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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 01.08.12

Sentidos dos dias - Misticismo XV

 

A primeira ronda fora sua. Agora enquanto via João andar sorrateiramente de volta da fogueira,  a agitar o que já morria nela, Pedro sentia todo o corpo pesado. As pernas matavam-no. Os pés estavam inchadíssimos, com as tiras das sandálias pressionadas contra a sua carne crestada do sol. A pele dos braços e do rosto era fogo! Um unguento seria uma maravilha ali, um bom banho e uma cama então...Sentia as nádegas suadas. Os elásticos dos slipes comprimidos nas virilhas. Teve ganas de tirar os calções e tudo o que o incomodava, dormir nu. Mas os mosquitos... Outra contingência que acontecesse e preferiu deixar-se estar. Aguentar. Recordou a família longe. Como estaria Helena? Os filhos, cada um na sua labuta. E mais uma vez o médico, que lhe dissera, que para além da vacinação habitual, de quem se desloca para estes países, ele deveria levar um mundo de panaceias e "mezinhas" modernas que lhe permitissem passar melhor, enquanto por ali se atrevesse. Mas Pedro Rafael rira-se! Quem estivera numa guerra daquelas e sobrevivera, com certeza aguentaria (mesmo uma imensidão de anos depois) umas bolhas d'água, umas "assaduras". Muitos desconfortos que já esquecera, obviamente. E daria graças por uma mala recheada de prontos socorros específicos. Alguém que lhos aplicasse. 

Confiava totalmente no amigo. Era uma questão de principio. Conhecia-o quase como a si mesmo. Já lhe salvara a própria vida, por isso adormeceu. Extenuado. Com o episódio, na cabeça, em que João o salvava a si e a Zuleica naquele dia de horror. E... Sonhou! Continuou a sonhar, um sono algo leve e fundo. Perturbado e não compensador. Vi-a de novo. Nua! A dirigir-se na sua direcção. Bela, jovem, a debitar amor e paixão por cada poro do corpo. Esteve de novo com ela! Sentiu ainda naquela madorna doentia, o seu coração a disparar e a pele dela sedosa sobre os seus dedos. Ouviu-lhe os murmúrios, os suspiros. Aparou-lhe os seios nas mãos e a urgência. Deu-se! Como se pudesse fazer um qualquer tipo de alquimia, pegar numa ponta do véu do tempo, para obrigá-lo a voltar atrás! Saboreou beijos, suor, e gemeu também sem pudor. Mais tarde quando acordasse veria que mesmo idoso ainda era... E de repente o sonho mudou! Viu Alberto. Falava qualquer coisa imperceptível. O rosto muito sério. Calculou que fosse um aviso, mas era apenas um sonho a transformar-se em pesadelo. Ele a querer acordar sem conseguir. Como naquelas alturas em que dormimos e sabemos que não o queremos fazer mais! Teimamos em acordar, mas o subconsciente e o corpo ordena, aquele tipo de transe. Até que se recobre domínio sob todas as nossas funções cognitivas de alerta, é um caso sério. E foi nesse torpor quase agonizante, que o "gigante" de antanho, dentro da sua loja de alfarrabista, lhe falava agora sobre o destino. Sobre cada livro ter o destino de cada pessoa. Este se ir escrevendo a cada dia, muitas vezes a caracteres de sangue suor, lágrimas e... Sentiu uma guinada no tornozelo direito. Tinha o pé entalado e doeu-lhe ser arrancado sem delicadeza, pelo abanão abrupto, e o despertar fez-se violentamente também.

"Tu! Patrão. Ainda não é hoje que terminarás o teu livro. Tens uma dívida com África e tens de lha pagar. Só depois...Só depois..." As palavras bateram-lhe tão fortes e nítidas na cabeça como se uma pedrada o tivesse atingido, embora o negro possante que o empurrara para fora do gipe com as portas todas escancaradas, como adormecera, apenas o olhasse fixamente. A arma em punho na sua direcção apontasse a matar, disparando logo de seguida. Mas ao lado! Pedro ficou em pânico. Onde estava João? Haviam-no morto? Demorou um bocado a situar-se na cena que tinha na frente. O negro enorme, de camuflado exibia agora na sua frente uma cobra mortífera, de vários metros. Uma grossura impressionável. Por entre um português "arranhado" percebeu que esteve a um décimo de segundo de ser mordido. Este chegara na hora certa. Mas donde raios surgira? Poucos minutos passados, começou a ouvir vozes. Olhou para trás ainda algo confuso e viu o carro dos outros três, que ao início da noite, passara por eles. João conferenciava sobre o bidão de gasolina que estava do seu lado. Agitava algumas notas na mão. Este possivelmente viera com eles... Sem saber o que fazer, Pedro compôs-se, empertigou-se dando-se alguma importância mesmo depois do acontecido, agradeceu. O negro nada disse. Atirou com o animal para cima das costas e virou-lhas, deixando-o a olhar embasbacado. Mal chegou ao pé dos restantes o português foi substituído pelo dialecto em comum. Risada abundante. Logo depois, já o dia queria raiar, o carro com todos lá dentro, fazia-se à estrada e depressa desaparecia. João não tardou a encher o seu depósito para seguirem viagem, logo que apagou convenientemente a fogueira. Pedro atónito, estava ainda sem acção, mas perguntou:

- Sabes o que o tipo fez?! Se não fosse ele... Mas porque se riam tanto?

- Ora, meu capitão, não se hão-de estar a rir. Não é de si, fique descansado! Coisas destas acontecem até a eles. Uma bicha daquelas. Foi obra!

- Então riam-se de quê? Falavam sobre que assunto, tão bem dispostos?

- Pois, claro! Rejubilavam sobre me deixarem quase "teso" com a porcaria do preço do bidão. E gozavam! Além disso já tinham almoço. Portanto a noite correu-lhes de feição. Mais umas litradas de aguardente, a que um deles tresandava. Algumas garrafas que vi no caixote da bagageira...

Pedro acenou concordando, mas sem contudo conseguir distrair-se da voz do negro na sua cabeça. Do olhar dele. Daquele género de misticismo que o envolvia e tudo naquela terra. "Tu! Patrão. Ainda não é hoje que terminarás o teu livro. Tens uma dívida com África e tens de lha pagar. Só depois...Só depois..." As palavras pareciam bailar a cada quilómetro conquistado da savana. Uma brisa fresca e bem-vinda, ainda lhes fazia ser possível respirar sem dificuldade.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:37



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