Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 01.01.14

Ano Novo, conto velho

 

Certo dia um homem muito abastado aproximou-se de um pobre lavrador. Este sachava um extenso batatal das ervas daninhas. Quando viu a visita aproximar-se, o lavrador parou o que fazia e cumprimentou:

- Boa tarde senhor… não o conheço por ser destas terras perdidas…

- Boa tarde! – devolveu a saudação – Tem claramente razão no que diz mas vim aqui à sua procura.

- Á minha procura? Mas que posso eu, pobre lavrador de terras ainda mais pobres que eu próprio, fazer por Vossa senhoria.

O outro olhou em redor como se procurasse algo onde se sentar e não vendo nada a jeito acabou por encostar ainda mais o seu corpo gordo e anafado à velha bengala que trazia na mão. Finalmente decidiu responder ao camponês.

- Ouvi dizer que o meu caro amigo é um homem muito sensato!

- Ora…ora… - engasgou- faz-se o que se pode. A vida é que nos vai ensinando.

- Pois seja a vida, como diz. Mas o que eu realmente gostaria de saber é como consegue o meu amigo viver o dia a dia assim em tamanha paz?

Sem qualquer receio o lavrador empertigou-se e olhando nos olhos do outro voltou à carga:

- Mas meu senhor diga lá o que pretende de mim. Como vê – e apontou para o extenso batatal como bico da sacha – ainda tenho muito que fazer e daqui a nada é noite.

- Quanto ganha à jorna?

- Por esta altura, 12 vinténs!

- E como consegue viver só com esse dinheiro?

- Meu caro senhor… Não o esbanjando, já se vê!

O outro coçou a calva debaixo do chapéu de aba larga e insistiu:

- Que não gasta indevidamente já eu calculo. Mas mesmo assim…

O lavrador acabou por perceber onde o outro pretendia chegar e assim de forma serena foi explicando:

- Bem meu caro senhor… Dos doze vinténs que recebo, guardo quatro para pagar uma dívida, com outros quatro faço a minha humilde vida e os restantes ponho a render.

Desta vez o rico quase caiu. Como poderia um homem com tão poucas posses assumir tais compromissos. A dúvida por isso mantinha-se. E não desarmando insistiu:

- Há algo nessa sua vida que não consigo entender. Como pode com tão pouco dinheiro fazer tanta coisa?

- Ah, mas isso é fácil! Muito fácil.

O outro cruzou os braços numa espécie de dúvida e aguardou pelo resto da resposta.

- Como lhe disse com quatro vinténs pago uma dívida. Por isso tenho os meus pais já idosos a viver comigo. Dou-lhes de comer, carinho, atenção e de quando em vez algum remédio do boticário.

- Hum estou a ver!

- Com as outras quatro moedas dá para mim e a minha patroa podermos viver o nosso dia.

- Continue… - a curiosidade surgia agora com as moedas investidas.

- Bom o restante dinheiro serve para colocar os meus dois filhos a estudar. Será sempre um bom investimento e com retorno certo.

O homem rico e anafado abriu a boca já sem dentes num espanto e só soube dizer:

- Bem pensado meu amigo, bem pensado.

E virando as costas ao lavrador regressou ao caminho donde viera. O camponês não perdeu mais tempo e assegurou-se que as batatas ficavam sachadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 11:05


2 comentários

De AN a 01.01.2014 às 13:15

Caríssimo : Eu estou a ver este filme, mas todo ao contrário. Descartam os velhos, não investem nos novos... serei a ver este conto ou é mesmo realidade?!!!

De José da Xã a 01.01.2014 às 16:32

Infelizmente esta é apenas uma história, demasiado longe da actual realidade.
Que 2014 seja para si um ano inesquecível.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Janeiro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes