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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 15.08.12

Sentidos dos dias - Ressentimento XIX

Helena jamais poria um pé que fosse em África! Havia-o jurado há muito, sob uma raiva a pender para o ódio, que foi controlando dentro de si como podia. Aquela terra tirara-lhe o que mais sagrado preservava. O amor e a felicidade justa a que tinha direito, vivendo-a sempre por metade. Pedro Rafael estava ali apenas em corpo. Muito raramente como pai, amante, amigo, companheiro...Pessoa!

Quando atendeu o telefone a João e se inteirou da situação, depois de desligar, as lágrimas corriam-lhe a quatro. Mulher determinada telefonou aos filhos. Pediu-lhes que viessem para casa e enquanto esperava tratou de fazer a mala. Uma coisa pequena, porque assim que pudesse trataria de trazer Pedro para Portugal para junto dos seus. No seu íntimo existiu, constantemente, um sentimento esquisito que lhe sussurrava que aquela viagem seria um grande risco, podendo ser até fatal. Sabia dos problemas do marido. Por mais duma vez, fora hospitalizado. Assim e já dentro do avião, todo o seu ser se revoltava. Amaldiçoava aquela mulher e o filho. A estúpida guerra maldita, que o tinha feito conhecê-la.

Mal Marida da Graça e os irmãos souberam que o pai tinha tido outro ataque, ao que parecia bastante grave, queriam todos acompanhá-la, com alguma reserva do mais velho. Tinha algumas reuniões importantíssimas agendadas nessa semana, mas disse que cancelaria. Porém Helena queria estar primeiro a sós com o marido. De certa forma, os filhos sabiam que entre os pais nem sempre havia o melhor clima, mas Helena e Pedro, também não, nunca tinham desabafado com nenhum, fazendo-os conhecedores da real situação. Por isso iria... Sem saber ao certo para onde, só que o Pedro estava tão mal que nem pudera ser levado para o Hospital, tendo de ser assistido num convento qualquer de que já nem sabia o nome, só que ficava em Negage, fosse lá isso onde fosse. Que estava a ser tratado por dois médicos e pessoal do local.

Uma coisa era certa: "Se ele pensava que o deixaria (a melhorar e ficar capaz) ir de novo atrás daquela mula e da cria, estava muito enganado!"

Mal o visse com forças enfiavam-se num avião e só descansada em solo luso. Foi este o pensamento no aeroporto e quando entrou no Jipe e conheceu João em pessoa. Simpático senhor. Muito amigo de Pedro notava-se. Falador... Quando ela tinha uma dor de cabeça monstruosa. Estava aquele calor que a indispunha mais e irritava. Soube que ele viera de madrugada, pois não queria ausentar-se muito tempo do lado do amigo, mas também, não permitiria que mais ninguém viesse buscá-la. Era o seu dever! E continuava a dizer que não percebia como Pedro se tinha metido naquilo ela sendo uma mulher tão bonita. Tendo a sua vida toda...E com um problema daqueles. No entanto não o condenava dadas as circunstâncias e...Foi quando ela ganhou coragem para perguntar que ele a olhou muito sério. Durante uns minutos ficou calado, mas respondeu.

- Ela? Se já estão assim tão próximo, sabe que ele está mal? Sabe de todo, que ele está cá e o motivo? Há possibilidade dela...

- Dona, Helena! Não se mace com isso. O que importa é o meu capitão melhorar. Irem à vossa vida. Convenco-o a portar-se como deve, vai ver!

- Desculpe senhor, João. O senhor não me conhece mas fará um ideia do que foi a minha vida. Não é capricho meu não querer sequer lembrar-me que essa mulher existe e se interpôs sempre entre mim, e o meu marido, quando mais cruzar-me com ela. Seria...O último ultraje, percebe?

João começava a entender a má vontade dela em estar ali e provavelmente seriam complicados os próximos dias.

