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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 25.07.12

Sentidos dos dias - Isolados XIII

Caxito fica na Província do Bengo tão perto de Luanda mas vive-se ali como se já no interior de Angola. João ia alertando o amigo para algumas modificações, sítios conhecidos de ambos e acima de tudo para a atenção que teriam de ter ao fechar o carro. Lá atrás levava abastecimento de gasolina que lhes desse pelo menos até novo ponto já estudado por si, visto que a maior parte das vezes, as bombas de combustível estavam todas secas, coisa que Pedro confirmou porque poucos metros à frente deles, apareciam várias pessoas que tinham jerricans cheios para venda... pelo dobro do preço, entenda-se. Assim a paragem foi pouco demorada. Somente para recordar, tirar algumas fotos, muitos apontamentos e "cumprimentar" o rio. Ao largo da cidade, passa o rio Bengo sobre o qual reza uma "lenda" que diz que quem beber da água deste rio ficará para sempre em África o que fez Pedro Rafael quase chegar às lágrimas. Aquela terra mexia com ele apesar de tanta dor que lhe causara em toda a sua vida, privando-o de ter uma existência normal e feliz. "Se ele tivesse ficado? Se com ela formassem hoje uma família? Vissem os netos ( que não tinha e ali precoces, como são as raparigas, já os haveria) a circundá-los, brincando a qualquer jogo infantil, sem preocupação. O tempo correria mole e quente como os beijos de que se lembrava. Teriam todos aqueles momentos especiais, que há no mundo para viver o amor que ele interrompera, abraçados debaixo do telheiro da casa, ou sentados de mão dada a beber refresco e a conversar."  

A imagem de Helena sobrepôs-se à do rio. Logo de seguida a de Maria da Graça e dos outros dois filhos. Foi como fazer uma aterragem de risco. Sentiu o estômago a comprimir-se. Reprimiu o vómito, da aguadilha que se lhe formara na boca. Fora um erro vir! Tinha de se convencer que a vida dele estava longe dali. Ter vindo não ia adiantar mais que ser ou não aceite por alguém, que possivelmente refizera a sua vida. O veria como um "incómodo" ao ter de explicar ao companheiro quem ele era. Ficaria um clima de "cortar à faca" no ar. Que começaria logo pelo filho. Como poderia ele esperar que o aceitasse depois da mãe lhe dizer que o pai lho fizera, mas a deixara lá. Certamente a primeira pergunta seria: "Se gostavas tanto dela porque não ficaste, ou a levaste contigo?"  O carro já deslizava de novo pela estrada de alcatrão, outrora uma picada. E os pensamentos velozes explodiam-lhe na cabeça como granadas. Cravavam-lhe garras no coração e na garganta como tigres esfomeados. "O que raios estava ali a fazer? Estava tudo errado. Tinha de regressar e esquecer-se. Nunca iria dar certo aquele encontro. Nunca! Havia demasiado tempo entre os dois, que adensara feridas e levara todos os perdões para longe... Talvez fosse melhor alertar João que a visita seria diferente. Focada mesmo nos sítios de antanho. E ela...Meu Deus! Ela?! Ia fugir de novo como o covarde que tinha sido? Estava tão perto! Só queria vê-la... Antes de morrer"

- Merda! Filhos duma jibóia. Cães do diabo!!! Cabrões....

O veículo começara a soluçar e a engasgar-se. Não andou muitos metros e o depósito indicava zero de combustível. João saiu desvairado, vermelho como um pimentão, a bufar e a praguejar como nunca ouvira, Algumas palavras no idioma local. Suava em bica e gesticulava dando murros no ar, pontapés nos pneus, em profunda cólera. Rafael não precisou de muito para perceber a má situação em que se encontravam.

- Fomos roubados! Levaram-nos os bidões de reserva também, não me digas?

- Aqueles filhos duma noite de lua cheia. Já sabia que não se pode baixar a guarda. Muitos vivem de roubar para vender. O pior é que aqui no meio de nenhures, estamos feitos!

O sol queimava-lhes a pele impiedosamente. Ambos já tinham bebido mais água que deveriam. Passara uma hora e dentro do carro, de portas abertas, não corria uma brisa. Duas girafas ignoraram-nos um bocado mais adiante. Pedro fez disparar a objectiva. "Contando que não aparecesse nenhum leão, ou rinoceronte..." João tentara o rádio que instalara no carro, visto telemóveis não serem de grande ajuda. O aparelho rouco fazia zumbidos e dava estalidos, que mais parecia estar a entrar-se em contacto com Marte. E a noite daí a nada estaria aí. Uma fogueira foi no que pensaram. Portanto não muito longe do jipe tentaram apanhar ramos e alguma erva seca. Com o isqueiro não seria difícil atear uma boa chama naquele estado desidratado, em que tudo estava. Andavam há poucos minutos dedicados a isso, bem como a manterem-se a salvo de possíveis predadores, quando viram um carro lá muito ao longe a aproximar-se numa nuvem de pó. "Qual era a possibilidade de um carro passar por ali àquela hora tardia e quem viria lá dentro? João apalpou o flanco esquerdo, onde Pedro só agora reparava desenhar-se o feitio duma pistola, ao mesmo tempo que lhe dizia para ficar calmo e junto dele. O deixar falar. Quando o jipe muito velho, de aspecto de ser da tropa nos seus dias áureos parou, vinham dentro três negros com espingardas sofisticadas. Um deles em pé sobre o tejadilho, com ela apontada para todo o lado, o "pendura" com a alça ao ombro. Mal os viram João começou a dialogar e a explicar o que lhes acontecera. Ao que parecia não falavam português, ou se esforçavam por isso. Os rostos fechados e o olhar desconfiado, quase agreste deixou Pedro algo preocupado, ao divagar sobre a arma do amigo. Em toda a conversa não se viu um sorriso, saírem do carro, ou mudarem de posições. Apenas negações e afirmações curtas. Como tinham vindo partiram na mesma nuvem de pó, que fez João praguejar de novo:

- Filhos duma vaca! Desculpe meu capitão, mas neste gajos não se pode confiar.

- Bem, ao menos estamos vivos. Será que regressam à noite? Também pouco têm que levar. Só o carro e as nossas vidas, mais pouca coisa.

- Hum... Disseram-me que regressariam com dois ou três jerricans, mas se quisermos algum, teremos de pagar bem. Supostamente são uma patrulha que anda por aí. Daqueles que ainda pensam que são os donos disto, se é que a haver donos não se matam uns aos outros. Ou comem todos no mesmo prato e dividem os despojos. Nunca se percebe muito bem o que querem e o que fazem.

- Veremos! Daqui também não vamos a lado nenhum. Portanto façamos a fogueira, enganemos o estômago com qualquer coisa que sobrou e montamos guarda. Posso fazer o primeiro turno.

- Raios, meu amigo! Voltámos aos velhos tempos ou quê?

Pedro riu-se e desvalorizou.

- João! Isto que se passa agora connosco, comparado com os velhos tempos, parece mais um musical do Fred e da Ginger, não?

João deu uma gargalhada alta e bem disposta, que fez esvoaçar algumas aves pousadas numa arvore próxima. O horizonte tinha já uma ponta de azul e ocre.

- Essa é boa, sim senhor! Bem, o carro ainda tem música, por isso vamos lá animar isto.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 15:38



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