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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 19.09.12

Sentidos dos dias - Paz XIX

Passara um mês desde que Helena reunira os filhos e lhes contara tudo. Desde que o mais novo se insurgira contra o pai, dizendo que ele tinha deveres para com a mãe! Para com todos eles. Não era assim sem mais nem menos que... "Aquilo era uma acção descabida. Uma traição!" Helena sorrira, a morrer por dentro. Exigira respeito, ao filho, para com o pai. Fez-lhe ver que no fundo, maior traição tinha sido ele ter-se obrigado a viver uma vida inteira que não queria, só por causa de todos eles. Fora um homem que desde o início podê-la-ia ter abandonado. Quando vira que não conseguia esquecer-se da outra e nunca o fizera. Assumira sempre o casamento, os filhos, pondo o seu próprio bem-estar para último. Honrando a família. Mas o certo é que existia outra família, que o "chamava" sem dizer palavra. Sem se fazer notar. Explicou como e o que achara de Zuleica, quando a conheceu. Era notório o amor que ambos ainda sentiam um pelo outro. Ela apenas fora vê-lo, porque o sabia mal e antes que ele morresse... Sem nada exigir. Calada, chorosa, curvada na seu orgulho de mulher. E Helena soube o que lhe doía. Custou-lhe a admiti-lo, todavia acabou por admirá-la!

O que importava, afinal? Que Pedro Rafael voltasse para Portugal, agora que tudo tinha sido posto à luz do dia. Continuasse a viver infeliz e uma mentira junto deles? Ou prefeririam como ela, abdicar do seu amor, mas que ele pudesse fazer também justiça. Àquela mulher! Aos filhos, que cresceram sempre sem o amor e amparo do pai? Caramba! De certeza que a nenhum dos seus descendentes, estava a ser exigido o sacrifício. O suportar da dor que ela, mãe deles e mulher de Pedro estava a viver. E ainda assim escolhera... Faria o que fosse preciso para que Pedro fosse feliz. Pelo respeito que sempre lhe dera. Anos seguidos de se ter anulado para criar os filhos. Ficar junto dela, porque assim tinha prometido nos votos do casamento... Mas, hoje? Convenhamos! Os filhos estavam criados. Cada um seguia a sua vida. Ela e ele, ficariam como todos os pais ficam quando os filhos vão à procura do seu mundo. De o conquistar. Engolindo o orgulho e as lágrimas, a voz a embargar-se Helena finalizou.

- Foi muito melhor assim. Ele fará sempre parte das nossas vidas. Vocês podem visitá-lo, conhecer os vossos irmãos. Eu? fico bem! Em paz com a minha consciência. Feliz por ele, que merece sem dúvida ser feliz, os últimos anos da sua vida!

Maria da Graça abraçara-se à mãe. O filho mais velho encolhera os ombros, resignado. O mais novo estava ainda revoltado.

- Mãezinha! Sempre foste uma grande mulher. Não sei se o que aconteceu contigo e o pai, a passar-se comigo,teria essa coragem. Essa tua maneira de ser. Pode parecer desprendimento, frieza. Mas sabemos tão bem que é apenas imensa dignidade. E por amares o pai. Adoro-te mãe! 

- A mãe é uma grande parva, isso sim! Qual é a mulher que entrega o homem à outra de "bandeja!" Tenha lá ele os filhos que tiver. Nós não temos nada a ver com isso. A mãe conheceu-o depois. Eu continuo a achar que...

- Não continuas a achar nada. Um dia quando tiveres os teus filhos vais querer o melhor para eles. Vocês sempre tiveram o melhor. Os outros lá longe, nunca tiveram nada. Gosto muito de ti meu filho, mas pelo amor que me possas ter, respeita a minha decisão. O teu pai!