- Compreendo perfeitamente e vou ser sincero consigo. Sei onde ela mora, sempre soube mais ou menos a vida dela. Como foi vivendo desde que... Bem! Desde que o Pedro foi e eu fiquei. Garanto-lhe por muito que lhe possa custar ouvir, que ela não teve culpa de nada. Nem ele, talvez. Simplesmente aconteceu. Como tantos que cá estiveram. Coisas ainda muito piores. Mas isso agora não importa. Quando começámos esta aventura disse ao Pedro que não iria com ele até ela. Não quero ter mais nada a ver com isto! No bom sentido, diga-se. Acho que se ele quer e necessita, para ficar em paz, falar-lhe, o deve deixar. Mas devem fazê-lo a dois. Sem nós a influenciar ou opinar... A senhora tem mais que razões. Eu não sou defensor da Zuleica, no entanto ela sempre foi uma mulher direita. Forte, decidida. Trabalhadora, lutadora. Nos primeiros tempos a coisa foi muito difícil, por isso sem gostar muito de o fazer recorreu a mim. Em último caso, por saber que eu estava dentro do assunto...

- Se calhar para você interceder por ela. Fazê-lo voltar, escrevendo, ligando! Alguma vez disse, ao Pedro. Isso que me está a contar? Da dificuldade?

João queria manter a primeira impressão de Helena. Uma senhora conformada e admirável, mas assim a insinuar coisas era difícil.

- Jamais, D. Helena! Jamais! Uma coisa que ela me fez jurar logo de início, era que em caso algum o contactasse. Participasse algo sobre ela e...

- É orgulhosa! Ou está ressentida, rancorosa. A encontrarem-se há-de fazê-lo sentir-se ainda pior. Ele é um parvo e...

- Lamento que, o que eu  disse, a faça pensar assim. Só conhecendo. Se a vir e se lhe falar, mudará logo a sua forma de "julgar". A Zuleica é uma mulher tranquila. Resignada. Trabalhadora. Sobre tudo muito honesta e fiel.

Parou um pouco a pensar se devia ou não acrescenar aquilo, mas francamente Helena estava a irritá-lo a falar sem conhecimento de causa. Por isso acrescentou:

- Nunca se casou. No fundo e como diz é outra parva...

- Já vi que tem em si, um acérrimo defensor. E... admirador.

João percebeu o ódio de décadas. A malícia no olhar e no sorriso de Helena. Zuleica para ela tinha de ser uma "perdida". Alguém vil. Por um momento não gostou da direcção que a conversa levava. Se ela pensava que por um momento, os dois, alguma vez tinham tido algo. Mesmo que ela não quisesse, da parte dele haveria interesse... Esta, podia ter tido a sua quota de sofrimento, mas teria sem dúvida, muito a aprender com a outra.

- Vou fazer ouvidos moucos a esse comentário, minha senhora. Como estamos a chegar pergunto-lhe só: Se você ficasse sozinha numa terra em convulsão, olhada pelos seus conterrâneos como tendo dormido e sido conivente com o inimigo. Trazendo na barriga um filho dele. Sem arranjar trabalho em lado nenhum, por causa disso. Temendo pela sua vida e a do feto. Não tendo como se manter a si e à criança, depois... E sendo uma mulher que não aceita derrotas, talvez se tivesse chegado a mim também, para me pedir que a deixasse trabalhar a dias em minha casa, sendo ela professora diplomada e das boas? Ah! Devo dizer-lhe. Já eu era casado. A minha mulher estava também de esperanças. Fique a senhora a saber, que os filhos do Pedro e o meu mais velho nasceram no mesmo dia à mesma hora. Curioso não é? Que eu fosse visitar duas mulheres que pariram e uma fosse a minha, e a outra? A dum colega de armas que a deixou prenhe e nem mais perguntou por ela?

- Filhos! Disse... Filhos?!

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 12:57



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