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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 19.08.12

Sentido dos dias – Arrumar a vida XX

Não seria uma mera doença que impediria Pedro de partir. Retivera-o sim por mais algum tempo mas nada lhe retirara nem o desejo nem a teimosia de retornar a Angola.

Nessa tarde de domingo de loja fechada, começou a arrumar a sua vida interior antes de voar para África. Para tanto foi à velha mala e começou a retirar de lá alguns papéis. Pedaços de vida escritos havia anos. O tal livro jamais compilado. Centenas e centenas de folhas A4 ou apenas nacos de papel, onde num vislumbre escrevia o que sentia ou aquilo que se recordava.

E havia ainda diário de guerra. Mas esse… Seria provavelmente outro livro. Tinha medo de o abrir, de relembrar o que acontecera tantos anos atrás… Todavia um dia teria de ser! Mas não agora…

Pegou novamente nos textos e foi relendo o que escrevera. Alguns tinham data outros nem tanto… Porém ia lendo e rindo. E lembrava-se de quase tudo. As notas que tirara de Alberto por causa da livraria também ali se encontravam. E aquela teoria impensável que os livros tinham um destino antecipado… Ria para dentro porque por fora a sua fisionomia mantinha-se impenetrável. Sempre fora assim, ou pelo menos a guerra obrigara-o a reservar os seus sentimentos. Podiam-se contar pelos dedos as vezes que ele sorrira de forma espontânea e simpática. Jamais!

Foi colocando os papéis por ordem de datas. Os outros, sem qualquer referência de data, foi-os deixando de lado. Muita da escrita nem parecia dele, tão distante que estava agora da realidade. Dava-lhe a estúpida sensação que quem escrevera aquilo fora outra pessoa tão diferente do Pedro Rafael Assunção que era agora…

O actual escritório que fora em tempos um dos quartos dos filhos entretanto independente, tinha apenas a porta encostada. Sentiu que alguém abria a porta. Só podia ser Helena. Esta olhou o marido e percebeu como ele estava velho. Como a vida o tinha comido por dentro e por fora. Lembrou-se daquela tarde em que o foi esperar à Doca Rocha de Conde de Óbidos, como madrinha de guerra de um soldado que apenas conhecia por carta. E nesse mesmo dia conheceu os pais dele e seus futuros sogros. Gente simples e boa… Uma lágrima teimou em cair na alcatifa.

O marido tinha dado pela entrada da esposa, mas ao contrário do que muitas vezes acontecera permitiu que ela se aproximasse dele. Ela abraçou-o por detrás com carinho e declarou:

- Sei que sou impotente para te impedir que vás a Angola. A dúvida que toda a vida te consumiu há-de ser dissipada. E hás-de regressar e viver os restos dos teus dias finalmente em paz…

Pedro virou-se para a mulher e naquele breve instante sorriu. Um sorriso sincero e grato. Ergueu-se, pegou na face, já rasgado pelos anos, da mulher e deu-lhe um beijo simples. Tocou-lhe os lábios com simplicidade e finalmente declarou:

- Obrigado Helena.

Era um agradecimento profundo. Mas parecia prenunciar algo diferente. Se por um lado a mulher gostou do gesto carinhoso do marido, por outro sentiu que havia ali algo… tenebroso. Mas rapidamente afastou essa sua ideia. Assim e vendo os papéis em cima da mesa perguntou:

- Que estás a fazer?

Pedro voltou a sorrir. E respondeu duma forma franca e aberta, como ela nunca o vira:

- Estou a arrumar a minha vida. Anos e anos de parvoíces escritas para um dia poder compilar e…

Uma pausa para respirar, como se as recordações o cansassem. Mas continuou:

- E um dia espero poder publicar um livro com tudo isto… Mais o diário de guerra…

Helena riu também. Havia anos que ela sabia de todos aqueles textos, do diário, mas jamais lhe dera a curiosidade de ler fosse o que fosse. Seria trair a confiança dele. Porém gostaria de ler algo dele e assim pediu:

- Posso ler alguma coisa que escreveste nesses papéis?

O marido pegou em diversas folhas e entregou-lhe, sem mais comentário. Helena aceitou e sentou-se num velho “fauteuil”. Sem pressas foi lendo e passando folha a folha. O marido continuou a arrumar mais papéis. Quando de repente se virou para a mulher, viu-a lavada em lágrimas. Assustado ergueu-se do seu cadeirão e dirigiu-se à mulher, preocupado.

- Que tens Helena? Dói-te alguma coisa?

A mulher levantou os olhos para o marido e encontrando o olhar ansioso de Pedro, disse apenas:

- Onde aprendeste a escrever assim?

- Hã? Não entendo…

- Tu escreves coisas maravilhosas. Porque me escondeste isto toda a vida?

A pergunta tinha razão de ser. Mas Rafael não sabia responder.

- Mas eu não escrevo assim tão bem… Há coisas que saem melhor que outras… isso é verdade.

Helena levantou-se e foi a vez dela agradecer:

- Muito obrigado por teres partilhado isto comigo. Fico muito feliz!

Finalmente o antigo soldado, o herdeiro de uma fortuna, o alfarrabista que nascera e crescera numa aldeia de Trás-os-Montes, arrumara a sua vida. A lágrima sagrada rolava por entre as rugas até cair na mão de Helena

Faltava agora apenas e só um por maior.

 

José da Xã

 

 

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por José da Xã às 10:11



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