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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 08.08.12

Sentido dos dias - Perto XVII

O resto da viagem correu sem acidentes. Andaram mais que o estipulado, não fosse acontecer novo percalço e noite já alta chegaram a Negage. O rio Cáua corria indiferente, escuro, só reflectindo a luz duma lua branca magnífica, no meio de pouca claridade. Tão tarde da noite João preferiu não arriscar os dois únicos hotéis da zona, até porque a maior parte do seu espólio se tinha esgotado. Preferia que o seu amigo resguardasse o dele, para qualquer eventualidade futura. Portanto, adiantou-se na estrada até à missão de padres capuchinhos, datada de 1970. Lá por certo lhes dariam guarida de boa vontade. Os aprovisionariam do que necessitassem, dentro das suas possibilidades. Ainda que dormissem num catre, ou no chão mesmo, fazê-lo ali era estar seguro. Longe de predadores de toda a espécie, dos mosquitos e dos "renegados" ou aproveitadores. Foram bem recebidos. E mesmo àquela hora, havia sempre alguém de vigília. Logo que se lavaram, uma malga de caldo condimentado e grosso para confortar o estômago, soube-lhes como o melhor manjar.

Já cada um nas suas celas exíguas Pedro, exausto, deixou-se cair na cama estreita. Doía-lhe a perna. Todo o corpo. E a imagem da enorme cobra ao ombro do negro, passou-lhe do novo pela memória...Havia algo que o protegia ali. Que parecia querer que ele levasse a sua missão até termo. Olhando o enorme crucifixo pendurado nas paredes caiadas suspirou. Devia fechar os olhos e dormir. Apagar apenas! Como se o mundo o engolisse, de preferência sem sonhar. Contudo voltou a erguer-se e sentado acendeu a vela da mesa de apoio, tosca, única peça de decoração além do jarro e bacia, com o penico de esmalte branco. Escreveu. Data. Hora e acontecimentos recentes. Parou! Levantou-se e alto como era, não lhe foi difícil espreitar pelo pequeno buraco com grades, que servia de janela. O cheiro do rio, misturado com a frescura da terra, à noite, acariciada pela torreira do sol implacável, durante o dia trouxeram-lhe a imagem dos cafezais. O seu aroma. Pedro Rafael inspirou sôfrego. Atreveu a vista mais longe alcançando as palmeiras. O branco do edifício em contraste com o chão, de caminhos bem definidos orlados de pedras pequenas claras. Um céu de cortar a respiração. E...Pensou nela!

"Estava tão perto. Tão perto! Como estaria ao fim de tanto tempo? Ainda seria bela, de certeza! E aqueles olhos verdes que o enfeitiçaram... O sorriso como um monte de neve pura. O seu menear de ancas. As pernas lindíssimas. Os seios, cheios, cabelos..."

Aquela mulher iria com ele para a tumba! Com todos os sentidos ainda despertos, sempre que pensava nela. Aquele tambor no peito. Era tal se ouvia antes nas picadas, transmitir-se pelo ar, de cubata em cubata como sinalização...Mas o seu tambor? Era o coração. A paixão forte! Tão vincada que ainda que morresse daí a segundos, se a visse morreria feliz. E portanto era um homem casado. Com filhos. Uma vida tão distante e ainda hoje..."Deus! Largaria tudo se ela o quisesse. Se estivesse livre." Que estupidez! Onde estava com a cabeça? E... Helena?! Não lhe merecia aquilo.

A cabeça rebentava-lhe. Daí a nada nasceria o sol e se não dormisse poucas horas que fosse, arriscaria a ficar doente. Pelo caminho com o calor e toda aquela excitação acontecer-lhe-ia o que adiava..."Não! Não era a porcaria dum derrame qualquer cerebral... Uma merda dum ataque cardíaco, que fariam com que perdesse tudo de novo. Queria vê-la. Falar-lhe, desculpar-se. Como? Não sabia! Mas se ela sentisse o que ele sentia... Queria ver o filho. O fruto daquele amor tão lindo, que..."

Agarrou na toalha puída, mas imaculada, e molhou-a no jarro de água. Levou-a à cabeça. Entretanto na sacola que levava consigo, para além de algumas outras coisas essenciais, procurou um analgésico. Tomou-o! Apagou a luz e deitou-se. Pela fresta da janela e reflectida no pequeno quarto, entrava a luz do luar que incidia no Cristo da cruz. Rezou! Implorou um pouco de paz. Conseguir dormir. Aguentar. "Por favor, Senhor! Só vê-la. Só te peço isso. Deixa-me chegar lá. Falar-lhe. Sentir-me de novo um homem digno. Depois, meu Deus... Sou todo teu!"

Era já meio da manhã quando João, para lá da grossa porta de madeira, o chamou:

- Então, meu capitão? O manhã já vai alta... Está tudo bem, aí dentro?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:09



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