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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 13.02.13

Contos Breves - Uma noiva… teimosa - XLII

 

Quando Idalina nasceu, a alegria naquela família foi transbordante. Durante anos e anos a Natália e o Honório tentaram que um rebento lhes alegrasse os dias. E assim, quando a primeira e única filha nasceu, tudo fizeram para que a menina fosse feliz.

Desta forma Idalina, filha, neta e sobrinha única, acabou criada num mundo onde a sua vontade era lei. Uma das consequências da sua educação foi naturalmente uma teimosia crescente.

Quando entrou na escola, depressa perdeu as amigas. Ninguém conseguia fazê-la compreender que estava errada. Se acreditava que algo era de determinada maneira, não abdicava da sua posição, tornando-se numa criança triste e muito só.

O pai Honório depressa percebeu qual a filosofia da filha e ainda tentou recolocá-la num trilho onde a sensatez fosse a ordem de razão. Todavia viu-se impotente perante o aparato com que a restante família mimava a menina. E desistiu!

Não obstante a teimosia e birras permanentes, a cachopa acabou por se tornar numa mui formosa mulher. Os seus longos cabelos castanhos, a sua figura esbelta e uma cara de anjo faziam de Idalina o centro das atenções no baile da aldeia. Só que… depressa os pares masculinos desapareciam do salão ou raramente repetiam uma dança com a jovem, tal era a fibra da rapariga.

Porém certa vez, pelas festas de Nossa Senhora da Paz, Idalina conheceu um jovem esbelto. E depressa se enamoraram um do outro. Na noite em que Artur foi a casa de Honório pedir a mão de Idalina, o pai desviou-se com o rapaz para um lugar recatado e foi avisando:

- O senhor está autorizado a namorar a minha filha até se casarem, mas aviso-o já que ela é muito, mas muito teimosa.

O jovem noivo riu-se e respondeu:

- Eu sei, eu sei… Mas creia-me meu caro amigo, que ela para mim será diferente…

- Não acredito! Espero estar cá para ver isso…

- Veremos, então…

A boda realizou-se alguns meses mais tarde e decorreu de forma impecável. Como Idalina queria e desejava. Só que… a noite chegaria e a primeira vez com o marido poderia ser um problema. Mas ela preferiu nem pensar nisso durante a festa. A mãe esclarecera-lhe alguns pormenores mas Idalina percebeu que jamais estaria suficiente preparada para receber o marido em seus braços.

Artur parecia ser um óptimo rapaz. Trabalhava como escrivão num notário ao mesmo tempo que estudava leis. A sua maneira de ser, sempre brincalhão granjeou logo de inicio a simpatia da família da futura esposa. Faltava a convivência na intimidade com a mulher, senhora de uma só razão.

Quando entraram na sua casa nova principescamente mobilada, Idalina logo correu para o quarto para se arranjar. Adorava escovar o seu longo cabelo castanho antes de dormir, passar as mãos e a face por uns cremes que uma das avós lhe oferecera à base de ervas campestres. Um ritual que iniciara havia muitos anos e que desejava manter mesmo depois de casada. Já estava deitada quando o noivo entrou no quarto quase em silêncio. Foi-se despindo devagar e envergonhado. Numa cadeira ao lado da mesa-de-cabeceira foi colocando a roupa que ia tirando. De repente Idalina viu uma pistola que Artur colocou na almofada da cadeira. Assustada com tamanho aparato a noiva nada disse.

Idalina antes de se deitar apagara as vela, deixando apenas a candeia do lado do marido acesa. O quarto encontra-se assim numa quase escuridão, não fosse a ajuda do Luar que penetrava por uma janela mal fechada. Artur acabou por se deitar mas antes ordenou:

- Apaga-te candeia…

A chama continuava mortiça e inquieta.

- Apaga-te candeia… - repetiu o noivo.

Ora como esta não se apagou Artur pegou na pistola e para grande susto da noiva deu um tiro na chama da lamparina, apagando-a. Idalina teve pela primeira vez medo.

No dia seguinte os noivos levantaram-se bem-dispostos e a nova esposa preparou com sabedoria um pequeno-almoço para ambos, onde não faltou nenhuma iguaria. Risos e conversa simples, comentários acerca da boda do dia anterior foram os temas à mesa. Finalmente disse Artur:

- Vamos almoçar a casa dos teus pais?

Idalina achou bem e agradeceu:

- Fico muito feliz por quereres ir a casa dos meus pais. Eles vão ficar radiantes!

Prepararam tudo e como a distância ainda fosse longa levaram uma burra onde Idalina se sentou em cima da albarda. O marido caminhava serenamente a seu lado e ia conversando alegremente. O dia estava turvo, cinzento, ameaçando chuva. Um vento cortante entrava nos corpos e arrepiava-os. A casa do velho Honório e da Natália ficava sobranceira à Ribeira da Peneda, e da janela da sala podia-se ver o caminho que surgia do outro lado do monte e atravessava o riacho. Havia outro trilho mas haveria para isso de percorrer mais de dois quilómetros. Chegados à Ribeira, Artur ordenou à mulher:

- Desce daí que temos de passar a ribeira e podes cair. Descalçamo-nos e passamos a pé. Vou tirar o cabresto à burra e tu leva-lo enquanto eu a levo pela arreata.

Foi algo inédito que os sogros de Artur conseguiram ver da janela: a filha teimosa e altiva, vergada a um cabresto, uma burra folgada e um genro sorridente a atravessarem a vau a ribeira quase repleta.

Já em casa enquanto Idalina secava o vestido junto à lareira crepitante, a mãe Natália aproximou-se da filha e perguntou:

- Então minha filha… estás feliz com o teu casamento?

- Sim minha mãe… Muito feliz.

- E o teu marido trata-te bem?

- Sim do melhor…

- Então explica-me porque carregavas tu o cabresto da burra? Se fosse antigamente teimavas e não trazias.

A noiva baixou os olhos para o chão envergonhada e foi desabafando:

- O Artur, a noite passada mandou a candeia apagar-se sozinha. E como ela não se apagou deu-lhe um tiro.

- Um tiro?

- Sim de pistola. Imaginas o que me acontece se não faço o que ele diz?

Honório ouvira a conversa entre mãe e filha e logo percebeu que Artur, tal como dissera, cumprira o que prometera: a Idalina finalmente perdera a teimosia.

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por José da Xã às 12:01



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