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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 22.07.12

Sentido dos dias – Confissão XII

Percebeu que alguém lhe batia à porta. Devagar, como se fosse um sacrifício levantar-se, chegou junto à velha porta e abriu-a. Deu de caras com Helena que de braços cruzados numa atitude pouco simpática, perguntou:

- Hoje o menino não vai para casa?

Pedro odiava quando a mulher o tratava por menino. Era como se regressasse ao tempo de criança pobre. Respirou fundo e respondeu com toda a calma que podia:

- Desculpa, tens razão, mas fiquei a arrumar uns livros nem dei pelo tempo passar.

Helena espreitou para dentro da loja tentando confirmar as declarações do marido e não vendo nada de diferente, acrescentou:

- Sim acredito. Mas deves ter metido uns sobre os outros…

O alfarrabista fechou a loja e dirigiram-se para casa. Caminhavam em silêncio, mas uma nuvem de tempestade parecia pairar por cima da cabeça de ambos. Foi Helena que começou:

- Temos de conversar… E muito a sério!

- Pois sim, fala!

Helena nem sabia por onde começar. A sua vida de casada com Pedro fora assim uma espécie de vida dupla. O marido desde a compra da loja jamais fora o mesmo. Passava horas e horas na livraria trazendo para casa uns parcos tostões. Não fosse a herança recebida e a família passaria imensas dificuldades. Mas o pior era aquele distanciamento que Pedro mantinha com a mulher e os filhos. Helena cansara-se. Não poderia ser uma personagem de segundo plano. E estava naquele momento decidida a colocar um fim.

- Eu nunca soube que segredo é esse que te consome as entranhas, que te faz ser um homem em casa e um outro na livraria. Eu preciso de saber!

O marido tentara durante anos adiar esta conversa e a divulgação do seu segredo. Mas agora era tempo de explicar tudo. Porém temia que Helena não entendesse, não aceitasse. Retirou um cigarro do maço Porto acendeu-o e perguntou:

- Mas saber o quê?

- Bolas homem, diz-me a verdade, fala comigo, desabafa… Sou a tua mulher, carrego na minha barriga um terceiro filho que não queria mas que tu pretendeste, por isso tenho o direito de saber.

Pedro meteu a mão ao bolso das calças à procura de uma pequena garrafa de aguardente. Habituara-se ao álcool tentando enfrentar cada dia, cada hora. Aquela revista reavivara-lhe tais memórias que… Doía-lhe o coração e o peito. As lágrimas começaram a correr cara abaixo. Parou então. Helena imitou-o. Mas não desarmou.

- Não entras em casa sem me dizeres tudo. Não quero discussões à frente dos miúdos. Portanto fazes o favor de falar. E a verdade…

Rafael olhou o céu já negro da noite e suspirou. Nem sabia como começar. Lembrava-se dos tiros e das explosões das granadas, dos gritos dos companheiros estropiados, do silêncio dos mortos a quem teve de fechar os olhos, do cheiro a carne humana queimada e de… Zuleica. As noites serenas, as lágrimas choradas e que ela secava com ternura… Os risos e os abraços, o amor à flor da pele, duma pele castanha e sedosa. O perfume de mangas e ananases…

- Hum… Na guerra, perto do quartel havia uma aldeia de nativos… E morava lá uma rapariga…

- A Zuleica que vos lavava a roupa? Já me tinhas contando.

- Essa mesma. Mas… Eu vivi com ela muito tempo… - e fiquei mais tempo em África do que o costume por causa dela... – disse tudo num repente, como se vomitasse as palavras.

Helena deixou sair um longo e profundo suspiro. A rua estava deserta. Um ou outro táxi passavam devagar. As lágrimas corriam também pela cara bonita da grávida. Buscou um lenço da parte de dentro da manga da camisola, assou-se e foi dizendo:

- És um canalha… Porque quiseste casar comigo? Para a esqueceres? Ou quando fazias amor comigo pensavas que estavas com ela? Não mereces o amor que tenho. Mas podes ir embora para Angola, vai ter com ela, desaparece da minha vista…

Era esta reacção que Pedro tentara evitar. Sempre pensara que o nascimento dos filhos o faria esquecer Zuleica. Mas aquela revista que agora guardava entre as suas coisas acordara-lhe uma imensidão de recordações. Tinha de lhe explicar, de a fazer entender.

O frio da noite envolvia-os. Cigarro atrás de cigarro, Pedro fumava compulsivamente enquanto Helena encostada a um prédio carpia de mansinho. Mas refém da coragem e tenacidade uma vez mais enfrentou o marido:

- Como me pudeste enganar?

- Mas eu não te enganei. Eu amo-te…

- Como podes amar duas pessoas ao mesmo tempo? Explica-me…

- Amando só… Não sei!

- Vai à tua vida, vai. Deixa-me em paz…

- Helena não me faças isso! Eu gosto tanto de ti.

De súbito Helena baixou-se com a mão na barriga. Gemia agora mais que chorava. Anunciou:

- Chama um táxi depressa e leva-me para o hospital.

 

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:48



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