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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 02.09.12

Sentido dos dias – Leituras XXIV

Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.

Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.

Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…

Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.

Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…

Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:

- Aí está o nosso cronista…

- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.

Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.

As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.

Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.

Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.

João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!

Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:

- Pai venho despedir-me…

- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.

- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…

E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.

Finalmente arriscou:

- Dê-me um abraço… meu pai!

Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:

- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…

O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:

- Agradeces-me porquê pai?

Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:

- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.

-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…

- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… 

 

José da Xã

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por José da Xã às 02:05



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