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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 12.09.12

Sentidos dos dias - Decisão XXVII

Helena temeu entrar no quarto e encarar Pedro. Mas fê-lo. E na mesma altura o seu coração poderia ter parado para sempre, porque não lhe faria mais falta sentir. Sentir-se assim, humilhada. Momentos depois ficou grata, quase feliz do marido estar sentado na cama, sem monitorização qualquer, com um sorriso de orelha a orelha. Acompanhado do médico mais patético de África, que ela tinha de aturar constantemente.

- Viu! Que lhe dizia eu D. Helena! O nosso homem reagiu às mil maravilhas ao "choque" que a senhora tanto temia.

Helena era extremamente educada, ou tê-lo-ia mandado à merda, acrescentando mais uns mimos..."Para "choque" dele, se calhar. Velhaco! Estava a gozá-la nitidamente do marido ter "arrebitado" com o encontro da outra!" Mas quando ela chegara, não ter mostrado qualquer evolução ou melhoria, além do sorriso. E claro, a afabilidade normal que se mostra a alguém que nos é "querido". Pedro Rafael deve ter notado o seu rosto contraído, o sorriso que lhe bailava nos olhos morreu-lhe junto com o dos lábios, porque sabia que a magoava. Sabia tudo o que ela não queria. Desde, que ele não tivesse vindo, a ter de vir ela também e presenciar este "ressurgir dos mortos", por alguém que mais uma vez se certificava ele mantivera bem vivo, dentro de si. O resto da tarde correu mais ou menos. Trocaram poucas palavras. Eram mais as indicações médicas, os avisos. A hora da medicação, o conter de muito mais por aquele dia, no que contava a emoção. "Pois, claro! Ele já as devia ter tido todas!" Que não sobrasse muito para ela... Já estava habituada às sobras da outra, pelo visto. Era mais do mesmo!Helena retraiu-se. Recordou o semblante dela consternado. A posição outrora altiva, curvada e decidiu que no fundo a outra? Era "outra" coitada! "Se ele lhe assobiasse corria...Como cão perdigueiro a abanar a cauda para junto do dono!" De repente um laivo de ódio perpassou pela cabeça e pelo coração de Helena na direcção de Pedro. Mas sorriu e conteve-se. "Até porque ela já corria há tantos anos atrás daquele assobio..."

À noite e depois dum caldo frugal, já no refeitório dos monges, momento em que Pedro agradeceu a hospitalidade e terem-lhe salvo praticamente a vida, quando correram prontamente a chamar os médicos, ele e Helena recolheram-se. Ela ajudou-o a caminhar, calmamente, com o braço por cima do seu ombro. Um dos monges sempre a distância curta, não fosse ser necessário algo. Porém, mal os viu na ombreira da porta despediu-se. Helena ajudou o marido a despir-se. Ele afagou-lhe a face, beijou-lhe os lábios de raspão. "Notaria quiçá que ela quase se esquivara ao gesto?" Ainda assim respondia e sorria quando ele falava, de tudo! Menos do que ela necessitava ouvir.

"A minha viagem está acabada. Estou em paz com a minha consciência. Pus em dia o que tinha vindo fazer. Ela e eu? O tempo passou e entre nós... Há um fosso, intransponível!" Resumindo: "Porque raios ele não falava com ela? Não explicava o que tinham dito, tinham sentido e decidido? Talvez amanhã! Como dissera o clínico, chegava de emoções. Mas Helena não pregou olho e o amanhã surgiu. Pedro pouco saíu do quarto. Das vezes que estavam sós, apenas se olhavam, comprometidos. Era pior que antes! Ele recearia contar? Ela não perguntaria! Não daria parte de fraca. E foi quando saiu para vir buscar toalhas lavadas, que no corredor e com a porta entreaberta, ouviu Pedro confessar a Joâo:

- Não sei que fazer, meu amigo! A minha mulher não merece isto, mas o facto é que eu...Não consigo! Compreendes?

- Hum... Mas não consegue o quê meu capitão? Esquecer a Zuleica e ponto final, Portugal consigo, mais a patroa. Ou dizer à sua mulher que regressa sozinha?

Se fossem pratos, copos ou tachos, Helena teria sido descoberta. Eram toalhas e quando lhe caíram das mãos, baixou-se lesta a apanhá-las, admirada com essa sua destreza, na sua idade. O certo é que um frenesim nervoso a percorrera como uma descarga eléctrica. Não entrou, virou a esquina do edifico. Ficou ali, com as lágrimas a correr a quatro, a pedir a Deus para ninguém a ver... Até que João saíu. Recompôs-se e fez o que era suposto. Como sempre! Cumpriu mais uma cena, daquele teatro. O dia viu a noite chegar e nada de palavras. De Zuleica. Somente dos filhos, da casa e quem ficara a cuidar? Da loja e pouco ou mais nada, que "estás com um ar tão cansado, devias repousar um pouco". Ao que ela se escusou. E mais uma noite os brindou. Helena pensava se alguma vez dormiria de novo com ele. Se regressariam juntos? Voltariam a ter sequer o que sempre tinham tido, fosse verdade ou mentira? Os pensamentos e palavras de João matraqueavam-lhe os miolos, até ferverem. Por isso levantou-se. Escreveu uma carta e já possuidora da informação dada nessa tarde, que a recuperaçãoo de Pedro seria lenta mas uma realidade, tomou uma decisão. No outro dia manhã cedo, perguntou se podia telefonar. Autorizada, fez uma chamada. De seguida procurou falar com o  frade que administrava o convento. Sendo-lhe cedido um acompanhante (nada menos nada mais, que o frade Martim, que os acompanhava sempre a ela e Pedro quando ele esticava as pernas) Helena saiu do convento, a seguir ao almoço enquanto o marido dormitava.

A casa de Zuleica não era longe, afinal. Nem rica nem pobre. Asseada e acolhedora. Onde duas mulheres se poderiam entender, com uma chávena de café... Uma segunda carta ficou em cima da mesa. Zuleica prometeu-lhe lê-la só dali a uma meia hora, quando ela já fosse distante.  Feito isto e de volta ao convento, Helena sorriu ao marido. Sondou-o sobre a sua saúde. O tempo que pensava ficar e obteve quase a resposta que queria... Ainda faltaria "bastante" para regressarem. E assim cuidou e mimou. A noite sucedeu-se ao dia. Fim de dia esse, em que Helena beijou Pedro. Disse-lhe como o amava. Como desejava que tudo ficasse bem e ele melhorasse depressa. Sobretudo para que ambos pudessem ainda ser felizes, no resto das suas vidas. Ele adormeceu calmo. Grato. E de manhã ao acordar, encontrou somente uma carta... Da esposa!

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 00:14



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