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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 29.07.12

Sentido dos dias – Teorias XIV

 

O negócio de alfarrabista não fora  no inicio grande aposta. A maioria das vezes o dinheiro que Pedro angariava da venda de alguns volumes nem chegava para pagar a luz da loja, quanto mais dar sustento à mulher e aos filhos. Valia-se então do dinheiro que herdada e que era bastante. Aliás Helena queixara-se da vida que tinha: abandonara o trabalho para criar os filhos e ajudar o marido mas este estava quase sempre ausente.

No entanto, nos últimos tempos, algo mudara em Pedro Rafael. Após o parto prematuro de Alberto, o filho mais novo, e de uma enorme teima com a mulher devido à sua postura evasiva, Pedro percebeu enfim de que nada valia exibir aquela tristeza e prostração. Tinha três filhos maravilhosos e uma companheira que o amava como ninguém. Devagar foi usando de uma nova postura e o ambiente em casa tornou-se mais familiar.

Certo dia um homem entrou na loja. Pedro arrumava uns compêndios acabados de comprar quando aquela figura quase gigante lhe apareceu. Era um homem de uma envergadura quase anormal. Media mais de um metro e noventa, pois teve de se baixar para passar na ombreira da porta e pesava muito acima dos 120 quilos. Espantado com aquela presença Pedro cumprimentou:

- Bom tarde.

- Boa tarde, cavalheiro. O Alberto?

O alfarrabista admirado com a questão respondeu com sinceridade:

- O senhor Alberto morreu, haverá uns anos valentes… Porquê?

O outro aproximou-se e estendeu a mão a Rafael. Esta viu a extremidade do seu braço ser literalmente engolida pela mão da visita mas sentiu-a quente, macia e afável.

- Chamo-me Hermínio Correia. Fui durante muitos anos cliente e amigo de Alberto. Lamento a sua perda.

Olhou à volta das estantes repletas. Pairava no ar um cheiro característico a mofo e a velho. Hermínio calmamente inspirou aquele ar bafiento e foi dizendo:

- Ele bem que me avisou…

- Como?

- Alberto respondeu-me uma vez, quando lhe perguntei porque não vendia a loja, que ninguém merecia receber este espólio. Mas por aquilo que vejo você mereceu…

Pedro não entendera a conversa. Apostou então num esclarecimento:

- Explique-me lá o que está a dizer.

- O velho Alberto era um amigo de longa data. Conheci-o quando frequentávamos a mesma escola. Você sabia que ele era licenciado em Filosofia?

- N… não.

- Pois, calculava. Mas como dizia conhecemo-nos na escola. Ele era muito rico… Herdara uma quantidade de quintas no Norte e prédios aqui em Lisboa. Filho único, neto único vendeu então as fazendas e comprou esta loja que se encontrava vazia. Calmamente com o resto do dinheiro foi adquirindo livros e mais livros. Encontrámo-nos anos mais tarde na baixa. Ele falou-me desta loja e então passei a visitá-lo com regularidade. Entretanto tive de partir para o estrangeiro e só cheguei há alguns dias.

- Eu nada sabia da vida dele. Apenas que me deixou em herança a loja com os livros…

- Então os prédios?

- Isso não sei meu amigo.

- Hum cheira-me que houve saias nisto.

- Saias? Como?

- Não interessa, são teorias minhas.

Continuou:

- E que tal vai o negócio?

- Mal! – foi a primeira reacção, mas logo emendou – nunca estamos contentes com o que temos sabe…

- Eu sei, eu sei. Mas Alberto tinha também umas ideias muito esquisitas quanto aos livros…

- Como assim?

- Ele muitas vezes me confidenciou que os livros tinham vida própria… E que todos tinham destinado um dono!

- A mim disse-me o mesmo…

- Ele tinha a ideia absurda de que um livro após ser lido a primeira vez ficava indelevelmente ligado ao leitor… – Hermínio dissera esta última frase como estivesse a dar uma palestra. Esbracejava, apontava aos volumes, sorria por fim.

- Hã. Como assim?

- Pois é, meu caro. Alberto tinha umas teorias um tanto… como hei-de dizer… fantasmagóricas…  Acreditava na força do pensamento  com razão de vida. Ele próprio vivia a sua vida dessa forma. Por isso ele lhe vendeu a loja. Porque você tinha para ele uma forma de estar muito semelhante à dele.

- Mas eu não acredito nessas coisas… dos livros terem… um destino predefinido.

- Isso julga o senhor… Mas para Alberto o seu livro ainda está por ler…

- O meu livro?

- Sim o seu livro da vida…

- O senhor confunde-me… Quem é realmente você?

O outro riu-se. E entregando-lhe um livro, respondeu:

- Apenas um mero cliente! Levo este! Quanto é?

Rafael pegou no livro e leu o título:

“O Advogado do Diabo”

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:37



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