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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 18.07.12

Sentidos dos dias - Vidas XI

O Sol aquela hora da manhã já lhes queria arrancar a pele. Dentro do jipe e com o ar condicionado quase no máximo. O astro rei a bater nos vidros fazia-se implacável, como se quisesse entrar e participar da conversa. A telefonia baixa, acabara de dar o tempo, as notícias e uma música dolente com uma voz pacífica corria, como o veículo ora mais ou menos célere. Lá à frente a estrada parecia derreter-se num tremelicar que adivinhava um dia de inferno. Nada a que os dois amigos não estivessem habituados. E foi quando debaixo duma das poucas sombras pararam para "matar o bicho" e desentorpecer as pernas, que a conversa se fez mais franca. Até aí, focara-se em trivialidades e possíveis cenários que encontrariam.

- Diga-me cá, Pedro! Você nunca mais aqui pôs os pés...O que me leva a pensar que terá uma boa vida lá pelo nosso Portugal. Porquê agora no fim da vida? Nem me diga que é só por causa dela e do miúdo. Você tem filhos lá seus, não tem?

- Uma vida boa sim, João. Posso considerá-la. Não foi melhor por culpa minha.

- O que quer dizer com isso homem? No fundo o que você deixou para trás aconteceu a tantos...Não se pode viver sempre no passado. Você não teve culpa de nada. E se tem uma boa mulher, filhos uma vida desafogada, feita, é descansar agora. Esperar por ela.

- Por não conseguir deixar de pensar nela é que quase desperdicei e arruinei a minha vida.

- Eh, lá! Eu falava da morte. Essa está certa aí ao virar de qualquer esquina. Espera-nos. Mas conte-me lá, se me acha capaz de ouvir, tanto que o amargura homem? O caminho é longo e ainda agora começámos. Então a sua senhora... Sabe dos seus motivos?

- Sabe, João. Anos atrás quando fui obrigado a contar-lhe estava ela grávida do nosso terceiro filho. Tivemos uma discussão tal, que o gaiato nasceu prematuro. Há coisas na minha vida que apesar de me correr bem, ser hoje um homem de sucesso estive por um triz de não ser ninguém.

- Compreendo...

Pedro bateu nas costas do amigo e mais uma vez regressados ao carro, com ele em andamento já depois de consolado o estômago e refrescada a pele com uns salpicos de água, continuou a narrativa.

- Não meu caro! Nem te passa pela cabeça. Perguntar-me-ás: O que leva um homem que tem uma mulher ainda hoje bonita, a melhor de todas quiçá. Uns filhos que nunca lhe deram problemas, de quem me orgulho e um presente feito de sucessos a arrastar-se no passado? Querer sempre algo que lhe falta, mas não sabe explicar. Um sentimento de amargura constante. Eu? Tive tudo. Mas parte de mim perdeu-se. E não acaba!  

- E a sua senhora sempre conviveu com isso. Grande mulher! Se fosse outra...

- Se fosse outra, não gostasse de mim e tivesse essa espectacularidade que lhe atribuís, quando uma semana depois do miúdo ter nacido me ameaçou que, ou eu mudava ou ela sairia com os filhos, teria ido embora.

- Mas se você não mudou... Está aqui é porque de muito, não serviu.

- Tive de me adaptar. Fazer das tripas coração. Ela tinha razão. Já não estava a ser vida, as noites passadas em branco. A ameaçar viciar-me no álcool. Fumar que nem um danado para ela me ir encontrar assim, esgotado. Irritadiço. Ou quando mais tarde já trabalhava no que era meu me resguardava, no chegar cada vez mais tarde a casa, para esconder que bebera: Apesar disso nunca ter interferido a sério com o que fazia. Outra mulher? Ela já nem falava disso. Sabia que mulher me assombrava. Não sei se fiz bem em contar-lhe, entendes? Um homem deve guardar os seus fantasmas consigo.

- Ah, Pedro, meu amigo! Não se martirize. Quando os fantasmas começam a azucrinar o miolo, temos mesmo de desabafar. Sei do que falo. Eu com a minha e sabe que a conheci aqui, fiz toda a minha vida...Não terei esse tipo de alucinação. Mas tenho outras que você acumula com essas. As pernas pelo ar, os miolos desfeitos, os camaradas a esvaírem-se em sangue nos braços. A nossa própria saliva a lavar a pó da estrada e dar a impressão que todos nos haviam abandonado. Um dia um balázio era o nosso destino. Não se condene sem razão. Depois de tudo o que passamos, temos sorte de estar aqui e com o juízo todo. Fez bem contar-lhe. Afinal ela foi a sua parceira. É a mãe dos seus filhos.

- Fui um covarde, João! Devia ter regressado na altura. Ter resolvido os meus assuntos pendentes. Assim deixei-me envolver por ela. Que me aqueceu a alma depois de destroçada. Me ajudou quando eu não sabia o que queria, ou o que fazer depois de ter visto a carnificina acontecer. De não concordar com nada daquilo que nos mandavam fazer e... Depois duma noite já de cabeça toldada, me ter aquecido o corpo na cama também e achar que devia casar come ela. Afinal seria lá o meu lugar. Quando tinha sempre a outra no pensamento...

- Hum... Desculpe que lhe diga meu capitão, mas as mulheres sempre lhe deram volta rápida ao juízo. Você ficou sempre um bocado à nora com as raparigas. E depois essa sua mania de ser cavalheiro. Quando se dorme com alguém não se tem forçosamente de se cumprir com a pompa do casamento...Bah!

- Educações muito rígidas, meu bom camarada. Uma mãe católica, um pai conservador. Uma aldeia para lá do sol posto e pouca soltura. Eu fui para Àfrica sem saber nada! Cheguei aqui e pouco mais tinha aprendido, que disparar, limpar armas e matar.

João sorriu solidário. Interrompeu a conversa logo de seguida, apontando para um aglomerado de casas que emergia do pó lá ao fundo.

- Eis a nossa primeira paragem. Caxito!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 12:46



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