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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 19.03.12

Contos Breves - Um Jantar Especial - X

 

No sopé da serra uma aldeia espraia-se pelos campos verdes. Uma ribeira atravessa o casario numa corrente doce. O vento que vem da encosta, outrora vestida de verde escuro, já não traz o perfume dos pinheiros. Um fogo arrebatador transformou a ladeira numa cor carvão.

No povoado a maioria dos aldeões vive daquilo que a terra bem tratada lhes dá. Outros buscam diferentes formas de rendimento, trabalhando nalguma fábrica ou emigrando para a capital. Havia ainda quem procurasse fortuna num país estrangeiro.

Francisco Zenóbio fora um desses homens que não se habituando à dura vida do campo, decidiu arrumar a mala e partir para Lisboa. Permaneceu na grande cidade durante vinte anos. Mas também aqui não foi feliz. Casou e enviuvou durante esse tempo. E por isso decidiu regressar à terra que o vira nascer.

As diversas profissões que tivera na cidade faziam dele um homem com muitos conhecimentos e preponderante. Fosse electricidade ou água, qualquer coisa ele abraçava sem receio e sempre pronto a ajudar quem dele necessitasse. Mas ao fim do dia era habitual ver o viúvo na taberna do Luís até tarde. Quando saía, geralmente nunca vinha só. O vinho fazia-lhe tanta companhia que ambos tomavam conta por inteiro da estrada.

Até que um dia o Zenóbio voltou a apaixonar-se. Foi na loja do Gabriel que a viu pela primeira vez. Vestia uma bata de sopeira, mas mesmo assim as formas esbeltas ressaltavam da roupa. Era ainda nova a rapariga.

-       Quem é? – Perguntou ao Gabriel.

-       É a Clara, filha do Zé Padeiro. Trabalha na casa do senhor doutor – respondeu o outro.

Francisco depressa usou dos seus conhecimentos para chegar à fala com a Clara. E pouco tempo depois casava-se com a criada numa boda discreta. Todavia esta sabia do gosto do marido pelo vinho e obrigou-o a prometer que deixaria de beber o que ele fez sem relutância. Contudo, como de uma amante se tratasse, Francisco visitava a taberna às escondidas da mulher. Mas o estado em que chegava a casa denunciava a sua promessa. Às primeiras vezes Clara foi condescendente e nada disse. Só quando o marido começou a chegar todos os dias em perfeito estado de embriaguez, é que a mulher resolveu assumir uma posição mais firme de forma a evitar mais discussões.

-       Ou paras já com essas visitas à taberna ou então eu regresso a casa de meu pai. Não casei para aturar um bêbado.

O homem ficou fulo. Odiava que a mulher o tratasse como um alcoólico. Contudo temeu que as ameaças passassem à prática e durante uns tempos evitou o caminho da taberna do Luís. Havia alguns companheiros que já brincavam com a situação:

-       Então Chico queres que eu vá pedir autorização à tua patroa para vires beber um copito? – E riam-se...

O visado ria-se, mas com pouca vontade. Passado pouco tempo nova escapadela até à taberna fez com que a jovem esposa pensasse em agir com mais inteligência, de forma a evitar uma vida de desassossego e martírio. Decididamente Clara era uma mulher resoluta e resolveu pregar uma partida ao marido. Assim, escolheu o dia do seu aniversário para cumprir o que tinha em mente.

Chegado o dia dos anos de Zenóbio, a esposa preparou um pitéu deveras especial. Quando o homem já estava à mesa, disse-lhe:

-       Hoje vais comer uma coisa catita e que me ensinaram na casa onde servi. Só as pessoas ricas é que sabem apreciar esta comida.

-       Ó mulher traz-me então isso, que eu tenho uma destas fomes! – acrescentou enquanto esfregava as mãos de contentamento.

Então Clara retirou duma panela fumegante duas conchas de sopa. Mas, antes de entregar a sopa ao marido, despejou para dentro do caldo um copo de vinho branco, previamente azedado.

