contratar alguém sempre arranjava que fazer para mais um. Debaixo do seu metro e oitenta de altura e sete arrobas de peso, mora uma alma crente e temente a Deus.

Mas naquela manhã espera ansioso por um criado, o Vicente, que surge enfim no cimo da calçada a correr por já estar atrasado.

-       O patrão desculpe, mas tive de acordar o ti’Angelo para que me aviasse uma onça de tabaco.

-       Essa porcaria ainda um dia te mata, Vicente. Vá! Pula cá para cima, que temos muito que andar e que fazer – ordenou impaciente.

Num gesto que evidencia prática o rapaz salta para o lado do patrão. E grita para a mula:

-       ‘Bora Choupana! – mas é o patrão que tem os arreios e dá o toque de partida.

O caminho é longo. Atravessada a aldeia e a velha ponte romana, sobre o ribeiro quase seco, vem uma vereda de terra batida. O pó vai ficando para trás enublando a estrada já trilhada. Após longos minutos de silêncio, durante o qual o criado enrolou três cigarros, pergunta finalmente Augusto:

-       Sempre chegaste a vender a porca que lá tinhas.

-       Oh! Nem me fale nisso. O ti’ Chico da Viúva combinou comigo uma coisa e depois – e encolhendo os ombros, continuou – negou-se ao negócio. Desculpou-se que não tinha salgadeira...

-       Mas tu ainda queres vender a bicha?

-       Se alguém me der bom dinheiro por ela...

-       E quanto queres?

-       Ó patrão, se é para si faço mais barato. ‘Tou a pedir doze notas, mas a si só quero dez. Nem mais um tostão.

-       Está bem. Quando regressarmos havemos de voltar a conversar.

-       Sim patrão.

O fim da viagem aproxima-se num passo lento de mula velha e cansada. Uma enorme seara cor de oiro pronta para a ceifa surge esplendorosa no horizonte. É um manto sedoso ondulado pela pouca brisa que sopra. Pergunta o criado com preocupação:

-       É isto que temos de ceifar? Olhe que ainda é um bom bocado...

-       Nã’ senhor. Vamos mas é tratar dos tremoços que a manhã ainda está fresca para os apanhar. Se os deixamos secar já não se arrancam hoje que eles picam como doidos.

Chegados à fazenda recheada, o criado desatrela a mula que pacatamente escolhe o pasto num prado contíguo. No panal já estendido no chão, ainda húmido pela madrugada fresca, tombam em monte os canudos carregando vagens ainda macias de tremoços, arrancados à terra por mãos fortes e calejadas. Vicente gosta pouco deste trabalho mas não quer ficar atrás do patrão. E assim vai trabalhando com afinco. Numa pausa para um pouco de água o patrão pergunta:

-       Então não trouxeste nenhuma bucha para o teu almoço?

-       Eu pedi à minha Deolinda que me trouxesse cá qualquer coisa.

-       Mas isto ainda é longe... – confessou o outro.

-       Ela sabe. Mas quis antes assim – respondeu o criado enquanto acendia novo cigarro.

Augusto vira as costas e desabafa numa voz onde se denota algum desalento:

-       Muito tu fumas, rapaz.

-       É bem melhor um cigarro que uma sopa... – confessou inocentemente.

-       Já mais de uma vez que me disseste isso. Um dia tramas-te.

Quando soa o meio-dia, o criado tenta vislumbrar no caminho a silhueta da mulher. O patrão olha-o de soslaio e percebe uma leve expressão de contrariedade. Voltam ao trabalho sem quaisquer comentários. O Sol cai a pino e a pequena brisa fresca que soprava pela manhã transforma-se num vento quente e seco que quase queima as entranhas. Muito ao longe ouve-se novamente o relógio a bater a uma da tarde. O criado range os dentes de fome. Augusto numa atitude desafiadora aconselha:

-       Fuma um cigarro, enquanto esperas.

O rapaz não se faz rogado. Retira da bolsa de cabedal pequenas farripas de tabaco e com perícia enrola-as com uma mortalha branca. Depois humedece a ponta da pequena manta branca e cola em cima da outra de forma a ficar um pequeno cilindro. Um fósforo acaba por fazer o resto e Vicente aspira o fumo com prazer. Conquanto o tempo passa, um nervoso miudinho vai crescendo no espírito do rapaz. Até que murmura entre dentes:

-       Por que será que aquela estuporada mulher não vem?

Ouvido o comentário o lavrador mais velho volta à carga:

-       Ora! Fuma mais um cigarro!

O criado explodiu então, num mau génio pouco habitual:

-       O patrão deixe-me e mais os cigarros, que já nem me apetece fumar...

O criado caíra na armadilha. É que Augusto, no dia anterior mandara avisar a Deolinda para não levar almoço ao marido, pois ele próprio carregaria para ambos. No entanto o patrão nada levou, mas solicitou à mulher que aparecesse na seara, apenas no princípio da tarde, com farnel para dois.

-       Então onde está o homem que dizia que preferia o cigarro à sopa? Vá fuma mais um cigarro... – glosava agora o patrão com prazer.

O Vicente olha o homem imenso e nem sabe que dizer. Apercebe-se que o agricultor quis po-lo à prova. O almoço acaba por chegar pelas mãos da patroa conforme combinado e no fim quando o vício volta a surgir, o rapaz vira-se para os patrões e pergunta:

-       Dão-me licença que fume?

Responde-lhe Augusto na voz calma e serena:

-       Fuma à vontade Vicente. Mas não te esqueças disto que te vou dizer: não há cigarro que encha um estômago vazio.

O criado olha a beata que quase queima os seus dedos ictéricos e puxa uma última fumaça. Depois, poisa no chão seco e quente o coto e pisando-o, promete:

-       Desta vez é que vou deixar de fumar...

O patrão sorri e desabafa em surdina com os seus botões:

-Este Vicente é mesmo um bom homem.

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por José da Xã às 20:50


2 comentários

De Fátima Soares a 24.03.2012 às 22:08

Mais um belíssimo texto. Dá gosto ler. Até nos parece estar ali ao lado a ver o quadro e as expressões de ambos. Um beijinho. Como disse vou lendo e darei sempre a minha opinião. E não posso dizer que não gosto, se muito me agradou não é? Ainda bem que abriu este blog. Bom Domingo.

De José da Xã a 26.03.2012 às 11:20

Se tivesse lido o primeiro conto (Cinco sentidos) desta saga...
Esse sim parece mais pormenorizado. Um amigo meu dizia que parecia uma "aguarela literária". Amigo simpático.

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