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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 05.08.12

Sentido dos dias – Na aldeia XVI

O carro parou com um ronco.

- Chegámos  - suspirou Pedro.

- Finalmente… Isto é onde Deus perdeu as botas – confessou Helena.

O condutor saiu do carro. Espreguiçou-se e aspirou com prazer um ar frio da noite. Reconheceu o odor a lenha arder nas lareiras, o perfume das margaridas em plena primavera, o aroma da terra molhada devido a uma chuva teimosa que caíra durante a tarde.

No céu as estrelas espalhavam-se como num manto. A Lua era a rainha da escuridão brilhando de forma imponente. Pedro virou-se para dentro do carro onde Helena tentava em vão acordar as crianças mais novas e solicitou:

- Deixa as crianças dormir… Vem cá fora respirar este ar…

Helena acabou por sair mas foi dizendo:

- O que é que tem este ar? É igual aos outros…

Pedro não desarmava.

- Isso dizes tu. Estás habituada ao de Lisboa…

Helena devolveu:

- Que eu saiba vivi mais de vinte anos em Alenquer que é muito longe de Lisboa…

Pedro não desejava discussão, por isso mudou de conversa.

- Será melhor entrarmos. Está frio aqui fora…

Pedro meteu a chave à porta e entrou numa escuridão mas que ele conhecia muito bem. Lá dentro um cheiro a bafio misturava-se com o ar da rua. Tacteou e encontro um velho interrupto de luz, último melhoramente feito pelo pai antes de falecer.

Demoraram a instalar-se. Mas quando finalmente Pedro se deitou na velha cama de ferro que herdara dos pais passou o braço por cima do pescoço da mulher e puxou-a para si. De uma forma ternurenta, que Helena não conhecia no marido, beijou-a na testa e sussurrou:

- Obrigado!

Helena sorriu e encostou-se mais ao marido.

No dia seguinte Pedro acordou com o som de um galo a cantar. O sol parecia, também ele, querer acordá-lo ao entrar por uma fresta dos taipais de madeira que tapavam a janela. Levantou-se devagar tentando não acordar Helena e dirigiu-se para a pequena varanda que havia na cozinha e que lhe dava acesso ao quintal.

Devagar descerrou todos os taipais e abriu finalmente a porta. A beleza do que viu à sua frente deixou-o sem palavras. Aquela encosta que se abria na sua frente até quase se perder de vista e de um tom verde que ele já esquecera fê-lo dizer algo:

-É aqui que tenho de começar a escrever livro da minha vida…

As palavras de Hermínio, numa das suas últimas visitas à loja em Lisboa, deixaram marcas profundas no seu coração.

Mas que livro tinha ele que escrever? Ou seria que as palavras tinham outro sentido? Ele adorava escrever mas… um livro? Respirou profundamente.  Não sabia que pensar!

Ao fim de quase vinte anos de ter partido para África para cumprir a tropa, Rafael regressava agora às suas origens em busca de si próprio, talvez. Em Maio a festa do Senhor dos Aflitos tinha peso na vida dos que ali haviam nascido. Prometera na viagem para Angola regressar a Campo para levar o andor do Santo Padroeiro, se regressasse vivo e bem de saúde. E estava agora ali para cumprir o que prometera.

Mas dentro do seu coração e da sua alma morava uma dúvida e um sonho. Zuleica dera-lhe a entender que esperava um filho seu. Mas seria verdade? Ou apenas uma forma de o fazer regressar a Angola para os seus braços?

Porém o sonho de voltar ao país que realmente o transformara, mantinha-se.

Durante três dias calcorreou as terras herdades e quase abandonadas. Entrou no velho palheiro do pai e encontrou as guinchas penduradas, assim como os escrinhos quase todos desfeitos. As arcas de madeira carcomida pelo bicho ainda pareciam ser imponentes. Mostrou às suas crianças onde brincara e onde crescera. A escola primária e o lagar do azeito do Ti Salomão. Foi um tempo de apaziguamento com o passado.

De mão dada com Helena, enquanto as crianças corriam à frente deles numa das veredas, Pedro Rafael desabafou:

- Helena, foi aqui que tudo começou. É daqui que tenho de recomeçar.

- Mas recomeçar o quê?

O transmontano olhou em seu redor. As cerejeiras começavam a surgir com uns berlindes tão pequenos que mal se viam, o vento acariciava a seara num chão próximo e a chilreada da passarada era música para os seus ouvidos.

- Escuta isto, Helena…

- Isto o quê?

- Isto tudo que aqui vez sou eu…

- Não entendo, homem!

De súbito calou-se e respondeu apenas:

- Pois não Helena, pois não!

 

José da Xã

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por José da Xã às 10:25



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