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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 05.09.12

Sentidos dos dias - Desorientação XXV

Helena sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A sua vontade de se despachar para poder ouvir algum bocado da conversa do dois, deu lugar a uma desorientação estúpida, que nunca sentira antes. Uma impotência que lhe dava medo! Se por um lado tinha a noção que deveria estar ao lado do marido, não só para lutar por "aquilo" que era "seu", mas zelar para que a emoção não o prejudicasse, por outro e agora como escolha, a puder fazê-la, seria desaparecer. Ou melhor! Voltar àquela tarde em que ficara pela primeira vez cara a cara com Pedro. Poder reverter toda a sua vida. Amava-o?! Muito. Ainda hoje ele era, fora sempre o homem da sua vida. Tivera os seus filhos e esforçara-se constantemente por estar à altura. Ser a esposa que ele idealizara, mas hoje? Lá atrás... Se tivesse sido mais forte, teria esquecido a empatia. O envolvimento. Não teria logo partido para uma relação precoce, com a sua mania de ser boa samaritana. De o pôr à frente de todas as suas prioridades... Até do emprego. Da sua formação académica que na altura a uma mulher custava tanto a conseguir. E hoje? Que coisa! Sentia-se parva com aquela palavra a repetir-se na sua cabeça. "Hoje... Hoje o quê?!" A saber o que se fizera entendível, neste momento, ponderava se talvez não fosse melhor ele ter regressado a Angola.  Ter feito toda a sua vida ao pé de Zuleica e ela ter seguido o seu caminho. 

Sem saber, formaria com Pedro este triangulo amoroso de miseráveis insatisfeitos. Três almas diferentes, que nunca tiveram descanso. Que sem se conhecerem, duas delas, partilharam aquela terceira, sendo quiçá, ela ( a esposa)a menos beneficiada, embora o tivesse ao lado. Caramba! Ele era o seu homem. Dormiam juntos. Nos primeiros tempos Pedro era fogoso. Exigia dela o que qualquer homem pede duma mulher, mas... Todavia ela nunca viu na relação de ambos, qualquer tipo de escândalo em lhe dar o que pedia. E era muito satisfatória a sua relação sexual. Porém no fim ficava sempre aquela sensação de frustração no seu íntimo. Quando ele a deixava muitas vezes imediatamente e ia fumar para a janela, pensativo. Não havia aquela conversa carinhosa, depois. Aqueles afagos e o ficar um pouco, que acontecia tão esporadicamente... Noutras entrava furioso na casa de banho e tomava banho mal acabavam. Como se quisesse tirar o gosto e o cheiro dela, de si. Seria isso? Equacionou através dos anos tantos cenários para as atitudes esquisitas... Meu Deus, tinha tantas! E a pensar assim enlouqueceria. Ela tinha de acreditar que Pedro também a amava quando o expressava e a quisera, também. E os filhos? Mas... Quando tinham começado os problemas, o afastamento? As discussões e a raiva surda que se apagava no corpo, mas se tornava amiúde uma "tarefa" a cumprir e não...Amor! Se bem que da parte dela era, mas sempre com medo de saber o porquê daquelas fúrias. Da instabilidade, das horas tardias para chegar a casa, do álcool. O fechar-se no escritório até altas horas a escrever como um fugitivo, escondendo o que fazia. O olhar perdido, o pensamento em noutro lado. Tudo se fazia claro... Hoje! 

Ele vivera com ela sempre pensando noutra! Quantas vezes teria fechado os olhos e imaginado que estava com ela? Se saciara quase de modo violento, lembrando-a e a rejeitava a seguir? Naquelas formas malucas de estar, que a princípio lhe pareceram desadequadas. As evasivas pobres que não lhe serviam. Havia algo mais e ela sentia-o. Sempre sentiu. E quando ele contou doeu-lhe como mais nada doeria, mas nunca imaginou que aquela "sombra distante" significasse mais, muito mais que ela nunca significou para ele de facto! De repente teve de sair do lado de João, tentar  ir respirar noutro lado. r os pensamentos no lugar sozinha. Mas onde raios naquela terra, se podia respirar, com o maldito clima? Onde podia ir, se não conhecia nada dos arredores? Sujeita a cair nalgum barranco, ou ser vítima de um animal ou... Mas tinha de fugir dali, mesmo que os dois estivessem agora nos braços um do outro (o que seria difícil dada a monitorização a que Pedro estava sujeito)... Mas como o filho dos dois ao pé. O outro médico de conivência até podiam... Jesus! Isto era insuportável, estava a ser vulgar e absurda. E quando o melhor do "seu longe", passou pelo extremo do convento muito distanciado do sítio onde estivera, pelo menos sentou-se num banco isolado de tudo, debaixo duma palmeira com uma sombra providencial e desabou. Sem ninguém a ver chorou como nunca chorara. Nada indicado para a sua idade. Daqui a nada seriam dois com um avc, para tratar. Tentou acalmar-se. Enquanto isso apalpou o telemóvel. Afagou-o pensando nos filhos. Especialmente em Maria da Graça. De mulher para mulher. Não de mãe para filha! Helena necessitava desabafar. Gritar e revoltar-se, sob pena de rebentar. No entanto, para que ia macular a imagem do pai, perante os seus descendentes? Ela era que tinha de lidar com aquilo e decidir. Teimosa, cheia de altivez levantou-se, mal pressentiu o vulto de Zuleica a caminhar na sua direcção. Maldita, sina! Ia ter de ouvi-la? Falar-lhe depois de não saber como fora o seu encontro com o homem... Que afinal, ao que parecia as duas amavam! Ou ela não teria ido lá. Nem que o filho pedisse, ou o outro clínico quisesse. Se ela não sentisse nada, que desprezo... Distanciamento. Ou Pedro lhe fosse hoje, indiferente, não se abalaria do sítio onde morava ali, por uma homem que a abandonara e aos filhos, sem nunca mais dar notícias. Mesmo que ele estivesse às portas da morte! Ou seria outra estúpida que levava o  ser cordial, solidária e humanista, à letra, mesmo para quem a ferira? Reparou que os bonitos olhos verdes estavam raiados de sangue. Também chorara! E toda a contrariedade e desdém lhe passaram naquela hora. Queria poder ser capaz de a odiar. De enfrentá-la e deixar claro que teria sido a última vez que falaram e se viam. Tanto! Muito mais combatia dentro de si em relação à outra, mas sobrepunha-se sobretudo dó! Até de si mesma. Não podia desfeitear a outra! Ela era uma vítima maior que ela talvez dado o que sabia agora. E quando ela lhe disse uma única palavra (obrigado) e a olhou nos olhos com aquele ar resignado e sofrido e seguiu caminho, placidamente, teve vontade que se sentasse. Ficassem ali, uma ao lado da outra em silêncio, com lágrimas, problemas e um sentimento em comum, que talvez ambas quisessem partilhar, tentar compreender, dar volta a algo que não tinha volta a dar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:28



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