Quando Francisco engoliu a primeira colher, não disse nada. Mas depois comentou:

-       Eh, raio, esta sopa sabe mal... – e após uma pausa – sabe a vinagre.

-       A vinagre? Olha que as pessoas ricas comem-na sempre assim. E garanto-te que não pus nada de estranho na sopa.

Francisco contrariado, lá continuou a comer, mas notava-se-lhe na cara uma insatisfação total com o que estava a saborear. Depois veio o conduto, que era um saborosíssimo galo assado no velho forno de lenha. Novamente sem que o marido visse, Clara retirou o galo de um tacho diferente daquele que servira para si própria. Apresentou o prato ao marido que, desconfiado olhava-o com desdém. A mulher, vendo o marido assim inactivo perante o assado, perguntou-lhe:

-       Então home’? Não comes?

-       Não sei – respondeu de mau modo, o marido.

-       Olha que o galo está muito bom. Não tem nada de mal. Foi feito com muito carinho para este teu dia tão especial.

Vencido, mas não convencido, Francisco levou a primeira garfada à boca. Mastigou devagar, saboreando bem a comida. Momentos depois, o homem cuspia para o prato o que metera na boca.

-       Arre, qu’isto não se pode comer. Só sabe a vinho.

-       A vinho? Tu estás maluco! Então eu iria pôr alguma vez vinho na comida? Só se fosse para estragar. Sabes do que é isso? É do muito vinho que bebes e agora a comida só te sabe a isso.

Zenóbio não acreditou e riu-se:

-       Essa mulher também é bem caçada! Agora queres tu dizer que a comida só me sabe a vinho pelo que eu bebo? ‘Tás tonta cachopa!

Mas Clara não desistiu e respondeu-lhe:

-       Então hás-de perguntar à ti’Belmira o que é que aconteceu ao seu home’! E aqui nas redondezas há muitos casos assim...

Francisco escutava a mulher. Já lhe tinha chegado aos ouvidos uma conversa daquele teor, mas julgara que não passava de uma laracha. Entretanto, distraidamente, metera outra garfada à boca, mas logo voltou a cuspir.

Pegou então no copo que se encontrava cheio de vinho quando se lembrou do que a mulher acabara de dizer. Olhou para esta e enquanto Clara saboreava uma bela perna do galo, o marido olhava a comida gulosamente. Então poisou o copo e disse:

-       Clara, a partir de hoje não bebo mais vinho.

A mulher riu-se disfarçadamente e continuou a comer, enquanto o homem a via devorar com gosto a carne por ela preparada. E ele cheio de fome…

Hoje quando alguém aparece lá em casa a comer Francisco vai buscar à adega o seu melhor vinho que continuava a fazer das suas belas uvas, mas não bebe. Quando lhe perguntam porquê, apenas responde:

-        Já bebi a minha parte do “meu melhor legume”.


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por José da Xã às 23:47


2 comentários

De Fátima Soares a 24.03.2012 às 17:59

Olá José para responder à sua pergunta que também farei no meu blog gosto do lado AB que leio, ontem só não comentei, mas para ser sincera, gosto muito, mas mesmo muito deste. Ando a lê-lo aos poucos um texto ou dois de cada vez e adoro. Acho-o espectacular...Na forma irónica , crítica. A capacidade de contador de histórias, os temas que leio e penso sim, senhor, muito bem...A sério. è bom ler quem escreve tão bem. Tem uma maneira estupenda de fazer passar o que quer nas personagens dos seus textos. Gosto muito mesmo. Obrigada por isso. Um beijinho enorme e um feliz fsemana .

De José da Xã a 24.03.2012 às 20:41

Obrigado pelo comentário. "Contos Breves" é o meu primeiro livro. Acabei-o faz muuuuuito tempo. Tendo em conta que o LadosAB tinha uma vertente mais social achei por bem criar este blogue, onde coloco estes contos. Também aqui encontra alguma (pouca) poesia. Mas não bata muito eheheheh...
Como deve calcular José da Xã não é o meu verdadeiro nome, é apenas um pseudónimo.
Um dia se pretender conto-lhe a origem dele.

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