Ali em frente do mar, onde muitas vezes passeara de mãos dadas com Pedro, Helena era verdadeira consigo mesma. Quando viera embora desejara com todas as forças que Pedro a seguisse. Nas primeiras semanas ainda teve esperança. Mas, deixara as cartas. Nelas ilibava-os de culpas. Explicava o que queria e compreendia que a felicidade também lhes assistia, aos dois, agora. Aquela felicidade que mesmo em sobressalto tivera sempre. O certo é que Pedro telefonara. Estava recomposto, calmo. Perguntara-lhe se tinha a certeza. Mordeu os lábios e disfarçou o desgosto ao telefone. Mais algumas palavras, em que bastantes delas foram de elogio. Como a amaria, para sempre. Nunca esqueceria que aquele amor que ela lhe votava era tão enorme, que lhe permitia ter aquele altruísmo... E ponto final. Era assim que tinha de encarar a sua vida com ele. No fundo sentia-se em paz. Mais ou menos bem. A dor passaria. Afinal se ele tivesse morrido seria muito pior. Zuleica merecia ser feliz. Os filhos terem a oportunidade de conhecerem o homem bom, que o pai era, apenas vítima das circunstâncias... Pudessem todos os que lá deixaram filhos e sofrimento, colmatá-lo. As ondas banhavam-lhe os pés. Os olhos procuravam o horizonte. Para lá daquela linha longíqua, estava Pedro! O amor da sua vida. Sorriu tristemente. Sussurrou baixinho: "Sê feliz, meu amor. Sempre e em cada dia da tua vida!" Inverteu caminho, limpou bem os pés com a mão e calçou-se. Andou mais um pouco e viu a camioneta que a levaria a casa. Fez sinal e entrou. Subiu as escadas e meteu a chave na porta. Foi brindada por um coro de gargalhadas. As traquinices do costume.

- Mãe! Importas-te de ficar com eles esta semana. Eu a e Lígia queríamos, descansar um bocado. Tipo uma segunda Lua de Mel? Quem sabe não dê uma salto a Angola... - O filho mais velho riu-se com ar cúmplice. - Foi a Graça, que teve a ideia digo-te já!

- Oh, meu filho, claro que fico. Os meus netos são a minha maior riqueza, para além dos meus rebentos. E o casmurro do teu irmão? 

- Acreditas que a tua filha o convenceu também a ir. Aquele "miúda" é de fibra. Faz-nos andar todos na linha.

- Fico tão feliz. Finalmente tudo parecer estar a compor-se. Ele ter começado a perdoar o pai... É muito bom! Quanto à Maria da Graça...

- Tem a quem sair.

- Ah, sim! A quem?

- A ti, mãe! És uma mulher extraordinária. Os teus filhos só podem achar exemplo e inspiração em ti, mãe.

Entre abraços e lágrimas Helena sentia-se grata. Pelos filhos, netos e por Pedro ter estado na sua vida. Ter originado com ela, esta parte da sua felicidade. Sim! Ela também se sentia uma mulher feliz.

 

Fim

 

Verniz Negro

 

Ao meu grande amigo José da Xã!

 

 

Esta foi a última de algumas histórias que "entrançámos", juntos, por agora... Quem sabe um dia não surjam mais. É altura de paramos um bocadinho. Viver com mais calma outros compromissos. A vida em si. Mas nunca se pára uma amizade, pois não José? Podem-se afastar as pessoas. Pode não haver todos os dias, ou semanas aquela partilha, cumplicidade, mas a presença essa está sempre connosco. Dentro do coração e no pensamento. Agradeço-te até hoje a amizade... Que espero se vá fortificando. Durando para sempre, porque vou estar sempre aqui para ti, assim precises de mim. Me queiras por perto!

 

Obrigado, amigo! Foram semana divertidas de muita "inspiração forçada", outras vezes não. Quando por exemplo, nos saíam as ideias mal acabávamos de escrever o capítulo anterior. Para ti desejo o melhor. Todo o sucesso do mundo. Mais uma vez foi giro. Muito giro. E vamo-nos "vendo" por aí! Beijo enorme. Bons escritos!

 

Verniz Negro/Fátima Soares

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por José da Xã às 13:59


2 comentários

De José da Xã a 19.09.2012 às 15:56

Ainda agora acabámos de escrever e já sinto saudades. Esta parece ser uma frase feita mas é a realidade. Durante vezes partilhei com Verniz Negro muito bons momentos. Lembro-me de à última da hora não saber o que escrever e depois... Recordo ideias diferentes para as histórias mas conseguíamos sempre uma plataforma de acordo.
A tua escrita é sem dúvida muuuuuuuuuuuito melhor que a minha. Mas enfim "quem dá o tem a mais não é obrigado". A disciplina que me obrigava escrever neste blogue pelo menos uma vez por semana, vai agora esvair-se. Mas fica aqui escrito que o meu espaço será sempre teu... sempre.
Muito obrigado pela amizade, força e carinho com que sempre me trataste.
Bem-hajas!

De Fátima Soares a 19.09.2012 às 16:03

Não tens que agradecer. Obrigado eu. A minha escrita é somente a minha forma de ser nada de "glorioso" Ups! Pôr isto aqui num blogue em que «ambos somos "verdes" é mau A sério! Obrigado amigo é muito bom ter-te como "aliado" e agora fico à espera das tuas receitas no blog de culinária. Vamos partilhando... Com a amizade de sempre, em pano de fundo. Beijo. Muito obrigado mesmo.

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