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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 29.08.12

Sentidos dos Dias - O segredo XXIII

Podia proibi-la de vê-lo, com todas as desculpas válidas e o facto de ser sua mulher... E ele jamais a perdoaria quando soubesse. Podia exigir estar presente, ou pelo menos próximo, que pudesse ouvir o que falavam, mas seria traição. Baixo da parte dela. Além de que fervendo em pouca água, lhe daria vontade de intervir. Portanto seguindo a sua capacidade de "encaixe", deixando-se levar pelo bom senso, foi assim que Helena voltou costas a Zuleica, e enquanto esta ia com o tal médico negro ao encontro de Pedro, ela foi com João até ao jardim do Convento. Pelo caminho cruzaram-se com o físico mais idoso que a cumprimentou efusivamente.

- D. Helena! Como está a senhora, hoje? Espero que tenha descansado. E o nosso doente?

- Bom dia, Dr., lamento desapontá-lo. Na realidade não preguei olho. O meu marido passou bem, dentro do esperado, suponho! Está agora...

- Sei, muito bem! Está com visitas. Não espero que compreenda. Aceito que me censure, mas na minha idade já vi de tudo e se isto não resultar...

- Devo presumir que este "tratamento de choque" é o que chamou de contenção de emoções? Não! Não percebo. Se ele piorar o senhor vai explicar a sua ideia, e praticas de medicina, também aos meus filhos!

- Não se revolte comigo. O seu marido é reincidente, portanto um homem forte! Já sobreviveu antes. Está cansado, muito cansado. Desmotivado. A pensar que desta, já não há volta a dar. Está bem acompanhado! E eu estou decidido a que saia daqui, como veio...Pelo seu pé! Ponho a minha carreira em jogo. Ele também precisa de estímulos...Bem dirigidos. A senhora foi um. Notou que gostou que viesse. Agora a outra senhora, segundo parece, também seria alguém com quem deve falar. Um homem deve tratar dos seus assuntos, não acha? Considere isto uma fisioterapia do músculo cardíaco.

Helena seguiu com João cada vez mais nervosa e angustiada. Não sabia que pensar. Se o homem era maluco ou seria ela que não estava boa do juízo! Em Portugal nenhum médico faria isto de certeza, mas queria despachar-se. Regressar depressa ao quarto, a fim de ver a reacção de Pedro. Se pudesse apanhar alguma coisa do fim da conversa... E diante do amigo dele ouviu finalmente, bebendo as palavras, a história dos dois. O segredo totalmente revelado. João fez questão de não omitir nada. Disse-lhe que menos, nem uma ou outra, o mereciam. E todo o tempo em que Pedro falaria com o seu primeiro amor, a mulher soube que existiam dois filhos, sim! Gémeos falsos. Não só o destino fizera o "favor" de os separar do pai, como dera àquela mulher mais uns "brindes" pelo caminho. João e a mulher foram para ela, o que Pedro devia ter sido. Depois do abandono ela trabalhou muito e conseguiu reerguer-se. Voltou à sua terra empregou-se novamente como professora. Os miúdos teriam por volta dos onze anos quando na sua escola, eram "vítimas" sucessivamente, da maldade de outros alunos. O que fez com que um deles não aceitasse que Zuleica não contasse o que acontecera  com o pai, uma vez que se recusara a deitar mão duma mentira. Contar-lhes que morrera! E assim livrar-se de mais explicações. 

Mas, num dia já muito cansada e sem ver por que adiar,(quando o miúdo não se calava, contagiando o outro) desesperada, triste e humilhada, sentou-os na frente e contou: O pai deixara-os. Era um soldado, que tinha escolhido vir para o seu país, como muitos fizeram. A culpa não era de ninguém, mas da guerra. Um dia, quem sabe, poderiam conhecê-lo... Só que nunca pensou que depois de ser bombardeada de perguntas, sobre o porquê dele nunca perguntar por eles? Se tinha outra família, como se chamava... e os ver já exaustos a dormir, um, durante a noite fugisse de casa. Explicara que queria apanhar boleia com o intuito de vir a Lisboa... Mas o que conseguiu foi, ser encontrado pelo irmão e a mãe, caído na estrada com uma bala alojada na espinha, disparada por não se sabe quem.

Resumindo: O resultado de todo aquele calvário era, além de muito mais de que ficou conhecedora, um dos filhos de Pedro ser nem mais nem menos o rapaz gerente do hotel onde ele ficara acomodado. O outro? E aqui Helena quase ia tendo ela própria, uma sincope! Era o Doutor Gil...Que vendo o irmão a esvair-se em sangue, jurou naquele momento, que seria médico se ele se salvasse. O que podia Helena fazer contra tamanha revelação? Tanto pormenor cheio de sangue, lágrimas. Uma vida de martírio? O que podia ela contra o maldito destino, ter posto agora um dos filhos a tratar do pai, e um outro, no seu hotel. Muito antes de todos terem chegado aqui...A um convento no meio do nada! Quando se levantara de manhã, nunca supos vir a sentir-se, assim... Pavorosamente siderada.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 10:30



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